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Índex* – Agosto, 2020

Quando

Nada mais restar

Desse tão espaço

Meu

Buscarei

O vento

O mar

Chegarei

Ao que é

Seu

*

Esse mundo

Nosso ar

Uma vida

Bem antiga

*

Quando

Nada mais restar

Resta tudo

*

Minha amiga

(“A saudade é um tempo meu”, Patricia Gonçalves Tenório, 13/08/2020, 18h42)

Resta tudo no Índex de Setembro, 2020 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Agosto, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Diversos.

“A baronesa” | Charles Allington (Reino Unido/Áustria) | Cinco últimos capítulos.

Escrita Criativa em mim | Patricia Gonçalves Tenório.

Simpósio 28 | Escrita Criativa para o século XXI | Abralic 2020 | Diversos.

Poemas de Cilene Santos (PE – Brasil).

“À noite, sonhamos” | Paulo Paiva (PE – Brasil).

E o link do mês:

Blog do psicanalista e escritor Pedro Gabriel (PE – Brasil): https://youtu.be/dhLLm7Sw2s8

Agradeço o carinho e a participação, a próxima postagem será em 27 de Setembro de 2020, abraço bem grande e até lá,

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* – August, 2020

When

Nothing else remains

Of this so space

Of mine

I will seek

The wind

The sea

I will arrive

To what is

Yours

*

This world

Our air

A very old

Life

*

When

Nothing else remains

Everything remains

*

My friend

(“Saudade is my time”, Patricia Gonçalves Tenório, 08/13/2020, 6h42 p.m.)

Everything remains in the Index of September, 2020 on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Studies in Creative Writing Online – August, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Miscellaneous.

“The baroness” | Charles Allington (United Kingdom/Austria) | Last five chapters.

Creative Writing in Me | Patricia Gonçalves Tenório.

Symposium 28 | Creative Writing for the 21st Century | Abralic 2020 | Several.

Poems by Cilene Santos (PE – Brasil).

“At night, we dream” | Paulo Paiva (PE – Brasil).

And the link of the month:

Blog of the psychoanalyst and writer Pedro Gabriel (PE – Brasil):https://youtu.be/dhLLm7Sw2s8

I appreciate the affection and participation, the next post will be on September 27, 2020, big hug and until then,

Patricia Gonçalves Tenório.

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O gesto de Cris Mesquita, aluna da primeira turma de Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS. The gesture of Cris Mesquita, student of the first class of Specialization Lato Sensu in Creative Writing Unicap/PUCRS.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma
questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Quando nada mais restar… Restará o bem querer.  When nothing else remains … It will remain good will.

Estudos em Escrita Criativa On-line – Agosto, 2020

Os russos

Patricia Gonçalves Tenório*

Um dos principais propósitos dos Estudos em Escrita Criativa On-line é tentar se colocar no lugar dos autores de todos os tempos, descobrir suas técnicas e compartilhar com os que desejam escrever bem.

Se Liev Nikoláievitch Tolstói nascesse hoje, iria nos encontrar analisando um dos textos mais conhecidos da Literatura Ocidental: Anna Karenina. E analisando-o à luz das técnicas e dos conceitos trabalhados em nossos EEC desde 2016. Narrado em terceira pessoa do singular, acompanhamos a vida de dois personagens principais e seus núcleos: Anna Arcádievna Kariênina e Konstantin Dmítritch Liévin. Cidade ou campo. Kariênin e Kariênina. Amor ou ódio. Aleksei Kariênin e Aleksei Vrónski. Perdão ou vingança. Aliás, muitos estudiosos, comparando Liev Tolstói com Fiodor Dostoiévski, afirmam que Anna Karenina está para a lei do Antigo Testamento enquanto Crime e castigo está para a graça do Novo Testamento.

É interessante notar como Tolstói narra a partir de diversos focos narrativos, ou como o professor da PUCRS e romancista gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil enumera no seu manual de EC, Escrever ficção: as focalizações interna, externa e onisciente.

