Dois livros por mês | “A nota amarela”* e “Anotações de um voyeur”**

Patricia Gonçalves Tenório***

Julho, 2021

No encerramento da coluna Escrita Criativa em mim, inauguro, em julho, 2021, a coluna “Dois livros por mês”, com o desejo de percorrer, até dezembro, 2021, doze livros de escritores e escritoras contemporâneos.

São livros que brotam na pilha das publicações de pessoas muito queridas para mim, que me ensinaram e ensinam imensamente e para quem estava devendo uma leitura atenta.

Nesta edição, começo com dois livros bem especiais: o do gaúcho Gustavo Melo Czekster e o enviado pelo poeta paranaense Alcides Buss, o do escritor nômade Krauh Offman.

Boa leitura!

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A nota amarela, de Gustavo Melo Czekster**

Recebi o convite para o pré-lançamento de A nota amarela, do tão queridíssimo escritor gaúcho Gustavo Melo Czekster, em dezembro de 2020. Estava eu nas minhas mini férias de final do ano, tentando descansar, mas carregando pedra, como dizem aqui no nordeste do país – ou como me lembram meus filhos toda vez que tento me desligar da literatura.

                   Toda vez que tento, pois sempre não consigo. Há quase vinte anos, uma pessoa por quem estava apaixonada – aqueles amores impossíveis –, me disse uma frase que odiei a princípio, mas que ficou ressoando, meio que adormecida, e foi despertada este final de semana (para ser mais exata, sábado à tarde e domingo o dia inteiro): “Patricia, o seu Amor Perfeito é a literatura”.

                   Foi despertada este final de semana porque, após escrever os doze módulos do curso on-line dos Estudos em Escrita Criativa de 2021 – Os mundos de dentro –, resolvi me debruçar na pilha crescente (e maravilhosa!) de livros recém-lançados de escritoras e escritores tão queridos quanto as suas palavras escritas.

                   E comecei por Gustavo. Um pouco na intuição. Um pouco por haver roçado (sem mergulhar verdadeiramente) na apresentação (no início do livro) e nos agradecimentos (no final). Um pouco por me lembrar do trabalho hercúleo de Czekster na construção tanto da parte ficcional, o romance A nota amarela, quanto da parte teórica, “Sobre a escrita – um ensaio à moda de Montaigne”, que fazem parte da sua tese de doutorado em Escrita Criativa pela PUCRS, defendida no início de 2020, sob a orientação do Prof. Dr. Ricardo Timm.

                   Gustavo nos alerta que o Concerto para Violoncelo de Elgar Op. 95 é não ficcional, mas tudo o que se passou na cabeça da solista britânica Jacqueline du Pré não passa “de imaginação do autor”. E nos apresenta o conceito da nota amarela, huang chung, que habita cada ser, com alma ou sem alma – talvez a pedra de Drummond seja a reverberação desse encontro com a nota da Criação, aquela que nos aproxima de Deus, Deus mesmo tendo sido criado por ela.

                   Czekster nos convida a não desistir, a insistir na busca monstruosa pela palavra perfeita, assim como Jacqueline du Pré persegue a sua nota original, aquela que dará sentido às inúmeras horas que lutamos na frente de nosso instrumento de trabalho – quer seja um cello, quer seja um teclado de computador, uma página em branco de um caderno com a caneta em suspensão. Procuramos a palavra perfeita e nos sentimos sós, e nos sentimos fracassadas e fracassados diante de nossa humanidade, diante do corpo que não consegue apreender o eterno, visto sermos temporais, corruptíveis e entregues à morte como a única certeza.

                   A nota amarela nos abre as portas do infinito e tocamos, com o dedo de Adão, o dedo de Deus na Capela Sistina – Michelângelo deve ter encontrado a nota da Criação nesse exato instante.

                   Mas Czekster não acredita em mágicas, nem no gênio ou na inspiração. Ele acredita no trabalho diário, no ofício contínuo, como fazia Jacqueline (du Pré), como ensinava Ariano (Suassuna) no seu Iniciação à estética.[1]

                  A música ou a escrita como a sina de todo artista que se entrega à própria arte e não tem saída, não está livre para ser uma pessoa normal. Mas será que desejamos ser pessoas normais? Ou desejamos, com todos os átomos do corpo e da alma de Epicuro, encontrarmos, ao menos nos aproximarmos da nossa essência, e descobrirmos que, não importa o caminho, sempre chegaríamos à música, à escrita, à arte que abraçamos como se fosse um violoncelo Stradivarius?

                   São inúmeras as técnicas de Escrita Criativa encontradas em A nota amarela. Destaco algumas: a numeração decrescente dos trinta minutos do concerto, norteando a quem lê para não se perder no labirinto da mente de Jacqueline/Gustavo; a importância de manter a regularidade em um bom começo assim como em um bom final; o enfrentamento do bloqueio criativo com notas/palavras diárias, contínuas, independente se serão boas, aproveitadas ou não; fomos criados para sermos imperfeitos, e, nessa falta, é que podemos perfazer a criação.

                   São 18h de um domingo à tarde. Termino a leitura da parte ficcional da tese de Czekster, tese que foi transformada belissimamente em livro. Um violoncelo solto numa capa amarela diz tudo o que Jacqueline du Pré tentou transmitir na apresentação conduzida pelo marido, o maestro Daniel Barenboim, e filmada por Christopher Nupen em 1967.[2]  O violoncelo na capa amarela diz tudo o que Gustavo, com sua mão estirada em minha direção, como se fosse o Deus de Michelângelo, alivia as minhas dúvidas, se sou ou não uma escritora de verdade, incentiva o Ícaro que habita o mais profundo de minha alma a se lançar contra o sol, contra a mais vibrante estrela/nota amarela, apesar do risco de se queimar, apesar da cera das asas estarem quase derretendo, pois como dizia Jackie, “Sinta, sinta, sinta”, ou a bailarina alemã Pina Bausch, “Dance, dance, dance, ou estaremos perdidos”.

