Emoção Repentina | V Concurso Crônica & Literatura: prêmio literário Ferreira Gullar*

 

A memória poética na literatura brasileira

 

O homem do campo é capaz de perceber

a chegada da chuva pelo vento que corre

ao longe. E em uma poética sem igual ele

descreve o plantio da terra. (Ivone de Assis)

25/10/2011

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            Enfrentar o medo por intermédio da escrita é abrir o baú que há dentro de si e vasculhar suas memórias. Nesta obra, os autores permitiram a fruição de seu imaginário, intercalados por suas reminiscências, de modo a compor sua poética, participando da reconstrução de muitos valores, por vezes perdidos, ou simplesmente temidos. Dessa intensidade brotaram-se as escritas ora prosaicas, ora poéticas, que lavraram este livro, com total esmero. Desse baú de intensas produções, é possível que o leitor viaje em um processo de realidade, ao qual é submetido ao passo que desbrava cada página. Emoção Repentina é um ir e vir de sentimentos e encantamentos, capaz de remeter o leitor a diferentes épocas, é como se fosse possível viajar da infância à velhice e vice-versa em um passar de páginas. Em um mundo contemporâneo identificado pelo desejo de apropriação, os literatos desta obra se contentaram em apropriar-se de suas memórias, de suas inventividades, de seu prazer pela escrita e gerar um manancial de arte escrita, capaz de produzir sensações que vão do choro ao riso, sem permitir que se perca o prazer da leitura.

            A amplitude e a variedade de autores e de ideais/temas presentes em Emoção Repentina convocam o leitor como parceiro crítico na reflexão acerca dos medos que sondam a sociedade contemporânea. Esse elo entre ficção e realidade, formando a tessitura dos textos, apresenta à sociedade uma geração comprometida com a cultura, com o zelo da identidade literária, bem como a simplicidade do verdadeiro escritor, aquele que traz a capacidade criadora antes da ambição. Nessa obra antológica, o medo ganhou voz e lugar no fazer literário, produzindo narrativas autorreflexivas.

            Beatriz Sarlo, em sua obra Tempo presente, datada de 2005, anuncia “[…] a autoridade das novas vozes é resultado de um efeito de comunidade ideológica […]”, notificando, talvez, que a escrita contemporânea seja dotada de maior despojamento em sua formulação, uma vez que o intelectual não se deixa resvalar no senso comum, mas esse extremo distanciamento pode criar um abismo entre sua escrita e o reconhecimento da sociedade. Nessa linha de pensamento, podemos dizer que Emoção Repentina buscou um ponto mediano, a fim de que haja equilíbrio entre os extremos, para que não seja tão intelectual que não possa ser compreendida pelo leitor menos avisado, mas também não incorra em banalidade.

            Se, de acordo com Bakhtin, todo discurso é responsivo, corroboramos essa ideia por sabê-la verdadeira, uma vez que o discurso provoca emoções, logo, ele reage na vida do leitor, respondendo por si. O texto escolhe seu próprio caminho, metamorfoseia-se a cada citação, a fim de atender ao contexto sem perder a essência. Nesta obra, não serão raras as vezes em que o leitor irá perceber essa afirmativa no decorrer de sua leitura. São 128 páginas que discorrem sobre a temática Medo, alternada entre o engenho poético e o colóquio.

            São medos de mil facetas, abarcando o medo do escuro, da solidão, do progresso, da perda, do viver, do morrer, do ver, do falar, do ouvir, do simplesmente se calar. É o medo que o camponês carrega por temer não mais ouvir o canto da passarada; o medo que angustia o sertanejo por causa da seca; o medo que maltrata as mães, que temem a perda de seus filhos; é o medo do “não – Você NÃO é capaz –; também o medo do “sim” – SIM, você é o culpado. São medos próprios, que jamais se igualam, ainda que o assunto seja o mesmo. São escritas que poderão auxiliar o leitor em suas ponderações.

