Dois livros por mês | “Artemísias: vozes de libertação”** & “Amora”***

As vozes da libertação[1]

Patricia Gonçalves Tenório[2]

Novembro, 2021

            Em março de 2020, inaugurei o curso on-line e gratuito Estudos em Escrita Criativa com o mergulho em escritores ingleses, em especial, O conto da aia,[3] de Margaret Atwood.

            Narrado em uma sociedade distópica, mas que nos traz – de maneira apavorante – muitos dos elementos do mundo atual, Atwood nos apresenta a República de Gilead, depois do golpe que matou o presidente dos Estados Unidos e a maioria do Congresso americano. O grupo ditador e terrorista é católico e tem como tônica afastar as mulheres do mercado de trabalho e deixá-las apenas para serem mães e esposas dedicadas. Por causa de vazamentos químicos e radioativos, a maioria das mulheres tornou-se estéril, e aquelas em condições de procriar foram transformadas em aias, pertencentes aos comandantes do grupo terrorista, perdendo sua identidade (até mesmo o nome, por exemplo, a narradora deixa de se chamar June Osborne para ser Offred, ou seja, De Frederic Waterford, o comandante proprietário) e tendo como único objetivo de vida gerar filhos para as famílias às quais pertencem.

            Assistindo ao Fronteiras do Pensamento de 27 de outubro de 2021,[4] maravilhei-me com a lucidez dessa canadense de 81 anos, com mais de sessenta livros publicados e (ainda) atualmente professora de Escrita Criativa. Ela afirma, de maneira bem humorada, que é muito tarde para mudar de profissão, mas, o que mais nos interessa para esta breve resenha, é a proximidade do pensamento de Atwood com o dos textos das quinze escritoras da coletânea de contos e poemas Artemísias: vozes de libertação.

           Organizado, entre outras, por Iaranda Barbosa, Artemísias nos apresenta casos dolorosos de abuso sexual, de todas as formas possíveis e (in)imaginárias. A mulher como temerária, afirma Atwood na palestra, e por isso abafada, e violentada, e subjugada à opressão patriarcal da nossa sociedade (ainda) hoje em dia. A aia de Margaret, despossuída de qualquer direito, não está muito longe de vários casos citados no livro organizado (e um dos contos escrito) por Iaranda. E o pior: nós mulheres seguindo o regime patriarcal e condenando a nós próprias mulheres, por causa de roupas ousadas, de vida sexual libertária, de se dedicar a uma profissão normalmente exercida por homens.

            Mas a escrita independe de gêneros para nos salvar. Em “Teus continentes e os meus”,[5] resenha de setembro de 2021 desta coluna “Dois livros por mês”, ao analisar Os continentes de dentro, de María Elena Morán, cito o caso na vida real de uma pessoa amada que, adoecida psiquicamente, teve de ser internada em uma clínica. Isso tudo narrei nos originais do livro de apenas poucas leitoras (três para ser exata), no intuito de preservar a pessoa amada, Caminhos manchados de não. O que não mencionei na resenha do livro de Morán, é que a minha pessoa amada também sofreu abuso sexual, tendo como consequência o adoecimento psíquico.

            Quantas mulheres que conhecemos, inclusive nós mesmas, precisam chegar ao fundo do poço, inclusive tirando a própria vida, para que façamos algo generoso umas para as outras? Para nos protegermos? Para nos dar carinho, e força, e qualidade literária com técnicas refinadíssimas (transição de vozes narrativas, transformação em linguagem das características de personagens, fluidez entre os gêneros em um mesmo texto) que encontrei no livro de tantas mãos dadas que se chama Artemísias e ecoar, nos quatro cantos do planeta, a nossa voz de mulher?

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[1] Sobre Artemísias: vozes de libertação. Claudete Bispo, Iaranda Barbosa, Suelany Ribeiro… [et al.]. Organização: Amira Rose Medeiros, Denise Sintani, Iaranda Barbosa… [et al.]. Apresentação: Iaranda Barbosa. Prefácio: Geórgia Alves. Ilustrações: Amira Rose Medeiros, Liliane Correa, Maria Cardoso, Marina Presbítero. Design/Diagramação: Rebeca Gadelha. 1ª ed. Recife: Selo Mirada, 2021.       

