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Índex* | Setembro, 2021

Uma viagem

Se faz

Ao menos

A quatro pernas

No mínimo

A quatro mãos

Já dizia

Michel Onfray

*

Na teoria

Da viagem

Que fazemos

Para dentro

Que mergulhamos

Nas palavras

De um grande escritor

De uma grandiosa escritora

*

Que nos habita

Esperando

Apenas

Nos trazermos

À tona

*

(“A viagem de nós mesmos”, Patricia Gonçalves Tenório, 14/09/2021, 13h06)

*

Uma viagem a várias mãos e pernas no Índex de Setembro, 2021 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) & Diversas.

Dois livros por mês | Os continentes de dentro (María Elena Moran, Venezuela) & Breve como tudo (Gisela Rodriguez, RS/Brasil).

Dois poemas de Altair Martins (RS/Brasil).

Diálogos | Cilene Santos (PE/Brasil), George Barbosa (PE/Brasil) & Patricia Gonçalves Tenório.

Agradeço a atenção e o carinho de sempre, a próxima postagem será em 31 de Outubro de 2021, grande abraço e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index | September, 2021

A trip

When done

Might be

At least

To four legs

At least

To four hands

Already said

Michel Onfray

*

In theory

Of the trip

That we do

Inside

That we dive

In words

From a great man writer

From a great woman writer

*

That inhabits us

Waiting

Only

We bring them

Surfaced

*

(“The journey of ourselves”, Patricia Gonçalves Tenório, 09/14/2021, 1:06 pm)

*

A trip to several hands and legs in the September, 2021 Index by Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Online Creative Writing Studies | Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) & Miscellaneous.

Two books a month | The continents within (María Elena Moran, Venezuela) & Brief like everything else (Gisela Rodriguez, RS/Brasil).

Two poems by Altair Martins (RS/Brasil).

Dialogues | Cilene Santos (PE/Brasil), George Barbosa (PE/Brasil) & Patricia Gonçalves Tenório.

Thank you for your attention and affection, the next post will be on October 31, 2021, big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Uma viagem a várias mãos e pernas: Bernadete Bruto a caminho de Flores, PE e George Barbosa em Salvador, BA. A trip to several hands and legs: Bernadette Bruto on her way to Flores, PE and George Barbosa in Salvador, BA.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Setembro, 2021

No módulo 9 do curso Os mundos de dentro dos Estudos em Escrita Criativa On-line, investigamos a casa, a vida e a obra de um dos maiores escritores, poetas, artistas brasileiros Mário de Andrade.

Aula 1 | Módulo 9:

Na aula 1, descobrimos a praticidade do olhar do módulo 9, com a indicação de manuais do Brasil e do mundo sobre a escrita criativa; investigamos o enredo polêmico do livro escolhido para o módulo, Amar, verbo intransitivo; constatamos a quebra com a língua portuguesa de Mário de Andrade no seu romance de estreia para criar uma língua genuinamente brasileira (uma das características marcantes do Modernismo) como se fosse o corte do cordão umbilical materno; confirmamos com Mário a importância da construção do personagem que provocará o enredo, como afirma Assis Brasil em Escrever ficção; detectamos os conceitos de homem-do-sonho/homem-da-vida em Mário comparados com o conceito de super-homem em Nietzsche (Assim falava Zaratustra);

Aula 2 | Módulo 9:

Verificamos a construção dos personagens de Mário como se tivessem alma própria, comparando-os com Seis personagens à procura de autor, de Luigi Pirandello; identificamos a repetição de frases como se fossem a marcação musical do texto – Mário como pioneiro no ramo da etnomusicologia do país –, e traçamos um paralelo entre os refrões de Mário e “A filosofia da composição”, de Edgar Allan Poe, encontrados também na importância da preparação para a escrita de uma boa história ensinado por Raimundo Carrero em Os segredos da ficção; indicamos filmes e aplicamos o exercício de desbloqueio.

