Moartea mereu | Denis Emorine*

A une amie roumaine

Moartea mereu**

Tu es venue me rejoindre alors

Que je ne t’attendais pas.

Je sirotais un café noir

Amer comme il se doit

La mort s’agitait au fond de la tasse

Comme à l´accoutumée.

J’attendais que tu prononces les mots

Que je pressentais

Que tu me dises en cet instant

que les femmes aimées sont éternelles

Ainsi mon père s’est-il retiré avant ma mère

Ainsi prendrai-je congé de mon Amour.

«Il n’a pas souffert» m’a t-on dit

J’ai eu envie de hurler:

«Qu’en savez-vous?Il souffrait depuis tant d’années déjà!»

La bienséance (?) a repris ses droits

Je n’ai rien répondu.

Toi et moi

Nous avions quelques millions d’années en commun.

En cet instant

Je savais que je te nommerais Amie.

Ton intelligence et ton sourire étaient la plus

Belle des lettres de recommandation

Sans doute aurais-je souhaité que

Tu me parles d’un dieu qui n’existe pas

Mais je ne m’en souviens plus.

(Le premier mari de ma mère

Rescapé des camps

Est mort dans ses bras

Quelques années plus tard )

Non

Ne me parle pas de Dieu

Je t’en prie

Je me suis égaré une fois encore

Il n’y a que la mort

Toujours la mort

Elle s’agite toujours au fond de ma tasse

Comme à l’accoutumée.

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A uma amiga romena

Moartea mereu**

Tradução: Patricia Tenório

Revisão: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas***

Tu vieste me reencontrar agora

Que eu não te esperava.

Eu beberico um café preto

Amargo como deveria ser

A morte se agitando no fundo da xícara

Como de costume.

Eu esperava que tu pronunciasses as palavras

Que eu pressentia

Que tu me digas nesse instante

Que as mulheres amadas são eternas

Ainda que meu pai tenha se retirado antes de minha mãe

Ainda que deva deixar o meu Amor.

«Ele não sofreu» me foi dito

Tenho vontade de gritar:

«Que sabem vocês? Ele já sofria há tantos anos!»

A propriedade (?) recuperou seus direitos

Eu nada respondi.

Tu e eu

Nós havíamos tido milhões de anos em comum.

Nesse instante

Eu sabia que te nomearia Amiga.

Tua inteligência e teu sorriso eram a mais

Bela das cartas de recomendação

Sem dúvida teria eu desejado que

Tu me fales de um deus que não existe

Mas eu não me lembro mais.

(O primeiro marido da minha mãe

Sobrevivente dos campos

Morreu em seus braços

Alguns anos mais tarde)

Não

Não me fales de Deus

Eu te peço

Eu me perdi novamente

Nada mais há que a morte

Sempre a morte

Ela se agita sempre no fundo da minha xícara

Como de costume.

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* Denis Emorine est né en 1956 près de Paris.

Il a avec l’anglais une relation affective parce que sa mère enseignait cette langue. Il est d’une lointaine ascendance russe du côté paternel. Ses thèmes de prédilection sont la recherche de l’identité, le thème du double et la fuite du temps. Il est fasciné par l’Europe de l’Est. Poète, essayiste, nouvelliste et dramaturge, Emorine est traduit en une douzaine de langues ; son théâtre a été joué en France, au Canada ( Québec) et en Russie. Plusieurs de ses livres ont été édités aux Etats-Unis. Il collabore régulièrement à la revue de littérature “Les Cahiers du Sens”. Il dirige deux collections de poésie aux Editions du Cygne. En 2004, Emorine a reçu le premier prix de poésie (français) au Concours International Féile Filiochta. L’Académie du Var lui a décerné le «prix de poésie 2009».

On peut lui rendre visite sur son site: http://denis.emorine.free.fr

* Denis Emorine nasceu em 1956, próximo a Paris.

Emorine tem com a língua inglesa uma relação afetiva, porque sua mãe ensinava este idioma. Possui uma distante ascendência russa por parte de pai. Seus temas prediletos são a busca da identidade, o tema do duplo e a fuga do tempo. É fascinado pelo Leste Europeu. Poeta, ensaísta, novelista e dramaturgo, Emorine foi traduzido para uma dúzia de línguas; seu teatro foi apresentado na França, no Canadá (Québec) e na Rússia. Muitos de seus livros foram editados nos Estados Unidos. Denis colabora regularmente com a revista de literatura “Os Cadernos do Sentido”. Dirige duas coleções na Editions du Cygne. Em 2004, Emorine recebeu o primeiro prêmio francês de poesia no concurso internacional Féile Filiochta. A Académie du Var lhe concedeu o “prêmio de poesia 2009”.

Podemos visitá-lo no seu site: http://denis.emorine.free.fr

** Em romeno: “A morte sempre”.

*** Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com

Sandra Freitas é formada em jornalismo pela PUC/RJ. Trabalhou sempre como redatora e revisora em jornais e agências de publicidade do Rio e da Bahia, onde morou durante muitos anos. De volta ao Rio, especializou-se em Língua Portuguesa pela Faculdade de São Bento e trabalha desde então para revistas e editoras cariocas. Contato: sandracolodetti@gmail.com