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Índex* | Junho, 2021

Para Bruno e Assis

*

O aniversário

É aquele dia

Em que o tempo

Para

O sangue

Agita

A vida parece

Uma longa estrada

Cheia de pegadas

Do bem que fizemos

Da música que tocamos

Das palavras escritas

No coração vazio

E ganharam

Forma

Luz

E cor

*

(“A estrada são vocês”, Patricia Gonçalves Tenório, 21/06/2020, 05h50)

A longa estrada da Escrita Criativa no Índex de Junho, 2021 do blog de Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa On-line | Os mundos de dentro | Junho, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório & Diversos.

Escrita Criativa em mim | Patricia Gonçalves Tenório.

40 mil visualizações | A baronesa | Patricia Gonçalves Tenório.

Poema de Altair Martins (RS – Brasil).

Agradeço a atenção e o carinho de sempre. Excepcionalmente, a postagem de junho foi antecipada de 27 para 20. A próxima postagem será em 25 de julho de 2021. Abraço bem grande e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* | June, 2021

For Bruno and Assis

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The birthday

It’s that day

In which time

Stops

The blood

Shakes

Life seems

A long road

Full of footprints

Of the good we did

The music we played

The written words

In the empty heart

And that won

Form

Light

And color

*

(“You are the road”, Patricia Gonçalves Tenório, 06/21/2020, 5:50 am)

The long road of Creative Writing in the June Index, 2021 on Patricia Gonçalves Tenório’s (PE – Brasil) blog.

Studies in Creative Writing Online | The worlds from within | June, 2021 | Patricia Gonçalves Tenório & Several.

Creative Writing on Me | Patricia Gonçalves Tenório.

40 thousand views | The Baroness | Patricia Gonçalves Tenório.

Poem by Altair Martins (RS – Brasil).

I appreciate the attention and affection always. Exceptionally, the June post was brought forward from 27 to 20. The next post will be on July 25, 2021. Big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A longa estrada nos confirmando que, apesar de tudo, viver é bom. Música: The long and winding road, Os Beatles. Fotografia: Fred Linardi, do encontro de um dos aniversariantes de junho, Luiz Antonio de Assis Brasil, e Patricia Gonçalves Tenório, em novembro de 2019, Porto Alegre – RS – Brasil. The long road confirming that, despite everything, living is good. Music: The long and winding road, The Beatles. Photograph: Fred Linardi, from the meeting of one of the June birthdays, Luiz Antonio de Assis Brasil, and Patricia Gonçalves Tenório, in November 2019, Porto Alegre – RS – Brasil.

Estudos em Escrita Criativa On-line | Os mundos de dentro | Junho, 2021

Desembarcamos na Ilhéus do início do século XX, e navegamos pelas técnicas de ficção tão semelhantes às de não ficção em Gabriela, cravo e canela, com Jorge Amado.

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Primeira Aula do Módulo 6:

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Na primeira aula do módulo, investigamos o formato do livro estudado, Gabriela, cravo e canela, que lembra uma peça de teatro ou mesmo manchetes de jornal, antecipando os acontecimentos futuros; navegamos pelos diversos pontos de vista, como se fosse uma câmera; comparamos os subtítulos dos capítulos e a não ficção de Bernardo Bueno; constatamos a utilização de técnicas da não ficção em Gabriela;

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Segunda Aula do Módulo 6:

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Na segunda aula do módulo, comparamos a teoria da psicanalista Melanie Klein na projeção e na introjecção contínuas dos mundos de dentro para os de fora e vice-versa, como podemos ver na personagem central, Gabriela; verificamos a liberdade de Gabriela sendo anunciada em um cenário de sonho; constatamos o manifesto à liberdade feminina nas personagens Gabriela, Glória e Malvina; visitamos as muitas casas de Jorge Amado.

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Terceira Aula do Módulo 6:

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E é com imensa alegria que convidamos para a nossa live do canal do YouTube na quarta-feira 30/06/2021, a partir das 19h, com o escritor, especialista em Jornalismo Literário, mestre e doutorando em Escrita Criativa pela PUCRS, Fred Linardi. Não percam!

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https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

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Exercícios de desbloqueio:

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Módulo 5 – Vinicius de Moraes:

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Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

Sobre encontros e vida

(Uma peça escrita on-line por Bernadete Bruto e Elba Lins baseada no “Soneto da Separação” de Vinicius de Moraes e nas músicas “Samba em prelúdio” e “A tonga da mironga do cabuletê”.)

