Dois livros – Fernando Py*

Tribuna de Petrópolis – RJ, 28 de Outubro de 2011, Caderno Lazer, pág. 5

            A escritora pernambucana Patricia Tenório fez chegar a esta seção um conjunto de dois pequenos livros encadernados, D´Agostinho (poesia) e Diálogos (prosa), acondicionados numa bela caixa e publicados pela editora Calibán (Rio de Janeiro, 2010), com 100 e 80 páginas respectivamente. Segundo a autora, os poemas curtos de D´Agostinho foram escritos a partir de estudos de Confissões de santo Agostinho de Hipona (354-430). No caso, não se trata propriamente de traduzir as confissões do santo em verso, mas, de qualquer modo, todos os poemas assumem a condição de “confissões” da autora, seja quando ela reflete sobre reminiscências de sua vida, seja como anotações acerca de sentimentos variados que a absorvem: o amor, a pureza, a contemplação da natureza, alguns pensamentos e comentários sobre fatos que viveu e que sabiamente transfunde em belos versos de muita economia verbal. Sua preocupação é compreender o que viveu e aceitar o que “está por vir”, como diz em “Ampulheta” (p. 36). De fato, só a compreensão do passado vivido nos orienta para a aceitação do futuro. Assim, tanto os acontecimentos do passado (como a morte do avô, em “Cogenda”, p. 62) quanto os fatos do presente se acham vistos e referidos numa espécie de “conhecimento” da vida, quando diz que ia “aprendendo a ser / o que serei um dia” (em “Ladrilhos”, p. 71). Mas a autora reconhece que tal aprendizado a faz ser muito diversa do que foi, pois agora é “uma Patricia / que não existe mais”… mas, em compensação, “existe ainda / no olhar alegre / do filho que brinca” (p. 78).

            A prosa de Diálogos pode ser compreendida como um esforço de comunicação com o semelhante, em geral captando o que o outro apresenta em réstias de claridade e que estimulam e/ou perturbam a autora. Textos bem curtos, reduzidos ao essencial, podem ser contos, como está na ficha da apresentação da editora, ou mais corretamente, prosa poética, ou mesmo poemas-em-prosa. De todo modo, narrativas de encontros ou desencontros que se expõem, por vezes, numa atmosfera de sonho ou de uma ausência do real, atmosfera que cria situações e episódios que se interpretam como for possível. (Aliás, um dos textos, “Prisão perpétua”, p. 25, ostenta como epígrafe uma frase de Nietzsche: “Não existem fatos, só interpretações.”). Nestes dois livros, a prosa e a poesia da autora se interpenetram e realizam um conjunto de valor de leitura preciosa.

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* Fernando Py –– nome completo: Fernando Antônio Py de Mello e Silva — nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 13 de junho de 1935, de família gaúcha. Poeta, colunista e crítico literário, redator e tradutor. Fez o curso primário no Externato Coração Eucarístico, o ginasial no Colégio Santo Inácio e o colegial no Colégio Mallet Soares, todos na cidade natal, onde viveu até 1967, quando se mudou para Petrópolis (RJ), onde reside. Formou-se pela Faculdade de Direito da então Universidade do Estado da Guanabara (atual UERJ), em 1960, porém nunca advogou. Foi funcionário da CAPES, órgão do Ministério da Educação (1958-1959), da Procuradoria do Estado do Rio Grande do Sul na Guanabara (1960-1962) e meteorologista previsor do tempo no Instituto Nacional de Meteorologia, do Ministério da Agricultura, de 1962 até 1994, quando se aposentou.

Colaborou em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, principalmente O Globo, Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, Estado de Minas e Correio do Povo. Trabalhou como redator e tradutor em enciclopédias, sobretudo a Grande Enciclopédia Delta Larousse e a Enciclopédia Mirador Internacional. Traduziu obras de autores importantes, como Marcel Proust (Jean Santeuil; Em busca do tempo perdido, etc.), Marguerite Duras (O vice-cônsul; A vida tranqüila, etc.), Honoré de Balzac (A pele de onagro; O primo Pons), Saul Bellow (O legado de Humboldt; Henderson, o rei da chuva), e vários outros. Como colunista literário, trabalhou em jornais de Petrópolis e atualmente assina seção ‘Tribuna Literária’ na Tribuna de Petrópolis.  

Livros publicados: Aurora de vidro (poesia): Rio de Janeiro, Livraria São José, 1962; A construção e a crise (poesia): Rio de Janeiro, Simões Edições, 1969; 4 poetas modernos (poesia, em colaboração): Rio de Janeiro, Cátedra, 1976; Bibliografia comentada de Carlos Drummond de Andrade (pesquisa): Rio de Janeiro, José Olympio / Fundação Casa de Rui Barbosa, 1980 ( 2ª edição, aumentada: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2002); Vozes do corpo (poesia): Rio de Janeiro, Fontana, 1981; Dezoito sextinas para mulheres de outrora (poesia): Recife, Edições Pirata, 1981; Chão da crítica (jornalismo literário): Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1984;  Antiuniverso (poema): Rio de Janeiro, Sette Letras / Petrópolis: Editora Firmo, 1994; Carlos Drummond de Andrade: poesia (antologia comentada, em colaboração com Pedro Lyra): Rio de Janeiro, AGIR, 1994 (2ª edição: 1998) [Col. Nossos Clássicos, 118]; Sol  nenhum (poesia): Rio de Janeiro, UAPÊ, 1998; Antologia poética (40 anos de poesia: 1959-1999): Petrópolis, Poiésis, 2000; Sentimento da morte & Poemas anteriores (poesia): Goiânia, A.S.A., 2003; Uma poesia dialógica: nove resenhas da obra de Pedro Lyra (crítica literária): Fortaleza, UFC, 2003; O poeta Coelho Vaz (conferência): Goiânia, Kelps, 2004; 70 poemas escolhidos: Petrópolis, Catedral das Letras, 2005 .

Ganhou alguns prêmios literários e recebeu (15 de abril de 2003) o título de “Cidadão Petropolitano Honorário”.  É casado desde 1963 com Maria Soares de Mello e Silva; tem três filhos e quatro netos.