Rio a quatro mãos | Adriano Portela & Patricia Gonçalves Tenório

Dois convites e um sonho

            Tudo começou com dois convites e um sonho. O primeiro deles foi do professor da PUCRS Ricardo Barberena, que estava angariando textos (poéticos ou ficcionais) para a homenagem ao bicentenário de nascimento do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881). O segundo convite veio do meu afilhado literário, o escritor, cineasta, professor Adriano Portela. Ele me convidou a escrever a quatro mãos.

            Interessante percebermos o quanto a literatura tem de coincidências – que não são tão coincidentes assim. No ano do bicentenário de nascimento do autor de Notas do subsolo, no dia seguinte ao convite de Adriano, veio à mente (e ao sono) um sonho com assassinato e esquartejamento, bem ao estilo de Crime e castigo, também de Dostoiévski. Compartilhei a ideia com meu afilhado, que, prontamente, aceitou o desafio – essa prontidão em embarcar nos meus sonhos vem desde que nos conhecemos, lá nos idos de 2014, na disciplina Tópicos da Crítica Literária, com a sua futura orientadora de mestrado, professora Ermelinda Ferreira.

            Mas colocar em prática uma escrita a quatro mãos é muito mais difícil e delicado do que se imagina. É preciso humildade de ambos os lados, aceitação da forma de escrita do outro, com seu vocabulário próprio, suas ideias e provocações. A princípio, pensamos em escrever doze capítulos, um capítulo para um e o seguinte para o outro (com exceção do último), e que os títulos destes seriam cômodos de uma residência, a começar, é claro, pelo “Subsolo”.

            O cuidado com as contradições e os erros de entendimento foram solucionados com a revisão do texto inteiro a cada capítulo novo escrito. Adriano traçou os perfis físico e psicológico dos personagens para ver se combinavam com os do meu sonho. Fomos ajustando à medida que escrevíamos, e sabíamos de antemão quem seria o personagem-assassino.

            Aprendi muito nesse processo. Havia trabalhado diversas vezes com Adriano – no I Seminário Nacional de Escrita Criativa de Pernambuco (2017), nos cursos da Livraria Cultura (2018), na especialização em Escrita Criativa (Unicap/PUCRS, 2019/2020), no videopodcast de A baronesa (2020), e em tantos outros projetos em comum. Mas nada se compara a ler a alma do outro que a escrita a quatro mãos nos propicia. É um exercício para a vida inteira, que recomendo a todas as pessoas que desejem, cada vez mais, bem escrever.

Patricia Gonçalves Tenório

Sherlock Holmes joga o fio

Anos atrás, quando comecei a rabiscar e encarar a profissão de escritor com a seriedade que ela merece, descobri que o ofício exige conhecimento de um misto de atividades, indo da bruxaria à artilharia de ponta. Um desses conhecimentos é a investigação, o autor precisa ser detetive, e um Sherlock necessita planejar, conhecer e confiar. E assim é a minha relação com a artista com quem divido esta obra. Autora há mais tempo do que eu, dedicada às letras antes mesmo de eu escrever ao menos uma linha, ela, a talentosa Patricia Tenório, foi quem, na verdade, me achou, me investigou e decidiu fazer de mim o seu Watson. Patricia é uma espécie de mentora e um exemplo para todos nós, um exemplo de como respeitar e amar a literatura.

Como pupilo, lancei o desafio para a mestra, ela me devolveu com o fio para eu poder entrar no labirinto e não perdê-la. Convidei Patricia para escrever uma obra a quatro mãos, ela aceitou e me intimou a um trabalho sério e muito prazeroso. Começamos a escrita já com organização e data de lançamento. Era o fim do “ahhh, amanhã eu escrevo”.

Mãos à obra. Criamos um método para a produção da novela, batizei-o de “crime por correspondência”. Funcionou e achei o máximo. Eu, que sempre fui um apaixonado por cartas, estava encantado. Toda vez que eu enviava um capítulo, esperava ansioso, nervoso e inquieto o retorno da minha madrinha autora. “Como será que ela vai resolver isso? Joguei uma bomba para ela desenvolver…”, pensava enquanto o texto não chegava, e, quando ele regressava, era uma explosão de felicidade. O jogo virava: “Como será que eu vou resolver? Ela me jogou uma bomba nas costas.” Fizemos isso por semanas, num respeitar britânico de horários até… até que eu travei no último capítulo.

Passei dias pensando como iria abrir o texto, rabisquei inúmeras situações em meu caderno de rascunhos, solicitei reunião com Patricia, escrevi, escrevi, escrevi, apaguei, apaguei, apaguei. Não quis ler coisas similares, achava que seria pior, porém, assisti a muita referência. Joguei meus planos para minha esposa Camylla, pedi a sua opinião, implorei por ideias. Estava mesmo desesperado. Patricia, calmamente, me aguardava. Até que, no dia 30 de junho de 2021, depois de finalizar a escrita de uma série para o streaming e enviá-la ao cliente, sentei em frente ao computador e soltei o dedo de uma vez só. Foi um alívio. Uma felicidade imensa poder concluir e entregar uma obra. É, outro jargão super certo, a escrita é cheia de dor e amor ao mesmo tempo.

Nestas minhas últimas linhas, quero dedicar meus capítulos e a obra como um todo a minha Sherlock Holmes. E aproveito para revelar ao caro leitor, ou leitora, que com este livro eu aprendi várias coisas, entendi que a famosa solidão do trabalho do escritor pode ter “cura” e o autor precisa de algo mais do que somente “papel, caneta e intuição”. Descobri também que para lançar mais uma obra ficcional no mercado me faltavam três coisas: parceria, organização e determinação.  E, por fim, compreendi que não poderia morrer sem antes publicar uma novela com Patricia Tenório. Recomendo a todos! 

Adriano Portela