Antoine voltou a pé* – Ângela Calou**

Antoine voltou, sem que nunca eu soubesse como. Verifiquei várias vezes seu triste fim, toquei com os dedos o líquido verde que lhe escorria pelo nariz, fechei seus olhos para que não assustasse ninguém a vitrina adoecida de sua morte encomendada pelo costume negro de meu espírito.

Colhi as flores, fiz o café, um pouco amargo, é certo. Levei aos ombros a pá mais pesada para garantir o profundo do lugar de desova de seu corpo inoperante. Eu mesma. Tudo. Inclusive coisas pequenas como o enlaçar dos dedos sobre o peito fatigado da luta contra o travesseiro que usei, outrora, para lhe roubar a corrente de ar. Inclusive a camisa branca com listras pretas e o suspensório sobre a calça xadrez, onde escondida no bolso direito, encontrava-se ainda a caderneta amarela que, por anos, salvara no fenômeno as ideias de Antoine, lá, embaixo da escada, à luz imóvel do velho abajur.

Estava morto, pois nada vivo teria lábios tão frios. Ocorre-me, porém, a cruel possibilidade da dúvida, a faca cega do engano afiada na pele, na ausência de pedra-pome. E se Antoine me assistisse com um meio olho aberto, de soslaio, rindo por dentro de minha crença na eficácia de minhas próprias mãos? E se tudo não passasse de erro? E se o frio nos lábios fosse coisa dos meus lábios apenas, impressão de minha refratária condição?

A morte era um rato metafísico, roedor espectral que rondava agora a minha carne, pois é sabido que, aquele que escapa a uma emboscada, segue tentado invariavelmente a reproduzi-la na condição invertida de arguto algoz. Antoine não me sorriria, pois também é sabido que, quem não morre de susto, segue tentado a reproduzir no outro esse mesmo susto e, assim, quem espera, como eu, cai num soluço implícito que por nada quer passar – como se soubesse num lugar interno já ser essa hora coisa marcada.

Restava-me a capitulação. Depois de carregar um corpo morto com o dobro do meu peso por horas, dias, talvez semanas, meses de presença morta, alucinógena, debilitada, tive a impressão de que encontrara um lugar distante. Percebo, agora, que era, pelo contrário, muito perto, pois vejo que Antoine voltou a pé.

Devia eu ter-lhe quebrado as duas pernas no exercício de minha maldade, vê-lo sofrer, banhada de água doce e de veneno e, desse modo, ter adiado o estranho problema, pois com o trauma de seus membros, ele certamente demoraria. Não pensei na hora, e assim pago por isso: será este então o meu fim? Nego-me, no entanto, a pagar por isso, pois em minha bolsa de mão, a solidão de uma última moeda. Aquela que se destina ao jogo de cara ou coroa que terei de fazer a cada bifurcação.

Meus cabelos começaram a cair, meu corpo dança outra vez no vestido de flores que, de repente, pareceu bem maior, como Alice e os pedaços de sonho que a faziam esticar para fora e para dentro. Em meu caso, porém, são pedaços de um pesadelo. Antoine voltara e, mesmo se nunca fosse imagem na minha retina, velado em uma suspeita obsessiva, seria mais que possibilidade: a irrefutável certeza do assombramento de calafrios.

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* Extraído de Eu tenho medo de Gorki & outros contos, 2011.

** Ângela Calou nasceu em Juazeiro do Norte, Ceará, em 1988. É mestranda em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba. Contato: angela.cal@hotmail.com