Três notas sobre o país misterioso de Gustave Moreau* | Marcel Proust | Parte II

Rumeur des Ages

La Rouchele, França, 2008

Tradução: Patricia Tenório

Revisão: Ana Lucia Gusmão***

 

(A seguinte tradução foi parcialmente e em outra ordem apresentada no

V FESTLATINO – Recife/PE – Novembro 2011, sob o título

Uma janela para a arte:

Um olhar de Marcel Proust sobre a obra de Gustave Moreau)

 

*

 

Um quadro é uma espécie de aparição de um lugar do mundo misterioso, do qual conhecemos alguns outros fragmentos, que são os quadros do mesmo artista.

A esfinge vencedora

 Noite e Tristeza

 

 

Hesíodo

 

Estamos num salão, os quadros nos provocam; de repente elevamos os olhos e percebemos um que não conhecemos, mas que distinguimos como a lembrança de uma vida anterior.

Os unicórnios – Museu Gustave Moreau, Paris

Esses cavalos com ar indomado e terno, ornados de pedras preciosas e rosas; esse poeta que tem uma figura feminina, um manto de um azul sombrio e uma lira à mão; e todos esses homens imberbes como uma figura de mulher, coroados de hortênsias e inclinando os galhos de tuberosas; esse pássaro de um azul também sombrio que segue o poeta; o peito do poeta que, elevado por um canto grave e doce, segura os galhos de rosas que o cingem; e a cor de tudo isso, a cor de um mundo onde tal cor tem não a cor que tem no nosso mundo, mas a cor que tem sobre este quadro; e mais ainda, a atmosfera intelectual desse mundo onde o sol se põe frequentemente, onde as colinas selvagens têm a sua frente os templos e, se um pássaro segue esse poeta e se uma flor cresce nesse vale, é em virtude de outras leis, além das de nosso mundo, de leis que permitem ao pássaro distinguir o poeta, segui-lo, permanecer ligado a ele, se bem que em seu voo adeja em torno dele, numa espécie de sabedoria preciosa, e essa flor cresce nesse vale, próxima a essa mulher, porque ela deve morrer, essa flor é a flor da morte e, no caso de ela se haver dirigido para lá, existe como que um pressentimento, e no seu crescimento rápido há uma espécie de ameaça crescente, e parece observá-la, sentir seu derradeiro instante. Imediatamente reconhecemos que o que ali vemos sem jamais ter sido visto, por ter antes tido algumas aparições desse mundo estranho, é um Gustave Moreau.

O triunfo de Alexandre

Museu Gustave Moreau, Paris

O país, cujas obras de arte são aparições fragmentárias, é a alma do poeta, sua alma verdadeira, aquela que está no mais profundo do seu ser, sua pátria verdadeira, mas onde ele não vive senão em raros momentos.

Prometeu

Museu Gustave Moreau, Paris

É por isso que o dia que os ilumina, as cores que aí brilham, os personagens que aí se agitam são um dia cores e seres intelectuais. A inspiração é o momento em que o poeta pode penetrar no interior dessa alma. O trabalho é o esforço de por aí permanecer inteiramente, enquanto ele escreve ou pinta, sem qualquer influência externa. De lá, esse retoque de palavras, cores, diante de um modelo que para o poeta é tão real, tão imperioso como para o pintor, e para este, tão intelectual e tão pessoal quanto para o poeta. Também amamos vê-los, esses quadros relacionados pelo poeta do país misterioso, que ele pode acessar, e que, guardando uma espécie de cor misteriosa, ofusca o ser que retorna ao grande dia, ao meio das realidades do mundo, não a verdadeira, mas a mais comum, aquela que corresponde a nossa alma a mais exterior, aquela que no poeta é quase semelhante a dos outros homens. Esta aqui diante de mim, imobilizada como nunca através do prisma impenetrável, mas tão fácil de quebrar suas tenras cores, que flutuava tão rápido sobre o pensamento exaltado de Gustave Moureau, delicada medusa sobre o rio, mas que nada perdeu da fresca palidez de suas nuances azuis. O cantor persa, assim se chama.

