Posts com

Índex* | Julho, 2021

Duvides

Do que tu escutas

Mas não duvides

De quem tu és

*

A vida

Se oferece

Inteira

E tu escolhes

O que já

Se encontra

Em ti

Nas qualidades

Nos defeitos

Um mundo

De maravilhas

Beleza

E milagres

Que habita

Ao alcance

Da tua mão

Que escreve

*

(“Os mundos de dentro são para sempre”, Patricia Gonçalves Tenório, 01/07/2021, 06h34)

Os mundos de dentro de quem escreve e lê no Índex de Julho, 2021 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Julho, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) & Diversos.

Escrita Criativa em mim | Patricia Gonçalves Tenório.

Dois livros por mês: A nota amarela (Gustavo Melo Czekster, RS/Brasil) e Anotações de um voyeur (Krauh Offman, desconhecido) | Patricia Gonçalves Tenório.

Um afilhado se escolhe: Adriano Portela (PE/Brasil) | Patricia Gonçalves Tenório.

Poema de Altair Martins (RS/Brasil).

Poema de Cilene Santos (PE/Brasil).

Medo de quê, Hugo? (Hugo Peixoto, PE/Brasil) | Patricia Gonçalves Tenório.

Agradeço a participação e o carinho de sempre, a próxima postagem será em 29 de Agosto de 2021, grande abraço e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

______________________________________

Index* | July, 2021

Doubts

What you hear

But don’t doubt

Who you are

*

Life

Offers itself

Entire

And you choose

What already

Is found

On thee

In the qualities

In defects

One World

Of wonders

Beauty

And miracles

Who inhabits

Within reach

From the hand

Of  who writes

*

(“The inner worlds are forever”, Patricia Gonçalves Tenório, 07/01/2021, 06:34)

The worlds from within from who writes and reads in Index of July, 2021 on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Online Creative Writing Studies | July, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) & Miscellaneous.

Creative Writing on Me | Patricia Gonçalves Tenório.

Two books per month: The Yellow Note (Gustavo Melo Czekster, RS/Brasil) and Notes of a Voyeur (Krauh Offman, unknown) | Patricia Gonçalves Tenório.

A godson is chosen: Adriano Portela (PE/Brasil) | Patricia Gonçalves Tenório.

Poem by Altair Martins (RS/Brasil).

Poem by Cilene Santos (PE/Brasil).

Afraid of what, Hugo? (Hugo Peixoto, PE/Brasil) | Patricia Gonçalves Tenório.

Thank you for your participation and affection, the next post will be on August 29, 2021, big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

______________________________________


______________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A árvore dos mundos de dentro que sempre brota frutos bons se você acreditar em si. The tree of the worlds from within that always bears good fruit if you believe in yourself.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Junho, 2021

Chegamos ao centro do país para visitarmos a senhora de Goiás, Cora Coralina, e conhecermos o processo de criação da jovem escritora do Mato Grosso do Sul, Moema Vilela.

*

Primeira Aula do Módulo 7:

*

*

Na primeira aula do módulo 7, descobrimos a forma imbricada da poesia e da prosa de Cora Coralina e a semelhança com a escrita de Moema Vilela; investigamos o conceito de ekphrasis (na descrição do escudo de Ulisses, na Ilíada, na análise da escultura Laocoonte por Lessing, no poema “Ode a uma urna grega”, de John Keats) aplicado na obra de Cora (“O prato azul-pombinho”) e também na de Moema (“A dupla vida de Dadá”); observamos os objetos como pontos de partida para a construção de prosa e verso, como se fosse o tear de Penélope à espera de Ulisses na Odisseia de Homero;

*

Segunda Aula do Módulo 7:

*

*

Na segunda aula do módulo, navegamos pelas reminiscências de Jacqueline de Romilly (Les Roses de la Solitude) nos textos de Cora e Moema; apreendemos o conceito das palavras e das coisas de Michel Foucault diante do quadro “Las meninas”, de Diego Velázquez, aplicando nas obras de Cora e Moema; visitamos as muitas casas de Cora; descobrimos a persistência na publicação e o reconhecimento tardio da senhora de Goiás.

*

Terceira Aula do Módulo 7:

*

E, com imensa alegria, convidamos para a nossa live do canal do YouTube na próxima quarta-feira, 28/07/2021, a partir das 19h, com a escritora, doutora e professora de Escrita Criativa na PUCRS e uma das coordenadoras da Especialização em EC (Unicap/PUCRS), Moema Vilela. Não percam!

*

https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

*

Exercícios de desbloqueio:

*

Módulo 3 – Ferreira Gullar:

*

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

Lembranças da cidade da infância

*

Lembro as frias manhãs do sertão na minha cidade também, cheia de luz

Outros dias eram redemoinhos varrendo as ruas e espalhando poeira

E quando nosso olfato era inundado pelo cheiro que subia da terra era sinal de chuva.

Olhávamos para o céu cheio de nuvens de chumbo:

“Estava bonito para chover”

O cheiro das carteiras de cigarro – vazias

Continental, Hollywood, Minister,

Gaivota, Eldorado

Não importava se cigarro de rico ou de pobre

Se transformavam em dinheirinho de brinquedo

Naquele tempo o café cheirava mais

De manhã cedo inundava nossa casa.