                   Dancemos então.

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** Sobre A nota amarela: seguida de “Sobre a escrita – um ensaio à moda de Montaigne”, Gustavo Melo Czekster. Porto Alegre, RS: Zouk, 2021.     

*** Escritora, vinte livros publicados, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: www.patriciatenorio.com.br; patriciatenorio@uol.com.br; www.estudosemescritacriativa.com; grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com.

[1] SUASSUNA, Ariano. Iniciação à estética. Texto revisado e cotejado por Carlos Newton Júnior. 5ª edição. Recife: Ed. Universitária da UFPE. 2002, pp. 235-240.

[2] “O vídeo do concerto está disponível no seguinte link: https://tinyurl.com/celloconcertoop85” (CZEKSTER, 2021, p. 17).   

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Um voyeur que nos salva**

Estava eu, no meu canto, em pleno amargor de segundo semestre do segundo ano da pandemia de Covid-19 (especialmente em nosso país), quando recebo – embrulhado em papel madeira e cordãozinho daqueles que encontrávamos nas padarias, ou mercearias, ou lojas de antigamente –, recebo Anotações de um voyeur, de Krauh Offman.

                   Foi um presente do poeta, escritor e acredito editor, de Santa Catarina, Alcides Buss. Abro a primeira página e encontro a dedicatória:

                   “Seus livros compuseram momentos de boa fruição literária – notas musicais de resistência à pandemia”.

                   Alcides me oferece o livro de Offman em contraponto à leitura da Coleção Quarentena – Exílio ou Diário depois do fim do mundo (não ficção), Poemas de cárcere (poesia), Setembro (ficção) – lançada em dezembro de 2020 e enviada em janeiro de 2021 para escritores e escritoras que admiro imensamente.

                   Anotações de um voyeur é composto por 190 minicontos escritos de maneira primorosa. Antes de iniciar a leitura, investigo quem é Krauh Offman – mania de professora de Escrita Criativa, que deseja sempre ligar o nome à obra, entender e absorver melhor a sua construção. Pois bem, procurei e procurei e obtive poucas linhas sobre esse escritor misterioso: de que é um nômade, e possui outro livro (Mas o que é poesia?, 2017) pela mesma editora Caminho de dentro, de Santa Catarina.

                   Desconfiando que o autor seja um pseudônimo do meu amigo das letras, Alcides Buss,[1] e que ele também seja editor da Caminho de dentro, me deixo levar pelo olhar de flaneur do escritor nascido “nas margens do Reno” e que “cedo, veio para o Brasil”, segundo afirma no miniconto “Autoral” ao fim do livro.

                  Como se fossem pequenos haicais, Offman nos brinda com diminutos contos filosófico-poéticos que explodem em nosso olhar e nos convidam a profunda reflexão. Talvez, por esse motivo, levei quase três dias para conseguir ler o livro (em formato de bolso) inteiro, porque me perdia (e me encontrava novamente) nos devaneios que o texto me provocava.

                   Os títulos servem como chaves para os enigmas que encontramos nos minicontos. Às vezes, funcionam como perguntas – é o que chamei de provocação. Às vezes, nos remete a filmes, como, por exemplo, o miniconto “Peso e leveza”, nos transportando ao livro/filme A insustentável leveza do ser.[2] Ou mesmo “Para sempre”, me remetendo a um filme que assisti recentemente chamado Ella e John (The Leisure Seeker).[3]

                   Se eu fosse selecionar algum(ns) miniconto(s) para chamar de melhor(es), eu estaria sendo injusta com os demais. E, principalmente, não estaria atendendo ao que parece ser a mensagem subliminar que Alcides/Krauh me provoca (e também pode provocar você que me lê):

                   – De que devemos aprender algo mais do que o pânico, o medo da morte, o isolamento de outros seres humanos provocados pela pandemia de Covid-19. Que o tempo pode ser moldado a nosso favor, e podemos degustar, lentamente, cada linha escrita, cada verso soletrado, ou pincelada de quadro, ou acorde musical. Que a arte nos salvou, nos salva e nos salvará sempre, da loucura, do egoísmo, nos dá sentido em meio ao caos, nos traz de volta à humanidade.

                   Obrigada, Alcides, obrigada, Offman. Espero um dia conhecê-los pessoalmente, eu que só os conheço através de suas palavras e belíssimas. E isso é muito.    

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** Sobre Anotações de um voyeur, Krauh Offman. Florianópolis, SC: Caminho de dentro, 2012.

[1] Em “A morte do autor” (In O rumor da língua, São Paulo: Martins Fontes, 2004), o filósofo, semiólogo, escritor francês Roland Barthes afirma que, nos tempos pós-modernos, não há a necessidade de um(a) autor(a) real para que o texto se imponha.

[2] Livro: KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. Tradução: Tereza Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. Filme: A Insustentável Leveza do Ser. 1988. 172 min. EUA. Direção: Philip Kaufman. Com Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche, Lena Olin, Derek de Lint, entre outros.

[3] The Leisure Seeker. Ella e John. 2017. 113 min. Direção: Paulo Virzi. Com Donald Sutherland, Helen Mirren, Janel Moloney, Christian McKey, entre outros.