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Personagens:

Mulher 1

Mulher 2

D.J

*

As autoras advertem que qualquer semelhança é mera coincidência

PRIMEIRO ATO

Em um salão de dança organizado para festa, com mesas e cadeiras cingindo o salão, enquanto todos esperam o início do evento, o DJ testa o som. Ouve-se um trecho da música “Samba em prelúdio”, de Vinicius de Moraes. Duas mulheres vindo de lados opostos se encontram no meio do salão e ouvem ao fundo a primeira estrofe do soneto da separação.

“De repente do riso fez-se o pranto

silencioso e branco como a bruma

e das bocas unidas fez-se a espuma

e das mãos espalmadas fez-se o espanto.”

Primeira mulher: (caminha pelo salão e fala tristemente) não sei se foi tão de repente, mas aquele momento foi como um terremoto para mim, ainda hoje trago no rosto o espanto.

Segunda mulher: (caminha em direção a primeira com ar de zombaria e fala) no meu caso já sentia que a relação estava com “validade vencida” e a cada vez que ele tentava me beijar eu espumava de raiva.

SEGUNDO ATO

Ainda no meio do salão, enquanto as pessoas vão chegando e tomando assento nas mesas, as duas mulheres continuam a dialogar com o poema que escutam ao fundo, que parece estar sendo reproduzido aos poucos, como que propositalmente.

 “De repente da calma fez-se o vento

que dos olhos desfez a última chama

e da paixão fez-se o pressentimento

e do momento imóvel fez-se o drama”

*

Primeira mulher: (triste) naquele fatídico dia, enquanto ele retornava para casa, no fundo um pressentimento me dizia que o vento apagaria nossa última chama.

Segunda mulher: (de forma sensual) amiga, comigo foi bem diferente… O turbilhão que me invadiu, não apagou nenhuma chama, já apagada com o tempo. O que senti foi uma nova chama desde que outros homens demonstraram interesse por mim e um em especial arrebatou todo meu ser.

TERCEIRO ATO

No entorno do salão, as pessoas ocupam rapidamente as mesas. Assim, as mulheres saem do salão para conseguirem uma mesa em local estratégico. Ao sentarem-se ouvem os trechos do soneto.

“De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente

*

“Fez do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.”

*

Primeira mulher: (desanimada) ah, que tristeza esta solidão! Antes acompanhada, agora tão solitária! Que alegria haveria em uma casa vazia, fria, que não abrigava uma família?

Segunda mulher: (animada) de repente não mais que de repente, a paixão novamente. A dor sumiu para sempre.

QUARTO ATO

Ao fundo do salão o DJ coloca a música de abertura do baile. os dançarinos já começam a convidar seus parceiros e a segunda mulher se levanta aos primeiros acordes da música de Vinicius e Toquinho “A tonga da mironga do caburetê”.

*

Segunda mulher: (entusiasmada) minha amiga, vem comigo. A vida nos chama. Amar é a dança do espírito e a vida é uma aventura.

*

Primeira mulher: (já se animando) vamos então. Aos poucos deixo a tristeza passar e vivo o próximo instante. Vou seguir dançando e cantando, assim, de repente não mais que de repente, nessa aventura errante chamada vida.

(As duas mulheres sambam e cantam no meio do salão)

FIM

*

Elenara Leitão

Contato: arqstein@gmail.com

MULHER

Solteira, chorei.

Casada, já nem lágrima tive.

Viúva, perdi olhos

para tristezas.

O destino da mulher

é esquecer-se de ser.