A tapioca com doce de leite

E o pirulito

Vendidos por Teté no colégio.

O sábado era dia de costelinhas assadas e fígado partidinho no molho.

Quando o jantar estava fraco papai partia tomate, pimentão e ovos

Era dia do mexido.

No domingo

Os pães com nata esquentando no forno

As natas, eram guardadas para manteiga, biscoitinhos ou para passar no pão

No almoço todos queriam os ovinhos da galinha, a moela e a coxinha da asa

Os cheiros os sabores os sons…

Relâmpagos e trovões

O barulho da chuva nas calhas.

A cisterna enchendo.

E nós tiritando de frio embaixo das bicas.

No São João o cheiro das fogueira e dos fogos de artifício.

A casa da minha Vó tinha de tudo

Buchada, Pirão de ovos

Até tatu comi lá, um dia…

*

Módulo 4 – Graciliano Ramos:

*

Elba Lins

MEMÓRIAS DO CÁRCERE – Dos abraços aos écrans

*

Sobrevivo,

Fechada entre quatro paredes…

*

Paredes sólidas

Que se movem

E me acompanham

Pelos cômodos da casa.

E me isolam

Por trás do vidro dos écrans

Que me tornaram espelho

Do que vejo lá fora.

*

Nem todas as palavras

Escritas e faladas

Me trazem de volta o ‘cimento social’

Todo o álcool

Toda água

Muito sabão

Não me aproximam do outro.

Me isolo do mundo 

Que ficou vazio,

Que se tornou grande,

Abaixo da minha janela.

*

Que ficou cheio nas telas do Windows.

*

Nossas casas

Guetos vazios

Sombras de uma sociedade

Que treme.

Pálida fotografia

Do que fomos um dia.

Oceano de fotos espalhadas em mídias

Que nos enganam,

Quando nossa mão se estende

E toca

Numa tela fria.

*

Módulo 6 – Jorge Amado:

*

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Roteiro Sentimental a Ilhéus

COMO UMA SENHORA CONHECEU E SE APAIXONOU POR JORGE AMADO        

Recife, 26 de junho de 2021 – Ilhéus, 1958.

*                                                                                            

                                                                                   (…) Hoje eu sou Gabriela

                                                                                                           Gabriela ê meus camaradas.

                                                                                   (Modinha para Gabriela – Dorival Caymmi)

*

Organizo minha viagem para conhecer Ilhéus nesse tempo de pandemia. Diferentemente de outros tempos a viagem será toda virtual. Abri o celular e comecei minha busca para encontrar um roteiro que me levasse até mais perto de Jorge Amado e de sua escrita. Descubro o Bar Vesúvio e a Casa Jorge Amado, que mais parecem ter saído da novela televisiva que assisti.  Os prédios antigos têm logo na entrada estátuas do escritor, como que marcando sua presença e ao mesmo tempo nos dando boas-vindas. O passeio pela casa é outra viagem, encontramos muito do acervo de Jorge e de sua esposa! Nessa pequena visita ao centro histórico percebo que ele me remete à cidade cenográfica da novela Gabriela, protagonizada por Sônia Braga. Hoje descubro ter sido uma réplica da cidade recriada no município de Guaratiba (RJ). É dessa forma que começo a recordar quando conheci o escritor.

*

Um som de fundo chega aos ouvidos como quem retorna ao ano de 1975: iaiê, iaiê ioná, meu amor iaiê… e revejo em pensamento a novela Gabriela, uma das primeiras novelas em cores! Aqui começa outra viagem, bem mais sentimental. Estou novamente no terraço de uma casa em Olinda, onde reconheço uma moça sentada em frente para a TV recém adquirida, que mostrava imagens tão coloridas! Reconheço a moça morena da novela, assim como a mocinha de dezessete anos que assistia Gabriela. Naquele tempo já havia lido uma trilogia de romances de Jorge Amado que encontrou em casa reunidos num só livro: Cacau, Suor e No País do Carvanal.  A moça também leu emprestado do vizinho os livros Mar Morto e Capitães de Areia. Depois será o tempo de filmes e novelas, que instigarão outras leituras.

Relembrando esse tempo, três se confundem na tela, quando aumenta o som de uma canção na voz de Gal Costa: Quando vim para esse mundo eu não atinava em nada… Assim, faço esse passeio insólito entrando novela adentro nesta escrita que me descortina aos poucos o roteiro do meu itinerário. Assim inicio percorrendo o mesmo caminho de Grabriela até chegar a Ilhéus. Caminho a pé, sofrido de povo esfomeado vindo da seca.

Chegamos a Ilhéus, entramos na cidade dos anos vinte, precisamente em 1925, na terra de grandes produtores de cacau. Terra e época na qual viveu o escritor e que ambientou esta e muitas de suas histórias.  Acompanho os passos de Gabriela pela cidade até vir trabalhar no Vesúvio para Nacib. Acompanho o encantamento dos homens por ela.  O amor correspondido por Nacib. Seu casamento, a tentativa de Nacib transformá-la em uma dama, seu jeito livre, a traição, a estadia desconfortável no Bataclã, até o acordo entre os amantes sobre um casamento aberto. Gabriela que era morena e cheirava a cravo e canela. Assim como a mocinha lá de Olinda, mas que cheirava a rayto del sol.

