Uma carta de Newma Cynthia

Querida Patricia,

Enfim, apareço. Acabei de ler Grãos, esse livro que despertou minha atenção quando li “intervalo” aqui no site. Sim, contava com a continuidade da história, queria saber o que aconteceria a jornalista e Mateus, que homem misterioso é esse que despertou a atenção mesmo que por instantes de uma mulher a ponto dela acreditar que ele pudesse conhecê-la  no íntimo, desvendando seu instinto e ainda desejando que o destino os colocasse frente a frente novamente?

Eu bem que poderia saber que essa leitura não seria continuada, se tivesse lido primeiro a orelha do livro. Lá fala de estranho livro, sim, porque quando virei a página me deparei com “o banho” e depois “três quartos” com uso da técnica de duas vozes pelo personagem (pensamento e diálogo), me empolguei de forma tal que Mateus logo ficou para trás.

Daqui por diante falarei com o coração, sem medo das minhas palavras pela pouca experiência que tenho no campo literário, mesmo na posição de leitora porque nunca busquei ler livros fazendo análises e sínteses ou grandes interpretações (com exceção da época da escola onde me esforçava), a ideia de ler sempre foi para mim um hábito executado com muita simplicidade, longe dos saraus literários com a exceção da Confraria das Artes onde me sinto mais expectadora do que qualquer outra coisa ainda, talvez pela ausência de intimidade ou pela limitação de conhecimentos técnicos, já que sei falar mais de amor e o amor parece diferente aos olhos de cada pessoa.

Pois bem, voltemos ao livro. Patricia fala com questionamentos, principalmente nos primeiros textos, “a solidão era o inicio da loucura?”, “que sentido tem a vida sem presença?”, “mais eu também fazia companhia e porque me deixou?”, senti que era de propósito como se desejasse que parássemos a leitura para analisarmos a questão. Na maioria do tempo os textos são introspectivos, reflexivos mesmo, memórias, exige compreensão de sentimentos, fala-se em dor, muito de solidão, lembranças e isso mexeu comigo, parei para pensar na vida. As vírgulas nos ajudam a respirar enquanto lemos.

O “sétimo quadro” é um texto muito bem escrito, veloz, denso quando acabei de ler era como se estivesse vendo uma peça de teatro ou um filme bravamente dirigido, havia trilha sonora, alguma coisa clássica no fundo, talvez Mozart com algo que comece leve e termine no maior tom. As dúvidas que sentimos, quando ainda somos adolescentes foi muito bem traduzida em “a adulta”, quando somos domadas pelos limites impostos e quando a duras penas aprendemos, mas dificilmente nessa fase, só quando finalmente a vida adulta acontece, por mais que desejemos continuar a ser criança para sempre. Talvez assim tudo fosse mais fácil.

Se fossemos íntimas poderia confirmar o que senti, mas os textos “onda cinza” e “o travesseiro” parecem muito reais, como se de fato aqueles fossem os momentos do personagem, mas que também se traduzia na mulher Patricia.  

“a prova” foi uma delícia de ler. Além da excelente passagem de tempo do hotel de luxo para a UTI do hospital enganou o leitor por diversas vezes, com anúncios de preconceitos, visita a três, e a exposição de um amor que em certo ponto me fez lembrar o Ricardito de Vargas Llosa, o bom menino, o coisinha a toa das TRAVESSURAS DA MENINA MÁ, a que outra pessoa uma mulher pediria tal coisa? Mesmo que ao final, não tenha sido clara se Charlie desligou ou não os aparelhos, eu não tenho dúvidas, somente um amor submisso e obediente seria capaz de tamanha proeza.

As poesias foram realmente belas e de uma sensibilidade estonteante. Só não me atrevo a falar mais porque esse tipo de expressão eu só sei sentir, pouco saberei falar. Conseguiu ser sensível até quando tratou de um tema que deixa minhas pernas paralisadas – “aborto”.

De repente volto à orelha do livro e entendo ainda mais a explicação do estranho livro, pois eis que surge “pandôva”, texto banhado de mitologia e figuras míticas com mistérios de épocas representados por robôs do império. Às vezes o texto muda o ritmo, nos leva a um tempo mais moderno com uso de palavras “para que saiba e somente você saiba que não quero me tornar eterna. Plantar uma árvore, escrever um livro, fazer um filho”, às vezes saía do texto como se outro personagem desconhecido estivesse falando “estou cansada das letras. Cansada de lhe explicar o que não quero, porque você não me deixa e para com tantas perguntas? Eu me encolheria cobrindo o rosto com lençóis de seda e caindo no nada do inconsciente, um sono sem sonhos, uma morte bem vivida”, por mais que essa fosse a fala de Pandôva. No final, acho que não deveria se sentir tão culpada por ter se entregado a Gordon, faço da minha opinião um paradoxo com a vida real.

Querer “e poder servir, ajoelhar-me e lavar pés sujos, lamber as lágrimas do doente terminal, embeber unguentos em feridas abertas, velar sono de desesperados. Talvez então eu repousasse e trouxesse algum alívio ao meu espírito” são algumas das surpresas na forma de escrever que descobri, mesmo nas cenas de sexo que já falamos em outro momento, quando pedi conselhos. Estou encantada, gostei muito da forma que você se expressa, banida de preconceito “grafite”, doce “absinto”, inesperado “sonho” e por aí vai. Parabéns, Patricia, você merece estar no topo!

Em breve mandarei mais notícias.

Newma Cynthia*.

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* Newma Cynthia é escritora – newminha@hotmail.com