Mia Couto

*

Solteira, sonhei

Casada já nem sei

Delirei

Viúva, lembrei e

Fui em frente

O destino da mulher

é ser ela mesma

*

Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Vinicius de Moraes

*

Da mulher e suas agruras,

tanto receitam nossas dores

tanto moldam nossos amores

achando que descobrem

nossos segredos

Mal sabem, incautos,

que mulher tem qualquer coisa

muito além dos entendimentos

qualquer coisa muito além das luzes

qualquer coisa que vai além

Porque nasceu para gerar

gerar vida, gerar amor, gerar ir

A vida da mulher

para tristeza e choro de muitos

não passa pelo esquecimento de si

e sim, pelo redescobrimento

além de qualquer fraqueza

além de qualquer dor

Mulher tem, por destino e sina

o sorriso e a capacidade

de reamar

de retomar

de vir a ser

de fechar e REabrir portas

Dela a casa

dela o caminho

*

Poetas tão afamados,

não riam de minha ousadia,

de querer debater

Por mais que as palavras lhes sejam amantes

Falta-lhes o sentido do ser feminino

Aquele que tentam margear

aquele que, olhando pedaços,

teimam enxergar o inteiro

Da menina que olha assustada

à velha sábia que mais maga

todas espíritos que teimam

andar etéreas e livres

por mais correntes que teimem

colocar em suas vidas

*

nada nos tolhe

talvez nós apenas

Uma mulher se constrói

Se edifica

Se consolida

E dela apenas se diz

Viveu, amou, morreu

Virou luz

*

e seguiu em frente

*

Módulo 6 – Jorge Amado:

*

Elenara Leitão

Caminhos de Salvador

Moças, a igreja da Conceição da Praia fica a duas quadras daqui. Mas recomendo que não vão até lá. É zona do baixo meretrício…sorriu ao lembrar o aviso do policial militar naquela manhã. Ele mal podia imaginar que duas estudantes de arquitetura, vindas do distante estado do Rio Grande do Sul, pouco iam se incomodar com aquele detalhe. Queriam mais é conhecer as igrejas da cidade, quantas mesmo? Coisa de uma para cada dia do ano, tinha dito o guia. Imaginaram que, no máximo, podiam encontrar com Vadinho, saindo de alguma vadiagem diurna enquanto sua Flor ficava na cozinha, ensinando a arte de bem comer. Disso sabia ele com mais maestria. Era começo da década de 80. Mais uma vez voltava àquela cidade mágica. Sentada no meio fio, comia um acarajé, se lambuzando de pimenta (Moça, pimenta para turista ou local? Local, por obvio). Sua mente voltou no tempo.

*

Enquanto o ônibus corria pela BR em direção à uma Salvador ainda desconhecida, a caloura da faculdade de arquitetura misturava duas imagens em sua cabeça. Era um dia normal de aula, no minhocão da UnB em Brasília, aquele prédio comprido e serpenteante que abrigava as aulas. Projeto de Oscar Niemeyer naquela universidade que foi pensada para ser um exemplo de excelência e cujos professores foram expurgados em 1968. Sete anos depois, 1975, uma jovem sulista olha um cartaz, grudado nas paredes de tijolo. Operação Mauá em Salvador. A OPEMA era um programa do governo militar para que estudantes universitários do ciclo básico pudessem se integrar às problemáticas dos transportes nacionais. Na prática, uma viagem visita (leia-se turística) para a capital baiana, só com mulheres na linha moralista da época.  Salvador lembrava aquela novela que tinha recém visto na TV. Há pouco a cor se tornara visível nas telinhas, embora ainda fosse um luxo para alguns. Era um romance de Jorge Amado, Gabriela da cor do cravo, do gosto da canela. Uma atriz nova que surgia. Paranaense, mas esses são detalhes em um país que se vendia diverso. Bastava um bom bronzeado e surgia a alegre menina que “Só desejava campina, colher as flores do mato / Só desejava um espelho de vidro prá se mirar / Só desejava do sol calor para bem viver / Só desejava o luar de prata prá repousar / Só desejava o amor dos homens prá bem amar !”. Na sua memória, o sotaque arrastado, o romance que a marcara nem era da Bié do seu Nacib, moço bonito. Ela se identificava com a mocinha Jerusa, neta certinha do coronel que mandava na cidade. Embora uma pontinha dela, ainda muito insipiente, se encantara mesmo era com Malvina, aquela que percebia que homem covarde não se espera e se agradece o livramento.

*

Enquanto tocava Tony Tornado em uma rádio na beira da estrada, “E a gente corre (a gente corre) Na BR-3 (na BR-3) – E a gente morre (e a gente morre) – Na BR-3 (na BR-3)”, via uma pracinha de cidade pequena, tão parecida com a cidade cinematográfica da novela. Cores fortes, gente que vai caminhando mansamente em um dia claro. Baianas com seus tabuleiros, fazendo reverências aos velhos coronéis do sertão. Cheiros das essências se misturavam no ar. Ao longe um som de berimbau mostrava uma turma lutando capoeira.