Parece-nos que Tolstói usa a focalização interna mesclada com a focalização onisciente. Notamos essas características em personagens pouco comuns – o filho de Anna e Aleksei Kariênin, Serioja, ou até mesmo a cachorra de caça de Liévin, Laska. Por meio de aspas ou da linguagem corrida, adentramos no universo de uma criança de oito anos, ou de uma cachorra, e, de maneira fluida, passamos de um personagem a outro.

Outra técnica de EC usada por Tolstói no seu romance-bíblia encontra-se nas repetições. Como vimos em nossos Estudos, tudo tem uma função no texto bem escrito. Nada sobra. Nada está fora do lugar. Quando Tolstói repete certas frases, as entendemos como refrões de uma música.

Encontramos mais técnicas de EC na leitura de Pais e filhos, do prosador, poeta, dramaturgo, tradutor e ensaísta russo Ivan Serguêievitch Turguêniev (1818-1883). A começar pelo seu personagem principal, Bazárov. Inspirado em um médico de província que Turguêniev conheceu numa viagem de trem na Rússia, o personagem foi sendo construído à medida que escrevia o romance e carregava em si os conceitos essenciais do niilismo, também herdados de Vissarión Griórievitch Bielínski, a quem o autor dedica o livro.

Finalizamos o sexto módulo dos EEC On-line com um exercício de desbloqueio a partir dos autores elencados e a sugestão de filmes relacionados com os russos e a Escrita Criativa.       

* Escritora e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e http://www.estudosemescritacriativa.com/

Módulo 6 – Aula 1:

Módulo 6 – Aula 2:

Módulo 6 – Aula 3:

Módulo 6 – Aula 4:

Exercícios de Desbloqueio:

Módulo 5 – Japão:

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Um livro de cabeceira na vastidão da escrita

There is another sky,

Ever serene and fair,

And  there is another sunshine,

Though it be darkness there (…)

                                                                                                                                           (Emily Dickinson)

Em um mundo distópico como o de Atwood , desapartado do mar de Sofia, a vela do pensamento se abre para a brisa da retrospectiva desse tempo passado em muitos lugares percorridos na escrita. Consulto mentalmente a relação dos livros que precisarei reler, a dos filmes que ainda faltam assistir e dos poemas, como o de Emily Dickinson, que ainda desejo recitar nesta permanência em casa. Se as listas estivessem todas juntas numa só caderneta, poderia até chamar de livro de cabeceira, como o da Sei Shônagon! E lá, naquele local, o deixaria, caso quisesse consultar, não me perdendo em meio a tantas listas em tempos tão cheios de atividades e projeções futuras.

Observo a mulher que escreve com a mesa abarrotada de planners, cadernetas e papeis avulsos com suas listas de atividades diárias que precisam ser cumpridas, da interminável feira semanal que mal se extingue, recomeça do zero, da relação de consertos acumulados, de novas aquisições tão necessárias e a indispensável lista de pagamentos a serem efetuados e monitorados para não haver esquecimento no meio de tantas listas não tão agradáveis, contudo imprescindíveis. Mesmo assim, sabe que até o cotidiano tem seu lado literário, conforme aprendeu. É de longe, como Murakami sugeriu, que vejo minha personagem favorita fazer o esforço no aprendizado da escrita, procurando, como no jazz, a cadência melhor para deixar fluir as palavras rascunhadas no papel, por vezes apressadas, pois o relógio lhe avisa do esvair dos segundos e no esforço para não perder o tom nem o fio da meada. Da mesma forma, vejo-a surgir na escrita com personalidade, do mesmo jeito que o Tomas de Kundera, ou, quem sabe, como um dos heterônimos de Pessoa?