O Poeta Persa (O Cantor Árabe)

Coleção Particular, Paris

 E, com efeito, ele canta, esse cavaleiro com rosto de mulher e de padre, com insígnias de rei, segue o pássaro misterioso, diante de quem as mulheres e os padres se inclinam e inclinam as flores, e observa seu cavalo com um olhar em que vive o espírito que circula em toda a natureza, um olhar terno como se ele o amasse, erguendo ao seu encontro o focinho indomado, como se ele o detestasse e devesse lhe devorar. Ele canta, sua boca está aberta, seu peito dilata os galhos de rosas que o abraçam. É este o momento no qual perdemos o chão, em que não estamos mais sobre a terra firme, e o barco posto ao mar flutua e miraculosamente avança, e a palavra, erguida pelas marés rítmicas, transforma-se em canto. E essa palpitação visível se ergue eternamente no quadro imóvel. É por isso que os poetas não morrem totalmente inteiros, e sua alma verdadeira, essa alma, a mais interior, que era a única em que eles se sentiriam eles mesmos, nos é numa certa medida preservada. Cremos que o poeta está morto, faríamos uma peregrinação a Luxemburgo como se fôssemos simplesmente a uma tumba, iremos como uma mulher carregando a cabeça morta de Orfeu, diante da Mulher carregando a cabeça de Orfeu, e vemos nessa cabeça alguma coisa que nos observa: o pensamento de Gustave Moreau pintado sobre esse quadro, acompanhando-nos com seus belos olhos de cego, que são as cores pensadas.

O pintor nos observa, não ousamos dizer que ele nos vê.

Autoretrato – 1850

Museu Gustave Moreau, Paris

Na verdade, ele não nos vê, e nós, por mais caros que a ele fôssemos, seríamos muito pouco para ele. Sua visão continua sendo vista, ela está diante de nós, isso é tudo de que ele precisa.

A casa de Gustave Moreau, agora que ele morreu, vai se transformar num museu. É o que deve ser. Além do mais, enquanto vivo, a casa de um poeta não é de fato uma casa.

 

Sentimos que o que ali se faz não mais pertence a ele, é agora de todos, e frequentemente, ou mesmo todas as vezes, ele nada mais é que sua alma, a mais interior, como os pontos cardeais do globo, o equador, os polos, o lugar de reencontro de mistérios comuns. Mas é em um homem que essa alma se agita algumas vezes. Sem dúvida, ele permanece de certo modo santificado, como uma espécie de padre, cuja vida é dedicada a servir a essa divindade, a alimentar os animais sagrados que lhe dão prazer e a derramar os perfumes que facilitam suas aparições. Sua casa é metade igreja, metade casa de padre. Nesse momento, o homem está morto, nada mais resta além do que se pôde liberar do divino que havia nele. Numa súbita metamorfose, a casa se transformou num museu antes mesmo de ser organizada dessa forma. Não mais teria de arrumar o leito, acender o forno. Aquilo que por momentos foi deus e vivia por todos, não é mais deus, não existe mais por si, mas pelos outros. Nada em sua casa recordaria um eu que não existe mais. A barreira do eu individual, na qual ele era um homem como os outros, caiu. Retirados os móveis, não precisa mais do que de quadros que se refiram à alma interior, a qual ele buscou frequentemente e para a qual se dirigem todos. Além disso, ele se esforçou em derrubar essa barreira do eu individual, tendo como tarefa o trabalho de excitar a inspiração, ou seja, tornar cada vez mais frequentes os momentos em que podia penetrar sua alma interior, esse mesmo trabalho graças ao qual ele possuía a tarefa de fixar a imagem intacta sem que nada da alma comum aí se misturasse. Pouco a pouco, os quadros cobriam todos os quartos e não havia mais que alguns lugares onde pudesse se refugiar o homem que desejava jantar, receber seus amigos, dormir. Rarefaziam-se os momentos em que ele não era invadido por sua alma interior, nos quais ele era simplesmente um homem. Sua casa era então quase um museu, sua pessoa não era nada mais que o lugar onde se realizava uma obra.

Isso acontece forçosamente com todos aqueles que têm uma alma interior, na qual podem algumas vezes penetrar. Eles são advertidos por uma alegria secreta de que os verdadeiros momentos são somente aqueles que ali passam. O restante de sua vida é uma espécie de exílio frequentemente voluntário, não triste, mas mal-humorado. Porque eles são exilados intelectuais, perderam a lembrança de sua pátria, a única, onde é mais suave viver, mas não sabem como fazer para retornar. Desde que desejem qualquer outro lugar, eles ali não estão mais, apenas o desejo de outra coisa sendo o exílio de um país que é um sentimento. Mas, enquanto eles são eles mesmos, quero dizer, quando não estão exilados, quando eles são sua alma interior, agem por uma espécie de instinto, que, como o dos insetos, é duplicado em um secreto pressentimento da grandeza de sua tarefa e da brevidade de sua vida. E, então, eles renunciam a qualquer outra tarefa para criar a morada onde viverá sua posteridade, depositando-a, prontos a morrer em seguida. Vejam o ardor com que o pintor se põe a pintar sua tela e a aranha a tecer sua teia.

