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Índex* | Dezembro, 2021

Desfaço

O tempo

Como quem

Desfaz

A morte

E retira

Aqueles

Nozinhos de

Amargura

Que os maus

Momentos

Nos dão

*

Invento

A vida

Como quem

Escreve

Um verso

Cheio de

Ternura

E ao mundo

Inteiro

Presentear

*

(“A vida por um segundo”, 11/12/2021, 07h48)

A vida por um segundo no último Índex do ano, em Dezembro de 2021, no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Dezembro, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) & Diversos.

Rio a quatro mãos | Adriano Portela (PE/Brasil) & Patricia Gonçalves Tenório.

As filhas do adeus | Patricia Gonçalves Tenório.

Dois livros por mês | Dezembro, 2021 | Frutar, de Rizolete Fernandes (PE/Brasil) & A caixa-preta, de Geórgia Alves (PE/Brasil).

“As casas” | Com Jaíne Cintra (PE/Brasil), Juliana Aragão (PE/Brasil) & Mariana Guerra (PE/Brasil).

Poema de Altair Martins (RS/Brasil).

Um panorama da Escrita Criativa | Patricia Gonçalves Tenório & Raldianny Pereira (PE/Brasil).

Agradeço imensamente a atenção, a força e o carinho durante todo ano de 2021, a próxima postagem será em 30 de Janeiro de 2022, abraços cheios de Sonhos, Saúde & Poesia e até lá!

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* | December, 2021

Undo

The time

As we

Undo

The death

And withdraw

Those little nodes

Bitterness

That the bad

Moments

Give us

*

I invent

Life

As we

Write

One verse

Full of

Tenderness

And to the entire

World

We give

*

(“Life for a second”, 12/11/2021, 7:48 am)

Life for a second in the last Index of the year, in December 2021, on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Studies in Creative Writing Online | December, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) & Miscellaneous.

Rio in four hands | Adriano Portela (PE/Brasil) & Patricia Gonçalves Tenório.

Farewell’s daughters | Patricia Gonçalves Tenório.

Two books a month | December, 2021 | Frutar, by Rizolete Fernandes (PE/Brasil) & A black box, by Georgia Alves (PE/Brasil).

“The houses” | With Jaíne Cintra (PE/Brasil), Juliana Aragão (PE/Brasil) & Mariana Guerra (PE/Brasil).

Poem by Altair Martins (RS/Brasil).

An Overview of Creative Writing | Patricia Gonçalves Tenório & Raldianny Pereira (PE/Brasil).

I am immensely grateful for your attention, strength and affection throughout the year of 2021, the next post will be on January 30th, 2022, hugs full of Dreams, Health & Poetry and see you there!

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A viagem poético-afetiva pelo centro de Porto Alegre (RS/Brasil) e pela PUCRS, fechando mais um ciclo de ano e vida. The poetic-affective journey through the center of Porto Alegre (RS/Brasil) and by PUCRS, closing another cycle of year and life.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Dezembro, 2021

E chegamos ao fim do curso on-line e gratuito “Os mundos de dentro”, curso que faz parte dos Estudos em Escrita Criativa em 2021. No mês de dezembro, nos deslocamos pelas casas de oito escritores brasileiros, aterrizamos na Porto Alegre de Mario Quintana, visitamos o hotel Majestic e a casa da poetisa performática, escritora, atriz, diretora de teatro, mestre e doutoranda em Escrita Criativa pela PUCRS, a gaúcha-carioca Gisela Rodriguez.

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Primeira Aula do Módulo 12:

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Na primeira aula do módulo 12, descobrimos que Os mundos de dentro de Mario Quintana nos ajudam a sair para Os mundos de fora; degustamos a tranquilidade profunda de seus poemas; confirmamos a temática da casa permeando sua escrita com a professora Tania Carvalhal; nos encantamos com o quanto o autor valorizava a obra acima da própria vida; percebemos o isolamento de Quintana na casa-hotel Majestic como metáfora para o mergulho nos mundos de dentro de nós, escribas, especialmente, durante a pandemia;

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Segunda Aula do Módulo 12:

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Na segunda aula do módulo 12, acompanhamos a entrevista de Mario Quintana para Edla Van Steen e a impressão de fluxo simultâneo na escrita do autor gaúcho; traçamos diálogos possíveis com a poesia de Quintana: Alberto Caeiro, Carlos Pena Filho, Hermann Hesse; visitamos virtualmente antecipando a visita presencial à casa de Quintana no Hotel Majestic; constatamos a dificuldade de Quintana em sair para o mundo, após uma infância enclausurada por questões de saúde, semelhante ao que vivemos na pandemia; sugerimos filmes e o último exercício de desbloqueio.

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Terceira Aula do Módulo 11:

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E foi com imensa alegria que fechamos com chave de ouro, na quarta-feira 15/12/2021, em Porto Alegre, o nosso curso na casa da queridíssima Gisela Rodriguez, com direito a sarau poético, lançamento da coletânea Estudos em Escrita Criativa (abaixo) e da novela policial Rio a quatro mãos (em outro post) e a presença de dois escritores convidados de Os mundos de dentro: Altair Martins (Manuel Bandeira) e Adriano Portela (Osman Lins). Agradecemos a atenção e o carinho de todos e todas vocês, continuem trilhando esse caminho tão lindo da Escrita Criativa, nos mundos de dentro e nos mundos de fora da literatura e da poesia mundial e brasileira! No post “As casas”, vocês podem conferir um vídeo de retrospectiva do curso preparado com todo carinho pelas meninas super poderosas Jaíne Cintra, Juliana Aragão e Mariana Guerra! Boas viagens!

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https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

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Exercícios de desbloqueio:

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Módulo 10 – Carlos Drummond de Andrade:

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Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

Bom dia, Drummond

Mesmo te conhecendo desde cedo através de alguns poemas, nunca me senti à vontade para conversar contigo como se conversa com um amigo íntimo. Jamais pensei em um papo descontraído num dos bancos da calçada de uma praia no Rio de Janeiro – jamais! Sempre me intimidou tua presença altiva e distante de mim.