E não percam a nossa live na próxima quarta-feira 29/09/2021, a partir das 19h, no nosso canal do YouTube! Teremos a honra e a alegria de recebermos a artista plástica e professora por mais de vinte anos da Universidade Federal de Pernambuco, a tão queridíssima Maria do Carmo Nino! Aguardamos vocês!

https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

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Exercícios de Desbloqueio:

Módulo 3 | Ferreira Gullar:

Luciana Beirão de Almeida

Contato: lubeirao@hotmail.com

O vírus

Vírus que mata, sufoca, asfixia

Vírus que afasta, que isola

Vírus invisível

Que nos deixa sem ar.

Um aperto no peito

E uma necessidade de mudança.

Urgente.

É um vírus que atinge a todos.

Muitos negam,

Mas ele está ali.

Escancarado na nossa frente.

Como um tapa na cara,

Gritando pra ser ouvido.

Esse vírus, meu amigo,

Tem um nome:

Ele se chama indiferença.

O vírus

*

Módulo 8 | Hilda Hilst:

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Debochada senhora B

Só estou olhando para sua carinha de sonsa, Berna! Eu? Você me conhece muito bem, sou seu Tede. Vai ter que saber algo de mim. Agora que estávamos face a face, dentro deste apartamento por tantos meses, vai ter que me encarar. Não verá nada angelical. Com anjinhos tocando trombetas e sinfonia divinas. Pois eu cuspo cada palavra que sai da boca enquanto você mede as palavras, menina boazinha… Tede não tem papas na língua. Deixa o nhem nhem nhem, desembucha! Nada do hei porã do povo Guarani e o ideal de vida indígena desde José de Alencar. Estou mais perto do vilipendiado indígena que resta num traçado de terra. No tempo deste infame marco temporal. Que eu digo NÃO! Ponho o verbo no mundo com todos erres e esses para ficar bem desbocado. Uma verborragia bem merda no ventilador..  vai fazer beicinho? Pensa que tenho dó de sua cara de vítima!? Não me comove nem um pouco.  Prefiro escorregar nos becos lamacentos do poema de José Régio, a ir por aí nesse caminho de faz de conta. A minha glória é esta! Glória aqui pode ter sobrenome Pires, Menezes, Estefan, bem chão e palco. Nada das alturas que me causam um revirar no estômago.  Arrasto os chinelos por esse chão de porcelanato reluzente entre tarefas de casa e esse canto da sala para o mundo a escrever baboseira. Senhora com B maiúsculo a desenhar sua sombra gorda, a magra de Augusto dos Anjos era em outro século e séculos amém. Prefiro o deboche de Hilda do que ficar com essa postura de menina bem comportada, não querendo fazer mal a ninguém. Porque a vida “marvada” como a viola que fala alto no peito humano cantada por Rolando Boldrin ainda… assobio, o mesmo script saindo da tv não esqueci. Você esqueceu, Brena? Esqueceu daquele tempo da menina mirrada, a lição da estrada a dizer: este lugar não é seu… Vai chorar? Eu vou mandar todos tomarem no cu. No centro daquele orifício que todos têm medo até de mencionar. Aquele canto que joga merda nesse mundo! Pois eu profirto com gosto. Que força tem a frase, um grande maha mantra, “vá tomar no cu!” Puta que pariu! Eita, outra palavra gostosa! Pronto. Agora me olha com essa cara horrorizada. Eu, Tede, besta-fera. Aquela que não lambe sabão.  Se não fosse eu que dissesse tudo que pensava, que gritasse, que berrasse, que crescesse a cada grito, quando descobri que o grito libera todo o ki da raiva lá borbulhante… Você sobreviveria?  Passou liquid paper na história de nossa vida, foi? Mas o que está escrito continua lá ruminando como a vaca faz capim. Algo permanece como nos palimpsestos… já sei, já sei que vai dizer que tudo se organizou. Esqueceu a historia de Moisés largado no cesto do rio…. Tá lembrada do trono que você foi endeusada e coroada, onde chegou mais alto que a lua, para depois não valer mais nada.? Rainha deposta. Nada nada nada aqui não acontece nada não… entre quatro paredes e como naquele tempo de auto exilio nem um olhar carinhoso. Indiferença. A pior das interjeições. Baixa a senhora D de desemparo… Chora, bobona. Chora sobre o leite derramado. Tede não esquece fácil. Tudo está aqui porra nadica de nada se perdeu no fundo da caixa de pandora que tornou esse apartamento. Sabe o que mais? Vou até lambuzar de bosta este monólogo e mandar o verbo mais belo com marca bostoca como dizia o meu povo antigo, envelopar e entregar, levar meu cavalo de Tróia. Que até pode ser por e-mail, nem saio de casa, e o vírus vai pelo computador todo endereçado ao pequeno príncipe (aliás muito pequeno). Mensagem instantânea Berta e em letras garrafais o cavalo de Tróia vai sair um “Vá se foder!” Foda-se completamente. Você acha ruim? É o perdão acima do imperdoável que você apregoa e Deus permite isso? Injustiçar o mais fraco? Tá aperreada, Brena bestinha? (metida a santinha). Pois eu já imagino o e-mail chegando. Já estou aqui rolando me rindo até sair lágrimas alegres nessas letras dedilhdas com a força do verbo que se fez bosta kkkkkkk. Por que me olha com esse carinho. Puta que nos pariu. Porque Ela me apanha do chão. Porque espera ao meu lado pelo tempo certo. Porque circunda e me abraça no fundo do seu coração.  Brena, você também já perdoou? Não sente nem vontade de gritar bem alto CARALHO? De morrer de rir se o caralho de asa despencou? Por que me olha assim com tanto carinho? Você que também caminha para junto de mim, puta merda! Estais sempre ao meu lado, tão zen que dá raiva. Que raiva? Que tristeza? Que dor? Aqui, neste apartamento, temos apenas eu e você face a face, a pandemia lá fora. Neste mundo de dentro, através da escrita, você me abraça novamente. Neste abraço apertado, carinhoso, nos parimos para uma vida melhor. Nós duas integradas somos FODA!

