Dois livros por mês | “Os continentes de dentro”** e “Breve como tudo”***

Setembro, 2021

Patricia Gonçalves Tenório*

A coluna deste mês traz duas mulheres salvadoras, duas amigas escritoras que me resgataram do abismo que assombra todas nós, seres humanos do sexo feminino e escribas.

As duas foram colegas da PUCRS. As duas escreveram sobre o mergulho para dentro de nós que fazemos quando desejamos, com todas as forças, o bem-escrever.

Com vocês: María Elena Morán Atencio e Gisela Rodriguez!

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Teus continentes e os meus[1]

Estar contente com o que se é, com o que se tem, não é a maior parte da felicidade?[2]

(Elogio da loucura, Desidério Erasmo)

                   A ilha é a de Salos. O país, Venezuela. Mas a escrita de María Elena Morán[3] não tem fronteiras, nem continentes: cabe o universo infinito da mente humana.

                   Conheci María Elena ainda como aluna ouvinte na disciplina Oficina de Criação – Narrativa, da pós-graduação em Escrita Criativa da PUCRS, em 2016, ministrada por nosso futuro orientador em comum Luiz Antonio de Assis Brasil.

                  E conheci o seu romance de estreia com cheiro de maresia quando ele ainda estava em construção, quando María ainda tecia com palavras as muralhas do hospital psiquiátrico da ilha de Salos, na Venezuela onde nasceu e de onde retirou suas imagens mais profundas sobre a natureza humana, em especial, sobre uma das maiores possibilidades da natureza humana: a loucura.

                   No Museu do Inconsciente, Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, havia uma placa na entrada do também hospital psiquiátrico Pedro II, no qual a médica alagoana Nise da Silveira[4] desenvolveu, na década de 1950, um trabalho pioneiro com “clientes” (ela preferia o termo a “pacientes”) em estágio avançado de demência e outras doenças psíquicas, na entrada do hospital havia uma placa com a seguinte frase:

                   – O louco é aquele que vai e não volta; o artista é aquele que vai e volta.

                   María Elena nos apresenta Aída Rojo, avó de Sofía, para quem (con)fabula, no papel de personagem principal, toda uma história de Sereias, Sentinelas do Mar, Ajudantes de Transição e Vigias de Terra, os três primeiros tipos pertencentes aos Continentes de Dentro, e o quarto tipo pertencente ao Continente de Fora.

                   María Elena utiliza técnicas refinadíssimas de escrita criativa, a começar pela estruturação de uma ilha abandonada pelos médicos e enfermeiros e deixada nas mãos da filha (Rita) de uma das pacientes. Sofía, quase assassinada quando criança pelo devaneio extremamente fértil (e louco) da avó, se apropria das cartas-narrativas escritas por Aída encontradas nas páginas de livros da biblioteca da ilha, e até de um estatuto com cláusulas bizarras delimitando o mínimo de ordem perante o caos. Além da estrutura monumental criada por María/Sofía/Aída, encontramos em Os continentes de dentro as técnicas das listas, dos refrões, das incorporações da personalidade dos personagens na linguagem de cada um, e o diálogo riquíssimo com clássicos da literatura universal e venezuelana.

                  Mas o que mais me chamou atenção foi a proximidade do real que o livro de estreia de María Elena Morán me provocou. Não por acaso o escolhi para a coluna “Dois livros por mês”[5] de setembro, 2021. Li e escrevi esta resenha de um gole só: dois dias para a leitura das densas duzentas e trinta e seis páginas do livro; duas horas para a escrita dessas duas páginas de resenha. Li e escrevi em agosto a coluna de setembro, porque ocorria na vida real (se pode existir uma vida unicamente real), com uma pessoa muito querida minha, algo semelhante à avó da personagem principal: o adoecimento psíquico.[6] Morán mostrou-me os caminhos da loucura e apaziguou a angústia de toda pessoa que ama: o que fazer quando a pessoa amada se perde nos descaminhos da própria mente? A neta Sofía vai descortinando a loucura da avó e vai perdoando os cuidados extremos da mãe Taís, os cuidados não correspondidos da filha Taís para com a mãe Aída e para com a própria Sofía.