A Gabriela de Jorge Amado, assim como eu, nasce em 1958. Assim como ela, a mocinha também encontrará em breve um NACIB, “seu Nacib moço bom”. Assim como Gabriela, a alma da mulher era livre e seria feliz vivendo fora dos conceitos idealizados de uma vida de dona de casa padrão. Sempre Gabriela! O final da mulher seria diferente da novela, embora muitos anos depois, a senhora desfrutasse de uma liberdade plena e sadia.

 Retorno ao cenário de novela… a vida de cada mulher daquele elenco, como se revisitasse os papéis femininos da nossa sociedade. Chego à casa de sinhazinha Guedes Mendonça assassinada junto com seu amante pelo marido coronel Jesuíno. Saio de coração apertado e me divirto vendo Glória, amante do coronel Coriolano, sempre debruçada na varanda do casarão que dá direto na praça, mostrando seus formosos peitões. Acompanho com receio e divertimento sua paixão pelo professor Josué, apimentada pela cantiga de Fafá de Belém: ai moreno! Com sorriso nos lábios visito aquelas senhoras de família duras com o peso da religiosidade sobre elas e sinto pena… já imagino a confusão da procissão juntado-as com as meninas de Maria Machadão. Sigo pelo mesmo caminho de opressão feminina ao chegar ao Bataclã, desmascarando a sociedade hipócrita que abusa das mulheres. Procuro uma saída e sigo em direção à casa de Malvina, a bela menina cheia de ideias novas, querendo se libertar das amarras e presa num amor sem futuro e a um homem fraco… se falo em mim e não em ti é que nesse momento é que já me despedi… meu coração ateu não chora e não lembra, parte e vai embora…

Com esse fundo musical, regresso ao meu presente, ao espaço que ocupo agora em casa, nesse instante que leio a biografia de Jorge Amado. Aquele homem soube viver! Ao rememorar sua história nesta leitura, percebo que perseguiu e alcançou o sonho de viver da escrita, teve uma vida bem vivida, longa e feliz e foi muito bem amado!  A escolha deste roteiro sentimental proporcionado pela escrita e leituras me fez até rever uma cidade que nunca visitei. Quer viagem mais agradável de fazer sem sair de casa? Posso dizer que há muito não sou a mocinha da cor de canela, mas continuo pensando com muita admiração, no Jorge, para sempre, Amado!

*

Elba Lins

UM PASSEIO NO TEMPO

*

Finalizo a leitura de Gabriela Cravo e Canela, de Jorge Amado.

Os Mundos de Dentro têm me levado a viajar por caminhos já trilhados no passado e sempre garimpo boas lembranças – joias encobertas pelo tempo.

Durante a leitura, uma lembrança chegava até mim, lembrança da novela Gabriela, de todos aqueles personagens que povoaram as noites de minha adolescência distante, nos idos de 1975.

Que vontade senti, de rever os personagens que habitavam nossas noites – coronéis com revólver na cinta, jagunços que tocaiavam, matavam e escondiam-se, jovens sonhadoras, prostitutas bonitas, donas de casa sujeitas ao mando dos maridos e alguns poucos que buscavam mudanças que pareciam impossíveis de acontecer.

A cada noite uma gama de artistas desfilavam aos nossos olhos. Alguns tão jovens quanto nós, hoje da mesma forma mães, pais, avós ou bisavós.  Outros não mais estão entre nós, como Armando Bógus na pele de Seu Nacib – o árabe baiano mais amado do Brasil, de quem nem Marcelo Mastroianni tomou o lugar – no seu Bar Vesúvio.

Sônia Braga na eterna pele de Gabriela, a única que roubou de Jorge Amado qualquer outra figura que ele houvesse imaginado para retratar Gabriela, que também roubou de mim a primeira ideia que tive de Gabriela. Gabriela que viajou para os Estados Unidos e quando esteve aqui, passou no Aquarius e se mandou, direto para Bacurau.

Que vontade de rever aquelas cenas,

Que vontade de passear pelas ruas de Ilhéus,

Que vontade de visitar o Bataclan e dançar um tango.

Que vontade de comer o acarajé, o xinxim, o abará e o vatapá de Gabriela.

Fui ao Globoplay, mas não encontrei a versão mais antiga da novela.

Graças ao YouTube consegui descobrir capítulos de Gabriela. E a começar pela música de abertura – “Porto” – de Dori Caymmi (Laiê, iaiê, oni-ona, iaiê …) comecei a navegar nas águas da Bahia, comecei a andar nas terras do cacau, me senti de volta àquela terra. Novamente eu estava lá:

Entrei no cabaré e encontrei logo de cara, Fúlvio Stefanini, representando Tonico Bastos – namorador descarado – dançando tango com uma das meninas do Bataclan. Ainda ali vejo a saudosa Dina Sfat – a Zarolha do Bataclan.