Agora tive a oportunidade de te conhecer um pouco mais e mesmo assim tenho receio de parecer inconveniente. E mais agora, que te sei “triste, orgulhoso, de ferro” como as calçadas da tua Itabira. Mesmo agora, te vejo inacessível aos simples mortais, talvez por estares no cume da montanha, da qual ainda tentamos vencer as pedras do meio do caminho.

Mas apesar de tudo, te escrevo, e aproveito para perguntar: E agora, Drummond?

Com esta tarefa, só me resta voltar no tempo e te dizer que por aqui as coisas não mudaram muito e, com a pandemia, nunca foram tão verdadeiras as suas palavras:

“o povo sumiu,

a festa acabou

a luz apagou

o povo sumiu”

Sim, Drummond, nunca foi tão atual esta incerteza, esta desesperança – a cada dia tentamos escalar montanhas, mas ligamos a TV e caímos de volta ao fundo do poço.

É a COVID,

A variante Delta,

A Amazônia em chamas,

O Pantanal deserto.

É o Ômicron,

É a fome,

O desgoverno – Tinha realmente uma pedra no meio do caminho…

Só nos resta esperar,

Por um novo dia – que por enquanto, tarda a chegar.

Pois é, caro Drummond:

O dia não veio,

O bonde não veio

O riso não veio,

Não veio a utopia

E tudo acabou.”

E agora, Drummond?

*

Módulo 11 – João Guimarães Rosa:

*

Elba Lins

Exercício de desbloqueio relativo ao mês de novembro de 2021

Sinopse

Jovem narra a história de sua vida, sua relação com as palavras, e a dificuldade em lidar com o afastamento da natureza depois de ter sido resgatada ainda criança do local em que viveu com sua mãe surda-muda.

Personagem

Luna é jovem, dona de um corpo esbelto, forte e flexível e sua voz é doce, mas cortante. Viveu até os oito anos na floresta onde aprendeu a se movimentar como os animais. Sua voz doce, tem notas cortantes, pois até o resgate tudo que aprendeu veio do convívio com os pássaros e com a observação das feras.

Lista de Providências e Planejamento –

Desenvolver o personagem e planejar como será sua relação com as pessoas que lhe resgataram.

Assistir ao filme Nell com Jodie Foster para observar alguns traços da personagem exposta ao mesmo ambiente que Luna.

A questão essencial do personagem

A questão essencial do personagem é que só teve uma única forma de aprendizado – a observação dos animais e da natureza.

Lista de Providências e Planejamento –

Recolher exemplos sobre como este aprendizado era feito. Exemplo: dançar – através da observação dos pássaros, das águas, do vento e do fogo. Cantar – através do canto dos pássaros e rugir das feras.

Assistir a alguns episódios sobre animais e sua vida na floresta.

O conflito da narrativa

O conflito vai surgir quando Luna precisar se relacionar com as pessoas e desenvolver novas formas de aprendizado. Já que tudo era feito a partir da observação dos animais e da natureza e com bastante tempo para observar, Luna estranhará a pressa como deve aprender a partir de agora e sempre dependendo de outra pessoa para lhe ensinar.

O enredo e a estrutura

O enredo é a trajetória de Luna e mostrará a partir de sua própria escrita todas as dificuldades em aprender a se comunicar, aprender novos signos, novos sinais. É a construção de uma nova forma de vida. Sua decisão de colocar em papel sua história é outro desafio para Luna.

A estrutura da narrativa será fragmentada levando o leitor e a própria autora a uma viagem do presente ao passado, a uma expectativa de como será seu futuro. Neste trajeto da escritura Luna avaliará o caminho trilhado até aqui e as possíveis bifurcações.

A focalização

Será interna na 1ª pessoa quando se tratar do tempo passado e dos planos para o futuro.

Será externa na 3ª pessoa quando se tratar do presente.

O espaço

Lista de Providências e Planejamento –

Tipo de espaço de cenário a ser utilizado em cada cena da época atual e da infância.

O tempo 

O tempo do passado será medido pelas estações e o presente será medido em minutos gastos nas atividades.

O estilo  

A escrita deverá ser bem compacta quando ela fala no presente e bastante completa quando relembra do passado. A estrutura deverá ser diferente do esperado. Agora que ela dispõe de maior vocabulário ela falará de forma racional e suscinta e quando fala do passado ela descreve tudo com detalhes vibrantes. É como se ao invés de usar os recursos gramaticais e ortográficos agora disponíveis, ela buscasse traduzir o que está na sua alma quando fala de cada situação.

Módulo 12 – Mario Quintana:

*

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

CRÔNICA SOBRE UMA VIAGEM NÃO REALIZADA

                                                           Será simplesmente o tempo ou

                                                a memória do homem que transforma

a história em lenda?

(Richard Henning)

            Passeio os dedos pelo teclado para escrever sobre uma viagem, como tarefa final dessa também viagem pelos mundos de dentro proporcionada pela escrita e conto sobre o que se segue. Houve viagens inesquecíveis, no Brasil ou no exterior, repleta de histórias bem interessantes. Todas, frutos de sonhos realizados. Mas houve uma em particular que foi sonhada num tempo passado e que não foi concretizada. Esta é a crônica para a pretensa viagem à Ilha de Páscoa e acerca de sonhos não realizados.

           Sempre me interessei por história. Qualquer história! E se ela vem com castelos de contos de fadas desenhados em nossa imaginação, ou monumentos sobre o qual possa ver no concreto (e imaginar) outras histórias, que maravilha! A Ilha de Páscoa tem muitos desses monumentos imponentes que nos fazem sonhar, pensar o que verdadeiramente significavam. Aquelas imensas figuras encravadas na ilha, os moais, pela disposição, pareciam estar protegendo o povo. Como alguns povos antigos, restaram a nós esses monumentos e pouca história, o que nos faz sonhar, especular e imaginar sobre aquele espaço. Um pedacinho da Polinésia perto da América do Sul.

           Recordo que por volta do final dos anos setenta, ao assistir o filme Eram os deuses astronautas, filme baseado no livro de Erick Von Daniken, fui tocada pela curiosidade acerca daquela ilha, a sua magia. Bateu a curiosidade de ver de perto aquelas criaturas rochosas imensas!!!! Uma feitiçaria despertada também pelas leituras do livro que havia recebido no Natal me falava sobre os enigmas do universo. Mas, somente após muitas viagens realizadas, chegaria o momento de estar bem perto e ir ou não ir à Ilha de Páscoa.

