Os países: campanha ultramundos* – Frederico Régis**

 

RITUAL

 

Dentro do cárcere

Mais um dia riscado

Na ilha da alma

 

A manhã convexa

Expõe-se ao sistema solar

A vida aponta carências

Apronta na mesa a conversa

De desejos e abandonos

 

Tudo que vivi e passei

Aporta nesta manhã de domingo

(Inclusive o corpo)

 

Desarmo o cenário do sono

E entro em cena

Para reverter o sonho

Numa velha senha

 

ROMANCE DOS TELHADOS

  

Tardes crianças em torno à roda

E dois corações se namoram

Quando é hora de brincar

 

Sair de casa, nunca mais voltar

Telhados e paisagens de barro

Bairro todo para avistar

 

Noites de lua menina

Toma, menina, a lua

Que ninguém lá embaixo vai notar

 

Lábios, tremor, serenos

E léguas de andor na promessa

Que o mundo nunca vai acabar

 

Bolas, brinquedos à chuva

Adolescidos por cima das telhas

Embarcados de tanto se brincar

 

Estrelinha vivia nos jardins, eu lembro

Subiu para o céu feito ave

Que no mais longe da vista cabe

 

Hoje, nas telhas vermelhas sozinho

Chora um coração sem descer para rua

Pertinho da lua onde estrelinha foi amanhecer

 

CONTINENTES

  

Como dois continentes

Que se foram ao mar

Estamos compondo

auroras

ocasos

 

Pomos no colo estranhamente

Esta bagagem

(que somos)

 

(que é nossa vida –

A mesma que há décadas

Tece o fio quilométrico

E arma o Cm de saudade)

 

Enquanto o mar cumpre sua delícia

E as estrelas conduzem dilúvios

Fujo do sono e embebo em ondas

O país que me deixaste entre lábios

 

Um dia nos encontraremos

No oceano da vida

Daqui a anos

Quem sabe

Ainda neste mundo

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* Banco do Nordeste, Fortaleza, 2009.

** Frederico Régis é cearense. Escreve poemas deste o final dos anos 1980. Publicou livros feitos a mão e participou de antologias diversas. Em 2007 publicou Minutas do Caos, livro editado pelo Banco do Nordeste (Programa Cultura da Gente). Contato: arteletra@live.com