Me encontro novamente com Nívea Maria e Elizabeth Savalla na pele de Jerusa e Malvina.

Tantos atores e atrizes que não mais fazem parte da nossa vida, já subiram para o andar de cima para comer acarajé junto com Jorge Amado na outra dimensão.

Quero muito revê-los todos, de Gabriela a Sinhazinha. Vou assistir o que encontrar no YouTube e depois conto para vocês o que conseguir garimpar nesta viagem ao passado.

*

Ilana Kaufman

Contato: ilakau7@gmail.com

*

Chegando em Salvador, resolvi ir à Ilhéus de balsa, atravessando a Baía de Todos os Santos por ferryboat. De longe se vê o mangue e uma das cidades mais antigas do Brasil, Cairu, um município arquipélago. Assusta um pouco o mar estar turvo na rebentação. Apesar da paisagem indescritível, rezava para desembarcar logo na terra de Jorge Amado. Deixei as bagagens na Pousada dos Hibiscus e dali avistei o azul diferenciado do mar em Ilhéus. Queria conhecer o Centro Histórico. Consegui contemplar o Palácio Paranaguá, o Museu de Arte Sacra, o Teatro Municipal e, de repente, me deparo com o Bar do Vesúvio, importante ponto de encontro de “Gabriela”, onde é possível provar o quibe do Nacib. Em seguida, a casa de Cultura Jorge Amado. Local em que Jorge viveu a sua infância e adolescência. Na volta à Salvador, visitei a Fundação Casa de Jorge Amado ou Casa Azul do Pelourinho. Há um mirante no qual se pode observar os sobrados e os mistérios dos mesmos.

Escrita Criativa em mim* | Patricia Gonçalves Tenório**

Capítulo 12 – Até breve

            Todo fim de ciclo causa um vazio, uma sensação de perda do que foi bom, até mesmo uma dor profunda.

            Assim afirmava Clarice Lispector, na famosa entrevista de 1977,[1] sobre o vazio do último livro escrito em vida, A hora da estrela:

            – Como se eu estivesse falando de dentro do meu túmulo.

            Guardadas as devidas proporções, escrevo a minha última participação no Ver Agora, com o mesmo sentimento da escritora nascida na Ucrânia, mas que se sentia a maior das brasileiras.

           Talvez sintamos esse vazio porque o texto não é mais nosso, o livro ganhou o mundo e se tornou independente, como os nossos filhos – mães e pais entenderão o que estou dizendo.

            Mas os filhos sempre retornam à casa materna/paterna. Os livros também. Lançamos em garrafinhas (hoje em dia virtuais), atingem pessoas leitoras pelo mundo inteiro, e travamos amizades literárias que, de outra forma, nunca realizaríamos.

            E o vazio é propício à criação. Lembro sempre em minhas aulas a frase do filme Fim de caso[2] que o personagem de Ralph Fiennes (Maurice Bendrix) proclama quando está vivendo o amor proibido com a esposa de um diplomata (Henry Miles, interpretado por Stephen Rea), Sarah (Julianne Moore):

            – O que escrever na felicidade? Nada!   

            Penso que na plenitude, tanto da felicidade quanto da tristeza, não há espaço para a criação. Quem sabe, no vazio que o término da minha participação nesta coluna – para a qual fui gentilmente convidada pelo queridíssimo Sidney Nicéas – abre em minhas veias, um novo ciclo nasça na Escrita Criativa em mim?

Fim de ciclo que iniciou em outubro de 2017 com o I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco.

_________________________________________________

* Coluna publicada mensalmente nos blogs www.patriciatenorio.com.br e www.veragora.com.br/tesaoliterario.      

** Escritora, vinte livros publicados, sendo um em formato vídeopodcast, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

[1] Entrevista de Clarice Lispector para a TV Cultura: https://www.youtube.com/watch?v=nhnhthPmL7s

[2] Fim de caso. The End of The Affair. EUA, Alemanha e Reino Unido. 1999. 102 min. Direção: Neil Jordan. Com Ralph Fiennes, Julianne Moore, Stephen Rea, entre outros.    

Dois livros por mês | “A nota amarela”* e “Anotações de um voyeur”**

Patricia Gonçalves Tenório***

Julho, 2021

No encerramento da coluna Escrita Criativa em mim, inauguro, em julho, 2021, a coluna “Dois livros por mês”, com o desejo de percorrer, até dezembro, 2021, doze livros de escritores e escritoras contemporâneos.

São livros que brotam na pilha das publicações de pessoas muito queridas para mim, que me ensinaram e ensinam imensamente e para quem estava devendo uma leitura atenta.

Nesta edição, começo com dois livros bem especiais: o do gaúcho Gustavo Melo Czekster e o enviado pelo poeta paranaense Alcides Buss, o do escritor nômade Krauh Offman.

Boa leitura!

*

A nota amarela, de Gustavo Melo Czekster**

Recebi o convite para o pré-lançamento de A nota amarela, do tão queridíssimo escritor gaúcho Gustavo Melo Czekster, em dezembro de 2020. Estava eu nas minhas mini férias de final do ano, tentando descansar, mas carregando pedra, como dizem aqui no nordeste do país – ou como me lembram meus filhos toda vez que tento me desligar da literatura.

