Poema de Altair Martins*

66. NÓS, OS QUE ENVELHECEMOS À FORÇA

                                               Ao Pedro Gonzaga

A nossa geração não se reconhece agora

na tinta original da estação.

Aqui (parece ontem) o véu não acenou do trem.

Atrasados assim como a sombra,

sem luz e sem libido,

aceitamos o que cai da escada.

Os que escreviam comigo

foram todos embrulhados no jornal do dia e dormiram cedo demais no fundo das mesmas gavetas.

Tínhamos cultivado menos plástico,

menos novidades. E contudo,

iguais àquelas mãos que mostrávamos na fotografia, reconhecemos bem de perto o atraso destas que ficaram e tanto doem mais que qualquer dente.

A palavra que ninguém entortou

e os presentes mais que merecidos,

segundo a crítica e a imprensa

(que eram a mesma coisa),

acabaram injustificados diante de novíssimos dedos, os invisíveis e especializados em tudo.

Talvez nos tenham envelhecido

antes do tempo

e só porque esperávamos qualquer coisa

que chegaria à estação

sem os anúncios e as sirenes do espetáculo.

E todos os méritos estiveram à nossa frente, e todos os mais modernos tênis caminharam ao nosso alcance.

Não chegamos, amigos de cisco,

e nossas meias encardiram

bem depois de perderem os elásticos.

Não tivemos lugar aos vinte anos.

Somos velhos aos quarenta.

Da parede da estação sem trem

se descama uma folha

atrasada demais pra ser tinta.

Antes do sono,

passaremos a mão no degrau da escada

(o primeiro de quem sobe),

tão contemporâneo quanto nós.

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* Fotografia: Santiago Martins.

** Altair Martins (Porto Alegre, 1975). Bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) — ênfase em tradução de língua francesa —, mestre e doutor em Literatura Brasileira na mesma universidade. Ministrou a disciplina de Conto no curso superior de Formação de Escritores da UNISINOS entre 2007 e 2010. É professor da Faculdade de Letras e de Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), atuando no Programa de Pós-graduação. Coordena o projeto de pesquisa O fantástico em tradução. Tem textos publicados em Portugal, na Itália, França, Argentina, no Uruguai, na Espanha, Hungria, em Luxemburgo e nos Estados Unidos. Ganhou, entre outros prêmios, o São Paulo de Literatura (2009, com o romance A parede no escuro) e o Moacyr Scliar (2012, com os contos do Enquanto água). A peça teatral Hospital-Bazar (Porto Alegre: EdiPucrs, 2019), o romance Os donos do inverno (Porto Alegre: Não editora, 2019) e Labirinto com linha de pesca (Porto Alegre: Diadorim Editora, 2021) são suas últimas publicações. Ministrante, desde 2019, da disciplina Oficina de Poesia na especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS (2019.2). Contatos: altairt.martins@pucrs.br; www.altairmartins.com.br