Entre o eu e outro lugar

Patricia Tenório

02/03/11

 

A lei consegue que o outro seja outro, protege-o.

(“Heráclito e seu (dis)curso”, Donaldo Schüler)

 

            Penso na coincidência e oposição entre “Cisne Negro” e “O discurso do rei”.

título original: (Black Swan)*

lançamento: 2010 (EUA)

direção:Darren Aronofsky

atores:Natalie Portman, Mila Kunis, Winona Ryder, Vincent Cassel.

duração: 103 min

gênero: Suspense

título original: (The King’s Speech)*

lançamento: 2010 (Inglaterra)

direção:Tom Hooper

atores:Colin Firth, Helena Bonham Carter, Geoffrey Rush, Michael Gambon.

duração: 118 min

gênero: Drama

            Se no primeiro encontramos a submissão da filha aos desejos da mãe, no segundo, apesar do sufocamento, descobrimos um homem que o supera e se supera – o pior inferno não são os outros, somos nós mesmos.

            Agimos de acordo com o que alguém, algum dia nos impôs e que, na maioria das vezes não reconhecemos como os desejos do outro plantados em nossa terra fértil. Tentamos desesperadamente arrancar estes desejos, mas eles estão de tal forma emaranhados com os nossos (ou são eles os nossos?) que acabamos por arrancar o que na verdade nos pertence.

            Fugimos dos desejos e eles nos perseguem, na gagueira de um rei, nas alucinações de uma bailarina e não sabemos mais se somos nós ou a imagem no espelho o que existe, o que é real ou fantasia.

            Passamos do eu para o outro na tentativa de não nos vermos sós com esse monstro desconhecido que de nós emerge e nos persegue. Ficamos (e fincamos) raízes em terra alheia, em coros de estrelas distantes e distintas, até a estrela maior nos aparecer em sonho e nos tirar do pesadelo, para sermos muitos e sermos um, esfera universal da raça humana, que há milhares de anos se ergueu do pó e ao pó retornará.

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* Ficha técnica extraída de www.adorocinema.com.