                   Toda vez que tento, pois sempre não consigo. Há quase vinte anos, uma pessoa por quem estava apaixonada – aqueles amores impossíveis –, me disse uma frase que odiei a princípio, mas que ficou ressoando, meio que adormecida, e foi despertada este final de semana (para ser mais exata, sábado à tarde e domingo o dia inteiro): “Patricia, o seu Amor Perfeito é a literatura”.

                   Foi despertada este final de semana porque, após escrever os doze módulos do curso on-line dos Estudos em Escrita Criativa de 2021 – Os mundos de dentro –, resolvi me debruçar na pilha crescente (e maravilhosa!) de livros recém-lançados de escritoras e escritores tão queridos quanto as suas palavras escritas.

                   E comecei por Gustavo. Um pouco na intuição. Um pouco por haver roçado (sem mergulhar verdadeiramente) na apresentação (no início do livro) e nos agradecimentos (no final). Um pouco por me lembrar do trabalho hercúleo de Czekster na construção tanto da parte ficcional, o romance A nota amarela, quanto da parte teórica, “Sobre a escrita – um ensaio à moda de Montaigne”, que fazem parte da sua tese de doutorado em Escrita Criativa pela PUCRS, defendida no início de 2020, sob a orientação do Prof. Dr. Ricardo Timm.

                   Gustavo nos alerta que o Concerto para Violoncelo de Elgar Op. 95 é não ficcional, mas tudo o que se passou na cabeça da solista britânica Jacqueline du Pré não passa “de imaginação do autor”. E nos apresenta o conceito da nota amarela, huang chung, que habita cada ser, com alma ou sem alma – talvez a pedra de Drummond seja a reverberação desse encontro com a nota da Criação, aquela que nos aproxima de Deus, Deus mesmo tendo sido criado por ela.

                   Czekster nos convida a não desistir, a insistir na busca monstruosa pela palavra perfeita, assim como Jacqueline du Pré persegue a sua nota original, aquela que dará sentido às inúmeras horas que lutamos na frente de nosso instrumento de trabalho – quer seja um cello, quer seja um teclado de computador, uma página em branco de um caderno com a caneta em suspensão. Procuramos a palavra perfeita e nos sentimos sós, e nos sentimos fracassadas e fracassados diante de nossa humanidade, diante do corpo que não consegue apreender o eterno, visto sermos temporais, corruptíveis e entregues à morte como a única certeza.

                   A nota amarela nos abre as portas do infinito e tocamos, com o dedo de Adão, o dedo de Deus na Capela Sistina – Michelângelo deve ter encontrado a nota da Criação nesse exato instante.

                   Mas Czekster não acredita em mágicas, nem no gênio ou na inspiração. Ele acredita no trabalho diário, no ofício contínuo, como fazia Jacqueline (du Pré), como ensinava Ariano (Suassuna) no seu Iniciação à estética.[1]

                  A música ou a escrita como a sina de todo artista que se entrega à própria arte e não tem saída, não está livre para ser uma pessoa normal. Mas será que desejamos ser pessoas normais? Ou desejamos, com todos os átomos do corpo e da alma de Epicuro, encontrarmos, ao menos nos aproximarmos da nossa essência, e descobrirmos que, não importa o caminho, sempre chegaríamos à música, à escrita, à arte que abraçamos como se fosse um violoncelo Stradivarius?

                   São inúmeras as técnicas de Escrita Criativa encontradas em A nota amarela. Destaco algumas: a numeração decrescente dos trinta minutos do concerto, norteando a quem lê para não se perder no labirinto da mente de Jacqueline/Gustavo; a importância de manter a regularidade em um bom começo assim como em um bom final; o enfrentamento do bloqueio criativo com notas/palavras diárias, contínuas, independente se serão boas, aproveitadas ou não; fomos criados para sermos imperfeitos, e, nessa falta, é que podemos perfazer a criação.

                   São 18h de um domingo à tarde. Termino a leitura da parte ficcional da tese de Czekster, tese que foi transformada belissimamente em livro. Um violoncelo solto numa capa amarela diz tudo o que Jacqueline du Pré tentou transmitir na apresentação conduzida pelo marido, o maestro Daniel Barenboim, e filmada por Christopher Nupen em 1967.[2]  O violoncelo na capa amarela diz tudo o que Gustavo, com sua mão estirada em minha direção, como se fosse o Deus de Michelângelo, alivia as minhas dúvidas, se sou ou não uma escritora de verdade, incentiva o Ícaro que habita o mais profundo de minha alma a se lançar contra o sol, contra a mais vibrante estrela/nota amarela, apesar do risco de se queimar, apesar da cera das asas estarem quase derretendo, pois como dizia Jackie, “Sinta, sinta, sinta”, ou a bailarina alemã Pina Bausch, “Dance, dance, dance, ou estaremos perdidos”.

                   Dancemos então.