RECIFE, 22 DE AGOSTO DE 2021

*

Cilene Santos

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

VULNERÁVEL CORAÇÃO

Foi tão leve o toque

Da tua mão

Em minha pele

Mas o bastante para que ela

Eriçada reagisse

E comandasse as batidas

Dentro do meu peito

E no cérebro o atropelo das ideias

Norteasse assim o meu corpo inteiro

Que fazer com este coração

Que me incendeia

Me afraca e fortalece

Ao simples e breve

Tocar das tuas mãos

*

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

LUMINESCÊNCIA 

Luminescência

Lume

Essência

De onde vem?

*

Talvez

Do primeiro vislumbrar

Do mundo lá fora

Dos últimos estertores

De vida

Do fogo fátuo

Da última gordura

Assombrando vidas

No calor da noite

Do primeiro choro

Do último fôlego

Das luzes explodindo

Em vida

Ou da cor do arco-íris

Se desfazendo uma a uma

E se entregando

Se integrando

De volta ao

TODO!

*

Elenara Leitão

Contato: arqstein@gmail.com

Lembra-te do anônimo da Terra

Que meditando a sós com seus botões

Gravou no relógio das quimeras:

É mais tarde do que supões”

Cantares de perda e predileção (1983) – Hilda Hilst

Leio bastante. 

Não o suficiente, é verdade. 

Mas mais que antes. 

O antes do tempo não focado.

O antes da mente embotada

O antes do medo permanente

Se faço um breve passeio no ontem

Vejo folhas caídas, amassadas, largadas

Vejo folhas jogadas e perdidas

Se revisito o hoje

(e se o faço)

é porque sou eterna viajante

mesmo no instante que escrevo

Percebo folhas arrumadas

Inquietas, é verdade

Naquelas arrumações esquisitas

Bagunçadas até

Mas mesmo assim mais arranjadas

Me observo sentada, meus dedos mais ágeis

uma breve luz chega de lado

Um relógio imaginário

com ponteiros enfeitados

teima em girar adoidado

Ora devagar

Ora apressado

Nesse rodopio de taques e tiques

eu bailarina

Júbilo, memórias e mais Hildas

Poetam-me na vã tentativa

de afogar receios

de fomentar coragens

de apressar destinos

É tarde, grito angustiada

Nunca é, ressoam as letras

Os ventos gemem

as rodas andam

cachorros ladram

eu bailo

*

Ilana Kaufman

Contato:ilakau7@gmail.com

A indiferença do ser humano

Cansaço

Desesperança

desta espera

que parece

sem fim

Até quando

o descaso de uns,

impedirá, pelo medo,

o viver de outros?

