sobre a lápide: o musgo – Helder Herik*

 

APRESENTAÇÃO

 

            Neste terceiro livro, houve a fusão dos dois anteriores. ‘Lápide’ lembrando Amorte e ‘Musgo’ lembrando As Plantas Crescem Latindo. Sob um e outro, as várias dicções. As minhas falas de poesia. Daí dizer que não procuro uma linguagem própria. Procuro a poesia. Acontece como se fosse uma caçada. A caça não virá até nós pelo simples desejo de que venha. É preciso pegá-la. Podemos pegar com a mão, mas ela escorrega. Podemos pegar com uma rede, mas ela é pequena e escapa. Vem o desespero de dar logo um tiro, mas ela é rápida, foge. Acredito que com a poesia é a mesma coisa. Por que haveria de ter eu apenas uma linguagem? Por que caçaria apenas com a mão, a rede ou o tiro? Caçar também se caça com assobio, estalar de dedos, piscar de olhos…

            No poema Infância de Plástico, rememoro os bichos e o quintal de minha infância. O poema todo se passa lá, entre os muros, o tanque e o pé de jambo. O nome ‘Infância de Plástico’ vem dos brinquedos que naquele tempo eram feitos desse material. Uma geração antes da minha tinha brinquedos de madeira. Coisas de Casa é um poema de coração largo. Uma brincadeira de ver as coisas pelo avesso, como se as coisas fossem gente: andassem, nadassem, corressem. É coisa humanamente. O Corpo Que Fica é uma releitura de “O Túnel” de Akira Kurosawa, onde o vencedor é quem realmente está vencido. Sobre a Lápide: o Musgo aborda uma humanidade torpe e, em conseqüência, o mundo que vem supurando. “Mundo que nenhum véu encobre.”

            Livro humano, igual a quem o ler.

            Boa leitura

                                                                         Helder Herik

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SE DEIXAR O TEMPO CURVA**

 

a planta se contorcia no inverno

igual um monginho rezando

o sereno o vento

– a chuva o chuvamento todo do céu

– a chuva forte caindo

o certo que era dizer saindo da boca de gente grande

pra baixo pro chão

o pendão da flor caído

o caule curvo

o monginho

do jeito de ser a forma menos o tamanho tamanhico

o tanque esborrotava:

água descendo em ondas

– descendo em cachos espiralados bagos d´água

– tanque cheio esborrotando

o dizer de novo de gente grande

depois eram os pinlinguzinhos

o aerossol bonzinho juntando no cabelo pintado de

branco

a velhice nossa de pequeno

o tanque esborratava igual

vulcão e lava sem quentura e vermelhura

no caminho o esborrotamento encontrava

o lodo manso pastando

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* Helder Herik, Garanhuns – PE. Ensina filosofia e literatura. Publicou os livros: amorte (2008) e as plantas crescem latindo (u-carbureto, 2009). Integrou as antologias: tudo aqui fora escrito tudo fora escrito ali (paés, 2009), quase inéditos e dispersos: uma coletânea da poesia em Pernambuco no século 21 (2010) e a coletânea Antônio maria de crônicas (2010). Contatos: blogdohelderherik.blogspot.com e helderherik@hotmail.com

** Extraído de “INFÂNCIA DE PLÁSTICO” do livro sobre a lápide: o musgo

Helder Herik, 2010, Editora u-Carbureto.