Estudos em Escrita Criativa On-line | Junho, 2021

Chegamos ao centro do país para visitarmos a senhora de Goiás, Cora Coralina, e conhecermos o processo de criação da jovem escritora do Mato Grosso do Sul, Moema Vilela.

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Primeira Aula do Módulo 7:

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Na primeira aula do módulo 7, descobrimos a forma imbricada da poesia e da prosa de Cora Coralina e a semelhança com a escrita de Moema Vilela; investigamos o conceito de ekphrasis (na descrição do escudo de Ulisses, na Ilíada, na análise da escultura Laocoonte por Lessing, no poema “Ode a uma urna grega”, de John Keats) aplicado na obra de Cora (“O prato azul-pombinho”) e também na de Moema (“A dupla vida de Dadá”); observamos os objetos como pontos de partida para a construção de prosa e verso, como se fosse o tear de Penélope à espera de Ulisses na Odisseia de Homero;

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Segunda Aula do Módulo 7:

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Na segunda aula do módulo, navegamos pelas reminiscências de Jacqueline de Romilly (Les Roses de la Solitude) nos textos de Cora e Moema; apreendemos o conceito das palavras e das coisas de Michel Foucault diante do quadro “Las meninas”, de Diego Velázquez, aplicando nas obras de Cora e Moema; visitamos as muitas casas de Cora; descobrimos a persistência na publicação e o reconhecimento tardio da senhora de Goiás.

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Terceira Aula do Módulo 7:

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E, com imensa alegria, convidamos para a nossa live do canal do YouTube na próxima quarta-feira, 28/07/2021, a partir das 19h, com a escritora, doutora e professora de Escrita Criativa na PUCRS e uma das coordenadoras da Especialização em EC (Unicap/PUCRS), Moema Vilela. Não percam!

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https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

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Exercícios de desbloqueio:

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Módulo 3 – Ferreira Gullar:

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Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

Lembranças da cidade da infância

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Lembro as frias manhãs do sertão na minha cidade também, cheia de luz

Outros dias eram redemoinhos varrendo as ruas e espalhando poeira

E quando nosso olfato era inundado pelo cheiro que subia da terra era sinal de chuva.

Olhávamos para o céu cheio de nuvens de chumbo:

“Estava bonito para chover”

O cheiro das carteiras de cigarro – vazias

Continental, Hollywood, Minister,

Gaivota, Eldorado

Não importava se cigarro de rico ou de pobre

Se transformavam em dinheirinho de brinquedo

Naquele tempo o café cheirava mais

De manhã cedo inundava nossa casa.

A tapioca com doce de leite

E o pirulito

Vendidos por Teté no colégio.

O sábado era dia de costelinhas assadas e fígado partidinho no molho.

Quando o jantar estava fraco papai partia tomate, pimentão e ovos

Era dia do mexido.

No domingo

Os pães com nata esquentando no forno

As natas, eram guardadas para manteiga, biscoitinhos ou para passar no pão

No almoço todos queriam os ovinhos da galinha, a moela e a coxinha da asa

Os cheiros os sabores os sons…

Relâmpagos e trovões

O barulho da chuva nas calhas.

A cisterna enchendo.

E nós tiritando de frio embaixo das bicas.

No São João o cheiro das fogueira e dos fogos de artifício.

A casa da minha Vó tinha de tudo

Buchada, Pirão de ovos

Até tatu comi lá, um dia…

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Módulo 4 – Graciliano Ramos:

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Elba Lins

MEMÓRIAS DO CÁRCERE – Dos abraços aos écrans

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Sobrevivo,

Fechada entre quatro paredes…

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Paredes sólidas

Que se movem

E me acompanham

Pelos cômodos da casa.

E me isolam

Por trás do vidro dos écrans

Que me tornaram espelho

Do que vejo lá fora.

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Nem todas as palavras

Escritas e faladas

Me trazem de volta o ‘cimento social’

Todo o álcool

Toda água

Muito sabão

Não me aproximam do outro.

Me isolo do mundo 

Que ficou vazio,

Que se tornou grande,

Abaixo da minha janela.

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Que ficou cheio nas telas do Windows.

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Nossas casas

Guetos vazios

Sombras de uma sociedade

Que treme.

Pálida fotografia

Do que fomos um dia.

Oceano de fotos espalhadas em mídias

Que nos enganam,

Quando nossa mão se estende

E toca

Numa tela fria.

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Módulo 6 – Jorge Amado:

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Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Roteiro Sentimental a Ilhéus

COMO UMA SENHORA CONHECEU E SE APAIXONOU POR JORGE AMADO        

Recife, 26 de junho de 2021 – Ilhéus, 1958.

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                                                                                   (…) Hoje eu sou Gabriela

                                                                                                           Gabriela ê meus camaradas.

