Um panorama da Escrita Criativa | Patricia Gonçalves Tenório

A origem da Escrita Criativa vem dos tempos ancestrais. Reza a lenda que a mãe de Virgílio, o autor da Eneida, sonhou quando grávida com um loureiro. Consultou um mágico e este revelou, para alegria da futura mãe, que o filho seria um grande poeta. Mas o mágico advertiu: ela deveria enviar Virgílio para Roma para que aprendesse com os grandes poetas da época. Escritores do mundo inteiro já falaram de suas técnicas de maneira incansável. Descobrimos nas Cartas exemplares que Guy de Maupassant bebia em Gustave Flaubert. Virgínia Woolf compartilha os segredos da sua escrita em O leitor comum. Henry James derrama a própria técnica em A arte da ficção. Edgar Allan Poe explica, de trás para frente, como escreveu seu poema mais conhecido, “O corvo”, em “A filosofia da composição”. Milan Kundera revela os bastidores de A insustentável leveza do ser em A arte do romance. Orhan Pamuk conta da profecia paterna quanto ao Prêmio Nobel de Literatura que recebeu em 2006 em A maleta do meu pai. Por outro lado, Franz Kafka declara que tudo o que escreveu foi para ser respeitado na sua nunca entregue longa Carta ao pai.

No segundo volume da trilogia Sobre a escrita criativa, o escritor e professor da PUCRS Luís Roberto Amabile traça um panorama da área no exterior: “No meio acadêmico, as oficinas deram origem a um campo de estudos nos Estados Unidos, na década de 1930-40: a Escrita Criativa, que floresceu após a II Guerra. E naquele momento, em meados da década de 1980, quase todas as universidades norte-americanas e muitas europeias possuíam seus programas de Creative Writing. Além disso, em países da América Latina, como México e Argentina, crescia o número de oficinas de criação, mesmo sem vínculo acadêmico” (AMABILE, 2018, p. 257).

No Brasil, data de 1962 um dos primeiros cursos dessa natureza (LAMAS/ HINSTZ, 2002), ministrado pelo escritor e professor Cyro dos Anjos, na Universidade de Brasília (UnB). Quatro anos depois, Judith Grossmann fundou, na Universidade Federal da Bahia, as oficinas de criação literária. Na década seguinte, em 1975, no Rio de Janeiro, ocorreu uma oficina ministrada por Silviano Santiago e Affonso Romano de Sant’Anna (este último participou do Program in Creative Writing, iniciado pela Iowa University). E desde 1985, funciona, de maneira ininterrupta e inserida no Programa de Pós-Graduação em Letras, a Oficina de Criação Literária da PUCRS, ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil.

Vamos chegar mais perto. Há quase cinco anos, as poetisas, escritoras e especialistas em Escrita Criativa (Unicap/PUCRS) Bernadete Bruto e Elba Lins me fizeram uma provocação: 

            – Por que você não cria um curso para compartilhar o que está aprendendo na PUCRS?

            Era o início dos meus estudos de doutorado na capital gaúcha, e o início de um ciclo com as minhas amigas pesquisadoras (2016 e 2017); em seguida, na XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco com o I Seminário Nacional de Escrita Criativa de Pernambuco, na Livraria Cultura (Recife e Porto Alegre, em 2018), na Unicap (curso de extensão, em 2019.1, e primeira turma de especialização, em 2019.2), além dos cursos on-line, em 2020 e 2021.

Os Estudos em Escrita Criativa, presencial e on-line, somaram vinte e oito módulos (O tempo, O mito, A viagem, A música, O amor, O sonho, A imagem, O fogo, Língua Inglesa, Portugal, Brasil, Leste Europeu, Japão, Os russos, Os franceses, Os italianos, Osman Lins, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar, Graciliano Ramos, Vinicius de Moraes, Jorge Amado, Cora Coralina, Hilda Hilst, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa, Mario Quintana), milhares de visualizações e centenas de alunos.

            Em 2018, conheci a professora, artista plástica, poetisa, escritora, especialista em Escrita Criativa Raldianny Pereira. Estava eu no auditório da Livraria Cultura do shopping center RioMar, me preparando para iniciar a aula de um dos módulos dos Estudos em Escrita Criativa presencial, quando uma jovem mãe e seu filhinho aproximaram-se do palco. Abri os braços, como sempre faço com as pessoas que me acrescentam e me fazem um ser humano melhor, e ela me apresentou Pedro, nome do personagem de meu livro A menina do olho verde (2016). A presente comunicação marca o fim do meu ciclo e início do ciclo dessa jovem mãe e artista, com a missão de levar a vocês e a tantas outras pessoas que nos acrescentam, o espírito da Escrita Criativa, gestado e conduzido pelo papa da área no país, Luiz Antonio de Assis Brasil, desde 1985.

_______________________________________________


Aula, em 17/12/2021, de fechamento da disciplina eletiva de Escrita Criativa da UFPE com a professora, escritora, poetisa, artista plástica e especialista em EC (Unicap/PUCRS) Raldianny Pereira.

_______________________________________________

Referências:

AMABILE, Luís Roberto. Escrita criativa, a aventura começa. In Sobre a escrita criativa II. Organização: Patricia Gonçalves Tenório. Prefácio: Bernardo Bueno. Recife: Editora Raio de Sol, 2018.

