Dois poemas de Altair Martins*

68. CONLUIO DO 7 DE SETEMBRO

*

Podes delegar às nuvens
tuas injustiças de gaveta:
a covardia da tua educação particular,
o bairro onde moras,
o plano de saúde
e as vantagens do teu partido.
O riso americano
e o gesto de lavar as mãos
depois da missão cumprida
provam que todos podem vencer.
É o teu caso na firma.

*

Ganhas mais que os outros
porque trabalhas mais que os outros.
Mas as nuvens nunca viram
o homem que limpa o banheiro da rodoviária.
Porque, se nem tu nem a nuvem
conhecem a rodoviária,
a rodoviária não existe no quadro de medalhas.
Assim, se todos podem vencer um dia,
um dia também o teu banheiro
não será mais limpo.
Então trabalhas (de verdade)
para que este dia nunca chegue.

*

Claro, as nuvens se ocuparão de repassar
às outras repartições da atmosfera
as pessoas que coube a ti demitir,
assim como as vantagens da tua vitória
sobre o homem que limpa o banheiro da rodoviária
e que não sabia que estava competindo.
Não se vai a Miami de ônibus.
Não te interessa quantas privadas custa o gás de cozinha.

Teus carros que falam, tuas casas movediças,
as fotografias em redes sociais
e as viagens aos lugares-comuns
onde as embalagens luzem
— tudo isso também defeca.
Será lavado pelas nuvens
quando o lápis quebrar a ponta
e verificar um erro nas tuas operações de simples soma.
Sob o olho comparsa do céu,
com chuva ou com sol
(em Miami ou na rodoviária)
alguém trabalha mais que tu.

*

Mas nada do que consomes
em verdade consomes.
Nenhum bicho morre
para o bife e o casaco que te guarnecem.
A água suja é só água que nasceu suja.
Não vem do cartão de crédito.
Eis uma infração das nuvens:
os índios sempre beberam dessa água
e só morreram por falta de seguro.

*

Dorme.
O céu não insinuará qualquer coisa
sobre os bem-sucedidos aqui da terra
porque do alto não se vê a rodoviária.
Lá, tudo o que flutua também lucra
com a tua coleção de relógios.
Nenhuma nuvem jamais descobrirá a tua senha.

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Fotografia: Louis Scur Carrard.

AUDIO-2021-09-08-16-17-48 – Altair I

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69. SUPERPODEROSOS ATRAVESSAM A CIDADE
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Temos superpoderes
de parar um ônibus de 14 toneladas
apenas com um aceno.
Nossa voz ordena que máquinas assim
voem pelas avenidas
embora rentes ao chão.
Sobretudo quando é cedo,
temos a velocidade de chegar ao trabalho
com apenas 20 minutos de atraso
e assim permanecemos incógnitos.
E apesar de tudo o que os vidros desperdiçam,
nossa visão aguda atravessa as coisas
e não desperdiça nada.

*

Comandamos, todos os dias,
nossa equipe de extraordinários sempre a postos.
Lemos a mente de cada um e sabemos
que todos disputam uma trincheira,
uma receita que traga o amor de volta
ou um abono salarial.
Mentalizamos o time de futebol por que torcem,
e por isso nos é dado entender tanto o fracasso
quanto o riso assustado.

*

Sempre feridos, e é assim que não nos ferimos fácil.
Nossas mãos crescem conforme a fome
e o medo e nos cicatrizam das palavras cruéis.
Temos pés alados dispostos ao salto, ao assalto
e ao desejo que nutrimos uns pelos outros no domingo.
Nossas capas ficam mais fortes com as chuvas.
Nosso fim de mês nos garante acima
do cordão da calçada e das frutas estendidas
cujo veludo ou verniz nos esperava.
Contamos com o superpoder da espera
e por isso esperamos incansavelmente,
vagando pelas vozes de um rádio
(esperamos),
viajando para as fotografias mais distantes
(esperamos),
(esperamos) que o portão de casa se abra
dourado e nos abrigue no esconderijo
que somos nós, enfim, sem uniforme.

*

Tudo agora é claro: nunca morreremos,
porque depois de nós, sempre outros.

*

Secretos, sob o chuveiro dos normais,
detemos apenas com o corpo
as águas de um banho que é apenas nosso.

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Fotografia: Leonardo Sessegolo.

AUDIO-2021-09-15-12-27-01 – Altair II

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* Altair Martins (Porto Alegre, 1975). Bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) — ênfase em tradução de língua francesa —, mestre e doutor em Literatura Brasileira na mesma universidade. Ministrou a disciplina de Conto no curso superior de Formação de Escritores da UNISINOS entre 2007 e 2010. É professor da Faculdade de Letras e de Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), atuando no Programa de Pós-graduação. Coordena o projeto de pesquisa O fantástico em tradução. Tem textos publicados em Portugal, na Itália, França, Argentina, no Uruguai, na Espanha, Hungria, em Luxemburgo e nos Estados Unidos. Ganhou, entre outros prêmios, o São Paulo de Literatura (2009, com o romance A parede no escuro) e o Moacyr Scliar (2012, com os contos do Enquanto água). A peça teatral Hospital-Bazar (Porto Alegre: EdiPucrs, 2019), o romance Os donos do inverno (Porto Alegre: Não editora, 2019) e Labirinto com linha de pesca (Porto Alegre: Diadorim Editora, 2021) são suas últimas publicações. Ministrante, desde 2019, da disciplina Oficina de Poesia na especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS (2019.2). Contatos: altairt.martins@pucrs.br; www.altairmartins.com.br