           Faz alguns anos que viajo com amigas durante o carnaval. Fugimos da folia e vamos conhecer outras coisas nesse momento, apesar de amarmos nosso carnaval. Assim, em 2013, entrou nos planos a viagem à Santiago do Chile. Foi quando voltou a ideia de aproveitar para conhecer a Ilha de Páscoa. Estaríamos separadas por apenas mais um voo. Do trio ou quarteto dessas viagens, restamos duas. Então propus a esticada à ilha. No entanto, minha amiga explicou que teríamos pouco tempo para fazer mais uma viagem, não tinha vontade de conhecer a ilha e, como não era algo que justificasse eu me separar um período para poder ir ver a ilha e voltar, escolhi não ir. Penso que as escolhas sempre são de nossa responsabilidade e que uma amizade e um planejamento conjunto sobre qualquer atividade deve ter concessões de ambas as partes e assim foi. A viagem a Santiago foi inesquecível! Cheia de histórias interessantes que merece outra crônica. E, acredito, que só assim aconteceu porque tivemos o tempo necessário lá. Afinal eram somente oito dias.

           Mal podia imaginar que tanta coisa me esperava, embora fosse com o coração cheio de poesia para encontrar com o admirável poeta Neruda! E ele não me decepcionou! Ao visitar suas casas reencontrei suas poesias, lá bem nos seus mundos de dentro! Houve o engraçado encontro (mais de uma vez) com grupos de brasileiros (recifenses) também fugindo do carnaval….,  o encontro com Nossa Senhora da Concepcion no Morro de Santa Lucia e o futuro milagre na vida da minha amiga; o muito mais engraçado “Valentine Day” que participamos em um jantar “romântico” minha amiga e eu , quando descobrimos a comemoração;  o gosto ainda na boca da empanada e tortilha que trocamos  na hora de experimentar, mas provamos um pouco do gosto  da civilização andina nos tocando;  e a vinícola Concha e Toro e a história do Casillero del Diabo…. a música nas ruas, na feira, escutando de Roberto Carlos ao Condor passa!

           Mas foi em Valparaíso, aquele outro local que sempre sonhei ver, somente por conta de Neruda, que tudo aconteceu. Receber a maresia ventando no rosto; o passeio à casa da praia do poeta, entrar no seu quarto, olhar a mesma vista… Quantas histórias numa só viagem! Até que me deparei com um MOAI sacado da ilha. O guia explicou porque ele foi para lá…sinceramente, não me recordo mais porque, mas recordo de ter aperreado para descer e fui até lá para ver de perto aquele imenso ser rochoso: eu VI de perto um MOAI!!!!!  Já havia visto os de madeira, mas aquele foi especial. E como se não bastasse, perto de voltar, já em Santiago, fui àqueles shows feito para turista ver e tive a grata surpresa de assistir a várias danças folclóricas do povo da Ilha de Páscoa. As belas dançarinas encantaram a todos, mas os homens, ah, aqueles vigorosos homens tomaram o lugar das dançarinas e nunca mais esquecerei da dança vigorosa dos homens da Ilha de Páscoa!  E também da exclamação da minha amiga que me confessa: Berna, estou viva!  Estávamos vivas, alegres e dançantes naquele prazeroso encontro. Diz o ditado: “Se Maomé não vai à montanha”…. Pois foi assim: a ilha veio até mim naquela bela viagem a Santigo do Chile. Dei-me por satisfeita. Sou sempre feliz por tantos sonhos realizados. Alguns que não realizei, eu sei bem o porquê. No que dependeu de mim, sinto-me feliz do que pude ter. Não lamento o que não pude, deixo que a vida se encarregue de me mostrar o melhor caminho e sigo feliz. E sou feliz quando outro (a) realiza seus sonhos. Por quê? Porque a felicidade e a infelicidade não são exclusivas de ninguém e a todos pertencem. Foi nesse entendimento que escrevi, em 2014, o poema “Mea Culpa”:

Nunca houve real empecilho

Nesta minha via

O que não fui

– por falta de ousadia –

O que não fiz

– por covardia –

Não posso apontar ninguém

Foi tudo por opção

Escolha

Responsabilidade

Ou exclusivamente

Culpa minha!

            O livro que recebi no Natal de 1975 se chamava Os grandes enigmas do universo de autoria de Richard Henning. Na dedicatória, o pai de nossas amigas, nossas vizinhas lá em Olinda, me estimulava a procurar meu caminho profissional. Um dos caminhos que ele apontava foi o que segui inicialmente e que me serve até hoje na minha antropologia da poética. Talvez, por muitas dessas experiências, penso que sonhos e boas palavras é o que devemos deixar para os outros. Aquelas palavras ainda hoje estão comigo! A infelicidade particular reservo uma boa expurgação poética e deixo-a lá com parte minha.

            Quanto à viagem à Ilha de Pascoa que pude experienciar em Santiago do Chile, bastou para mim. A memória encantou essa viagem não realizada. Não me arrependo por esta escolha e, como diria minha amiga, quando, em nossas viagens, não vale o esforço de fazer algo em nossa programação: Dei por visto! Assim, no ponto final despeço da viagem não realizada com aquela canção de Santiago do Chile que diz assim: Adios, Santiago querido, me voy, me voy! E vou por aqui, compartilhando sonhos, histórias e na poesia da vida, enquanto durar minha viagem rumo ao desconhecido.

                                                                               Recife, 18 de Dezembro de 2021.

                ÁLBUM DA VIAGEM NÃO REALIZADA


*

Elba Lins

Mundos de dentro

Paredes fechadas

Espaços que explodem

Em possibilidades.

Sonhos

Mídias

Pensamentos

E eu vôo para onde não sei

Para espaços que me sugam

Ou para situações que me lançam

Num tempo só meu.