            Bachelard, em A poética do espaço, equipara a casa com as lembranças, ao que descreve ser na casa que “[…] um grande número de nossas lembranças estão guardadas […], se tem porão e sótão, cantos e corredores, nossas lembranças têm refúgios cada vez mais bem característicos” (BACHELARD, 1978, p. 24). O medo, por sua vez, entranha-se nessas lembranças, ancorando-se na saudade, sentimento capaz de nos remeter a outros mundos, outras épocas, outros quereres.

Ivone Gomes de Assis

Escritora/Editora

 


Olhei-a

 

Eduardo Berenguer

Recife (PE) – Brasil

 

Olhei-a com olhos de pomba armada para voar e tive medo,

Porque de sua boca, soturna, saíam datas, dias, semanas,

Meses de calendário infindáveis, acres, beijos sangrentos

E extenuados, úmidos como uma lágrima repetitiva e disforme,

Abraços de braços com falanges amputadas, que tocavam

Minhas costas como pontas de velas queimadas,

De corda queimada, ensandecida.

 

E tive medo ao ver seus olhos, duas chamas paralelas, enegrecidas,

Dois sinos paralelos, soando metalicamente, concomitantes;

Olhos que traziam um vazio, um anoitecer feito de espumas, trevas,

Um galopar em quartos fechados e silenciosos, um adeus,

Um som onírico disperso, um acalanto de gineceus e androceus,

E cores ineptas das próprias íris.

 

E dos meus lábios amedrontados ouviu-se um grito,

Que soava como pratos quebrando, como fumaça

Que se espalha em restaurantes, como vozes ouvidas

Em igreja, como dentes vibrando de frio, como pedras

Lançadas ao ar, lacônicas, néscias, como apelos de cão

Com fome, enigmático, acossador.

 

Eu tenho medo

 

Lucilaine de Fátima

Uberlândia (MG) – Brasil

 

Eu tenho medo do escuro,

de noites solitárias com meu próprio vulto,

de carências mal resolvidas,

de apelos inúteis, por afetos do passado.

 

Eu tenho medo de palavras (mal)ditas,

Da falta de tato, no olhar e no sentir,

Da interminável melancolia no pôr-do-sol,

depois de um dia inteiro a brilhar.

 

Eu tenho medo do imprevisto na alma,

Da inconstância do meu ser,

Do meu jeito de buscar novos sonhos,

E quase sempre cair em desalento.

 

Eu tenho medo, porém vivo a quimera de cada amanhecer!

 

O olho de Hipácia

 

Mauro Sérgio Santos

Araguari (MG) – Brasil

 

Se fecho os olhos

olho o mundo

e vejo as coisas que nunca conheci

e reparo

tudo o que não tenho diante de mim.

 

E amedronto-me com a naturalidade extraordinária do cotidiano

inexpugnável!

 

Se fecho os olhos

canto

a grande música da vida

e ouço

as canções que nunca foram compostas,

e as sinfonias que jamais serão desempenhadas.

 

E sinto um medo da ordem daqueles que fogem à ordem

extraordinariamente eventual e contingente dos fatos.

 

De olhos fechados

apavoro-me dolorosamente

com o calor de todos os abraços

com o brilho de todas as estrelas

com a dor de todos os partos

com o medo de todos os fracos

e o perfume de todas as rosas

o amor de todos os homens

e o cansaço de todos os amores.

 

Viver é sempre

fechar os olhos.

 

Quando fecho os olhos

posso

ver o mundo

embora não sem medo.

 

Fechar os olhos

é

  vi

     ver

          o

mundo neste olho enterrado dentro de nós!

Eu sou meu próprio medo, minha venda e resignação!

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* Antologia Emoção Repentina, Org. Ivone Gomes de Assis, Diversos autores. Poesia e Crônicas. Assis Editora, Uberlândia (MG). Fevereiro/2012.

** Patricia Tenório participa com Eva (vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=2882).