Três notas sobre o país misterioso de Gustave Moreau* | Marcel Proust** | Parte III

Rumeur des Ages

La Rouchele, França, 2008

Tradução: Patricia Tenório

Revisão: Ana Lucia Gusmão***

 

(A seguinte tradução foi parcialmente e em outra ordem apresentada no

V FESTLATINO – Recife/PE – Novembro 2011, sob o título

Uma janela para a arte:

Um olhar de Marcel Proust sobre a obra de Gustave Moreau)

 

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À lembrança do que experimentei diante desse Gustave Moreau, como aquela anterior, invejo as pessoas cuja vida é tão bem regrada que a cada dia podem consagrar algum tempo às alegrias da arte. Por momentos assim, sobretudo vendo como essas pessoas são em outros aspectos menos interessantes que eu, me pergunto se elas não dizem possuir tão frequentemente essas impressões porque não as têm jamais. Aqueles que uma vez amaram sabem como as ligações fáceis, às quais damos o nome de amores, são inferiores ao amor verdadeiro. Talvez se estivesse ao alcance de todos amar uma obra de arte como (parece assim ao menos) a alguém do outro sexo (eu falo do verdadeiro amor), saberíamos realmente o quanto o verdadeiro amor por uma obra de arte é coisa rara e o quanto as inumeráveis alegrias artísticas, das quais falam os dotados e com uma vida regulada de maneira harmoniosa, são distantes desse amor.

Flor mística

Museu Gustave Moreau, Paris

Júpiter e Semele

Museu Gustave Moreau, Paris

Helena sobre os muros de Tróia

Museu do Louvre, Paris

As vozes

A aparição

Museu do Louvre, Paris

Orfeu

Museu D´Orsay, Paris

Salomé (dançando diante Herodes)

Museu de Arte e Centro Cultural Armand Hammer

Los Angeles, EUA

Não há nada mais real para um escritor do que o que pode refletir individualmente seu pensamento, ou seja, suas obras. Que ele seja embaixador, príncipe, célebre, isso não é nada. Que sua vaidade de homem o atinja, isso pode ser funesto para o escritor, mas talvez sem isso ele se deixasse levar pela preguiça, ou embrutecesse pela perversão, ou se consumisse pela doença. Mas, ao menos, ele deveria saber que isso não tem nada de realidade literária.

O jovem poeta

É o que me incomoda em Chateaubriand, que tem o ar contente por ter sido um grande personagem. Mesmo grande personagem literário, o que isso quer dizer? É uma visão materialista da grandeza literária e, por consequência, falsa, porque é totalmente espiritual. No entanto, ele faz bela figura, e no seu charme tem a grandeza. Mas não é porque era nobre.

As circunstâncias, não são nada? Existem momentos em que parece que sim. No entanto, Rodenbach diz que Baudelaire foi Baudelaire porque esteve na América.[3] Para mim, as circunstâncias são qualquer coisa. Mas esta é a probabilidade por um décimo e minha disposição por nove décimos. Esse Gustave Moreau, visto num dia de desorientação, de disposição para escutar as vozes interiores, me valeu toda a viagem à Holanda, feita rapidamente, o coração atento, mas fechado…