*

Às vezes me comprimo

Em interstícios –

Precipícios,

Espaço-tempo cortante

Grutas e labirintos…

*

Busco pelo espaço

Espaço vazio

Amplidão

E fantasio a saída

Para tecer a vida

Fora de mim

Para navegar

Em nuvens de possibilidades

Escalar estrelas encobertas

Mergulhar em pensamentos profundos

Ou saltar de paraquedas

No tempo-livre do sonho

Ou no mergulhar de cabeça

No espaço concreto

Da realidade em construção

*

Elenara Leitão

Contato: arqstein@gmail.com

A verdadeira arte de viajar…

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,

Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.

Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali…

Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!

Mário Quintana

*

Rompendo com a estagnação me diz a carta do tarot. Tudo bem que é jogo virtual como tudo o que fazemos hoje. Viramos nós as nuvens que confundimos com as ânsias de vida que nos percorrem. Nossas perguntas, nossas respostas todas viram dados em números binários. Será que se entrecruzam com outros dados em um metaverso, já que o nosso se tornou tão virulento?

*

Romper com a estagnação, diz a carta, enquanto ouço a voz de Mario Quintana falando do desamparo do anjo Malaquias. A janela que enquadra o mundo já se torna prisão. Hora de romper com as inércias, abrir portas e percorrer os mundos de fora.

*

Olho o globo, presente de meu pai. O mundo é vasto. Lembro que vou fazer 65 anos em 2022. Qual melhor presente que me presentear com uma viagem? Qual melhor maneira de romper amarras que deixar de lado o virtual e seguir passo a passo em outras paragens?

*

Aonde ir?

*

Giro o globo. Talvez apenas isso, girar e deixar o dedo apontar.

*

E se cair no meio do oceano? Se pousar no Everest? Se acabar voltando ao lar?

Para aonde ir?

*

Cabo-verde aponta o dedo matreiro.

*

Cabo-verde? Não sei nada sobre Cabo Verde. Mais fácil Holanda e Bélgica onde moram amigos queridos. Portugal com a mesma língua. Alemanha de onde partiu o avô missionário…

*

Uma rápida passada pelo Google me mostra um arquipélago com lindas praias. Colonização portuguesa, a língua crioula cabo/verdiana falada por lá não deve ser tão difícil de entender. Quem quer comunicar sempre dá um jeito, aprendi na vida.

*

Uma viagem começa por uma possibilidade. Diria mais, começa em uma curiosidade. Antes da decisão, há que se pesquisar. O que conhecer em determinado lugar? Qual o mês mais adequado? Qual a comida e os costumes. Como vive a gente de lá? Uma viagem começa bem antes da decisão. Bem antes de marcar passagens e hotéis. Há que se projetar. Não tudo, que é preciso deixar espaço para o imponderável. Afinal viajar é se lançar ao mundo. Deixar o porto seguro, içar velas feito marinheiro que descobre novos mundos.  

*

Sorrio ao pensar que, depois de dois anos de vida reclusa, imaginar o mundo assim tão aberto é alguma ilusão. Ou muita. A vida gira como o globo. Talvez nossas nuvens interajam com as nuvens virtuais. Talvez não. Talvez a vida se faça de sortes ao acaso, como um dedo pousado em um globo determinando uma rota. Talvez eu me negue. Talvez eu me abra. Talvez a derradeira viagem esteja ao meu lado, esperando para me embalar em seus sonhos de promessas nunca realizadas. Talvez apenas esteja esperando que eu abra as portas e rompa as estagnações. Talvez  

 *

Viagem futura

Um dia aparecerão minhas tatuagens invisíveis:

marinheiro do além, encontrarei nos portos

caras amigas, estranhas caras, desconhecidos tios mortos

e eles me indagarão se é muito longe ainda o outro mundo…

Mario Quintana

Rio a quatro mãos | Adriano Portela & Patricia Gonçalves Tenório

Dois convites e um sonho

            Tudo começou com dois convites e um sonho. O primeiro deles foi do professor da PUCRS Ricardo Barberena, que estava angariando textos (poéticos ou ficcionais) para a homenagem ao bicentenário de nascimento do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881). O segundo convite veio do meu afilhado literário, o escritor, cineasta, professor Adriano Portela. Ele me convidou a escrever a quatro mãos.

            Interessante percebermos o quanto a literatura tem de coincidências – que não são tão coincidentes assim. No ano do bicentenário de nascimento do autor de Notas do subsolo, no dia seguinte ao convite de Adriano, veio à mente (e ao sono) um sonho com assassinato e esquartejamento, bem ao estilo de Crime e castigo, também de Dostoiévski. Compartilhei a ideia com meu afilhado, que, prontamente, aceitou o desafio – essa prontidão em embarcar nos meus sonhos vem desde que nos conhecemos, lá nos idos de 2014, na disciplina Tópicos da Crítica Literária, com a sua futura orientadora de mestrado, professora Ermelinda Ferreira.

            Mas colocar em prática uma escrita a quatro mãos é muito mais difícil e delicado do que se imagina. É preciso humildade de ambos os lados, aceitação da forma de escrita do outro, com seu vocabulário próprio, suas ideias e provocações. A princípio, pensamos em escrever doze capítulos, um capítulo para um e o seguinte para o outro (com exceção do último), e que os títulos destes seriam cômodos de uma residência, a começar, é claro, pelo “Subsolo”.

            O cuidado com as contradições e os erros de entendimento foram solucionados com a revisão do texto inteiro a cada capítulo novo escrito. Adriano traçou os perfis físico e psicológico dos personagens para ver se combinavam com os do meu sonho. Fomos ajustando à medida que escrevíamos, e sabíamos de antemão quem seria o personagem-assassino.

            Aprendi muito nesse processo. Havia trabalhado diversas vezes com Adriano – no I Seminário Nacional de Escrita Criativa de Pernambuco (2017), nos cursos da Livraria Cultura (2018), na especialização em Escrita Criativa (Unicap/PUCRS, 2019/2020), no videopodcast de A baronesa (2020), e em tantos outros projetos em comum. Mas nada se compara a ler a alma do outro que a escrita a quatro mãos nos propicia. É um exercício para a vida inteira, que recomendo a todas as pessoas que desejem, cada vez mais, bem escrever.