Maria para por um instante, me acalma e aponta para mim outras listas mais queridas, marcadas na sua agenda que, desapercebidamente, se encontra na gaveta da cabeceira… Lá encontra-se a lista dos livros que já leu este ano, a relação do muito que realizou, mesmo nesse período de isolamento, e me responde que, ainda que esteja nesse alvoroço diário das listas obrigatórias, tem algo que também se acumula dentro de si, assim como fazem as árvores que florescem depois de um tempo acumulando vida.

Ela avisa que as palavras encontrarão o caminho para a história daquele momento singular, o melhor que pode entregar nesse difícil, corrido e exíguo tempo que se chama agora, um tempo quase tão escuro quanto naqueles períodos de guerra dos poemas de Wislawa…

Ao me deixar contemplativa, Maria volta para sua escrita. Olha para a luz da tela da TV, lá está a mulher que chama todos de escribas e anima a escrever. É para ela essas linhas perante um mundo de possibilidades que vem recebendo. Um vasto mundo de conhecimentos, como o mar de afetos que faz com que deslize a escrita no papel, ainda neste dia, dentro do tempo estipulado. Aproveitando a duração do dia, como Adélia.

Maria aprendeu que a história surge nesse repente e do aprendizado resultante de um livro próprio de cabeceira guardado no fundo do coração. Depois, é só trabalhar o instante e entregar o texto numa hora perfeita, brilhante como uma estrela de Clarice, que pode resultar simplesmente daqueles minutos carregados com a leveza do ser, ou com a profundidade da lua.

O despertador toca, a escrita congela. Maria fecha o caderno, desliga a TV, eu sujeito mais um texto que comporá o rol daqueles produzidos no possível agora e agradeço.

Recife, 22 de Julho de 2020.

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

LEVEZA

01.08.2020

Borboletas

Luz pálida

Orvalho

Grama verde

Sorriso

Corais

Madrepérola

Tuas mãos

Flor de algodão

Beija-flor

Cor lilás

Nuvem de pó

Flauta doce

Amanhecer

Abelha

Pérolas

Cristal

Raio de luz

Tua pele

Arrepio

Arco-íris

Cetim

Papel em branco

Girassol

Joel Martins Cavalcante

Contato: jmartinscavalcante@gmail.com

Um dia da quarentena

        Acordei desesperado. As imagens que passavam na minha frente eram aterradoras. Que espécie é essa? Grito. Parece que ninguém escuta. Faço um esforço para ver esse ser estranho. Um esqueleto, com chifre, típico das imagens medievais do diabo, com um algo parecido com tridente na mão, aponta para o meu pequeno guarda-roupa. Em cima do móvel havia minha garrafa de mel, que devia estar guardada no armário da cozinha. Que estranho.

        Faço um esforço tremendo para acender a luz. O interruptor, apesar de ficar bem próximo, um pouco acima da cama que durmo, parece ter desaparecido. Quando o acho, ele não atende ao meu comando. E agora? Sem luz, sem entender direito o que acontece ao meu redor, me entrego por completo ao momento.

        Consigo, com muito esforço, sair de minha cama. Vou até o quarto ao lado. Minha mãe está nele. “Mãe, estou tendo paralisia do sono, só vejo imagens ruins, ninguém me escuta, a luz não acende, já rezei e tudo, mas nada”, falo. Ela não diz nada. Sento na cama um pouco, mas retorno ao meu quarto.

       Finalmente, depois de um momento, consigo acertar a luz. Nessa hora acordo. Ufa, tudo era sonho, na verdade paralisia do sono. Interessante que, mesmo nesse estado, diferente das outras vezes, eu tenho a percepção do que está acontecendo. Minha mãe estava há mais de 100 km de distância, mas eu conto tudo que passa, durante o fenômeno, a ela. Estou consciente de tudo.

       Rezo. Dessa vez rezo consciente, já passada a situação. Peço a Deus para voltar a dormir. Mas não consigo. Daqui a pouco são cinco horas da manhã. Escuto, aumentando o número de vezes, sons de carros e motos passando na avenida principal. Isso me perturba.

