Diálogos com Diálogos*

Rodrigo Malagodi 

31/01/2011

CERTEZAS

Na valsa quieta, dois, quatro braços cercam meu corpo ávido de abrir mão do não. Quero abrir aquela caixa que tem o sim dentro.

SURTO

A vertigem do clipe projetou-se em minha testa por dentro – nenhum corte pode ter mais do que meio segundo, meu deus do céu, vira logo esta página.

SEPULTURA

O mar que transbordou dos olhos de Mariana estava contaminado do preto que alguém derramou naquela tela?

ORAÇÃO

Patrícia, não tivesse sido a mão apoiada na cabeça derretida de tesão, eu diria que foi o vermelho da roupa dele que lhe inspirou a escrever esse ménage a trois.

ULTIMO SANTUÁRIO

Ouvi dizer que só se cresce conforme o vento sopra, e que vento moldou esse prédio? Serei um prédio assim também, e só quando chegar à cobertura, agradecerei pelas raízes de ferro e dor e força de não mais tombar com os ventos.

PRISÃO PERPÉTUA

O caminhar de Patrícia tangencia o Rio Sena e por ela passam, a favor da correnteza e contra o tempo correnteza, paralelamente, peixes, livros, canetas, amores. Cadê Patrícia? Já desceu a escada para o rio e pegou a caneta que escreve conforme seus sonhos-água fluem.

ESCADARIA

Eu estou num degrau abaixo de três e partir do seu degrau que não é seu, se você puder subir mais, se eu posso e quero subo e desço, o que não é bom, mas também não é ruim. Procurei os significados de bom e ruim no dicionário e não achei. Feliz, infeliz também não constam no volume deixado no último degrau para tropeçarem, último degrau contando a partir de cima, a partir de baixo, tanto faz.

OLHOS FECHADOS

Cansado, tantos de meus olhos já fechei, e de tais escuridões fui me esquivando, parindo novos olhos. Ainda com medo dos silêncios ao redor da respiração desse eu com quem geralmente não quero estar, ligo a TV, vou a encontros, enfim, qualquer paradeiro.

O RETORNO DAS LENTES COR-DE-ROSA

O doce e o amargo são dois pés para uso no caminhar pelo mundo parcialmente cinza. Perseguir passarinho verde é a nova ordem no hemisfério rosa, segundo decretou a nova rainha Menina de Tranças. Ela também ordenou a retirada de algumas árvores para ampliar a visão, simplificar os caminhos.

 ORÁCULO

Não me encontrei nem em Liverpool.

“Não acredito que tenho as coisas que desejo, mas tenho o meu desejo nas coisas”.

Quero a excursão irregular, criar um novo caminho, neologismos, desvios e danças dos pés, sofreguiando, amaldiçoando as pedras, ziguezagueando, acariciando, pois rolaram até aqui essas formas de realidade.

O ECO

Então a fúria é ainda maior no pouco atrito das duas superfícies lisas?

Leite sustenta, mel adoça: garantias ainda mais fortes de vida para tantos buracos, vãos, espaços de preencher?

Sim, o grito é ainda mais alto dentro do silêncio.

UM CELULAR ABANDONADO

Queria definir tópicos que filosoficamente nos guiassem até uma resposta para essa pergunta:

Se a tecnologia torna o mundo menor, por que nos distancia?

Encontros de verdade, só escondidos no banheiro.

NATUREZA MORTA COM MAGNÓLIA

Serei uma sonda por dentro das artérias de Magnólia. Serei as próprias misturas químicas e toda a dança dentro do sangue dela. Serei a projeção dos elementos minerais, tiro de sensações ao cérebro, o próprio sonho dela. Queria embarcar logo nessa viagem sem fim.

SALSA, COENTRO E CEBOLINHA

Envelhecer.

Um pouco mais envelheci num desses domingos, diante do forró – a Salsa brasileira? Ops, escorreguei no passo largo demais.

Que forró é esse que aprendi, passinho pra frente e pra trás que nada! Olha só o que aqueles casais fazem.

A sintaxe tem seus segredos, mas é lógica demais para explicar tal sintonia e imprevisibilidade das quatro pernas. Será porque tenho só dois olhos?

Nas relações sou sempre Fabrício, querendo encarnar naqueles caras brincando com as parceiras, suas bonecas de pano suado. 

 EM BUSCA DO GATO DE SCHRODINGER

É que nos olhos do gato a escuridão é maior do que a que há na noite dos outros bichos – por isso um gato, e não uma coruja, na caixa.

Mas sabe, que bom que em nossa sala haja cantos escuros. Eles instigam a curiosidade, o movimento. Aqui dentro, os cientistas iluminam mais um pouco, o cético finge que o escuro não existe e o dogmático, preguiçoso, tira conclusões precipitadas.

Tateio a escuridão aqui:

Que mistério maior do que o do gato é o seu vermelho a ser desfiado, Patrícia?

A MÃE DO MUNDO (AS MÃES DO MUNDO)

O sonho: enquanto duas mãos de unhas vermelhas e uma boca com sede exploram, imprevisível percorrer a textura da minha pele, encontrando traumas, cicatrizes, clareiras lisas e florestas ásperas, as outras duas mãos assumem meu controle, segurando o cabo do timão para que essa boca o sugue mais devagar do que espero, minha cabeça gira mais rápido do que o mundo de tantos lagos para meus infinitos mergulhos.

ESTRELA BRILHANTE

Quem disse que quero desafiar essas suas atitudes brilhosas?

E saiba você que meu chapéu protege os meus pensamentos que defendem o coração.

Pobres de minhas mãos pequenas que, se não seguram na minha caneta dura de escrever, brincam de boneca, mas só com as mais atrevidas, acalmando-as como só duas mãos pequenas podem desvelar.

ARITMÉTICA

O melhor roteiro dela seria o pai chegando ao recital de piano, pisando tecla a tecla na escala disforme, mas ela nem ouve. Não importa a música – só o pai chegar até ela que espera sentada no mais agudo dos dós.

A ÁGUA MOSTRA O CORAÇÃO PARTIDO

Parada, ela se estraga. Em movimento, se estraga menos.

O coração da água implode e se parte.

Chorar é a última melhor opção, mas o chorar da água é redundante.

ARQUEOLOGIA

Fonte contínua. A única verdade é a Biologia.

Esculpir no chão (parede de barro deitada) uma identidade.

 QUANDO A CHUVA CHEGAR

Os carnavais tem sido assim, como outras festas de fantasia, como todas as segundas-feiras tem sido, eu tendo sido pirata, hippie, namorado, don juan, marido, roqueiro, ator, filho, irmão, escritor, evitando adereços de expectativas, pequeno abaixo da nuvem de chuva tão grande cobrindo de Recife a Amparo.

CONTO UM CONTO

Eu também quero contar. Num certo conto recente, a menina ruiva é uma escultura de mármore ou a própria nuvem que se desfez em água e lágrimas e nós dois encharcados e distantes lamentando a chuva de novembro, sempre novembro. 

UNO E VERSO

“Deixei de ser eu para sermos uno”.

Levantei-me com minhas próprias pernas.

Deixo de ser eu para sermos uno.

Levanto-me com minhas próprias patas.

Deixarei de ser eu para sermos uno…

 … levantar-me-ei com minhas próprias penas.

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* Diálogos de Rodrigo Malagodi com Diálogos, de Patricia Tenório.

Rodrigo Malagodi é autor de Cidade Portuária Paixão e está com mecarregaTECARREGO  no prelo. Contato: rodgiovanini@hotmail.com.

Tela escolhida por Rodrigo: Patrick Moir, de Henry Raeburn.