Patricia Gonçalves Tenório

Sherlock Holmes joga o fio

Anos atrás, quando comecei a rabiscar e encarar a profissão de escritor com a seriedade que ela merece, descobri que o ofício exige conhecimento de um misto de atividades, indo da bruxaria à artilharia de ponta. Um desses conhecimentos é a investigação, o autor precisa ser detetive, e um Sherlock necessita planejar, conhecer e confiar. E assim é a minha relação com a artista com quem divido esta obra. Autora há mais tempo do que eu, dedicada às letras antes mesmo de eu escrever ao menos uma linha, ela, a talentosa Patricia Tenório, foi quem, na verdade, me achou, me investigou e decidiu fazer de mim o seu Watson. Patricia é uma espécie de mentora e um exemplo para todos nós, um exemplo de como respeitar e amar a literatura.

Como pupilo, lancei o desafio para a mestra, ela me devolveu com o fio para eu poder entrar no labirinto e não perdê-la. Convidei Patricia para escrever uma obra a quatro mãos, ela aceitou e me intimou a um trabalho sério e muito prazeroso. Começamos a escrita já com organização e data de lançamento. Era o fim do “ahhh, amanhã eu escrevo”.

Mãos à obra. Criamos um método para a produção da novela, batizei-o de “crime por correspondência”. Funcionou e achei o máximo. Eu, que sempre fui um apaixonado por cartas, estava encantado. Toda vez que eu enviava um capítulo, esperava ansioso, nervoso e inquieto o retorno da minha madrinha autora. “Como será que ela vai resolver isso? Joguei uma bomba para ela desenvolver…”, pensava enquanto o texto não chegava, e, quando ele regressava, era uma explosão de felicidade. O jogo virava: “Como será que eu vou resolver? Ela me jogou uma bomba nas costas.” Fizemos isso por semanas, num respeitar britânico de horários até… até que eu travei no último capítulo.

Passei dias pensando como iria abrir o texto, rabisquei inúmeras situações em meu caderno de rascunhos, solicitei reunião com Patricia, escrevi, escrevi, escrevi, apaguei, apaguei, apaguei. Não quis ler coisas similares, achava que seria pior, porém, assisti a muita referência. Joguei meus planos para minha esposa Camylla, pedi a sua opinião, implorei por ideias. Estava mesmo desesperado. Patricia, calmamente, me aguardava. Até que, no dia 30 de junho de 2021, depois de finalizar a escrita de uma série para o streaming e enviá-la ao cliente, sentei em frente ao computador e soltei o dedo de uma vez só. Foi um alívio. Uma felicidade imensa poder concluir e entregar uma obra. É, outro jargão super certo, a escrita é cheia de dor e amor ao mesmo tempo.

Nestas minhas últimas linhas, quero dedicar meus capítulos e a obra como um todo a minha Sherlock Holmes. E aproveito para revelar ao caro leitor, ou leitora, que com este livro eu aprendi várias coisas, entendi que a famosa solidão do trabalho do escritor pode ter “cura” e o autor precisa de algo mais do que somente “papel, caneta e intuição”. Descobri também que para lançar mais uma obra ficcional no mercado me faltavam três coisas: parceria, organização e determinação.  E, por fim, compreendi que não poderia morrer sem antes publicar uma novela com Patricia Tenório. Recomendo a todos! 

Adriano Portela

As filhas do adeus | Patricia Gonçalves Tenório

Este livro é composto por histórias reais, por ficções verdadeiras. Escrevo uma novela fragmentada em vinte e um breves contos (novela por se tratar da mesma protagonista, Patricia, em terceira pessoa do singular), a partir de fatos que poderiam ter sido, a partir do encontro com personagens femininas que marcaram, de alguma forma, a minha vida, situações da realidade, o que poderia ter acontecido de maneira diferente, e, o mais importante, se eu seria essa pessoa que tem a escrita como água e ar dos meus dias parados.

Dois livros por mês | Dezembro, 2021

Dois livros por mês: Frutar, de Rizolete Fernandes[1] & A caixa-preta, de Geórgia Alves[2]

Patricia Gonçalves Tenório[3]

Dezembro, 2021

Durante seis meses, de agosto a dezembro de 2021, escrevi sobre “Dois livros por mês” nesta coluna. Foi um desafio a que me propus, após encerrar a escrita do material de apoio do curso gratuito e on-line “Os mundos de dentro”, curso este participante dos “Estudos em Escrita Criativa”, o qual totalizou vinte e oito módulos.

E, não por coincidência, apresento breves resenhas de dois livros que estavam há muito na minha cabeceira aguardando uma leitura atenciosa. Porque, após ler os clássicos da literatura mundial e brasileira, debrucei-me nos contemporâneos, e, entre eles, em Frutar, de Rizolete Fernandes e A caixa-preta, de Geórgia Alves.

Comecemos por Frutar. O livro de poemas da cientista social, feminista e poeta nascida em Caraúbas, RN, e residente em Natal, Rizolete Fernandes, é, no mínimo, curioso. Após a leitura de As frutas na medicina doméstica, de Alfons Balbach, Rizolete nos presenteia com uma seleta de quarenta poemas-frutas que frequentam as nossas mesas e aguçam o paladar de amantes da poesia e de outras artes. De uma forma que poderia muito bem ser escrita em prosa erudita, Rizolete nos guia pela origem das frutas nacionais e importadas, frutas que nos curam de inúmeras formas e nos alimentam, assim como os versos de um poema bom.

A baga carnosa tem forma elíptica

dotada de cinco gomos separados;

cortada em transverso pare estrelas[4]

[…]

Pequena árvore da família

Anonáceas, a Anona reticulata

(folha áspera máculas purpúreas)

contém madeira fibrosa e macia

à construção civil destinada[5]

[…]

As sementes do sapoti em decocção

após trituradas são boas diuréticas

e aperientes, igualmente as cascas

d’árvore: febrífugas e adstringentes[6]

           Enquanto isso. O livro da jornalista, cineasta, professora e ex-modelo pernambucana, nascida em Recife Geórgia Alves, A caixa-preta, nos desafia do início ao fim da sua leitura. Narrando a história de Évora, secretária, ex-modelo, e fotógrafa, passeamos pelas ruas do Recife, durante a pandemia de Covid-19. Passeamos quando conseguimos adentrar em sua floresta labiríntica de axiomas, e filosofia, e trechos de músicas, e ditados populares, e indicações eruditas.

