Dois livros por mês | “O lado que não era visível para quem estava na estrada”** & “Catálogo de pequenas espécies”***

No mês de outubro de 2021, apresento dois colegas muito queridos e talentosos que tive a honra em conhecer na PUCRS: Luís Roberto Amabile e Tiago Germano.

Deixemos que as resenhas que fiz falem por si mesmas.

Boa leitura!

Patricia Gonçalves Tenório.*

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* Escritora, vinte livros publicados, e um no prelo, escrito a quatro mãos com Adriano Portela, a ser lançado em dezembro de 2021. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: www.patriciatenorio.com.br; patriciatenorio@uol.com.br; www.estudosemescritacriativa.com; grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com.

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O lado visível de quem está na estrada[1]

Outubro de 2017. Estávamos em minha casa, em Recife, PE. Jovens escritores brindavam com suco de acerola ao mestre maior em Escrita Criativa no país, Luiz Antonio de Assis Brasil. Entre os jovens escritores está ele, na época com barba e ainda não era pai. Havia escrito vários contos, livros, recebido prêmios e desbravávamos, ousadamente, a área dos nossos sonhos, e paixão, e (por que não?) vocação na minha cidade-natal.

                  Estou falando de Luís Roberto Amabile, cujo terceiro livro publicado, O lado que não era visível para quem estava na estrada, tentarei abordar nesta coluna de outubro de 2021 “Dois livros por mês”.

                   O livro de Amabile é o resultado da tese em Escrita Criativa pela PUCRS defendida em 2020. Esse jovem escritor (e brilhante) nos presenteia com diversas técnicas da área dos nossos sonhos que, mais uma vez, tentarei, na presente resenha, elencar.

                   São dezesseis contos primorosos, que nos causam estranhamento, que nos provocam criação. Entre eles, “Beija-flor”, um conto que usa palavras repetidas ad infinitum (asasasasasas…) para simular o movimento ultra rápido das asas do pássaro querido, e nos desnorteia com um final incrivelmente estético. 

                   Amabile nos guia por músicas, artistas plásticos, cidades, países, personagens que se parecem com os vizinhos, ou parentes, enfim, como se fossem nossos. Nos coloca em contato direto, nu e cru, com a morte, a doença, a possibilidade da perda da memória, um dos maiores medos do ser humano.

                   Em “Budapeste”, parece que flano pelas ruas da cidade que visitei com meus filhos em 2018, “porque existe sempre a possibilidade de outros imaginarem uma história que vivemos e a contarem num livro”.[2] E Amabile conta a minha história, se aproxima do filme De olhos bem fechados[3] (adaptação de Breve romance de sonho[4]) e nos brinda com o texto não ficcional após a própria ficção, nos ensinando que o que importa, o que importa mesmo, é escrever boa literatura.

                   Em “Dois homens que (nunca) se encontraram em Buenos Aires”, Amabile nos traz o homem anterior (morto) e o homem posterior (vivo), que me faz lembrar do homem do sonho e do homem da vida de Mário de Andrade em Amar, verbo intransitivo, que dissertei no curso on-line Os mundos de dentro, no módulo 9, em setembro de 2021.

                   Em “Fresta”, encontramos um detetive de escritores e, mais uma vez, investigamos a poiesis superior à história de Aristóteles na Poética, por ser a poesia, a ficção, aquilo que poderia ter acontecido, enquanto a história ser aquilo que realmente aconteceu, e o autoconhecimento que a escrita nos dá. Nesse conto, viajamos a Paraty, e parece que vejo a Pousada da Marquesa (uma pousada com janelas azuis), que tive a honra de conhecer em 2006, em meio aos escritores convidados da Flip. Amabile/Narrador pergunta a Paul Auster: “Quando o senhor sabe que um texto está pronto?”,[5] e me lembra do La Closerie de Lilas que tive o prazer de almoçar quando na minha estada em Paris (2006-2007).

                   Sempre com um humor aguçado (sim, podemos nos divertir enquanto lemos boa literatura), Amabile nos faz transitar pelos dois lados da beleza – na tristeza e na alegria –, como se nos comprometesse, nós escribas, ao casamento com o amor perfeito da palavra, das palavras, da arte “polvilhando a cena”,[6] “o creque das folhas”[7] enquanto nos debruçamos nas últimas páginas, que Luís Roberto Amabile escreve e nos inscreve em seu universo de “magia e técnica” e nos faz enxergar o quanto caminhamos nessa estrada árdua, mas imensamente prazerosa da escrita, esse lado visível de quem se doa completamente e já está na estrada há muito tempo. Ao menos, a vida inteira.  


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[1] Sobre O lado que não era visível para quem estava na estrada, Luís Roberto Amabile. Apresentação: Amílcar Bettega. Porto Alegre, RS: Zouk, 2020.    

[2] AMABILE, Luís Roberto, Op. cit., 2020, p. 28.    