                                                                                   (Modinha para Gabriela – Dorival Caymmi)

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Organizo minha viagem para conhecer Ilhéus nesse tempo de pandemia. Diferentemente de outros tempos a viagem será toda virtual. Abri o celular e comecei minha busca para encontrar um roteiro que me levasse até mais perto de Jorge Amado e de sua escrita. Descubro o Bar Vesúvio e a Casa Jorge Amado, que mais parecem ter saído da novela televisiva que assisti.  Os prédios antigos têm logo na entrada estátuas do escritor, como que marcando sua presença e ao mesmo tempo nos dando boas-vindas. O passeio pela casa é outra viagem, encontramos muito do acervo de Jorge e de sua esposa! Nessa pequena visita ao centro histórico percebo que ele me remete à cidade cenográfica da novela Gabriela, protagonizada por Sônia Braga. Hoje descubro ter sido uma réplica da cidade recriada no município de Guaratiba (RJ). É dessa forma que começo a recordar quando conheci o escritor.

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Um som de fundo chega aos ouvidos como quem retorna ao ano de 1975: iaiê, iaiê ioná, meu amor iaiê… e revejo em pensamento a novela Gabriela, uma das primeiras novelas em cores! Aqui começa outra viagem, bem mais sentimental. Estou novamente no terraço de uma casa em Olinda, onde reconheço uma moça sentada em frente para a TV recém adquirida, que mostrava imagens tão coloridas! Reconheço a moça morena da novela, assim como a mocinha de dezessete anos que assistia Gabriela. Naquele tempo já havia lido uma trilogia de romances de Jorge Amado que encontrou em casa reunidos num só livro: Cacau, Suor e No País do Carvanal.  A moça também leu emprestado do vizinho os livros Mar Morto e Capitães de Areia. Depois será o tempo de filmes e novelas, que instigarão outras leituras.

Relembrando esse tempo, três se confundem na tela, quando aumenta o som de uma canção na voz de Gal Costa: Quando vim para esse mundo eu não atinava em nada… Assim, faço esse passeio insólito entrando novela adentro nesta escrita que me descortina aos poucos o roteiro do meu itinerário. Assim inicio percorrendo o mesmo caminho de Grabriela até chegar a Ilhéus. Caminho a pé, sofrido de povo esfomeado vindo da seca.

Chegamos a Ilhéus, entramos na cidade dos anos vinte, precisamente em 1925, na terra de grandes produtores de cacau. Terra e época na qual viveu o escritor e que ambientou esta e muitas de suas histórias.  Acompanho os passos de Gabriela pela cidade até vir trabalhar no Vesúvio para Nacib. Acompanho o encantamento dos homens por ela.  O amor correspondido por Nacib. Seu casamento, a tentativa de Nacib transformá-la em uma dama, seu jeito livre, a traição, a estadia desconfortável no Bataclã, até o acordo entre os amantes sobre um casamento aberto. Gabriela que era morena e cheirava a cravo e canela. Assim como a mocinha lá de Olinda, mas que cheirava a rayto del sol.

A Gabriela de Jorge Amado, assim como eu, nasce em 1958. Assim como ela, a mocinha também encontrará em breve um NACIB, “seu Nacib moço bom”. Assim como Gabriela, a alma da mulher era livre e seria feliz vivendo fora dos conceitos idealizados de uma vida de dona de casa padrão. Sempre Gabriela! O final da mulher seria diferente da novela, embora muitos anos depois, a senhora desfrutasse de uma liberdade plena e sadia.

 Retorno ao cenário de novela… a vida de cada mulher daquele elenco, como se revisitasse os papéis femininos da nossa sociedade. Chego à casa de sinhazinha Guedes Mendonça assassinada junto com seu amante pelo marido coronel Jesuíno. Saio de coração apertado e me divirto vendo Glória, amante do coronel Coriolano, sempre debruçada na varanda do casarão que dá direto na praça, mostrando seus formosos peitões. Acompanho com receio e divertimento sua paixão pelo professor Josué, apimentada pela cantiga de Fafá de Belém: ai moreno! Com sorriso nos lábios visito aquelas senhoras de família duras com o peso da religiosidade sobre elas e sinto pena… já imagino a confusão da procissão juntado-as com as meninas de Maria Machadão. Sigo pelo mesmo caminho de opressão feminina ao chegar ao Bataclã, desmascarando a sociedade hipócrita que abusa das mulheres. Procuro uma saída e sigo em direção à casa de Malvina, a bela menina cheia de ideias novas, querendo se libertar das amarras e presa num amor sem futuro e a um homem fraco… se falo em mim e não em ti é que nesse momento é que já me despedi… meu coração ateu não chora e não lembra, parte e vai embora…

Com esse fundo musical, regresso ao meu presente, ao espaço que ocupo agora em casa, nesse instante que leio a biografia de Jorge Amado. Aquele homem soube viver! Ao rememorar sua história nesta leitura, percebo que perseguiu e alcançou o sonho de viver da escrita, teve uma vida bem vivida, longa e feliz e foi muito bem amado!  A escolha deste roteiro sentimental proporcionado pela escrita e leituras me fez até rever uma cidade que nunca visitei. Quer viagem mais agradável de fazer sem sair de casa? Posso dizer que há muito não sou a mocinha da cor de canela, mas continuo pensando com muita admiração, no Jorge, para sempre, Amado!