Quando conseguimos. Adentrar em sua floresta labiríntica, tal como a bíblia de Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas, ou mesmo a pulsão narrativa do livro de uma das escritoras mais veneradas por Geórgia: Clarice Lispector em Água viva.

Da mesma forma. Que nos preparamos para Guimarães em Grande sertão, nos desprendendo do significado das palavras para mergulhar no significante (também) de Clarice em Água viva, nos desarmamos, e podemos sorver versos-frases-axiomas que nos transformam por inteiro e nos fazem ser pessoas-escribas melhores.

A arte organiza a gente desde dentro.[7]

[…]

“Amor é casas separadas”.[8]

[…]

Porque se não houver Arte, a realidade me devora, Bio.[9]

[…]

O poeta [Drummond] ensina remover a pedra. Ensina a viver?[10]

[…]

O mar do mundo no peito.[11]

[…]

Fui Pandora. Virei Antígona. Serei Atenas.[12]

[…]

A matéria dá origem ao sentimento ou é o contrário? [13]

            Ao mesmo tempo. Técnicas refinadíssimas de escrita criativa: transposição para a linguagem de características de personagens; intergenericidade com trechos de músicas, entre elas, “Mama África”, de Chico César; diálogo entre a literatura e outras áreas de conhecimento, outros pensadores, tais como Friedrich Nietzche, Santo Agostinho, Roland Barthes, poetas e escritores, tais como Elizabeth Bishop, Manoel de Barros e… Eu! Porque Geórgia me advinha inteira, transcreve a cena da ligação anônima narrando a traição da pessoa amada, e é uma cena vivida, e sofrida, e sublimada pelas artes que nos une, que amamos: a literatura e a poesia.

            As palavras. Faltam para (eu dizer a) Geórgia. Faltam para (eu proferir a) Rizolete. Essas duas monstras-sagradas-escribas, do tempo em que poeta era profeta, era lei maior e conduzia quem estivesse no fundo do poço da vida real a transcendê-la através e graças à catarse literário-poética.

            Ao menos uma. Palavra. Obrigada. E secam as letras. E não se conjuram mais espaços entre as escritas. Apenas a certeza, inexorável, de que não estamos sós.

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[1] Sobre Frutar. Rizolete Fernandes. Mossoró, RN: Sarau das Letras: 2021.       

[2] Sobre A caixa-preta. Geórgia Alves. Apresentação: Alexandre Furtado. Maringá: Viseu: 2021.       

[3] Escritora, vinte e um livros publicados, entre eles, Rio a quatro mãos (2021), escrito com Adriano Portela. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE), doutora em Escrita Criativa (PUCRS) e ministrante dos Estudos em Escrita Criativa. Contatos: www.patriciatenorio.com.br; patriciatenorio@uol.com.br; www.estudosemescritacriativa.com; grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com.

[4] FERNANDES, Rizolete. Carambola. In Op. cit., 2021, p. 28.       

[5] FERNANDES, Rizolete. Graviola. In Op. cit., 2021, p. 43, itálico da edição.       

[6] FERNANDES, Rizolete. Sapoti. In Op. cit., 2021, p. 76.       

[7] ALVES, Geórgia. Op. cit., 2021, p. 56.       

[8] ALVES, Geórgia. Op. cit., 2021, p. 64, aspas da edição.       

[9] ALVES, Geórgia. Op. cit., 2021, p. 71.       

[10] ALVES, Geórgia. Op. cit., 2021, p. 74, colchetes nossos.       

[11] ALVES, Geórgia. Op. cit., 2021, p. 121.       

[12] ALVES, Geórgia. Op. cit., 2021, p. 132.       

[13] ALVES, Geórgia. Op. cit., 2021, p. 154.       

“As casas”

Mistérios

Vêm do passado

Antecipam o futuro 

E aterrizam

Suavemente 

No presente 

No instante

Que abro

O caderno

Em branco

Tomo a caneta

Na mão

E escrevo

Um rio de

Saudade

(“Casa”, Patricia Gonçalves Tenório, 13/12/2021, 15h18)

De 03 a 16 de dezembro de 2021, para fechar com chave de ouro o curso “Os mundos de dentro”, percorri oito casas de escritores e escritoras brasileiros, e foi uma alegria infinita. Estar no mesmo espaço que esses monstros sagrados da literatura e da poesia brasileiras é uma honra, especialmente no aprendizado de seus processos de criação, mesmo e principalmente dentro das quatro paredes de suas casas, que contêm e provocam suas criações.

E, com a ajuda dessas meninas super poderosas Jaíne Cintra, Juliana Aragão e Mariana Guerra, apresento uma retrospectiva do curso que tanto prazer me proporcionou, com a participação dos escritores convidados lendo os respectivos escritores estudados.

Muito obrigada, meus queridos!

Patricia.

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Espaço Pasárgada (Recife, PE) | Manuel Bandeira

Casa de Osman Lins em Vitória do Santo Antão, PE.

Casa de Cora Coralina, Goiás Velho, GO.

Casa de Mário de Andrade, São Paulo, SP.

Casa do Sol, de Hilda Hilst, Campinas, SP.

Casa de Carlos Drummond de Andrade, Itabira, MG.

Casa de João Guimarães Rosa, Cordisburgo, MG.

Hotel Majestic, casa de Mario Quintana, Porto Alegre, RS.

Poema de Altair Martins**

80. DE LONGE, TODAS AS QUESTÕES SÃO A MESMA
*

Minhas pernas caminharam
sozinhas
pela estação rodoviária.
*
Era fim de tarde
sem vento,
e os ônibus mal respiravam
montados no horizonte.
*
E as minhas pernas
mais bonitas se vistas de longe
pra onde iam eu não sabia.
*
Perdidas de mim
e não perdidas: sem olhos
e no entanto pisavam firmes
como quem nunca bebeu
(porque, mesmo sem boca,
minhas pernas já beberam).
*
Pernas finalmente longe
e finalmente minhas
(nunca perdidas),
elas subiram as escadas
e deixaram a estação
e outra vez não deixaram:
*
repentinamente fundidas
na multidão,
minhas pernas
sobre a ponte do arroio
ou dormindo à sombra da tarde
não encontraram mais
as mesmas pernas
de agora.
*
Creio
que o tempo também
envelhece.