Dois livros por mês | “Os continentes de dentro”** e “Breve como tudo”***

Setembro, 2021

Patricia Gonçalves Tenório*

A coluna deste mês traz duas mulheres salvadoras, duas amigas escritoras que me resgataram do abismo que assombra todas nós, seres humanos do sexo feminino e escribas.

As duas foram colegas da PUCRS. As duas escreveram sobre o mergulho para dentro de nós que fazemos quando desejamos, com todas as forças, o bem-escrever.

Com vocês: María Elena Morán Atencio e Gisela Rodriguez!

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Teus continentes e os meus[1]

Estar contente com o que se é, com o que se tem, não é a maior parte da felicidade?[2]

(Elogio da loucura, Desidério Erasmo)

                   A ilha é a de Salos. O país, Venezuela. Mas a escrita de María Elena Morán[3] não tem fronteiras, nem continentes: cabe o universo infinito da mente humana.

                   Conheci María Elena ainda como aluna ouvinte na disciplina Oficina de Criação – Narrativa, da pós-graduação em Escrita Criativa da PUCRS, em 2016, ministrada por nosso futuro orientador em comum Luiz Antonio de Assis Brasil.

                  E conheci o seu romance de estreia com cheiro de maresia quando ele ainda estava em construção, quando María ainda tecia com palavras as muralhas do hospital psiquiátrico da ilha de Salos, na Venezuela onde nasceu e de onde retirou suas imagens mais profundas sobre a natureza humana, em especial, sobre uma das maiores possibilidades da natureza humana: a loucura.

                   No Museu do Inconsciente, Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, havia uma placa na entrada do também hospital psiquiátrico Pedro II, no qual a médica alagoana Nise da Silveira[4] desenvolveu, na década de 1950, um trabalho pioneiro com “clientes” (ela preferia o termo a “pacientes”) em estágio avançado de demência e outras doenças psíquicas, na entrada do hospital havia uma placa com a seguinte frase:

                   – O louco é aquele que vai e não volta; o artista é aquele que vai e volta.

                   María Elena nos apresenta Aída Rojo, avó de Sofía, para quem (con)fabula, no papel de personagem principal, toda uma história de Sereias, Sentinelas do Mar, Ajudantes de Transição e Vigias de Terra, os três primeiros tipos pertencentes aos Continentes de Dentro, e o quarto tipo pertencente ao Continente de Fora.

                   María Elena utiliza técnicas refinadíssimas de escrita criativa, a começar pela estruturação de uma ilha abandonada pelos médicos e enfermeiros e deixada nas mãos da filha (Rita) de uma das pacientes. Sofía, quase assassinada quando criança pelo devaneio extremamente fértil (e louco) da avó, se apropria das cartas-narrativas escritas por Aída encontradas nas páginas de livros da biblioteca da ilha, e até de um estatuto com cláusulas bizarras delimitando o mínimo de ordem perante o caos. Além da estrutura monumental criada por María/Sofía/Aída, encontramos em Os continentes de dentro as técnicas das listas, dos refrões, das incorporações da personalidade dos personagens na linguagem de cada um, e o diálogo riquíssimo com clássicos da literatura universal e venezuelana.

                  Mas o que mais me chamou atenção foi a proximidade do real que o livro de estreia de María Elena Morán me provocou. Não por acaso o escolhi para a coluna “Dois livros por mês”[5] de setembro, 2021. Li e escrevi esta resenha de um gole só: dois dias para a leitura das densas duzentas e trinta e seis páginas do livro; duas horas para a escrita dessas duas páginas de resenha. Li e escrevi em agosto a coluna de setembro, porque ocorria na vida real (se pode existir uma vida unicamente real), com uma pessoa muito querida minha, algo semelhante à avó da personagem principal: o adoecimento psíquico.[6] Morán mostrou-me os caminhos da loucura e apaziguou a angústia de toda pessoa que ama: o que fazer quando a pessoa amada se perde nos descaminhos da própria mente? A neta Sofía vai descortinando a loucura da avó e vai perdoando os cuidados extremos da mãe Taís, os cuidados não correspondidos da filha Taís para com a mãe Aída e para com a própria Sofía.