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Elba Lins

UM PASSEIO NO TEMPO

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Finalizo a leitura de Gabriela Cravo e Canela, de Jorge Amado.

Os Mundos de Dentro têm me levado a viajar por caminhos já trilhados no passado e sempre garimpo boas lembranças – joias encobertas pelo tempo.

Durante a leitura, uma lembrança chegava até mim, lembrança da novela Gabriela, de todos aqueles personagens que povoaram as noites de minha adolescência distante, nos idos de 1975.

Que vontade senti, de rever os personagens que habitavam nossas noites – coronéis com revólver na cinta, jagunços que tocaiavam, matavam e escondiam-se, jovens sonhadoras, prostitutas bonitas, donas de casa sujeitas ao mando dos maridos e alguns poucos que buscavam mudanças que pareciam impossíveis de acontecer.

A cada noite uma gama de artistas desfilavam aos nossos olhos. Alguns tão jovens quanto nós, hoje da mesma forma mães, pais, avós ou bisavós.  Outros não mais estão entre nós, como Armando Bógus na pele de Seu Nacib – o árabe baiano mais amado do Brasil, de quem nem Marcelo Mastroianni tomou o lugar – no seu Bar Vesúvio.

Sônia Braga na eterna pele de Gabriela, a única que roubou de Jorge Amado qualquer outra figura que ele houvesse imaginado para retratar Gabriela, que também roubou de mim a primeira ideia que tive de Gabriela. Gabriela que viajou para os Estados Unidos e quando esteve aqui, passou no Aquarius e se mandou, direto para Bacurau.

Que vontade de rever aquelas cenas,

Que vontade de passear pelas ruas de Ilhéus,

Que vontade de visitar o Bataclan e dançar um tango.

Que vontade de comer o acarajé, o xinxim, o abará e o vatapá de Gabriela.

Fui ao Globoplay, mas não encontrei a versão mais antiga da novela.

Graças ao YouTube consegui descobrir capítulos de Gabriela. E a começar pela música de abertura – “Porto” – de Dori Caymmi (Laiê, iaiê, oni-ona, iaiê …) comecei a navegar nas águas da Bahia, comecei a andar nas terras do cacau, me senti de volta àquela terra. Novamente eu estava lá:

Entrei no cabaré e encontrei logo de cara, Fúlvio Stefanini, representando Tonico Bastos – namorador descarado – dançando tango com uma das meninas do Bataclan. Ainda ali vejo a saudosa Dina Sfat – a Zarolha do Bataclan.

Me encontro novamente com Nívea Maria e Elizabeth Savalla na pele de Jerusa e Malvina.

Tantos atores e atrizes que não mais fazem parte da nossa vida, já subiram para o andar de cima para comer acarajé junto com Jorge Amado na outra dimensão.

Quero muito revê-los todos, de Gabriela a Sinhazinha. Vou assistir o que encontrar no YouTube e depois conto para vocês o que conseguir garimpar nesta viagem ao passado.

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Ilana Kaufman

Contato: ilakau7@gmail.com

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Chegando em Salvador, resolvi ir à Ilhéus de balsa, atravessando a Baía de Todos os Santos por ferryboat. De longe se vê o mangue e uma das cidades mais antigas do Brasil, Cairu, um município arquipélago. Assusta um pouco o mar estar turvo na rebentação. Apesar da paisagem indescritível, rezava para desembarcar logo na terra de Jorge Amado. Deixei as bagagens na Pousada dos Hibiscus e dali avistei o azul diferenciado do mar em Ilhéus. Queria conhecer o Centro Histórico. Consegui contemplar o Palácio Paranaguá, o Museu de Arte Sacra, o Teatro Municipal e, de repente, me deparo com o Bar do Vesúvio, importante ponto de encontro de “Gabriela”, onde é possível provar o quibe do Nacib. Em seguida, a casa de Cultura Jorge Amado. Local em que Jorge viveu a sua infância e adolescência. Na volta à Salvador, visitei a Fundação Casa de Jorge Amado ou Casa Azul do Pelourinho. Há um mirante no qual se pode observar os sobrados e os mistérios dos mesmos.