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* Fotografia: Leonardo Sessegolo

** Altair Martins (Porto Alegre, 1975). Bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) — ênfase em tradução de língua francesa —, mestre e doutor em Literatura Brasileira na mesma universidade. Ministrou a disciplina de Conto no curso superior de Formação de Escritores da UNISINOS entre 2007 e 2010. É professor da Faculdade de Letras e de Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), atuando no Programa de Pós-graduação. Coordena o projeto de pesquisa O fantástico em tradução. Tem textos publicados em Portugal, na Itália, França, Argentina, no Uruguai, na Espanha, Hungria, em Luxemburgo e nos Estados Unidos. Ganhou, entre outros prêmios, o São Paulo de Literatura (2009, com o romance A parede no escuro) e o Moacyr Scliar (2012, com os contos do Enquanto água). A peça teatral Hospital-Bazar (Porto Alegre: EdiPucrs, 2019), o romance Os donos do inverno (Porto Alegre: Não editora, 2019) e Labirinto com linha de pesca (Porto Alegre: Diadorim Editora, 2021) são suas últimas publicações. Ministrante, desde 2019, da disciplina Oficina de Poesia na especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS (2019.2). Contatos: altairt.martins@pucrs.br; www.altairmartins.com.br

Um panorama da Escrita Criativa | Patricia Gonçalves Tenório

A origem da Escrita Criativa vem dos tempos ancestrais. Reza a lenda que a mãe de Virgílio, o autor da Eneida, sonhou quando grávida com um loureiro. Consultou um mágico e este revelou, para alegria da futura mãe, que o filho seria um grande poeta. Mas o mágico advertiu: ela deveria enviar Virgílio para Roma para que aprendesse com os grandes poetas da época. Escritores do mundo inteiro já falaram de suas técnicas de maneira incansável. Descobrimos nas Cartas exemplares que Guy de Maupassant bebia em Gustave Flaubert. Virgínia Woolf compartilha os segredos da sua escrita em O leitor comum. Henry James derrama a própria técnica em A arte da ficção. Edgar Allan Poe explica, de trás para frente, como escreveu seu poema mais conhecido, “O corvo”, em “A filosofia da composição”. Milan Kundera revela os bastidores de A insustentável leveza do ser em A arte do romance. Orhan Pamuk conta da profecia paterna quanto ao Prêmio Nobel de Literatura que recebeu em 2006 em A maleta do meu pai. Por outro lado, Franz Kafka declara que tudo o que escreveu foi para ser respeitado na sua nunca entregue longa Carta ao pai.

No segundo volume da trilogia Sobre a escrita criativa, o escritor e professor da PUCRS Luís Roberto Amabile traça um panorama da área no exterior: “No meio acadêmico, as oficinas deram origem a um campo de estudos nos Estados Unidos, na década de 1930-40: a Escrita Criativa, que floresceu após a II Guerra. E naquele momento, em meados da década de 1980, quase todas as universidades norte-americanas e muitas europeias possuíam seus programas de Creative Writing. Além disso, em países da América Latina, como México e Argentina, crescia o número de oficinas de criação, mesmo sem vínculo acadêmico” (AMABILE, 2018, p. 257).

No Brasil, data de 1962 um dos primeiros cursos dessa natureza (LAMAS/ HINSTZ, 2002), ministrado pelo escritor e professor Cyro dos Anjos, na Universidade de Brasília (UnB). Quatro anos depois, Judith Grossmann fundou, na Universidade Federal da Bahia, as oficinas de criação literária. Na década seguinte, em 1975, no Rio de Janeiro, ocorreu uma oficina ministrada por Silviano Santiago e Affonso Romano de Sant’Anna (este último participou do Program in Creative Writing, iniciado pela Iowa University). E desde 1985, funciona, de maneira ininterrupta e inserida no Programa de Pós-Graduação em Letras, a Oficina de Criação Literária da PUCRS, ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil.

Vamos chegar mais perto. Há quase cinco anos, as poetisas, escritoras e especialistas em Escrita Criativa (Unicap/PUCRS) Bernadete Bruto e Elba Lins me fizeram uma provocação: 

            – Por que você não cria um curso para compartilhar o que está aprendendo na PUCRS?

            Era o início dos meus estudos de doutorado na capital gaúcha, e o início de um ciclo com as minhas amigas pesquisadoras (2016 e 2017); em seguida, na XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco com o I Seminário Nacional de Escrita Criativa de Pernambuco, na Livraria Cultura (Recife e Porto Alegre, em 2018), na Unicap (curso de extensão, em 2019.1, e primeira turma de especialização, em 2019.2), além dos cursos on-line, em 2020 e 2021.

Os Estudos em Escrita Criativa, presencial e on-line, somaram vinte e oito módulos (O tempo, O mito, A viagem, A música, O amor, O sonho, A imagem, O fogo, Língua Inglesa, Portugal, Brasil, Leste Europeu, Japão, Os russos, Os franceses, Os italianos, Osman Lins, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar, Graciliano Ramos, Vinicius de Moraes, Jorge Amado, Cora Coralina, Hilda Hilst, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa, Mario Quintana), milhares de visualizações e centenas de alunos.

            Em 2018, conheci a professora, artista plástica, poetisa, escritora, especialista em Escrita Criativa Raldianny Pereira. Estava eu no auditório da Livraria Cultura do shopping center RioMar, me preparando para iniciar a aula de um dos módulos dos Estudos em Escrita Criativa presencial, quando uma jovem mãe e seu filhinho aproximaram-se do palco. Abri os braços, como sempre faço com as pessoas que me acrescentam e me fazem um ser humano melhor, e ela me apresentou Pedro, nome do personagem de meu livro A menina do olho verde (2016). A presente comunicação marca o fim do meu ciclo e início do ciclo dessa jovem mãe e artista, com a missão de levar a vocês e a tantas outras pessoas que nos acrescentam, o espírito da Escrita Criativa, gestado e conduzido pelo papa da área no país, Luiz Antonio de Assis Brasil, desde 1985.