*

A Salvador de 75 era muito parecida com a imagem da Ilhéus que tinha em sua cabeça. Não pelo tamanho, que obviamente, era muito diferente. Mas na diferença social gritante. Sentiu isso ao entrar nos Alagados, uma favela sobre palafitas que era algo que nunca tinha vivenciado, nem imaginara existir. Se os militares imaginavam que, mostrando um Brasil real, iam acabar com os delírios de esquerda de uma juventude que seria o seu futuro, deviam ter pouquíssima imaginação. Na sequência, uma visita com palestra ufanista na base naval de Aratu, com as praias mais lindas que já tinha visto. Poucas pessoas na verdade tinham tido o privilégio de passear por ali: militares e presidentes.  “Não sejam como os baianos que nada fazem…dizia o cara fardado lá na frente, ao que retrucava o estudante que era nosso anfitrião: “Fazer por quê? Paulista trabalha para quê? Para tirar férias na Bahiiiiiiaaaa (o sotaque comprido tornava tudo mais encantador). A gente já mora aqui...” enquanto piscava o olho em um flerte gostoso e livre como uma brincadeira.

*

Mas foi ao passear pelo Pelourinho, com suas ladeiras e casas quase em ruínas que sentiu a baianidade tão intensa que lhe fisgou para sempre. As baianas cobravam para posar junto, por certo. O turista japonês arregalou os olhos ao ouvir o guia descrever o tanto de ouro que havia na igreja de São Francisco. A voz de Gal Costa, a mesma que cantava a modinha de Gabriela e que tinha visto em Brasília, no primeiro show em que fora sozinha, gritava em seus ouvidos: “Tenho pensado tanto na vida /Volta bandida mata essa dor /Volta pra casa, fica comigo/ Eu te perdoo com raiva e amor”

*

Salvador misturou as entradas e saídas de uma trajetória estudantil. Só foi voltar muito mais tarde, já formada. Apresentando trabalho do mestrado, redescobriu outra Salvador. Os velhos casarões meio em ruínas do Pelourinho, agora já restaurados. Muita gente, diziam, tinha sido afastada. O local era um imenso canteiro turístico. Já tinha sido avisada da insegurança da cidade. Mas no Pelourinho pode andar tranquila, diziam com orgulho. Podia mesmo. Era altamente policiado naquele início do século XXI. Podia andar pelas ruas com máquinas fotográficas, entrar na fundação de Jorge Amado, comer nos restaurantes. Comer, na verdade, era um exercício complicado. Muitas crianças de olhar faminto ficavam pedindo as sobras. Não dava para não sentir como uma facada no peito aqueles pequenos capitães de areia já sem dignidade, ansiando por uma esmola, um resto daqueles pratos cheios que alimentavam a curiosidade gastronômica de turistas.

“Nas ruas de Salvador
nunca dormiram crianças
cobertas de esperança
descobertas pelo medo
dormem adultos franzinos
dormem corpos de meninos
que envelheceram cedo
dormem num corpo de homem
tendo a fome por brinquedo
Pedro Bala não tem nome
como tantos outros Pedros.”

*

Lembrou da cena final da novela de 1975. Pessoas que passam e se cumprimentam, com respeito. Um homem jovem de branco. Chapéu panamá. Duas baianas se ajoelham e beijam sua mão. Aquela cena final marcava um Brasil que, apesar das mudanças sociais e culturais que se anunciavam no romance e na novela, ainda perpetuava velhas relações de poder.

*

A ginga eterna da cidade se modificando com o passar do tempo. Novos coronéis ocupando o poder. O povo ainda aos seus pés naquela mudança de faz de conta que mantém tudo sempre igual….Eu nasci assim, eu cresci assim, E sou mesmo assim, vou ser sempre assim: Gabriela, sempre Gabriela! ..

*

A última vez que percorreu os caminhos de Salvador foi em forma de avatar. Um Pelourinho digital em um mundo paralelo.    

*

Letras das Músicas: Jorge Amado Letra e Música

Pod cast – https://podcasts.apple.com/us/podcast/jorge-amado-tinha-pacto-com-leitor-n%C3%A3o-com-intelectuais/id1371163424?i=1000429127313

Escrita Criativa em mim* | Patricia Gonçalves Tenório**

Junho, 2021

Capítulo 11 – Sonhos e devaneios

            Uma das maiores aprendizagens nesses tempos sombrios de pandemia é a capacidade de continuar sonhando. Literalmente ou metaforicamente. Acordamos assustadas/os no meio da noite, no meio do quarto, bem longe do mundo. A angústia e a ansiedade são nossas maiores inimigas, e chegamos muito perto de desistir.