[2] Escritora, vinte livros publicados, e um no prelo, escrito a quatro mãos com Adriano Portela, a ser lançado em dezembro de 2021. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: www.patriciatenorio.com.br; patriciatenorio@uol.com.br; www.estudosemescritacriativa.com; grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com.

[3] ATWOOD, Margaret Eleanor. O conto da aia. Tradução: Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, (1985 in) 2017.

[4] O Fronteiras do Pensamento é um projeto promovido por várias instituições, entre elas, a PUCRS. No segundo semestre de 2021, trouxe ao público grandes nomes do pensamento mundial, entre eles Jared Diamond, Yuval Noah Harari e Margaret Atwood. A palestra com Atwood foi mediada pela escritora e atriz Bruna Lombardi. Maiores informações: https://www.fronteiras.com/

[5] Sobre Os continentes de dentro, María Elena Morán. Apresentações: Luiz Antonio de Assis Brasil e Julia Dantas. Porto Alegre, RS: Zouk, 2021. Publicado em 26 de setembro de 2021 no link: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=10098      

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Amor & Amora[1]

Patricia Gonçalves Tenório[2]

Novembro, 2021

            A maioria dos professores e professoras de oficinas literárias e Escrita Criativa afirmam, com todos os átomos de Epicuro, que não existe talento. Tomo a liberdade (e a ousadia) em discordar.

            E acreditar na máxima de Ariano Suassuna quando, no seu Iniciação à estética[3](que não me canso de repetir e repetir e repetir), afirma (também), com todos os átomos (de Epicuro), que não basta a intuição (ou inspiração criadora); é preciso o ofício (ou trabalho diário) e a técnica (ou estudo contínuo), para quando aquela inspiração criadora descer do sol feito ave de rapina, nos encontrar preparados e preparadas e darmos o salto, e construirmos uma obra de arte.

            Mas estamos falando o mesmo de maneiras diversas. Ariano afirmando a intuição; eu, o talento. Está bem, vamos chamar talento de uma tendência maior para a escrita. E, para resenhar nesta coluna “Dois livros por mês”, encontro, após vinte e um meses do presente recebido, o livro vencedor do Prêmio Jabuti de 2016, Amora, da escritora e professora gaúcha Natalia Borges Polesso.   

           Conheci Natalia na especialização em Escrita Criativa da Unicap/PUCRS (ela foi uma das ministrantes da Oficina de Narrativa II – O romance e a novela) que ajudei a criar em Recife, assim como coordenar a primeira turma e ministrar a disciplina Empreendedorismo Literário (2019/2020). Conheci Natalia às vésperas do Carnaval de 2020, o último Carnaval antes da pandemia. E não sabíamos o que nos aguardava, eu não sabia o que me aguardava lendo esse livro abissal com o qual me presenteou.

            Amora converge coragem, carinho e técnica. Tudo no mesmo espaço contíguo da página impressa, no mesmo espaço contínuo do coração de Natalia para quem a lê. E lá estão as técnicas mais refinadas – mudança de voz narrativa sem que nos percamos, transmissão de conhecimento de maneira literária, pílulas de poesia em plena prosa e intergenericidade dos textos, intergenericidade da vida.

            Composto por trinta e três contos, os vinte e sete mais longos fazendo parte de “Grandes e sumarentas”, e, os seis mais curtos, de “Pequenas e ácidas”, Amora vem me provocar escritura, e das boas (espero eu) – e que deveria ser, penso eu, o sentido da leitura dos grandes livros contemporâneos ou clássicos: nesta madrugada de 15 de novembro, brota um texto, uma novela fragmentada, e provocada pela leitura, em dois dias, do livro de duzentas e cinquenta e cinco páginas de Natalia, a quem agradeço, com vinte e um meses de atraso, o presente, no melhor sentido da palavra, que ela nos deu.


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[1] Sobre Amora. Natalia Borges Polesso. Apresentação: Paloma Vidal. 6ª impressão. Porto Alegre: Não Editora: 2015.       

[2] Escritora, vinte livros publicados, e um no prelo, escrito a quatro mãos com Adriano Portela, a ser lançado em dezembro de 2021. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: www.patriciatenorio.com.br; patriciatenorio@uol.com.br; www.estudosemescritacriativa.com; grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com.

[3] SUASSUNA, Ariano. Iniciação à estética. Texto revisado e cotejado por Carlos Newton Júnior. 5ª edição. Recife: Ed. Universitária da UFPE. 2002, pp. 235-240.