Todas essas almas interiores de poetas são amigas e se chamam umas às outras. Eu era um homem como todos os outros neste salão, levantei os olhos e vi esse Cantor indiano que eu não entendia, que não se mexia, mas cujo peito erguia as rosas que o cobriam, e diante de quem as mulheres depositavam flores. Assim, em mim também o cantor despertou. E nesse momento nada o poderia distrair do que ele tinha a dizer. Um instinto secreto me advertia, palavra por palavra, do que deveria ser dito. E os pensamentos, por mais brilhantes que viessem, que me fizessem parecer mais inteligente, eu os escutava sem poder me afastar da tarefa invisível, mas proposta. Porque o cantor que existe em mim é tão doce feito um padre. E é porque esse país misterioso que se desenrola agora diante de nós existe de maneira bem real, quando o ultrapassamos a galope com tal embriaguês que todas as telas que ele nos lembra, se nós verdadeiramente o procurássemos ali mesmo, quer dizer, se estivéssemos realmente inspirados e  tivéssemos o cuidado de nada ali se misturar da alma comum, ou seja, sido conscienciosos, trabalhado, esses quadros se assemelhariam entre eles. E é por isso que, quando levantei os olhos e percebi o grave e doce cantor sobre seu cavalo de focinho feroz e olhos ternos, ornado de rosas e pedras preciosas sobre o peito, elevando, num impulso de ritmo incompreendido, as rosas que o circulavam, seguido pelo pássaro que o conhecia, diante de um sol poente habitual, eu pude dizer: é um Gustave Moreau. Ele é talvez mais belo que os outros, como as belas palavras, o canto. Como o peito envolto de rosas do jovem cantor, ele se elevou pelo entusiasmo. Mas ele vem, certamente como os outros, do país onde as cores possuem essa cor, onde os poetas têm rosto de mulher e insígnias de reis, são amados pelos pássaros, conhecidos de seus cavalos, cobertos de pedras preciosas e de rosas, ou seja, onde existe a alegoria, que é a lei das existências.

(Continua na próxima semana…)

Parte I :  http://www.patriciatenorio.com.br/?p=3055

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* Gustave Moreau (1826-1898) nasceu em 6 de abril de 1826, na Rue des Saint-Pères, número 03, Paris. Filho de Louis Moreau, arquiteto e de Pauline Desmontiers. Tornou-se célebre por ser um dos principais impulsionadores da arte simbolista do século XIX. Moreau começou como pintor realista. Posteriormente, sob a influência dos impressionistas e pré-rafaelitas, evoluiu para uma pintura mais romântica e espiritual, que lhe permitiu entrar nas fileiras do simbolismo, junto com Munch, Ensor, Puvis de Chavanes e Redon. Alguns historiadores de arte preferem se referir a eles como pós-impressionistas. Teve aulas com os mestres Chassériau e Picot em seus respectivos ateliês. Suas obras foram expostas pela primeira vez ao público e à crítica no Salão de 1852 tendo o seu trabalho reconhecido apenas no Salão de 1864, com quase quarenta anos, e por duas vezes tentou o prêmio de Roma, prêmio da Escola de Belas Artes, sem obter sucesso.

** Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust (1871-1922) nasceu em 10 de julho de 1871 em Auteuil, França. Filho de Adrien Proust, um célebre professor de medicina, e Jeanne Weil, alsaciana de origem judaica, Marcel Proust nasceu numa família rica que lhe assegurou uma vida tranquila e lhe permitiu frequentar os salões da alta sociedade da época. Foi romancista, ensaísta e crítico. Teve como principais obras:

 - Les Plaisis et les Jours (Calmann-Lévy, 1896)

- La Bible d´Amiens (Mercure de France, 1904)

- La mort des cathédrales (Le Figaro, 1904)

- Sésame et les lys (1906)

- Pastiches et mélanges (NRF, 1919)

- Chroniques (1927)

- Jean Santeuil (1952)

- Contre Sainte-Beuve (1954)

- Chardin et Rembrandt (Le Bruit du temps, 2009)

- À la recherche du temps perdu (1913-1927)

 Morreu em 18 de novembro de 1822, de uma bronquite mal curada.

*** Ana Lucia Gusmão cursou Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, na PUC do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, fez pós-graduação em Língua Portuguesa e há cerca de 10 anos entrou para a área editorial, fazendo revisão e copydesk para várias editoras cariocas. Contato: algcm.machado@gmail.com