Dois livros por mês | “tática operacional para sobreviver ao cotidiano”** e “apaguei a playlist / comecei a dançar”***

Patricia Gonçalves Tenório*

Agosto, 2021

Na edição de agosto de 2021 da coluna “Dois livros por mês”, descobrimos dois jovens escritores, recém formados na primeira turma da Especialização em Escrita Criativa (Unicap/PUCRS, 2019-2020), à qual tive a honra e a alegria de ser coordenadora e professora.

O primeiro, tática operacional para sobreviver ao cotidiano, de Lara Ximenes, é um passeio super prazeroso pelo universo das listas, e listas altamente poéticas.

O segundo, vem na mesma direção de Lara, apaguei a playlist / comecei a dançar, de Fernando de Albuquerque, com seus poemas altamente libertários e listas musicais.

Com vocês, esses dois escribas maravilhosos que tive o prazer infinito de conhecer em minha vida.

Boa leitura!

Patricia Gonçalves Tenório.

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Táticas que funcionam

– A imaginação de Lara Ximenes não tem limites!

                  Quando proferi a frase acima, segundos após terminar de ler tática operacional para sobreviver ao cotidiano, o primeiro livro da jornalista, poetisa e especialista em Escrita Criativa (Unicap/PUCRS, 2019/2020) Lara Ximenes, senti como se houvesse voltado ao passado, precisamente ao ano de 2005, e, minha professora de Filosofia da Arte na época, proferindo a mesma frase, mas naquela vez para mim aos trinta e seis anos.

                   O tempo brinca com nossas certezas, e, nessa pandemia de Covid-19, mais ainda. Mas se nos faltam certezas, sobra a sabedoria do isolamento, da solidão, do pânico, enfim, do sofrimento imposto a milhões de pessoas no Brasil e no mundo por causa dessa doença cruel, que, além das vidas físicas que se foram, roubou a saúde mental das que ficaram.

                   E Lara nos apresenta soluções. Mesmo que não sejam definitivas, com a criatividade dessa jovem – que não deve ter nem trinta anos –, podemos aliviar dores profundas do cotidiano.

                   No livro adaptado do Trabalho de Conclusão de Curso da especialização que tive a honra e a alegria de trazer para Recife (como delicadamente a autora menciona nos agradecimentos), Lara utiliza as mesmas técnicas da dama da corte Sei Shônagon, lá pelos idos do século X no Japão, quando recebeu de Teishi, consorte do imperador Ichijô, um volume considerável de papeis – O livro do travesseiro,[1] de travesseiro de poemas –, e neles deitou tudo o que observava ao redor. Coisas que a agradavam, coisas que não.

                   Lara, de maneira bem mais leve que a dama da corte de Teishi, nos apresenta quarenta  e duas crônicas em formato de listas, como se fossem poemas, do que sente saudade de antes da pandemia (beijos, abraços, pessoas, Carnaval), do que precisamos fazer mais e dar mais importância (desenhar, sentar em roda, dançar), do companheirismo das mulheres (a pandemia nos ensina a não competir), do humor que não devemos perder (rir mais de nós mesmos). Uma espécie de The bucket list[2]para o dia a dia, pois não sabemos o que nos aguarda na próxima esquina, no próximo segundo, no dia seguinte.

                   E percebermos que não importa o tempo – se há quinze anos, quando começava a minha carreira de escritora, ou no exato instante que termino de escrever esta resenha:

                   – Somos feitos da mesma matéria dos sonhos, nós, escribas, e retornaremos ao mesmo pó dos sonhos quando não mais estivermos aqui.

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* Escritora, vinte livros publicados, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: www.patriciatenorio.com.br; patriciatenorio@uol.com.br; www.estudosemescritacriativa.com; grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com.

** Sobre tática operacional para sobreviver ao cotidiano, Lara Ximenes. Ilustração: Manuela Sobral. 1ª ed. Recife, PE: Chuvisco, 2020.    

[1] SHÔNAGON, Sei. O livro do travesseiro. Organização: Madalena Hashimoto Cordaro. Tradução: Geny Wakisaka, Junko Ota, Lica Hashinomoto, Luiza Nana Yoshida, Madalena Hashimoto Cordaro. Apresentação: Geny Wakisaka e Madalena Hashimoto Cordaro. São Paulo: Editora 34, 2013 (2ª edição).