[3] De olhos bem fechados. Eyes Wide Shut. Reino Unido. 1999. 159 min. Direção: Stanley Kubrick. Com Tom Cruise, Nicole Kidman, Sidney Pollack, entre outros. Trailer:  https://www.youtube.com/watch?v=yxqrzWe0Ggc

[4] SCHNITZLER, Arthur. Breve romance de sonho. Tradução: Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia das letras, (1926 in) 2011.

[5] AMABILE, Luís Roberto, Op. cit., 2020, p. 52.    

[6] AMABILE, Luís Roberto, Op. cit., 2020, p. 72.    

[7] AMABILE, Luís Roberto, Op. cit., 2020, p. 113.    

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O inquietante catálogo de pequenas espécies[1]

           No volume XIV das Obras completas,[2] o pai da Psicanálise, Sigmund Freud, escreve sobre o inquietante, ou estranho. A partir da narração de dois textos ficcionais, “Macbeth”, de William Shakespeare, e “Rosmersholm”, de Henrik Ibsen, Freud irá analisar o comportamento das respectivas personagens centrais: Lady Macbeth e Rebecca Gamvik. Durante a análise dos textos, irá expor a impotência dessas duas personagens principais, mesmo (e principalmente) após o sucesso.

            Encontramos esse mesmo inquietante (ou estranho) de Freud no Catálogo de pequenas espécies, em outro colega meu da PUCRS, o escritor e professor de Escrita Criativa, nascido em Picuí, PB, mas pertencente ao mundo inteiro, Tiago Germano.

            Os vinte contos, divididos em duas partes (Taxonomia e Cadeia Alimentar), são permeados pela mais pura realidade. Até se confundem com as crônicas, gênero que Germano navega muito bem, vide Demônios domésticos (2017). São as espécies desse catálogo tão rico, de animais racionais e irracionais (quais deles nós humanos seríamos?, e será que gostamos de ser humanos?, como questiona a epígrafe da primeira parte Taxonomia), que nos causam estranhamento, nos provocam inquietação, porque nos reconhecemos em muitos dos personagens e cenas, como se Germano houvesse nos adivinhado, mesmo sem (ainda) nos conhecer.

            Frases altamente poéticas dão força às narrativas e ampliam os horizontes nublados de nossos dias absurdos, pós (ainda) pandemia. Em “Até os lobos uivam quando estão sozinhos”, Germano nos apresenta um personagem canino que irá retornar em “A lei do mais forte”, quase no fim do livro. No primeiro conto, nos aproximamos do narrador com frases do tipo “lambe a massa pastosa do sono”,[3] ou o “cão nos chama”.[4] Em “Chiclete azedo”, Tiago nos lembra do mito suicida de Sísifo, e ata “as duas pontas da vida”.[5]  Em “Le Gran Circus Moscow”, Germano nos presenteia com a belíssima metáfora da “pequena área, cama elástica dos meus voos rasantes”,[6] quando o narrador menino transforma, através de palavras, o campo de futebol em tenda de circo. Já em “Sobrevida”, nos deliciamos com as “emendas de histórias reais” que o avô do narrador teimava em contar e, com isso, forjar a imaginação criadora de um possível neto escritor. Os refrões e as cenas que se repetem em “A lei do mais forte” (os sapatos) e as informações (corridas, raças caninas) que fazem um bom texto literário contribuir para nosso crescimento intelectual e cultural.

            Mas o que me fez comparar os contos de Tiago Germano com o Unheimlich de Freud, foram exatamente os finais cortados, ou melhor, os/as leitores/as convidados/as a criarem junto com o autor, a partir do que nos sugere, indo além do que nos sugere, na ambiguidade do fracasso no sucesso da criação literária. Os textos inquietantes têm essa característica de nos retirar da zona de conforto e não sabermos distinguir se estamos felizes com o desfecho, ou vingados, ou não. Temos, isso sim, uma estranha sensação de vazio, inquietante, de que algo precisa ser feito, e urgente, para preencher o buraco profundo que nos devassa e nos puxa para dentro cada vez mais.

            Quem sabe, ao chegarmos no mais profundo desse oco literário, atinjamos a nossa essência, e, voltemos à tona maiores e melhores escribas? 

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[1] Sobre Catálogo de pequenas espécies, Tiago Germano. Apresentação: Irka Barrios. Nova Lima, MG: Editora Caos & Letras, 2021.    

[2] FREUD, Sigmund. “O inquietante”. In: Obras completas, vol. XIV, São Paulo: Cia das Letras, (1919 in) 2010, p. 328-373, [FREUD, S. “Das UNHEIMLICHE”, in: FREUD, S. Der Moses des Michelangelo, Frankfurt a. M.: Fischer, (1919 in) 1992(1996), p. 135-172].    

[3] GERMANO, Tiago, Op. cit., 2021, p. 16.    

[4] GERMANO, Tiago, Op. cit., 2021, p. 18.    

[5] GERMANO, Tiago, Op. cit., 2021, p. 24.    

[6] GERMANO, Tiago, Op. cit., 2021, p. 18.    


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