Quarto escuro*

Patricia Tenório

23/03/2008

Das coisas invisíveis e das mortais só os deuses têm um conhecimento certo; aos homens, só conjecturar é permitido.

                                                                                                         Alcmeão 

 

                Acordo à noite pensando que os pensamentos não acham  mal algum em criar. Pego a caneta preta e o caderno em branco, vou preenchendo os espaços vazios na tentativa de encontrar aquela menina que um dia fui, desvendar o mistério do amor primeiro, porque descobri ontem à noite que foram tantos amores os que eu tive e pensara ainda não os ter encontrado.

            A caixa chegou hoje pela manhã. O papel madeira cobria o não imaginado, o primeiro livro me alcançaria? Tentava vê-lo de olhos cobertos, tocar as primeiras páginas, saboreando com os dedos as linhas impressas. Cada pedaço de mim ali guardado, me entreguei inteira àquelas páginas costuradas, àquela capa cor de céu.

            A caixa repousava no mesmo lugar onde a recebera. Olhava para mim inquisitória, sentei defronte ao computador, acendi um cigarro. Fernando virá à noite, direi que não o quero mais, direi o que deveria ter dito há séculos, que o melhor é estar sozinha, com os pensamentos soltos a riscar paisagens, com o vento leve alisando o rosto, com a lua cheia beijando o mar nos primeiros raios. Que me deixe ali no canto do meu quarto escuro, deixe-me quieta, coberta com o meu papel madeira, não me incomodo com o pó cobrindo o endereço do destinatário, ou as cores vivas do selo amarelando.

            Na solidão busquei amigos invisíveis, daqueles que não cobram visitas nem bons modos. Deito sobre a água quente da banheira, brinco com as unhas vermelhas dos dedos do pé, elas dizem algum segredo, depois mergulham sapecas no banho de espuma.

**

            Preciso me aquietar toda vez que fico sozinha. Queria poder permanecer parada, sem alma, só os olhos a prender visões passageiras, elas não entram em mim, tal na janela do carro de Fernando, vejo os retratos da cidade se desanuviando em segundos, passam e passam por mim, não deixam aromas, nem sabores. Às vezes sinto o frio congelando os ossos, mas é uma sensação de mentira e que não devo dar importância. Apenas àquele sonho depois sonhado, pois quando mesmo acontece, quando a verdade se impõe clara e obstinada, mal posso respirar e contê-la no corpo, é pesada demais e não suporto, espero que ela se afaste, pinte um quadro de outono; então, sim, eu a enxergo, pego o papel e a caneta negra e a desenho em palavras.

            Mas é tarde demais. Lá se foi a senhora Verdade. Me recolho à insignificância de querer criar o que já foi criado, descobrir o que foi dado de graça, e essa angústia de nunca poder chegar me engole inteira, esmaga-me em carne viva, retira os sonhos, o sono se apaga e me encolho no canto escuro do quarto estreito.

            Às vezes pego o estilete na intenção de abri-la. Mas numa tal arrogância se mostra a caixa que pretendo nunca mais pensar nela, retiro todos os livros da estante para arrumá-los por ordem de autor, se os li, se não os li. Encontro J. M. Simmel, “Não matem as flores”, olho ao redor, estou na minha cidade natal, são duas as camas do quarto, minha irmã dorme sono solto e eu com aquele velho costume de acordar no meio da noite em busca do que não sei, e só aquieto um pouco quando corro os dedos finos por sobre as linhas do papel grosso, corro até sentir a mão dormente, os braços cansados, os cílios se fechando por um instante apenas e volto aonde pertenço, aquele espaço mágico em que não tenho nome nem idade, onde todos correm nus por sob cachoeiras e arco-íris, o amor não fala línguas, as palavras são sentidas e desaparecem logo a seguir, todos sabem e não precisam saber, são soltos no meu mundo imaginário. Mas me aparecem perguntas, sisudas e de cor escarlate, tal pintei as unhas ontem. Elas querem saber se todos pensam do mesmo jeito, se aquele mundo só foi por mim criado, e na minha elucubração infértil retorno ao quarto de adulta, guardo J. M. Simmel na mesma estante de outrora, lembro que existo e tenho os pés no chão.