___________________________________________

** Sobre A nota amarela: seguida de “Sobre a escrita – um ensaio à moda de Montaigne”, Gustavo Melo Czekster. Porto Alegre, RS: Zouk, 2021.     

*** Escritora, vinte livros publicados, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: www.patriciatenorio.com.br; patriciatenorio@uol.com.br; www.estudosemescritacriativa.com; grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com.

[1] SUASSUNA, Ariano. Iniciação à estética. Texto revisado e cotejado por Carlos Newton Júnior. 5ª edição. Recife: Ed. Universitária da UFPE. 2002, pp. 235-240.

[2] “O vídeo do concerto está disponível no seguinte link: https://tinyurl.com/celloconcertoop85” (CZEKSTER, 2021, p. 17).   

___________________________________________


___________________________________________  

Um voyeur que nos salva**

Estava eu, no meu canto, em pleno amargor de segundo semestre do segundo ano da pandemia de Covid-19 (especialmente em nosso país), quando recebo – embrulhado em papel madeira e cordãozinho daqueles que encontrávamos nas padarias, ou mercearias, ou lojas de antigamente –, recebo Anotações de um voyeur, de Krauh Offman.

                   Foi um presente do poeta, escritor e acredito editor, de Santa Catarina, Alcides Buss. Abro a primeira página e encontro a dedicatória:

                   “Seus livros compuseram momentos de boa fruição literária – notas musicais de resistência à pandemia”.

                   Alcides me oferece o livro de Offman em contraponto à leitura da Coleção Quarentena – Exílio ou Diário depois do fim do mundo (não ficção), Poemas de cárcere (poesia), Setembro (ficção) – lançada em dezembro de 2020 e enviada em janeiro de 2021 para escritores e escritoras que admiro imensamente.

                   Anotações de um voyeur é composto por 190 minicontos escritos de maneira primorosa. Antes de iniciar a leitura, investigo quem é Krauh Offman – mania de professora de Escrita Criativa, que deseja sempre ligar o nome à obra, entender e absorver melhor a sua construção. Pois bem, procurei e procurei e obtive poucas linhas sobre esse escritor misterioso: de que é um nômade, e possui outro livro (Mas o que é poesia?, 2017) pela mesma editora Caminho de dentro, de Santa Catarina.

                   Desconfiando que o autor seja um pseudônimo do meu amigo das letras, Alcides Buss,[1] e que ele também seja editor da Caminho de dentro, me deixo levar pelo olhar de flaneur do escritor nascido “nas margens do Reno” e que “cedo, veio para o Brasil”, segundo afirma no miniconto “Autoral” ao fim do livro.

                  Como se fossem pequenos haicais, Offman nos brinda com diminutos contos filosófico-poéticos que explodem em nosso olhar e nos convidam a profunda reflexão. Talvez, por esse motivo, levei quase três dias para conseguir ler o livro (em formato de bolso) inteiro, porque me perdia (e me encontrava novamente) nos devaneios que o texto me provocava.

                   Os títulos servem como chaves para os enigmas que encontramos nos minicontos. Às vezes, funcionam como perguntas – é o que chamei de provocação. Às vezes, nos remete a filmes, como, por exemplo, o miniconto “Peso e leveza”, nos transportando ao livro/filme A insustentável leveza do ser.[2] Ou mesmo “Para sempre”, me remetendo a um filme que assisti recentemente chamado Ella e John (The Leisure Seeker).[3]

                   Se eu fosse selecionar algum(ns) miniconto(s) para chamar de melhor(es), eu estaria sendo injusta com os demais. E, principalmente, não estaria atendendo ao que parece ser a mensagem subliminar que Alcides/Krauh me provoca (e também pode provocar você que me lê):

                   – De que devemos aprender algo mais do que o pânico, o medo da morte, o isolamento de outros seres humanos provocados pela pandemia de Covid-19. Que o tempo pode ser moldado a nosso favor, e podemos degustar, lentamente, cada linha escrita, cada verso soletrado, ou pincelada de quadro, ou acorde musical. Que a arte nos salvou, nos salva e nos salvará sempre, da loucura, do egoísmo, nos dá sentido em meio ao caos, nos traz de volta à humanidade.

                   Obrigada, Alcides, obrigada, Offman. Espero um dia conhecê-los pessoalmente, eu que só os conheço através de suas palavras e belíssimas. E isso é muito.    

___________________________________________

___________________________________________

** Sobre Anotações de um voyeur, Krauh Offman. Florianópolis, SC: Caminho de dentro, 2012.

[1] Em “A morte do autor” (In O rumor da língua, São Paulo: Martins Fontes, 2004), o filósofo, semiólogo, escritor francês Roland Barthes afirma que, nos tempos pós-modernos, não há a necessidade de um(a) autor(a) real para que o texto se imponha.

[2] Livro: KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. Tradução: Tereza Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. Filme: A Insustentável Leveza do Ser. 1988. 172 min. EUA. Direção: Philip Kaufman. Com Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche, Lena Olin, Derek de Lint, entre outros.

[3] The Leisure Seeker. Ella e John. 2017. 113 min. Direção: Paulo Virzi. Com Donald Sutherland, Helen Mirren, Janel Moloney, Christian McKey, entre outros.

