Medo de quê, Hugo?* | Patricia Gonçalves Tenório

– Hugo Peixoto é a linguagem.

Quando o jornalista, escritor e especialista em Escrita Criativa (Unicap/PUCRS) Hugo Peixoto me convidou para escrever a orelha deste livro, tentei traduzi-lo da melhor forma possível.

Conheci Hugo na primeira turma da especialização em Escrita Criativa, na qual fui ministrante de disciplina e coordenadora. Aquele jovem de Nazaré da Mata, e que sabia manejar um facão tão brilhantemente quanto as palavras, me assustava no bom sentido. Assustava, pois não temia manejar nem aquele quanto estas, as tão difíceis e pobres palavras, matéria-prima mais humilde entre as belas artes. Porque, sim, nós, escribas, não contamos com tintas e telas, lentes e filtros, argila e pedaços de cristal. Apenas palavras, tão simplesmente palavras, e que nem toda pessoa que escreve sabe bem manusear sem se ferir com as arestas.

Mas Hugo sabe. Ele não teme deixar quem lê sem o final da história, nem navegar pelas classes sociais mais díspares possíveis, procurando mostrar mais do que dizer, nos convidando a mergulhar em seu universo social, político, reivindicador de melhores condições de vida para os menos privilegiados. Isso tudo sem uma acusação, sem um julgamento. Só nos faz sentir e mudar de caminho. O que era insensibilidade, se transforma em comunhão. O que era emoção à flor da pele, racionaliza os recursos e nos conduz a soluções possíveis em meio ao caos.

Hugo Peixoto é a linguagem. Ou bem transforma os personagens sofridos, humildes, sozinhos em palavras puras que nos tocam o coração. Os finais inacabados nos convidam a escrever junto com ele, a participar da história, porque só é possível construir um mundo novo a várias mãos. Quatorze contos que representam o vazio, a violência, a falta de sentido, a solidão, a prisão do corpo, a pandemia de Covid-19. Todos eles escritos para revirar nossas entranhas. Sabemos do absurdo que acontecerá com os personagens, mas os acompanhamos até o fim, como se disséssemos: Vocês não estão sós.   

E, diante de tamanho afeto, pergunto a Hugo, pergunto a quem o lê:

– Medo de quê, Hugo?

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Hugo Peixoto entre escritoras e poetisas, no Destaque Literário da Cultura Nordestina, novembro de 2021.

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* Sobre Medo de rato, Hugo Peixoto. Prelo. São Paulo: Urutau, 2021.  

** Hugo Peixoto (Nazaré da Mata/PE, 1985) é graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco-UFPE e mestre em Gestão do Desenvolvimento Local Sustentável pela Universidade de Pernambuco-UPE. Começou a escrever em 2007, quando teve duas crônicas publicadas na Coletânea de Textos de Humor, no 5º Festival Recifense de Literatura. Em 2008 foi finalista do Prêmio UFF de Literatura, em Niterói-RJ, e recebeu menção honrosa na categoria de contos. Em 2009 venceu o 7º Concurso de Contos Luís Jardim, da Biblioteca Popular de Casa Amarela, no Recife-PE, e o I Concurso Nacional de Literatura Jorge Ribeiro, de Cachoeirinha-RS. Voltou a receber menções honrosas no Prêmio UFF de Literatura, em 2011, e no 10º Concurso Mário Quintana, organizado pela Sintrajufe-RS, em 2014. Em 2018, publicou seu primeiro livro A La Ursa quer em Euro – e outros contos de Carnaval, em edição cartonera. Em abril do mesmo ano foi o 10º colocado do Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror. Contato: hugocpcoutinho@gmail.com