            A caixa insiste que estou errada, passa por mim uma mão invisível que convida a abri-la. E se não for o que eu esperava, meu livro não for bom, as pessoas não o lerem, Fernando alisar meus cabelos, der um beijo em minha nuca e eu não o deixar partir, termos filhos, noras e cachorros, comprarmos uma casinha de campo e plantarmos amigos ao sol nascente?

            Quem sabe a caixa está mesmo certa ao revelar que estou com medo, ao entregar a chave da minha insignificância, ao perceber que aquela menina de óculos de grau e aparelho nos dentes pulsa pelo primeiro beijo, a primeira noite e ouvir-se bela, do mesmo modo que o pai chamava os amigos para vê-la tocar ao piano, a mãe preparava o seu prato predileto e lhe dava em colheradas quando estava doente.

               Não podia transferir para a caixa o seu descontentamento com a vida. Escolhera caminhos tantas vezes incertos, só por querer descobrir o que estava na outra margem do rio. E, ao chegar lá, olhos esbugalhados, boca entreaberta, descobrira que não era nada daquilo que imaginara, e ela, sim, havia imaginado muito, sentindo então um oco no lado esquerdo do peito, oco que nada preenchia, nem cigarros, nem vários homens, nem bombons de chocolate e calda de cereja.

            Apenas quando escrevia, o vazio acalmava, e desde pequena descobrira isso. Sentava encolhida detrás da poltrona do pai, no canto da sala de estar, e pretendia ali criar um mundo novo. Um mundo onde ninguém a machucasse nem lhe deixasse só à noite para ir às festas, nem viajasse para lugares longínquos, passando meses sem dar notícias, nem batesse na mãe quando voltasse, ou beijasse a empregada por trás da porta da cozinha.

            No mundo que eu criava não havia fadas ou duendes encantados. Tudo de uma normalidade ímpar, tudo se encaixava como num quebra cabeças, as pessoas iam e vinham como prometeram, faziam compras e alimentavam gatos, perdiam brincos de pérola e não ficavam zangadas. Sentavam à mesa nas horas certas, faziam preces de agradecimento, serviam umas às outras, havia sorrisos sinceros, brilho nos olhos.

            Lembrei que escrevera isto em algum momento, mas agora esquecera, pois não mais queria a ferida exposta, o pus gritando cura, a dor implorando alívio. E quanto mais mexesse, maior seria a ferida e nunca poderia sará-la porque era a minha essência e não saberia dizer se era melhor a ferida crua ou encoberta, sufocada na imensa impossibilidade de vir à tona.

            Busquei a tesoura na gaveta, não encontrei, fui à cozinha pegar uma faca afiada. Cortei primeiro as laterais da caixa, abri suas abas e estavam lá: uma pilha de pacotes miúdos feito o meu livro, quase transparecendo a cor da capa, quase preenchendo o ar vazio dos pulmões com o seu cheiro, inebriando e deixando tonta, fazendo o suor aquebrantar o corpo inteiro, retirando as roupas aos solavancos para me amar sem reservas nem cabimentos nas quatro paredes do quarto verde claro, da fresta da janela vinha a luz salvadora, cortando o breu que em mim antes se instalara, semeando grãos de sabedoria intensa que expurgava pecados e me fazia sã e santa, dona das mãos que tanto escreviam quanto ao corpo tocavam em carícias múltiplas, gozando do pensamento primordial, aquele que me levaria ao início do mundo, deitar com Adão e comer da maçã na árvore proibida.

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* Publicado na Revista Calibán N. 11, 2008

** “O que eu vejo na água”, 1938, Frida Kahlo