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Gustave Moreau frequentemente, nos seus quadros e suas aquarelas, tentou pintar esta abstração: o Poeta. Dominante sobre um cavalo ornado de pedrarias que lhe dirige um olhar amoroso, a multidão ajoelhada, onde reconhecemos as diversas castas do Oriente, ao passo que ele não pertence a nenhuma, envolvido por brancas musselinas, a mandora de lado, respirando com uma gravidade apaixonada o perfume da flor mística que tem à mão, o rosto marcado por uma doçura celestial, nos perguntamos, para bem lhe observar, se esse poeta não é uma mulher. Talvez Gustave Moreau quisesse dizer que o poeta contém em si toda a humanidade, que possuía as ternuras da mulher; mas se, como eu o creio, ele queria também envolver de poesia o rosto, as vestimentas, a atitude daquele cuja alma é poesia, é somente porque situou essa cena na Índia e na Pérsia que pôde nos deixar hesitantes sobre o sexo do poeta. Se quisesse pintar seu poeta na nossa época e no nosso país e o envolver, todavia, de uma beleza preciosa, ele teria sido obrigado a fazê-lo mulher. Mesmo no Oriente, aliás, mesmo na Grécia, ele por isso é frequentemente persuadido. Agora, é uma poetisa que ele nos mostra, seguindo com uma musa a púrpura de uma vereda montanhosa, onde passa por vezes um deus ou um centauro. É, além disso, numa aquarela enquadrada de flores, como uma miniatura persa, a Péri, a pequena musicista dos deuses, que, montada em um dragão, elevando diante dela uma flor sagrada, viaja em pleno céu. Enfim, numa ou noutra dessas figuras, a arte do pintor deu uma espécie de beleza religiosa: no poeta subjugando a multidão com a sua eloquência; na poetisa inspirada, assim como na pequena viajante do céu persa, cujos cantos são a sedução dos deuses, sempre cri reconhecer Madame de Noailles.

Não sei se Gustave Moreau sentiu o quanto, por uma consequência indireta, essa bela concepção do poeta-mulher era capaz de renovar um dia a economia da obra poética ela mesma. Na nossa triste época, sob nossos meios, os poetas, entenda-se os poetas-homens, no mesmo momento em que lançam sobre os campos em flores um olhar extasiado, são obrigados a se excetuar da beleza universal, a se excluir, pela imaginação, da paisagem. Eles sentem que a graça, na qual eles estão envolvidos, para diante do seu chapéu-coco, sua barba, diante dos seus óculos.

Parte I: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=3055

Parte II: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=3072

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(3) Será uma “distração” da parte de Marcel Proust? Baudelaire não tendo jamais viajado para a América, não deveria ele de preferência ler Chateaubriand?

* Gustave Moreau (1826-1898) nasceu em 6 de abril de 1826, na Rue des Saint-Pères, número 03, Paris. Filho de Louis Moreau, arquiteto e de Pauline Desmontiers. Tornou-se célebre por ser um dos principais impulsionadores da arte simbolista do século XIX. Moreau começou como pintor realista. Posteriormente, sob a influência dos impressionistas e pré-rafaelitas, evoluiu para uma pintura mais romântica e espiritual, que lhe permitiu entrar nas fileiras do simbolismo, junto com Munch, Ensor, Puvis de Chavanes e Redon. Alguns historiadores de arte preferem se referir a eles como pós-impressionistas. Teve aulas com os mestres Chassériau e Picot em seus respectivos ateliês. Suas obras foram expostas pela primeira vez ao público e à crítica no Salão de 1852 tendo o seu trabalho reconhecido apenas no Salão de 1864, com quase quarenta anos, e por duas vezes tentou o prêmio de Roma, prêmio da Escola de Belas Artes, sem obter sucesso.

** Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust (1871-1922) nasceu em 10 de julho de 1871 em Auteuil, França. Filho de Adrien Proust, um célebre professor de medicina, e Jeanne Weil, alsaciana de origem judaica, Marcel Proust nasceu numa família rica que lhe assegurou uma vida tranquila e lhe permitiu frequentar os salões da alta sociedade da época. Foi romancista, ensaísta e crítico. Teve como principais obras:

 – Les Plaisis et les Jours (Calmann-Lévy, 1896)

– La Bible d´Amiens (Mercure de France, 1904)

– La mort des cathédrales (Le Figaro, 1904)

– Sésame et les lys (1906)

– Pastiches et mélanges (NRF, 1919)

– Chroniques (1927)

– Jean Santeuil (1952)

– Contre Sainte-Beuve (1954)

– Chardin et Rembrandt (Le Bruit du temps, 2009)

– À la recherche du temps perdu (1913-1927)

 Morreu em 18 de novembro de 1822, de uma bronquite mal curada.

*** Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com