Um afilhado se escolhe: Adriano Portela* | Patricia Gonçalves Tenório

Julho, 2021

Um afilhado se escolhe. Esta é a única certeza que tenho ao ser gentilmente convidada para escrever a apresentação do meu afilhado de coração, o jornalista, cineasta, escritor e professor de Escrita Criativa, Adriano Portela, para o Destaque Literário de julho, 2021, projeto de Bernadete Bruto, Eugênia Menezes, Raldianny Pereira e Taciana Valença na Cultura Nordestina de Salete do Rêgo Barros.

            Adriano é um daqueles geniozinhos que temos a honra e a alegria de cruzar ao menos uma vez na vida. Solícito, pronto para atender aos mínimos pedidos, nos aquece o coração com a capacidade infinita de apreender coisas novas, desenvolver habilidades nunca antes exploradas, forjar-se artista da maneira mais completa, individual (e coletiva ao mesmo tempo) possível.

            Conheci Adriano em 2014, na disciplina Crítica Literária, ministrada pela Profa. Dra. Ermelinda Ferreira, sua futura orientadora no programa de Pós-graduação em Letras da UFPE. Ele assistia, na condição de ouvinte, à disciplina que eu assistia, na condição de aluna vínculo, recém ingressa. Conversando sobre a seleção, ofereci o material (imenso) que estudei, e ele, obediente, se debruçou com afinco e tirou em primeiro lugar. Nasceu então o meu amadrinhamento.

            Daí em diante, foram anos de convites meus para parcerias as mais inusitadas possíveis, sempre respondidas com sim e rapidez e qualidade. Adriano é daqueles que marcam com segurança e cumprem com satisfação, e isso, para mim, é uma qualidade rara e de altíssimo valor, especialmente hoje em dia, quando a maioria dos artistas não conseguem olhar para o outro, dar-lhe a mão, ajudando a construir um mundo melhor.

            Além das inúmeras frentes que abarca (cineasta, professor, escritor, pesquisador, coordenador de especialização, quase-pai-de-família), Adriano é o idealizador de um projeto social belíssimo: o Cobogó das Artes. O tempo se multiplica nas mãos desse jovem artista plural, como se quisesse abraçar o mundo, e, tenho certeza, conseguirá.

            Ao menos abraça essa madrinha que o admira, curte cada vitória, como se fosse um filho que saiu de si e vê crescer. Até chegar nas estrelas.

_____________________________________

No lançamento de Recife assombrado: o filme, em novembro de 2019.

_____________________________________

* Adriano Portela é mestre e doutorando em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco. Professor da Escola Superior de Marketing – FAMA. Jornalista e diretor de cinema. Autor do romance A última volta do ponteiro (Prêmio Internacional José de Alencar 2012, UBE/RJ). Lançou Recife assombrado: o filme, em novembro de 2019. Idealizador da Cobogó das Artes. Ministrante da disciplina Literatura e Outras Artes, e atual coordenador, com Moema Vilela e Robson Teles, da especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS (2021/2022). Contato: reporterportela@gmail.com

Poema de Altair Martins*

59. UM EPISÓDIO DE CULPA

Fui um vulto no ar que a noite

bafeja.

Me despaço no que fiz

e no que hoje trago

de tudo que esteve sob o foco

de uma câmera fotográfica.

Um cão guarda um carro de compras

de supermercado

e que agora tem dono: um morador das ruas.

O cão tem uma dignidade

à altura do pão e do carinho.

Mas sente frio

e no momento não late.

O morador de ruas, também.

A noite fez casa em mim

como essas coisas de dentro do corpo:

veias, músculos, gordura e dores,

Porto Alegre e um cheiro

de rio encalhado na praia.

Meus dedos não têm dedos

(ao contrário do meu rosto

que tem outro rosto

quando olho).

Sou fraco.

O cão se estica mais que as luzes

e mostra interesse

por tudo o que desprezamos.

O cão descobre a cidade,

e só depois a falta de vento

vem cobrir de cansaço e de borracha

o que restar da avenida.

O cão tem cheiro de trabalho.

O morador de ruas nasceu sem nome.

Fui um vulto no ar que parte

da noite.

Me confisco no que escrevo

e agora risco

sob a mira clandestina

desse episódio que escorre.

_________________________________________

AUDIO-2021-07-06-19-35-02 – Altair

_________________________________________

Fotografia: Santiago Martins

* Altair Martins (Porto Alegre, 1975). Bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) — ênfase em tradução de língua francesa —, mestre e doutor em Literatura Brasileira na mesma universidade. Ministrou a disciplina de Conto no curso superior de Formação de Escritores da UNISINOS entre 2007 e 2010. É professor da Faculdade de Letras e de Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), atuando no Programa de Pós-graduação. Coordena o projeto de pesquisa O fantástico em tradução. Tem textos publicados em Portugal, na Itália, França, Argentina, no Uruguai, na Espanha, Hungria, em Luxemburgo e nos Estados Unidos. Ganhou, entre outros prêmios, o São Paulo de Literatura (2009, com o romance A parede no escuro) e o Moacyr Scliar (2012, com os contos do Enquanto água). A peça teatral Hospital-Bazar (Porto Alegre: EdiPucrs, 2019), o romance Os donos do inverno (Porto Alegre: Não editora, 2019) e Labirinto com linha de pesca (Porto Alegre: Diadorim Editora, 2021) são suas últimas publicações. Ministrante, desde 2019, da disciplina Oficina de Poesia na especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS. Contatos: altairt.martins@pucrs.br; www.altairmartins.com.br