                  Muitas vezes nos culpamos pelas dores e doenças das pessoas amadas, e é certo que grande parte do adoecimento psíquico tem a ver com os relacionamentos mais próximos. Mas é certo também que o/a cliente (como chamava Nise da Silveira) precisa desejar a cura (o desiderio de Erasmo na epígrafe desta resenha), e a tua Sofía, Morán, desejava, apesar do caminho sem volta da avó Aída para as profundezas do mar. Espero que a minha pessoa amada também deseje essa cura, também sobreviva aos cuidados dessa ilha chamada clínica psiquiátrica e volte mais forte para o nosso meio, que seja a artista que a médica alagoana do Engenho de Dentro profetizou lá no Rio de Janeiro, e você, María Elena Morán, aliviou a minha angústia com teus continentes de dentro de Salos, Maracaibo, Venezuela.

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* Patricia Gonçalves Tenório é escritora, vinte livros publicados, e um no prelo, escrito a quatro mãos com Adriano Portela, a ser lançado em dezembro de 2021. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: www.patriciatenorio.com.br; patriciatenorio@uol.com.br; www.estudosemescritacriativa.com; grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com.


[1] Sobre Os continentes de dentro, María Elena Morán. Apresentações: Luiz Antonio de Assis Brasil e Julia Dantas. Porto Alegre, RS: Zouk, 2021.  

[2] Elogio da loucura, Desidério Erasmo. Tradução: Paulo Neves. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011, p. 35.

[3] María Elena Morán Atencio nasceu em Maracaibo, Venezuela, em 1985. Formada em Roteiro na EICTV, Cuba, e em Comunicação Social na Venezuela, é mestre e atualmente cursa o doutorado em Escrita Criativa, na PUCRS. Autora do livro Misceláneas del Desamparo, tem contos publicados em antologias e revistas. Entre seus curta-metragens como roteirista destacam-se Honor al Mérito, Cebú e Estela, selecionados e premiados em diversos festivais internacionais. É corroteirista do longa-metragem Livramento. Hoje trabalha como roteirista de cinema e TV e ministra oficinas de roteiro como a Criativas, em Porto Alegre/RS. Seu primeiro romance, Os continentes de dentro, saiu pela Zouk em 2021. Contato: marielenamoran@gmail.com.

[4] No filme Nise – O coração da loucura (2015, 116 min, direção de Roberto Berliner, com Glória Pires, Simone Mazzer, Cláudio Jaborandy, Fabrício Boliveira, entre outros), descobrimos o trabalho pioneiro da psiquiatra alagoana Nise da Silveira no hospital Pedro II, no Rio de Janeiro, valendo-se da arte terapia das mandalas de Carl Gustav Jung. Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=UeAUNvcM_xk

[5] A coluna “Dois livros por mês” do meu blog, iniciou em julho, 2021 com o nosso colega de PUCRS Gustavo Melo Czekster sobre o seu também belíssimo A nota amarela.

[6] Para preservar a pessoa amada e ao mesmo tempo elaborar o que seu adoecimento psíquico causou em mim, escrevi em dez dias a novela Caminhos manchados de não, que somente foi lida pelas amigas (também) literárias Bernadete Bruto e Elba Lins e, talvez no futuro, pela própria pessoa amada.

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Da brevidade insustentável do ser[1]

Faz-se necessário muito recolhimento para dentro de si próprio.[2]

(Da tranquilidade da alma, Sêneca)

                   A outra autora que veio apaziguar minha alma no mês de setembro de 2021 foi Gisela Rodriguez[3] e o seu Breve como tudo.

                   Escrevi em “Teus continentes e os meus” sobre o livro de María Elena Morán e o quanto ele me salvou no adoecimento psíquico de uma pessoa amada. Em “Da brevidade insustentável do ser”, é a mim que a mais carioca das gaúchas que eu conheço, Gica Rodriguez, descreve: Janine Alves, ou simplesmente Jan, uma escritora de 52 anos, com uma filha adulta (Brenda) que mora em Londres com o pai (Felipe), recém separado da nossa personagem principal.