                  Muitas vezes nos culpamos pelas dores e doenças das pessoas amadas, e é certo que grande parte do adoecimento psíquico tem a ver com os relacionamentos mais próximos. Mas é certo também que o/a cliente (como chamava Nise da Silveira) precisa desejar a cura (o desiderio de Erasmo na epígrafe desta resenha), e a tua Sofía, Morán, desejava, apesar do caminho sem volta da avó Aída para as profundezas do mar. Espero que a minha pessoa amada também deseje essa cura, também sobreviva aos cuidados dessa ilha chamada clínica psiquiátrica e volte mais forte para o nosso meio, que seja a artista que a médica alagoana do Engenho de Dentro profetizou lá no Rio de Janeiro, e você, María Elena Morán, aliviou a minha angústia com teus continentes de dentro de Salos, Maracaibo, Venezuela.

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* Patricia Gonçalves Tenório é escritora, vinte livros publicados, e um no prelo, escrito a quatro mãos com Adriano Portela, a ser lançado em dezembro de 2021. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: www.patriciatenorio.com.br; patriciatenorio@uol.com.br; www.estudosemescritacriativa.com; grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com.


[1] Sobre Os continentes de dentro, María Elena Morán. Apresentações: Luiz Antonio de Assis Brasil e Julia Dantas. Porto Alegre, RS: Zouk, 2021.  

[2] Elogio da loucura, Desidério Erasmo. Tradução: Paulo Neves. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011, p. 35.

[3] María Elena Morán Atencio nasceu em Maracaibo, Venezuela, em 1985. Formada em Roteiro na EICTV, Cuba, e em Comunicação Social na Venezuela, é mestre e atualmente cursa o doutorado em Escrita Criativa, na PUCRS. Autora do livro Misceláneas del Desamparo, tem contos publicados em antologias e revistas. Entre seus curta-metragens como roteirista destacam-se Honor al Mérito, Cebú e Estela, selecionados e premiados em diversos festivais internacionais. É corroteirista do longa-metragem Livramento. Hoje trabalha como roteirista de cinema e TV e ministra oficinas de roteiro como a Criativas, em Porto Alegre/RS. Seu primeiro romance, Os continentes de dentro, saiu pela Zouk em 2021. Contato: marielenamoran@gmail.com.

[4] No filme Nise – O coração da loucura (2015, 116 min, direção de Roberto Berliner, com Glória Pires, Simone Mazzer, Cláudio Jaborandy, Fabrício Boliveira, entre outros), descobrimos o trabalho pioneiro da psiquiatra alagoana Nise da Silveira no hospital Pedro II, no Rio de Janeiro, valendo-se da arte terapia das mandalas de Carl Gustav Jung. Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=UeAUNvcM_xk

[5] A coluna “Dois livros por mês” do meu blog, iniciou em julho, 2021 com o nosso colega de PUCRS Gustavo Melo Czekster sobre o seu também belíssimo A nota amarela.

[6] Para preservar a pessoa amada e ao mesmo tempo elaborar o que seu adoecimento psíquico causou em mim, escrevi em dez dias a novela Caminhos manchados de não, que somente foi lida pelas amigas (também) literárias Bernadete Bruto e Elba Lins e, talvez no futuro, pela própria pessoa amada.

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Da brevidade insustentável do ser[1]

Faz-se necessário muito recolhimento para dentro de si próprio.[2]

(Da tranquilidade da alma, Sêneca)

                   A outra autora que veio apaziguar minha alma no mês de setembro de 2021 foi Gisela Rodriguez[3] e o seu Breve como tudo.

                   Escrevi em “Teus continentes e os meus” sobre o livro de María Elena Morán e o quanto ele me salvou no adoecimento psíquico de uma pessoa amada. Em “Da brevidade insustentável do ser”, é a mim que a mais carioca das gaúchas que eu conheço, Gica Rodriguez, descreve: Janine Alves, ou simplesmente Jan, uma escritora de 52 anos, com uma filha adulta (Brenda) que mora em Londres com o pai (Felipe), recém separado da nossa personagem principal.

                   Gica me desnuda por inteiro: as angústias em tentar ser mãe, em tentar ser escritora, e reconhecida, e boa. Mas, aos poucos, ela vai nos convencendo que as únicas pessoas salvas no processo de criação literária, poética, artística, somos nós mesmos.

                   Construindo imagens altamente poéticas, Gisela Rodriguez passeia pelo passado e pelo presente da escritora (também) tão parecida com ela própria, Jan Alves. Uma das primeiras técnicas de escrita criativa refinadíssima de Gisela é a identificação do tempo narrativo através do círculo de personagens ao redor. Sabemos que estamos no passado quando a narradora cita Diego, Pablo, June, Su, a irmã Eve, a mãe Diana. E sabemos quando retornamos ao presente quando conversamos com Tomás – talvez inspirado no Tomás de A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera –, ou na melhor amiga Lisa, ou na bailarina-amante-de-Tomás-Lavínia.

