Estudos em Escrita Criativa On-line | Setembro, 2021

No módulo 9 do curso Os mundos de dentro dos Estudos em Escrita Criativa On-line, investigamos a casa, a vida e a obra de um dos maiores escritores, poetas, artistas brasileiros Mário de Andrade.

Aula 1 | Módulo 9:

Na aula 1, descobrimos a praticidade do olhar do módulo 9, com a indicação de manuais do Brasil e do mundo sobre a escrita criativa; investigamos o enredo polêmico do livro escolhido para o módulo, Amar, verbo intransitivo; constatamos a quebra com a língua portuguesa de Mário de Andrade no seu romance de estreia para criar uma língua genuinamente brasileira (uma das características marcantes do Modernismo) como se fosse o corte do cordão umbilical materno; confirmamos com Mário a importância da construção do personagem que provocará o enredo, como afirma Assis Brasil em Escrever ficção; detectamos os conceitos de homem-do-sonho/homem-da-vida em Mário comparados com o conceito de super-homem em Nietzsche (Assim falava Zaratustra);

Aula 2 | Módulo 9:

Verificamos a construção dos personagens de Mário como se tivessem alma própria, comparando-os com Seis personagens à procura de autor, de Luigi Pirandello; identificamos a repetição de frases como se fossem a marcação musical do texto – Mário como pioneiro no ramo da etnomusicologia do país –, e traçamos um paralelo entre os refrões de Mário e “A filosofia da composição”, de Edgar Allan Poe, encontrados também na importância da preparação para a escrita de uma boa história ensinado por Raimundo Carrero em Os segredos da ficção; indicamos filmes e aplicamos o exercício de desbloqueio.

E não percam a nossa live na próxima quarta-feira 29/09/2021, a partir das 19h, no nosso canal do YouTube! Teremos a honra e a alegria de recebermos a artista plástica e professora por mais de vinte anos da Universidade Federal de Pernambuco, a tão queridíssima Maria do Carmo Nino! Aguardamos vocês!

https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

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Exercícios de Desbloqueio:

Módulo 3 | Ferreira Gullar:

Luciana Beirão de Almeida

Contato: lubeirao@hotmail.com

O vírus

Vírus que mata, sufoca, asfixia

Vírus que afasta, que isola

Vírus invisível

Que nos deixa sem ar.

Um aperto no peito

E uma necessidade de mudança.

Urgente.

É um vírus que atinge a todos.

Muitos negam,

Mas ele está ali.

Escancarado na nossa frente.

Como um tapa na cara,

Gritando pra ser ouvido.

Esse vírus, meu amigo,

Tem um nome:

Ele se chama indiferença.

O vírus

*

Módulo 8 | Hilda Hilst:

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Debochada senhora B

Só estou olhando para sua carinha de sonsa, Berna! Eu? Você me conhece muito bem, sou seu Tede. Vai ter que saber algo de mim. Agora que estávamos face a face, dentro deste apartamento por tantos meses, vai ter que me encarar. Não verá nada angelical. Com anjinhos tocando trombetas e sinfonia divinas. Pois eu cuspo cada palavra que sai da boca enquanto você mede as palavras, menina boazinha… Tede não tem papas na língua. Deixa o nhem nhem nhem, desembucha! Nada do hei porã do povo Guarani e o ideal de vida indígena desde José de Alencar. Estou mais perto do vilipendiado indígena que resta num traçado de terra. No tempo deste infame marco temporal. Que eu digo NÃO! Ponho o verbo no mundo com todos erres e esses para ficar bem desbocado. Uma verborragia bem merda no ventilador..  vai fazer beicinho? Pensa que tenho dó de sua cara de vítima!? Não me comove nem um pouco.  Prefiro escorregar nos becos lamacentos do poema de José Régio, a ir por aí nesse caminho de faz de conta. A minha glória é esta! Glória aqui pode ter sobrenome Pires, Menezes, Estefan, bem chão e palco. Nada das alturas que me causam um revirar no estômago.  Arrasto os chinelos por esse chão de porcelanato reluzente entre tarefas de casa e esse canto da sala para o mundo a escrever baboseira. Senhora com B maiúsculo a desenhar sua sombra gorda, a magra de Augusto dos Anjos era em outro século e séculos amém. Prefiro o deboche de Hilda do que ficar com essa postura de menina bem comportada, não querendo fazer mal a ninguém. Porque a vida “marvada” como a viola que fala alto no peito humano cantada por Rolando Boldrin ainda… assobio, o mesmo script saindo da tv não esqueci. Você esqueceu, Brena? Esqueceu daquele tempo da menina mirrada, a lição da estrada a dizer: este lugar não é seu… Vai chorar? Eu vou mandar todos tomarem no cu. No centro daquele orifício que todos têm medo até de mencionar. Aquele canto que joga merda nesse mundo! Pois eu profirto com gosto. Que força tem a frase, um grande maha mantra, “vá tomar no cu!” Puta que pariu! Eita, outra palavra gostosa! Pronto. Agora me olha com essa cara horrorizada. Eu, Tede, besta-fera. Aquela que não lambe sabão.  Se não fosse eu que dissesse tudo que pensava, que gritasse, que berrasse, que crescesse a cada grito, quando descobri que o grito libera todo o ki da raiva lá borbulhante… Você sobreviveria?  Passou liquid paper na história de nossa vida, foi? Mas o que está escrito continua lá ruminando como a vaca faz capim. Algo permanece como nos palimpsestos… já sei, já sei que vai dizer que tudo se organizou. Esqueceu a historia de Moisés largado no cesto do rio…. Tá lembrada do trono que você foi endeusada e coroada, onde chegou mais alto que a lua, para depois não valer mais nada.? Rainha deposta. Nada nada nada aqui não acontece nada não… entre quatro paredes e como naquele tempo de auto exilio nem um olhar carinhoso. Indiferença. A pior das interjeições. Baixa a senhora D de desemparo… Chora, bobona. Chora sobre o leite derramado. Tede não esquece fácil. Tudo está aqui porra nadica de nada se perdeu no fundo da caixa de pandora que tornou esse apartamento. Sabe o que mais? Vou até lambuzar de bosta este monólogo e mandar o verbo mais belo com marca bostoca como dizia o meu povo antigo, envelopar e entregar, levar meu cavalo de Tróia. Que até pode ser por e-mail, nem saio de casa, e o vírus vai pelo computador todo endereçado ao pequeno príncipe (aliás muito pequeno). Mensagem instantânea Berta e em letras garrafais o cavalo de Tróia vai sair um “Vá se foder!” Foda-se completamente. Você acha ruim? É o perdão acima do imperdoável que você apregoa e Deus permite isso? Injustiçar o mais fraco? Tá aperreada, Brena bestinha? (metida a santinha). Pois eu já imagino o e-mail chegando. Já estou aqui rolando me rindo até sair lágrimas alegres nessas letras dedilhdas com a força do verbo que se fez bosta kkkkkkk. Por que me olha com esse carinho. Puta que nos pariu. Porque Ela me apanha do chão. Porque espera ao meu lado pelo tempo certo. Porque circunda e me abraça no fundo do seu coração.  Brena, você também já perdoou? Não sente nem vontade de gritar bem alto CARALHO? De morrer de rir se o caralho de asa despencou? Por que me olha assim com tanto carinho? Você que também caminha para junto de mim, puta merda! Estais sempre ao meu lado, tão zen que dá raiva. Que raiva? Que tristeza? Que dor? Aqui, neste apartamento, temos apenas eu e você face a face, a pandemia lá fora. Neste mundo de dentro, através da escrita, você me abraça novamente. Neste abraço apertado, carinhoso, nos parimos para uma vida melhor. Nós duas integradas somos FODA!

RECIFE, 22 DE AGOSTO DE 2021

*

Cilene Santos

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

VULNERÁVEL CORAÇÃO

Foi tão leve o toque

Da tua mão

Em minha pele

Mas o bastante para que ela

Eriçada reagisse

E comandasse as batidas

Dentro do meu peito

E no cérebro o atropelo das ideias

Norteasse assim o meu corpo inteiro

Que fazer com este coração

Que me incendeia

Me afraca e fortalece

Ao simples e breve

Tocar das tuas mãos

*

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

LUMINESCÊNCIA 

Luminescência

Lume

Essência

De onde vem?

*

Talvez

Do primeiro vislumbrar

Do mundo lá fora

Dos últimos estertores

De vida

Do fogo fátuo

Da última gordura

Assombrando vidas

No calor da noite

Do primeiro choro

Do último fôlego

Das luzes explodindo

Em vida

Ou da cor do arco-íris

Se desfazendo uma a uma

E se entregando

Se integrando

De volta ao

TODO!

*

Elenara Leitão

Contato: arqstein@gmail.com

Lembra-te do anônimo da Terra

Que meditando a sós com seus botões

Gravou no relógio das quimeras:

É mais tarde do que supões”

Cantares de perda e predileção (1983) – Hilda Hilst

Leio bastante. 

Não o suficiente, é verdade. 

Mas mais que antes. 

O antes do tempo não focado.

O antes da mente embotada

O antes do medo permanente

Se faço um breve passeio no ontem

Vejo folhas caídas, amassadas, largadas

Vejo folhas jogadas e perdidas

Se revisito o hoje

(e se o faço)

é porque sou eterna viajante

mesmo no instante que escrevo

Percebo folhas arrumadas

Inquietas, é verdade

Naquelas arrumações esquisitas

Bagunçadas até

Mas mesmo assim mais arranjadas

Me observo sentada, meus dedos mais ágeis

uma breve luz chega de lado

Um relógio imaginário

com ponteiros enfeitados

teima em girar adoidado

Ora devagar

Ora apressado

Nesse rodopio de taques e tiques

eu bailarina

Júbilo, memórias e mais Hildas

Poetam-me na vã tentativa

de afogar receios

de fomentar coragens

de apressar destinos

É tarde, grito angustiada

Nunca é, ressoam as letras

Os ventos gemem

as rodas andam

cachorros ladram

eu bailo

*

Ilana Kaufman

Contato:ilakau7@gmail.com

A indiferença do ser humano

Cansaço

Desesperança

desta espera

que parece

sem fim

Até quando

o descaso de uns,

impedirá, pelo medo,

o viver de outros?