                   Gica me desnuda por inteiro: as angústias em tentar ser mãe, em tentar ser escritora, e reconhecida, e boa. Mas, aos poucos, ela vai nos convencendo que as únicas pessoas salvas no processo de criação literária, poética, artística, somos nós mesmos.

                   Construindo imagens altamente poéticas, Gisela Rodriguez passeia pelo passado e pelo presente da escritora (também) tão parecida com ela própria, Jan Alves. Uma das primeiras técnicas de escrita criativa refinadíssima de Gisela é a identificação do tempo narrativo através do círculo de personagens ao redor. Sabemos que estamos no passado quando a narradora cita Diego, Pablo, June, Su, a irmã Eve, a mãe Diana. E sabemos quando retornamos ao presente quando conversamos com Tomás – talvez inspirado no Tomás de A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera –, ou na melhor amiga Lisa, ou na bailarina-amante-de-Tomás-Lavínia.

                   Mas quem se desnuda mesmo é Gisela. Traz à tona os seus maiores amores literários, teóricos e filosóficos. Navegamos por “Clarice Lispector, Dostoiévski, Jane Austen, Tolstoi, Machado de Assis, Herta Müller, Jack Kerouac, Virginia Woolf, Rimbaud, Sylvia Plath, Cecília Meireles, Ana Cristina Cesar…”,[4] além do próprio Milan Kundera, Cora Coralina, Simone de Beauvoir. Mas também Roland Barthes, Musil, Philip Roth, Zuckerman ou mesmo a indicação de um dos meus filmes prediletos, O enigma de Kaspar Houser, do cineasta alemão Werner Herzog.[5]

                  Jan se refugia nas palavras, se agarra às palavras como se fosse a única saída. E, com a passagem das páginas, na brevidade do tempo de leitura, vamos confirmando que realmente é a única saída para quem escolheu, como amor perfeito, a literatura. Não somente a escrita, mas também a leitura, e a biblioteca mágica do pai de Jan que, em paradoxo, deixa de herança uma máquina de escrever antiga para a filha de dezessete anos.

                  Aos dezessete anos toda a minha vida virou ao avesso. Vim morar na minha cidade natal e persegui o sonho de alcançar um brilho próprio com as próprias mãos. Descobri a literatura tardiamente, aos trinta e quatro anos – assim como Jan publicou o primeiro romance aos quarenta e cinco –, e nunca mais me senti só. Senti-me, sim, muitas vezes traída por essa deusa-musa que nos pede tanto e nos oferece migalhas, que, famintos, vamos nos satisfazendo insatisfeitos.

                   Mas dentro de si o universo inteiro, afirma Jan/Gica, escrever sendo a nossa salvação, mas não necessariamente a do planeta. E vai escrevendo/descortinando os processos criativos à medida que vai escrevendo, caminhando, tropeçando e levantando de novo, com a alma renovada que a escrita nos dá, nos ensinando que a “vida tem de lutar sempre”, a “morte não”,[6] que é “breve como tudo”,[7] até as palavras-pensamentos despertadas por Gisela Rodriguez “produzirem em nós a dor de querer a vida”,[8] e, mesmo sem sabermos para onde vamos nesse labirinto sem fim que é a arte literária/poética, “enquanto caminhamos enxergamos a nós mesmos”.[9]

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[1] Sobre Breve como tudo, Gisela Rodriguez. Apresentação: Jane Tutikian. Porto Alegre, RS: Class, 2021.  

[2] Da vida retirada; Da tranquilidade da alma; Da felicidade, Lúcio Anneo Sêneca. Tradução: Lúcia Sá Rebello e Ellen Itanajara Neves Vranas. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009, p. 83.