ASSIS BRASIL, Luiz Antonio. Escrever ficção: Um manual de criação literária. Colaboração de Luís Roberto Amabile. São Paulo: Cia das Letras, 2019.

FLAUBERT, Gustave. Cartas exemplares. Tradução: Carlos Eduardo Lima Machado. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2005.

JAMES, Henry. A arte da ficção. Tradução e prefácio: Daniel Piza. Osasco, SP: Novo Século Editora, 2011.

KAFKA, Franz. Carta ao pai. Tradução: Marcelo Backes. Porto Alegre: L&PM, (1919 in) 2007.

KUNDERA, Milan. A arte do romance. Tradução: Teresa Bulhões C. da Fonseca e Vera Mourão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

LAMAS, Berenice Sica; HINTZ, Marli Marlene. Oficina de criação literária: um olhar de viés. 2ª ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.

PAMUK, Orhan. A maleta do meu pai. Tradução: Sérgio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

POE, Edgar Allan. A filosofia da composição. In Poemas e ensaios. Tradução: Oscar Mendes e Milton Amado. Revisão e notas: Carmen Vera Cirne Lima. 3ª ed. revista. São Paulo: Globo, 1999.

WOOLF, Virgínia. O leitor comum. Tradução: Luciana Viégas. Rio de Janeiro: Graphia, 2007.

Trilogia Sobre a escrita criativa:

Sobre a escrita criativa. Prefácio: Luiz Antonio de Assis Brasil. Capa, design e projeto gráfico: Jaíne Cintra. Revisão: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas. Organização: Patricia Gonçalves Tenório. Com Adriano Portela, Alexandra Lopes Da Cunha, André Balaio, Annie Piaget Müller, Bernadete Bruto, Carlos Enrique Sierra, Daniel Gruber, Elba Lins, Fernando de Mendonça, Guilherme Azambuja Castro, Gustavo Melo Czekster, Igor Gadioli, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luís Roberto Amabile, Maria do Carmo Nino, María Elena Morán Atencio, Patricia Gonçalves Tenório, Robson Teles, Sidney Nicéas, Valesca de Assis. Recife, PE: Raio de Sol, 2017.

Sobre a escrita criativa II. Prefácio: Bernardo Bueno. Capa, design e projeto gráfico: Jaíne Cintra. Revisão: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas. Com Adriano Portela, Alexandra Lopes da Cunha, Amilcar Bettega, Andrezza Postay, Annie Piaget Müller, Antonio Aílton, Bernadete Bruto, Bernardo Bueno, Camilo Mattar Raabe, Daniel Gruber, Elba Lins, Fernando de Mendonça, Fred Linardi, Gisela Rodriguez, Guilherme Azambuja Castro, Gustavo Melo Czekster, Lourival Holanda, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luís Roberto Amabile, Maria do Carmo Nino, María Elena Morán Atencio, Paulo Ricardo Kralik Angelini, Patricia Gonçalves Tenório, Ricardo Timm de Souza, Tiago Germano. Recife, PE: Raio de Sol, 2018.

Sobre a escrita criativa III. Prefácio: Luiz Antonio de Assis Brasil. Capa, design e projeto gráfico: Jaíne Cintra. Revisão: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas. Com Adriano Portela, Altair Martins, Ana Paula Almeida, Ana Teresa Van Der Ley, Arthur Telló, Bernadete Bruto, Bernardo Bueno, Cristina Albert, Dinara Menezes, Elba Lins, Fabiana Plech, Hugo Peixoto, Juliana A. Cordeiro, Lourival Holanda, Luiz Antonio de Assis Brasil, Moema Vilela, Patricia Alves, Patricia Gonçalves Tenório, Raldianny Pereira, Talita Bruto. Recife, PE: Raio de Sol, 2020.

Livro Estudos em Escrita Criativa. Capa e projeto gráfico: Jaíne Cintra. Design: Hana Luzia. Revisão: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas. Com Adriano Portela, Alexandra Lopes da Cunha, Altair Martins, Andrezza Postay, Antonio Aílton, Bárbara Correia, Bernadete Bruto, Bernardo José de Moraes Bueno, Camilo Mattar, Cleyton Cabral, Cristina Albert Mesquita, Daniel Gruber, Elba Lins, Fernando de Albuquerque, Fernando de Mendonça, Fred Linardi, Gisela Rodriguez, Guilherme Azambuja Castro, Gustavo Melo Czekster, Hugo César, Julia Dantas, Juliana Almeida Cordeiro, Lara Ximenes, Lourival Holanda, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luís Roberto Amabile, Maria do Carmo Nino, María Elena Morán Atencio, Moema Vilela, Patricia Alves, Patricia Gonçalves Tenório, Raldianny Pereira, Renata Rolim, Talita Bruto, Tiago Germano. Recife, PE: Raio de Sol, 2021.

_______________________________________________

* Patricia Gonçalves Tenório é escritora, vinte e um livros publicados, entre eles, A baronesa (2020), em formato vídeopodcast, e Rio a quatro mãos (2021), escrito em parceria com Adriano Portela. Recebeu prêmios no Brasil e no exterior por As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007), Como se Ícaro falasse (2012), A menina do olho verde (2016) e pelo conjunto da obra em 2013. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS), ministrou, de 2016 a 2021, cursos on-line e presenciais do grupo de Estudos em Escrita Criativa, e foi idealizadora da especialização em Escrita Criativa Unicap/PUCRS. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com