            Mas aí vêm os sonhos e os devaneios. Jean-Jacques Rousseau, em Os devaneios do caminhante solitário, nos apresenta a saída para os dois últimos anos de vida e de exílio, tão produtivos graças aos passeios que realizava nos arredores de Paris.

“Quando a noite se aproximava, eu descia dos cumes da ilha e em geral sentava na beira do lago, sobre a areia, em algum refúgio escondido; ali o barulho das ondas e a agitação da água, fixando meus sentidos e afastando de minha alma qualquer outra agitação, a mergulhavam em um devaneio delicioso em que muitas vezes a noite me surpreendia sem que eu percebesse. O fluxo e o refluxo dessa água, seu ruído contínuo e retomado a cada intervalo, atingindo sem parar meus ouvidos e meus olhos, substituíam os movimentos internos que o devaneio apagava em mim e bastavam para me fazer sentir com prazer minha existência sem me dar ao trabalho de pensar.”[1]

            Enquanto isso, outro filósofo francês, Gaston Bachelard, compara os sonhos investigados incansavelmente pela Psicanálise (vide Sigmund Freud e Carl Gustav Jung) ao devaneio diante do fogo.

“Para nós, que nos limitamos a psicanalisar uma camada psíquica menos profunda, mais intelectualizada, cumpre substituir o estudo dos sonhos pelo estudo do devaneio, mais especialmente, neste pequeno livro, o devaneio diante do fogo. Em nossa opinião, esse devaneio é extremamente diferente do sonho pelo próprio fato de se achar sempre mais ou menos centrado num objeto. O sonho avança linearmente, esquecendo seu caminho à medida que avança. O devaneio opera como estrela. Retorna a seu centro para emitir novos raios.”[2]

            E, em 15 de dezembro de 2021, se tudo der certo, na residência da escritora, poetisa, atriz, diretora de teatro, Gisela Rodriguez, em Porto Alegre, realizarei um grande sonho que a pandemia, até agora, não me permitiu: lançaremos os Estudos em Escrita Criativa, livro que fecha o ciclo do curso de mesmo nome que iniciou lá nos idos de 2016, quando eu começava a trilhar a minha trajetória pelas veredas, nem sempre tão lineares, mais em forma de estrela, da Escrita Criativa em mim.   

O sonho de rever os amigos de Porto Alegre em 15 de dezembro de 2021, no lançamento dos Estudos em Escrita Criativa. Da esquerda para a direita: Bibiana Simionatto, Andrezza Postay, Gisela Rodriguez e Fred Linardi.

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* Coluna publicada mensalmente nos blogs www.patriciatenorio.com.br e www.veragora.com.br/tesaoliterario.      

** Escritora, vinte livros publicados, sendo um em formato vídeopodcast, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

[1] ROUSSEAU, Jean-Jacques. Os devaneios do caminhante solitário. Tradução: Julia da Rosa Simões. Porto Alegre, RS: L&PM, (1776-1778 in) 2008, p. 68.     

[2] BACHELARD, Gaston. A psicanálise do fogo. Tradução: Paulo Neves. 3ª edição. São Paulo: Martins Fontes, (1949 in) 2008, p. 22 – (Tópicos).    

40 mil visualizações | A baronesa | Patricia Gonçalves Tenório

Tudo começou em uma manhã de junho de 2019. Estávamos, eu e o escritor e professor gaúcho Amilcar Bettega, passeando pelo Recife Antigo, bairro da capital pernambucana, quando um vendedor de chapéus me chamou de baronesa.

Começou

De mansinho

Feito céu

De madrugada

As letras

Juntando-se

Ali

As palavras

Fazendo sentido

E toda a construção

De uma personagem

Bela

Inteligente

Rica

Atravessa

O tempo

O espaço

E materializa-se

Aqui

Na mão

Que escreve

(A Baronesa, Patricia Gonçalves Tenório, 08/06/2019, 05h07)

A novela, escrita sob o pseudônimo de Charles Allington, narra a história de Natália Shoemberg, cantora de ópera, acusada do assassinato do marido, o barão Viktor Shoemberg. O cenário é a Viena do final do século XIX, início do século XX, onde eram contemporâneos artistas como Gustav Klimt e Koloman Moser, os arquitetos Otto Wagner e Adolf Loos, os escritores Arthur Schnitzler e Hugo von Hofmannsthal, além de Gustav e Alma Mahler e o pai da Psicanálise, Sigmund Freud.

