Novos residentes | Clauder Arcanjo

 

29/01/2012

— Um casal, querido. Caroline e Kid. Eles formam um belo par.

— E como reagiu o Carlos?

— Como!?…

— Sim, Biscuí!. O nosso Carlos Drummond de Andrade é muito sensível, pode ser que ele estranhe a chegada desses dois novos residentes.

— Bom; o Lucas Francisco disse-me para não nos preocuparmos. Segundo ele, Caroline, Kid e Carlos serão grandes amigos.

Tal diálogo (entre mim e minha esposa) deu-se na semana passada. Cuidarei de situá-lo, caro leitor, acerca dos novos moradores do lar da Antônio Vieira de Sá, reduto deste cronista de província.

Pois bem, vejamos. No Natal último, reunimos a família Alves Arcanjo na residência do meu irmão Baía, em Fortaleza, Ceará. Pouco depois das 20h, lá estávamos: Luzia (minha esposa); nossos filhos: Artur, Mateus e Lucas Francisco; meus sogros e eu. Uma festa em família. A presença de todos em torno do aniversário de Cristo fazia o riso ser a cobertura de todos os doces; a alegria, o tempero de todos os pratos; a ventura da noite, o bálsamo de nossas insignificantes desvalias humanas.

Na hora da ceia, o nosso pequeno Lucas Francisco — do alto dos seus maduros, teimosos e bem vividos sete anos — deu pela presença de uma gaiola decorando a parede do muro próximo.

Voluntarioso e decidido, em um piscar de olhos, Lucas estava diante do meu irmão mais velho, a inquiri-lo:

— Tio Baía, de quem é esta gaiola?

Sem esperar resposta, tática muito comum aos baixinhos de hoje, foi logo emendando (ciente de que a melhor defesa é o ataque):

— Como ela tá sem passarinho (e tá suja), parece que ela tá abandonada. E se tá abandonada, você não precisa mais dela. E se você não precisa mais dela, você — meu tio querido — bem que poderia me dar ela de presente de Natal. Você me dá ela, não me dá?

Foi disparando tal enxurrada de tiros de ataque infantil, não sem, em seguida, abraçar Baía e fazer-lhe um carinho interesseiro.

Surpreendido com o maquiavelismo do meu caçula (e deveras preocupado com a reputação familiar), levantei da rede em que me encontrava, interrompendo aquele monólogo usurpador.

— Pelo amor de Deus. O que é isso, Lucas Francisco!?… A gaiola é de Tia Regina. Decoração da casa, filho!

Ao ouvir a voz paterna, Lucas (com caras, trejeitos e bocas de garotinho indefeso e infeliz) meteu-se, cada vez mais, entre as pernas do tio protetor, a procurar defesa.

Confesso que a minha estratégia foi um tiro pela culatra. Com pena do pequeno, e levado pelo clima de Natal e pelo coração tamanho, Baía tirou a gaiola da parede, pondo-a nas mãos do meu benjamim.

— É sua, Luquinha! Leve e peça ao seu pai um casal de periquitinhos australianos para você cuidar.

Um beijo e um abraço entre tio e sobrinho selaram a minha carta de rendição.

Pronto, mais uma vitória de Lucas Francisco! Com ela, caro leitor, o drama e a tragédia estavam postos na mesa natalina. Procurei por Regina, e não a vi por perto. Será que minha cunhada não gostara da decisão?

Lucas Francisco, imune a tudo, não tinha olhos para mais ninguém. Sobraçado com a gaiola, torcia para o fim da festa.

— Vamos logo, papai?!

A sobremesa foi servida, despedimo-nos de todos e voltamos para casa. Lucas e sua gaiola, abraçados.

Uma semana depois, embarquei. E a conversa que abre esta crônica deu-se por telefone. Eu, na plataforma, a perguntar por notícias da família. Quando minha Biscuí falou-me da compra do casal de periquitos — logo batizados por Caroline e Kid (“um azul e outro bem branquinho, pai!”) — fiquei preocupado com a situação do meu gato siamês, o gauche Carlos Drummond de Andrade.

Estarei retornando logo a Mossoró, um pouco preocupado com a paz no meu lar. Não quero que os novos residentes incomodem Drummond.

No entanto, bem sei, o pequeno Lucas pacificará a todos. Com certeza, leitor, não há quem resista à arte e ao engenho desse pequeno negociador.

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