                   Mas quem se desnuda mesmo é Gisela. Traz à tona os seus maiores amores literários, teóricos e filosóficos. Navegamos por “Clarice Lispector, Dostoiévski, Jane Austen, Tolstoi, Machado de Assis, Herta Müller, Jack Kerouac, Virginia Woolf, Rimbaud, Sylvia Plath, Cecília Meireles, Ana Cristina Cesar…”,[4] além do próprio Milan Kundera, Cora Coralina, Simone de Beauvoir. Mas também Roland Barthes, Musil, Philip Roth, Zuckerman ou mesmo a indicação de um dos meus filmes prediletos, O enigma de Kaspar Houser, do cineasta alemão Werner Herzog.[5]

                  Jan se refugia nas palavras, se agarra às palavras como se fosse a única saída. E, com a passagem das páginas, na brevidade do tempo de leitura, vamos confirmando que realmente é a única saída para quem escolheu, como amor perfeito, a literatura. Não somente a escrita, mas também a leitura, e a biblioteca mágica do pai de Jan que, em paradoxo, deixa de herança uma máquina de escrever antiga para a filha de dezessete anos.

                  Aos dezessete anos toda a minha vida virou ao avesso. Vim morar na minha cidade natal e persegui o sonho de alcançar um brilho próprio com as próprias mãos. Descobri a literatura tardiamente, aos trinta e quatro anos – assim como Jan publicou o primeiro romance aos quarenta e cinco –, e nunca mais me senti só. Senti-me, sim, muitas vezes traída por essa deusa-musa que nos pede tanto e nos oferece migalhas, que, famintos, vamos nos satisfazendo insatisfeitos.

                   Mas dentro de si o universo inteiro, afirma Jan/Gica, escrever sendo a nossa salvação, mas não necessariamente a do planeta. E vai escrevendo/descortinando os processos criativos à medida que vai escrevendo, caminhando, tropeçando e levantando de novo, com a alma renovada que a escrita nos dá, nos ensinando que a “vida tem de lutar sempre”, a “morte não”,[6] que é “breve como tudo”,[7] até as palavras-pensamentos despertadas por Gisela Rodriguez “produzirem em nós a dor de querer a vida”,[8] e, mesmo sem sabermos para onde vamos nesse labirinto sem fim que é a arte literária/poética, “enquanto caminhamos enxergamos a nós mesmos”.[9]

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[1] Sobre Breve como tudo, Gisela Rodriguez. Apresentação: Jane Tutikian. Porto Alegre, RS: Class, 2021.  

[2] Da vida retirada; Da tranquilidade da alma; Da felicidade, Lúcio Anneo Sêneca. Tradução: Lúcia Sá Rebello e Ellen Itanajara Neves Vranas. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009, p. 83.

[3] Gisela Rodriguez (Porto Alegre/RS) é formada em Teatro na Faculdade CAL de Artes Cênicas do Rio de Janeiro; Extensão em Cinema na PUCRS; Expressão Corporal “Physical Approach” na City Lit (Londres); Roteiro para Cinema e Televisão AlCtv – Academia Internacional de Cinema e TV(RJ). Diretora, atriz e roteirista do Grupo Nômade de Teatro Ritual. Foi vocalista da banda punk-psicodélica Projeto Uivo, fazendo shows durante sete anos pela capital e interior do RS. Autora dos romances Entre a neve e o deserto (Ed. Libretos) e Breve como tudo (Breviário/Class). Autora do livro de poemas e fotografias Desordem, financiado pelo edital FUMPROARTE. Mestre e doutoranda em Escrita Criativa na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Contato: gicarodriguez@yahoo.com.br

[4] RODRIGUEZ, Gisela. Op. cit., 2021, p. 85. 

[5] Kaspar Hauser (Jeder für Sich und Gott Gegen Alle). O enigma de Kaspar Hauser. 1974. 110 minutos. Alemanha Ocidental. Direção: Werner Herzog.  Com Bruno S., Brigitte Mira, Walter Ladengast, Willy Semmelrogg, entre outros.

[6] RODRIGUEZ, Gisela. Op. cit., 2021, p. 125. 

[7] RODRIGUEZ, Gisela. Op. cit., 2021, p. 126. 

[8] RODRIGUEZ, Gisela. Op. cit., 2021, p. 127. 

[9] RODRIGUEZ, Gisela. Op. cit., 2021, p. 130. 

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