Em outubro de 2019, viajei para a Viena do século XXI para confirmar detalhes da novela. Em março de 2020, entramos na pandemia de Covid-19, e propus a Adriano Portela, Jaíne Cintra, Juliana Aragão e Mariana Guerra que realizássemos (cada um/a em suas residências) um vídeopodcast, com a gravação das vozes de Adriano (masculinas) e minha (femininas) e a edição de imagens da Viena do século XIX por Jaíne Cintra e a equipe das meninas super poderosas, transformando o texto em uma espécie de rádio novela, tornando-o acessível (texto e vídeopodcast), em forma de capítulos semanais, no site dos Estudos em Escrita Criativa.

E, para a nossa surpresa, descobrimos, em 15/06/2021, que o primeiro capítulo desse trabalho a tantas mãos (e que nos deu imenso prazer realizar, apesar da pandemia), foi agraciado com mais de 40 mil visualizações no YouTube.

A minha infinita gratidão a todas as pessoas que nos leram e escutaram, e, em especial, a essa equipe maravilhosa que me ajudou a transformar mais um sonho em realidade.

Apesar de todas as dificuldades, mais um sonho que se realizou.

Poema de Altair Martins*

55. PÓS-ESCRITO

Trafegamos tarde pelos pés

e pelas mãos.

Trafegamos tarde pelo rosto,

pela coluna e pelo sexo.

Só tivemos verdadeiramente um corpo

quando ele sofreu lasca

ou mordeu a língua.

*

Consumimos nossa água

e nunca deixamos a sede.

Fomos um rio que não se soube fora

sem o espelho do vidro,

das tecnologias ou do outro.

Tivemos a estrada sempre seca

onde um cavalo e um cão

ainda seguem sem apontar o endereço.

Pesávamos menos assim.

*

Nossos ossos foram se enferrujando

cada vez que enchíamos o peito.

O amor e o trabalho nos iludiram,

fornecendo tréguas entre relógios.

Mas sem a estrada,

esperamos o desmaiar da carne

e dos nervos,

a conversão em formiga e terra

do que conosco nasceu

e serviu à genética

e ao crediário.

*            

Apontamos pra frente e pra trás.

E nossos ouvidos captaram ao lado

os seres que se escondem na lama

e nos superam comungando um planeta

todo coincidência

ou milagre.

*

Trafegamos tarde pelos segredos

das frutas

e pelo suspirar da grama repleta de espigas.

Trafegamos tarde pelos olhos,

que estavam ocupados com coisas fúteis:

as mais velozes,

as mais brilhantes.

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AUDIO-2021-06-08-18-28-37 – Altair

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* Fotografia: Valmir Michelon

** Altair Martins (Porto Alegre, 1975). Bacharel em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) — ênfase em tradução de língua francesa —, mestre e doutor em Literatura Brasileira na mesma universidade. Ministrou a disciplina de Conto no curso superior de Formação de Escritores da UNISINOS entre 2007 e 2010. É professor da Faculdade de Letras e de Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), atuando no Programa de Pós-graduação. Coordena o projeto de pesquisa O fantástico em tradução. Tem textos publicados em Portugal, na Itália, França, Argentina, no Uruguai, na Espanha, Hungria, em Luxemburgo e nos Estados Unidos. Ganhou, entre outros prêmios, o São Paulo de Literatura (2009, com o romance A parede no escuro) e o Moacyr Scliar (2012, com os contos do Enquanto água). A peça teatral Hospital-Bazar (Porto Alegre: EdiPucrs, 2019), o romance Os donos do inverno (Porto Alegre: Não editora, 2019) e Labirinto com linha de pesca (Porto Alegre: Diadorim Editora, 2021) são suas últimas publicações. Ministrante, desde 2019, da disciplina Oficina de Poesia na especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS (2019.2). Contatos: altairt.martins@pucrs.br; www.altairmartins.com.br