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Aula, em 17/12/2021, de fechamento da disciplina eletiva de Escrita Criativa da UFPE com a professora, escritora, poetisa, artista plástica e especialista em EC (Unicap/PUCRS) Raldianny Pereira.

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Referências:

AMABILE, Luís Roberto. Escrita criativa, a aventura começa. In Sobre a escrita criativa II. Organização: Patricia Gonçalves Tenório. Prefácio: Bernardo Bueno. Recife: Editora Raio de Sol, 2018.

ASSIS BRASIL, Luiz Antonio. Escrever ficção: Um manual de criação literária. Colaboração de Luís Roberto Amabile. São Paulo: Cia das Letras, 2019.

FLAUBERT, Gustave. Cartas exemplares. Tradução: Carlos Eduardo Lima Machado. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2005.

JAMES, Henry. A arte da ficção. Tradução e prefácio: Daniel Piza. Osasco, SP: Novo Século Editora, 2011.

KAFKA, Franz. Carta ao pai. Tradução: Marcelo Backes. Porto Alegre: L&PM, (1919 in) 2007.

KUNDERA, Milan. A arte do romance. Tradução: Teresa Bulhões C. da Fonseca e Vera Mourão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

LAMAS, Berenice Sica; HINTZ, Marli Marlene. Oficina de criação literária: um olhar de viés. 2ª ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.

PAMUK, Orhan. A maleta do meu pai. Tradução: Sérgio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

POE, Edgar Allan. A filosofia da composição. In Poemas e ensaios. Tradução: Oscar Mendes e Milton Amado. Revisão e notas: Carmen Vera Cirne Lima. 3ª ed. revista. São Paulo: Globo, 1999.

WOOLF, Virgínia. O leitor comum. Tradução: Luciana Viégas. Rio de Janeiro: Graphia, 2007.

Trilogia Sobre a escrita criativa:

Sobre a escrita criativa. Prefácio: Luiz Antonio de Assis Brasil. Capa, design e projeto gráfico: Jaíne Cintra. Revisão: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas. Organização: Patricia Gonçalves Tenório. Com Adriano Portela, Alexandra Lopes Da Cunha, André Balaio, Annie Piaget Müller, Bernadete Bruto, Carlos Enrique Sierra, Daniel Gruber, Elba Lins, Fernando de Mendonça, Guilherme Azambuja Castro, Gustavo Melo Czekster, Igor Gadioli, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luís Roberto Amabile, Maria do Carmo Nino, María Elena Morán Atencio, Patricia Gonçalves Tenório, Robson Teles, Sidney Nicéas, Valesca de Assis. Recife, PE: Raio de Sol, 2017.

Sobre a escrita criativa II. Prefácio: Bernardo Bueno. Capa, design e projeto gráfico: Jaíne Cintra. Revisão: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas. Com Adriano Portela, Alexandra Lopes da Cunha, Amilcar Bettega, Andrezza Postay, Annie Piaget Müller, Antonio Aílton, Bernadete Bruto, Bernardo Bueno, Camilo Mattar Raabe, Daniel Gruber, Elba Lins, Fernando de Mendonça, Fred Linardi, Gisela Rodriguez, Guilherme Azambuja Castro, Gustavo Melo Czekster, Lourival Holanda, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luís Roberto Amabile, Maria do Carmo Nino, María Elena Morán Atencio, Paulo Ricardo Kralik Angelini, Patricia Gonçalves Tenório, Ricardo Timm de Souza, Tiago Germano. Recife, PE: Raio de Sol, 2018.

Sobre a escrita criativa III. Prefácio: Luiz Antonio de Assis Brasil. Capa, design e projeto gráfico: Jaíne Cintra. Revisão: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas. Com Adriano Portela, Altair Martins, Ana Paula Almeida, Ana Teresa Van Der Ley, Arthur Telló, Bernadete Bruto, Bernardo Bueno, Cristina Albert, Dinara Menezes, Elba Lins, Fabiana Plech, Hugo Peixoto, Juliana A. Cordeiro, Lourival Holanda, Luiz Antonio de Assis Brasil, Moema Vilela, Patricia Alves, Patricia Gonçalves Tenório, Raldianny Pereira, Talita Bruto. Recife, PE: Raio de Sol, 2020.

Livro Estudos em Escrita Criativa. Capa e projeto gráfico: Jaíne Cintra. Design: Hana Luzia. Revisão: Ana Lucia Gusmão e Sandra Freitas. Com Adriano Portela, Alexandra Lopes da Cunha, Altair Martins, Andrezza Postay, Antonio Aílton, Bárbara Correia, Bernadete Bruto, Bernardo José de Moraes Bueno, Camilo Mattar, Cleyton Cabral, Cristina Albert Mesquita, Daniel Gruber, Elba Lins, Fernando de Albuquerque, Fernando de Mendonça, Fred Linardi, Gisela Rodriguez, Guilherme Azambuja Castro, Gustavo Melo Czekster, Hugo César, Julia Dantas, Juliana Almeida Cordeiro, Lara Ximenes, Lourival Holanda, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luís Roberto Amabile, Maria do Carmo Nino, María Elena Morán Atencio, Moema Vilela, Patricia Alves, Patricia Gonçalves Tenório, Raldianny Pereira, Renata Rolim, Talita Bruto, Tiago Germano. Recife, PE: Raio de Sol, 2021.

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* Patricia Gonçalves Tenório é escritora, vinte e um livros publicados, entre eles, A baronesa (2020), em formato vídeopodcast, e Rio a quatro mãos (2021), escrito em parceria com Adriano Portela. Recebeu prêmios no Brasil e no exterior por As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007), Como se Ícaro falasse (2012), A menina do olho verde (2016) e pelo conjunto da obra em 2013. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS), ministrou, de 2016 a 2021, cursos on-line e presenciais do grupo de Estudos em Escrita Criativa, e foi idealizadora da especialização em Escrita Criativa Unicap/PUCRS. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com