O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse | Uma leitura de Patricia Tenório

04/02/12

            Em O escritor e sua missão,[1] Thomas Mann nos apresenta O jogo das contas de vidro[2] como um livro-irmão de seu Doutor Fausto, por falar sobre a música, a paixão pela música e o aprendizado.

Uma das coisas mais fascinantes na leitura são essas setas, essas indicações de outras leituras que vão formando uma rede consistente de conhecimento, que serve como base, estrutura à aprendizagem duradoura.

O jogo das contas de vidro fala dessa rede, da consolidação contínua, à medida que o narrador descreve (e escreve) sobre a biografia de José Servo, um homem de extraordinária inteligência e, ao mesmo tempo, humildade.

O livro é dividido em duas partes: a primeira, narra a biografia do Magister Ludi Josephus III, José Servo;  na segunda, encontramos poemas e contos póstumos de sua autoria. Hermann Hesse cria um mundo inteiramente novo, Castália, no longínquo século XXIII. Nesse mundo, como numa espécie de instituição religiosa sem religião, os homens vivem a experiência da aprendizagem constante, do estudo contínuo, preparando-se para o auge, o centro, em que toda a sociedade castaliana orbita: o Jogo de Avelórios.

Interessante notar nessa utopia que, apesar do mundo profano e cruel que existe fora das suas fronteiras, vamos sendo convidados, através das inquietações e pureza do personagem José Servo, a compreender nossa própria fraqueza, a termos compaixão de nós mesmos e, principalmente, a vermos que ainda existe salvação para o ser humano. José possui o dom para o Jogo de Avelórios e é acolhido pelo Mestre da Música, que o orienta no seu desenvolvimento, o auxilia a desviar-se do engano durante o período de formação e é extremamente respeitado e obedecido pelo pupilo.

Um ponto no livro me chama a atenção: a relação de aprendizagem. No francês, o verbo “apprendre” reúne os conceitos de “aprender, estudar”, mas também “instruir, ensinar”. Belíssima noção de humildade esta, na qual ao ensinar o mestre aprende, a relação de aprendizagem como uma via dupla, que se retroalimenta, se dá e se recebe. Pouquíssimos são os mestres que, a meu ver, conseguem atingir esse desprendimento, o se despojar do orgulho de que sabe mais do que seu aluno. Ninguém sabe mais do que ninguém. O simples analfabeto às vezes possui maior sabedoria do que um prepotente catedrático.

É o que se resume no nome de José Servo. Servo para obedecer às ordens dos mestres, à hierarquia de Castália, à missão como Magister Ludi do Jogo de Avelórios, o jogo das contas de vidro. Mas, principalmente – e nisso enxergo o clímax do romance –, Servo para obedecer à sua coerência, ao que pulsa de maneira mais forte, ao que, graças ao contínuo aprendizado de si, das suas potencialidades e vocação, foi se descortinando, se esclarecendo, transparecendo. E, como diante de um espelho onde não se pode negar o que se vê, Servo vai escolhendo a si mesmo, num egoísmo sadio que, antes de mais nada, é coerência, galgando os degraus da sua própria evolução, indo ao encontro do que realmente é: a essência.

Com O jogo das contas de vidro, Hermann Hesse atinge a maturidade literária (e ganha  o Prêmio Nobel de Literatura). Mas, acima de tudo, atinge o auge da sua missão de ser humano, compassivo, livre, sábio.  Doou-se por inteiro, sem deixar nada para si, se entregou.

E não seria o amor o mais elevado dos sentimentos?

DEGRAUS[3]

Assim como as flores murchas e a juventude

Dão lugar à velhice, assim floresce

Cada período de vida, e a sabedoria e a virtude,

Cada um a seu tempo, pois não podem

Durar eternamente. O coração

A cada chamado da vida deve estar

Pronto para a partida e um novo início,

Para corajosamente e sem tristeza

Entregar-se a outros, novos compromissos.

Em todo começo reside um encanto

Que nos protege e ajuda a viver.

Os espaços, um a um, devíamos

Com jovialidade percorrer,

Sem nos deixar prender a nenhum deles

Qual uma pátria;

O Espírito Universal não quer atar-nos

Nem nos quer encerrar por degrau, nos ampliando o ser.

Se nos sentimos bem aclimatados

Num círculo de vida e habituados,

Nos ameaça o sono; e só quem de contínuo

Está pronto a partir e a viajar

Se furtará à paralisação do costumeiro.

Mesmo a hora da morte talvez nos envie

Novos espaços recenados

O apelo da vida que nos chama não tem fim…

Sus, coração, despede-te e haure saúde!

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(1) O escritor e sua missão, Thomas Mann, Editora Zahar, p. 140: “Há coisas dele – por que não deveria dizê-lo? – como o “Badegast” e mesmo alguns trechos no Jogo das contas de vidro, principalmente a longa introdução, que eu leio e sinto “como se fossem um pedaço de mim”.

(2) O jogo das contas de vidro, Hermann Hesse, Editora BestBolso.

(3) O jogo das contas de vidro, Hermann Hesse, Editora BestBolso, pp. 531-532.

Revisão Ortográfica: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas

Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com

Sandra Freitas é formada em jornalismo pela PUC/RJ. Trabalhou sempre como redatora e revisora em jornais e agências de publicidade do Rio e da Bahia, onde morou durante muitos anos. De volta ao Rio, especializou-se em Língua Portuguesa pela Faculdade de São Bento e trabalha desde então para revistas e editoras cariocas. Contato: sandracolodetti@gmail.com