Três contos inéditos

Luciano Bonfim*

 

COM O ESTANDARTE NA MÃO

Antonio percebeu que os cabelos dos meninos que fazem promessas para são Francisco são compridos. Às vezes ficava olhando a imagem do santo na sala de sua casa e não entendia porque isso acontecia. Ali, o santo aparecia quase sem cabelos. Apenas uma coroinha circular representava a sua cabeleira. Também notou que todos os meninos vestidos com trajes marrons, ao estilo do santo, além de não serem chamados de mulherzinhas, apesar da roupa e dos cabelos, não eram maltratados pelos pais. Mesmo quando aprontavam alguma, sempre aparecia alguém para defender e lembrar da promessa. Porém, existem pais que não combinaram com o santo para não castigarem filho desobediente.

Também se lembrou de outra coisa: muitos meninos que vestem aquela roupa não jogam bola na rua, tossem muito e têm piolhos. Menos o Nico – até que ele tem piolhos mas joga bola, corre em cima do muro da escola, briga, e não fica espiando e pedindo a merenda da gente na hora do recreio. É certo que o traje dele é mais preto de sujo do que marrom, além de ele viver mastigando o cordãozinho que fica preso à cintura amarrando o tecido ao corpo.

Ao ouvir na rua que uma promessa pode ser feita por causa de uma doença, rezou para ficar doente. Mas quando dizia sentir dores, sempre traziam chás e remédios de farmácia. Cansado de esperar pela promessa que não veio, começou a rir dos meninos vestidos em trajes à maneira franciscana. Nesta época, depois de uma briga na escola, começou realmente a sentir dores nas costas e no peito. A princípio não acreditaram. Depois consideraram ser (resultado da briga) por causa das pancadas. As dores continuaram por muitas semanas, ficando, inclusive, cada vez mais fortes; a ponto de nenhuma rezadeira ou médico conseguir curar tal problema. A família se lembrou de seus pedidos e decidida fez a promessa. Satisfeito, apesar do seu estado, insistiu para ir com a sua mãe à loja de tecidos e durante muito tempo usou contente o seu uniforme franciscano. Pela graça alcançada, a mãe não parava de louvar, rir e chorar. Compraram fogos de artifício para as noites de novena na capela e no dia da procissão, sem dores ou tosses, Antonio carregou bem firme o estandarte com a imagem do santo, também trouxe dois pulmõezinhos de madeira amarrados à cintura

 

RESSACA

 

Nossa! Você me lembra demais o seu pai… Por isso te odeio tanto! — disse a mãe à filha, antes de sufocá-la com o ursinho de pelúcia.

 

APESAR DA INSENSATEZ DOS CÃES QUE LADRAM NA RUA

Há vida no lixo que se acumula nas velhas sacolas de supermercado. Com amplo domínio da casa, as formigas, em disputa desleal com as baratas, inventam trilhas sobre os copos – agora livres dos enganos passados e habituais prisioneiros da desordem da pia. A imagem vinda da tela da TV se assemelha a cor do céu da manhã que talvez não me veja. As roupas no varal, apesar da insensatez dos cães que ladram na rua, dormem tranquilas, mimadas pelo vento da noite; e o meu corpo, vazio de roupas e significados, permanece à procura de um espírito…

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* LUCIANO BONFIM [Crateús/CE.]. Publicou: Dançando com Sapatos que Incomodam – Contos[2002]; Móbiles – Contos [2007]; Janeiros Sentimentos Poético[1992] s e Beber Água é Tomar Banho por Dentro[2006] – Poesia ; escreveu e montou as peças: Auto do Menino Encantado[2002] e As Mulheres Cegas[2000 e 2004]; criador da revista Famigerado – Literatura e Adjacências[2005]; professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA[desde 1996]; Mestre em Educação Brasileira[FACED-UFC/2008]; selecionado pelo programa Bolsa Funarte de Criação Literária/2010 – FUNARTE/MinC.

e-mail: luciano.bonfim@yahoo.com.br