[3] Gisela Rodriguez (Porto Alegre/RS) é formada em Teatro na Faculdade CAL de Artes Cênicas do Rio de Janeiro; Extensão em Cinema na PUCRS; Expressão Corporal “Physical Approach” na City Lit (Londres); Roteiro para Cinema e Televisão AlCtv – Academia Internacional de Cinema e TV(RJ). Diretora, atriz e roteirista do Grupo Nômade de Teatro Ritual. Foi vocalista da banda punk-psicodélica Projeto Uivo, fazendo shows durante sete anos pela capital e interior do RS. Autora dos romances Entre a neve e o deserto (Ed. Libretos) e Breve como tudo (Breviário/Class). Autora do livro de poemas e fotografias Desordem, financiado pelo edital FUMPROARTE. Mestre e doutoranda em Escrita Criativa na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Contato: gicarodriguez@yahoo.com.br

[4] RODRIGUEZ, Gisela. Op. cit., 2021, p. 85. 

[5] Kaspar Hauser (Jeder für Sich und Gott Gegen Alle). O enigma de Kaspar Hauser. 1974. 110 minutos. Alemanha Ocidental. Direção: Werner Herzog.  Com Bruno S., Brigitte Mira, Walter Ladengast, Willy Semmelrogg, entre outros.

[6] RODRIGUEZ, Gisela. Op. cit., 2021, p. 125. 

[7] RODRIGUEZ, Gisela. Op. cit., 2021, p. 126. 

[8] RODRIGUEZ, Gisela. Op. cit., 2021, p. 127. 

[9] RODRIGUEZ, Gisela. Op. cit., 2021, p. 130. 

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Dois poemas de Altair Martins*

68. CONLUIO DO 7 DE SETEMBRO

*

Podes delegar às nuvens
tuas injustiças de gaveta:
a covardia da tua educação particular,
o bairro onde moras,
o plano de saúde
e as vantagens do teu partido.
O riso americano
e o gesto de lavar as mãos
depois da missão cumprida
provam que todos podem vencer.
É o teu caso na firma.

*

Ganhas mais que os outros
porque trabalhas mais que os outros.
Mas as nuvens nunca viram
o homem que limpa o banheiro da rodoviária.
Porque, se nem tu nem a nuvem
conhecem a rodoviária,
a rodoviária não existe no quadro de medalhas.
Assim, se todos podem vencer um dia,
um dia também o teu banheiro
não será mais limpo.
Então trabalhas (de verdade)
para que este dia nunca chegue.

*

Claro, as nuvens se ocuparão de repassar
às outras repartições da atmosfera
as pessoas que coube a ti demitir,
assim como as vantagens da tua vitória
sobre o homem que limpa o banheiro da rodoviária
e que não sabia que estava competindo.
Não se vai a Miami de ônibus.
Não te interessa quantas privadas custa o gás de cozinha.

Teus carros que falam, tuas casas movediças,
as fotografias em redes sociais
e as viagens aos lugares-comuns
onde as embalagens luzem
— tudo isso também defeca.
Será lavado pelas nuvens
quando o lápis quebrar a ponta
e verificar um erro nas tuas operações de simples soma.
Sob o olho comparsa do céu,
com chuva ou com sol
(em Miami ou na rodoviária)
alguém trabalha mais que tu.

*

Mas nada do que consomes
em verdade consomes.
Nenhum bicho morre
para o bife e o casaco que te guarnecem.
A água suja é só água que nasceu suja.
Não vem do cartão de crédito.
Eis uma infração das nuvens:
os índios sempre beberam dessa água
e só morreram por falta de seguro.

*

Dorme.
O céu não insinuará qualquer coisa
sobre os bem-sucedidos aqui da terra
porque do alto não se vê a rodoviária.
Lá, tudo o que flutua também lucra
com a tua coleção de relógios.
Nenhuma nuvem jamais descobrirá a tua senha.

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Fotografia: Louis Scur Carrard.

AUDIO-2021-09-08-16-17-48 – Altair I

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69. SUPERPODEROSOS ATRAVESSAM A CIDADE
*
Temos superpoderes
de parar um ônibus de 14 toneladas
apenas com um aceno.
Nossa voz ordena que máquinas assim
voem pelas avenidas
embora rentes ao chão.
Sobretudo quando é cedo,
temos a velocidade de chegar ao trabalho
com apenas 20 minutos de atraso
e assim permanecemos incógnitos.
E apesar de tudo o que os vidros desperdiçam,
nossa visão aguda atravessa as coisas
e não desperdiça nada.