[2] The bucket list. Antes de partir. EUA. 97 min. Direção: Rob Reiner. Com Morgan Freeman, Jack Nicholson, Sean Hayes, entre outros.


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A playlist que nos salva

Ouvindo “Only the Young”, de Brandon Flowers[1]

                   Quando inicio a leitura de apaguei a playlist / comecei a dançar, de Fernando de Albuquerque, automaticamente deixo a mente, o coração e (por que não?) o corpo inteiro voltar ao ano de 2011 quando estreávamos o espetáculo As joaninhas não mentem,[2] adaptação do livro homônimo[3] – meu primeiro livro, realmente lançado, em 2006.[4]

                   Fernando me transporta para o passado, rejuvenesce a alma e desafia: Por que não? Não tem medo da prisão do corpo, do sexo, do gênero e coloca em primeiro lugar a arte, quer seja a música, quer seja a poesia, acima das limitações que a vida e o mundo absurdos nos impõem.

Ouvindo “Mercy on me”, de Christina Aguilera[5]

                   Foram seis meses de preparação para o meu espetáculo, trinta e cinco anos, onze meses e trinta dias para a publicação do primeiro livro de Fernando. Primoroso, delicado, nos dando uma verdadeira aula de gramática, literatura e, principalmente, amor à natureza humana, o livro de quinze poemas de Fernando nos encanta com a verdade nua em nossa face, sem pudor ou pedir perdão, mas, acima de tudo, sem perder a qualidade, tomando posse do que já pertencia ao autor a vida inteira, e só precisava de um empurrãozinho da especialização em Escrita Criativa (Unicap/PUCRS, 2019/2020) e do olhar atento do poeta e editor cuidadoso que é Fred Caju, para vir ao mundo.

Ouvindo “Dog Days are Over”, de Florence and The Machine[6]

                   A arte nos transporta para dimensões inalcançáveis da natureza humana que, o dia-a-dia, o egoísmo, a luta pelo poder (até mesmo entre os artistas) tentam nos roubar. Passeando por autores clássicos da literatura mundial, entre eles Homero, Oscar Wilde, Herman Melville, Eça de Queiroz, César Leal, Carlos Pena Filho e a própria bíblia, Fernando de Albuquerque imprime em seus versos-depoimentos a angústia, mas a esperança da geração da qual faz parte e que pode ser qualquer geração, porque os sentimentos não mudam e não mudarão jamais, se não limparmos a vista dos preconceitos, silenciarmos o corpo das mediocridades, apagarmos a playlist de que não é possível um mundo novo mais humano e solidário, e começarmos a dançar a ciranda universal.


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*** Sobre apaguei a playlist / comecei a dançar, Fernando de Albuquerque. Ilustrações: Márcio Junqueira. Prefácio: Cleyton Cabral. Recife, PE: Castanha Mecânica, 2020.  

[1] “Only the Young”, de Brandon Flowers. Clip: https://www.youtube.com/watch?v=uBENjCPS8LI

[2] Espetáculo As joaninhas não mentem. Julho, 2011. Teatro Joaquim Cardozo. Anjos de Teatro. Direção: Jorge Féo. Texto: Patricia Tenório. Elenco: Ísis Agra, Thiago França, Maria Luísa Sá, Jay Melo, Elilson Duarte e Romero Brito. Pesquisa Musical e Execução de Sonoplastia: Nilton Leal. Criação e Execução de Iluminação: Cleison Ramos. Criação e Edição de Vídeo: Lucas Cavalcanti e Thiago França. Clip: https://www.youtube.com/watch?v=NIAZzP4XzDg

[3] As joaninhas não mentem, Patricia Gonçalves Tenório. In 7 por 11. Recife, PE: Raio de Sol, 2019 – Coleção Cinco Livros.

[4] Meu primeiro livro O major – eterno é o espírito (2005) foi proibido de ser lançado.

[5] “Mercy on me”, de Christina Aguilera. Clip: https://www.youtube.com/watch?v=fW3t84YGmDg

[6] “Dog Days are Over”, de Florence and The Machine. Clip: https://www.youtube.com/watch?v=iWOyfLBYtuU