Poema de Cilene Santos*

QUERO

Eu quero ser a flor
Que perfuma e enfeita
O teu jardim
O teu anjo querubim
O sorriso que sorris
Quando olhas para mim
Quero ser o mar
Que deslumbra os teus olhos
E da noite tua quero ser o luar
E se puder algo mais ser
Quero ser a manhã fresca de verão
Que te felicita
Te deixa feliz
E faz da tua vida
Uma canção.
*
19/07/2021

______________________________________________

AUDIO-2021-07-20-12-23-14 – Cilene Santos

______________________________________________

* Cilene Santos, escritora, poeta, cordelista. Professora graduada em Letras, com especialização em Língua Portuguesa. Membro da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel, ocupando a cadeira nº 08, e tem como patrono Dimas Batista. Publicou Branca de Neve e os Sete Anões em Versos e A vida de Joel Pontes, em cordel. Participa dos Estudos em Escrita Criativa desde 2018. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

Medo de quê, Hugo?* | Patricia Gonçalves Tenório

– Hugo Peixoto é a linguagem.

Quando o jornalista, escritor e especialista em Escrita Criativa (Unicap/PUCRS) Hugo Peixoto me convidou para escrever a orelha deste livro, tentei traduzi-lo da melhor forma possível.

Conheci Hugo na primeira turma da especialização em Escrita Criativa, na qual fui ministrante de disciplina e coordenadora. Aquele jovem de Nazaré da Mata, e que sabia manejar um facão tão brilhantemente quanto as palavras, me assustava no bom sentido. Assustava, pois não temia manejar nem aquele quanto estas, as tão difíceis e pobres palavras, matéria-prima mais humilde entre as belas artes. Porque, sim, nós, escribas, não contamos com tintas e telas, lentes e filtros, argila e pedaços de cristal. Apenas palavras, tão simplesmente palavras, e que nem toda pessoa que escreve sabe bem manusear sem se ferir com as arestas.

Mas Hugo sabe. Ele não teme deixar quem lê sem o final da história, nem navegar pelas classes sociais mais díspares possíveis, procurando mostrar mais do que dizer, nos convidando a mergulhar em seu universo social, político, reivindicador de melhores condições de vida para os menos privilegiados. Isso tudo sem uma acusação, sem um julgamento. Só nos faz sentir e mudar de caminho. O que era insensibilidade, se transforma em comunhão. O que era emoção à flor da pele, racionaliza os recursos e nos conduz a soluções possíveis em meio ao caos.

Hugo Peixoto é a linguagem. Ou bem transforma os personagens sofridos, humildes, sozinhos em palavras puras que nos tocam o coração. Os finais inacabados nos convidam a escrever junto com ele, a participar da história, porque só é possível construir um mundo novo a várias mãos. Quatorze contos que representam o vazio, a violência, a falta de sentido, a solidão, a prisão do corpo, a pandemia de Covid-19. Todos eles escritos para revirar nossas entranhas. Sabemos do absurdo que acontecerá com os personagens, mas os acompanhamos até o fim, como se disséssemos: Vocês não estão sós.   

E, diante de tamanho afeto, pergunto a Hugo, pergunto a quem o lê:

– Medo de quê, Hugo?

__________________________________________

Hugo Peixoto entre escritoras e poetisas, no Destaque Literário da Cultura Nordestina, novembro de 2021.

__________________________________________

* Sobre Medo de rato, Hugo Peixoto. Prelo. São Paulo: Urutau, 2021.  

** Hugo Peixoto (Nazaré da Mata/PE, 1985) é graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco-UFPE e mestre em Gestão do Desenvolvimento Local Sustentável pela Universidade de Pernambuco-UPE. Começou a escrever em 2007, quando teve duas crônicas publicadas na Coletânea de Textos de Humor, no 5º Festival Recifense de Literatura. Em 2008 foi finalista do Prêmio UFF de Literatura, em Niterói-RJ, e recebeu menção honrosa na categoria de contos. Em 2009 venceu o 7º Concurso de Contos Luís Jardim, da Biblioteca Popular de Casa Amarela, no Recife-PE, e o I Concurso Nacional de Literatura Jorge Ribeiro, de Cachoeirinha-RS. Voltou a receber menções honrosas no Prêmio UFF de Literatura, em 2011, e no 10º Concurso Mário Quintana, organizado pela Sintrajufe-RS, em 2014. Em 2018, publicou seu primeiro livro A La Ursa quer em Euro – e outros contos de Carnaval, em edição cartonera. Em abril do mesmo ano foi o 10º colocado do Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror. Contato: hugocpcoutinho@gmail.com