*

Comandamos, todos os dias,
nossa equipe de extraordinários sempre a postos.
Lemos a mente de cada um e sabemos
que todos disputam uma trincheira,
uma receita que traga o amor de volta
ou um abono salarial.
Mentalizamos o time de futebol por que torcem,
e por isso nos é dado entender tanto o fracasso
quanto o riso assustado.

*

Sempre feridos, e é assim que não nos ferimos fácil.
Nossas mãos crescem conforme a fome
e o medo e nos cicatrizam das palavras cruéis.
Temos pés alados dispostos ao salto, ao assalto
e ao desejo que nutrimos uns pelos outros no domingo.
Nossas capas ficam mais fortes com as chuvas.
Nosso fim de mês nos garante acima
do cordão da calçada e das frutas estendidas
cujo veludo ou verniz nos esperava.
Contamos com o superpoder da espera
e por isso esperamos incansavelmente,
vagando pelas vozes de um rádio
(esperamos),
viajando para as fotografias mais distantes
(esperamos),
(esperamos) que o portão de casa se abra
dourado e nos abrigue no esconderijo
que somos nós, enfim, sem uniforme.

*

Tudo agora é claro: nunca morreremos,
porque depois de nós, sempre outros.

*

Secretos, sob o chuveiro dos normais,
detemos apenas com o corpo
as águas de um banho que é apenas nosso.

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Fotografia: Leonardo Sessegolo.

AUDIO-2021-09-15-12-27-01 – Altair II

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* Altair Martins (Porto Alegre, 1975). Bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) — ênfase em tradução de língua francesa —, mestre e doutor em Literatura Brasileira na mesma universidade. Ministrou a disciplina de Conto no curso superior de Formação de Escritores da UNISINOS entre 2007 e 2010. É professor da Faculdade de Letras e de Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), atuando no Programa de Pós-graduação. Coordena o projeto de pesquisa O fantástico em tradução. Tem textos publicados em Portugal, na Itália, França, Argentina, no Uruguai, na Espanha, Hungria, em Luxemburgo e nos Estados Unidos. Ganhou, entre outros prêmios, o São Paulo de Literatura (2009, com o romance A parede no escuro) e o Moacyr Scliar (2012, com os contos do Enquanto água). A peça teatral Hospital-Bazar (Porto Alegre: EdiPucrs, 2019), o romance Os donos do inverno (Porto Alegre: Não editora, 2019) e Labirinto com linha de pesca (Porto Alegre: Diadorim Editora, 2021) são suas últimas publicações. Ministrante, desde 2019, da disciplina Oficina de Poesia na especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS (2019.2). Contatos: altairt.martins@pucrs.br; www.altairmartins.com.br

Diálogos | Cilene Santos, George Barbosa & Patricia Gonçalves Tenório

A barca

Tremeu

Sob o meu

Coração

Envaidecido

Sob a

Sensação

Utópica

De ter algum

Poder

Sobre

A vida

Sobre

Os sentimentos

Dos outros

Então

Mergulhei

Em mim

Desbravei

Os cantos

Mais profundos

Renasci

Na praia

Lisa

Feito um

Espelho

Limpa

De prepotências

E traições

E caminhei

Em um mundo

Novo

(“A descoberta do que há de melhor em mim”, Patricia Gonçalves Tenório, 03/09/2021, 07h34)

Fotografias: George Barbosa

NOVO MUNDO

Abri as janelas

Não aquelas que enfeitam a casa

E se voltam para o jardim

Abri as janelas da vida

E encontrei um novo mundo

Não o conhecia mas estava dentro de mim

Cheio de expectativas

Silencioso sereno

Aguardava-me

Até o dia em que eu

Corajosamente descobrisse-o

E foi pelas lentes da procura

Que o encontrei

Olhando o meu interior

Vi as mil possibilidades

De ser de querer de viver

E abracei aquele novo-velho mundo

Que me trouxe de volta à vida

Cilene Santos

Julho/2017