        Vou até o chuveiro. Enquanto a água escorre pelo corpo tento reviver, ou melhor, rememorar a situação vivida na madrugada. Nem percebo que já saí do banho quando me dou conta que esta segunda-feira será longa.

        Tomo três copos de água. Penso em ir até a padaria comprar algo para comer, já que não sinto nenhum pingo de coragem de fazer alguma coisa na cozinha. Desisto. Vou ficar em jejum. A quarentena aumentou muito meu peso corporal.

        Ligo o rádio. Notícias policiais em uma emissora. Passo a estação. Música de forró na outra. Mudo a frequência novamente. “O Senhor tem um plano para a sua vida, aceite logo Ele”, diz o pregador da rádio evangélica. Nada me agrada. O dia será longo.

        Fico na cama. Pego rapidamente no sono, mas logo o despertador me chama para a aula remota da faculdade. Que saco. Abro o notebook e entro na sala virtual. “Bom dia, professor Rodrigo”, digo, “bom dia, Caio”, ele responde.

Levo o computador para a cama, e finjo, por alguns instantes, interesse pela aula. Logo as pálpebras ficam pesadas. Cochilo. Desperto pouco depois das onze horas, morrendo de medo de ter perdido a chamada. Pouco tempo depois, o professor começa a fazer. Graças a Deus, suspiro de alívio.

Termina a aula. Peço um almoço pelo aplicativo. Vinte minutos para chegar. Uma eternidade. Acompanho o movimento do motoboy todo no app. Quando ele se aproxima, eu desço para receber a refeição. “Comida ruim”, falo. Nada hoje está bom. Que dia!

Refeição feita, escovo os dentes, tomo outro banho. Vou pra sala e pego novamente o notebook. Começa meu estágio. De uma às cinco da tarde. A redatora manda uns releases, faço umas modificações e publico no site. Droga, tenho que ligar para uma fonte, checar uma informação e depois fazer a matéria. Esse dia não acaba.

Fim do estágio. Tento fazer exercícios, mas logo desisto. Tomo um banho. Preparo uma refeição rápida. Às sete da noite tenho uma reunião. Que saco. “Por que inventei de entrar nesse coletivo?”, penso.

Reunião começa. Oito pessoas na sala virtual criada. Muitas discussões. Desacordos. Falo rapidamente minha opinião sobre um determinado assunto. Depois abro o microfone para apoiar uma companheira. Pronto, são quase vinte e duas horas quando tudo acaba.

Estou morto de sono. Faço chá de camomila para tentar dormir logo. Tomo dois copos grandes. O efeito demora a chegar. Olho o celular: quase meia-noite. Estou com sono, mas não consigo dormir. O dia ainda está sendo longo.

Pego no sono. Acordo de madrugada, mas volto a dormir em seguida. São seis da manhã de terça-feira. Fico um pouco mais na cama já que não tenho aula hoje. Desperto quase meio dia. Acesso o Youtube e vejo a última aula do módulo cinco do curso de escrita criativa. Assisto. Tenho de fazer mais um exercício de desbloqueio. Começo a escrever sobre o dia longo de ontem, enquanto não chega a hora do estágio.

Paulo Roberto de Jesus

Contato: poujesus@hotmail.com

Optei pelo modelo citado por Murakami, até porque não li Shônagon. Escrevo com o ritmo de uma valsa na cabeça.

                No primeiro módulo estudamos os autores de língua inglesa onde degustei os recortes feitos por Patricia Tenório. Não lembro de ter lido os autores trabalhados, mas o que pude absorver dos recortes certamente soma nesta caminhada literária. Ah, gosto de lembrar de uma fala de Patricia: “A escrita é salvadora”.

                No segundo módulo foram os autores portugueses que estudamos. Sophia de Mello Breyner e Fernando Pessoa entre outros. Sophia ainda não li. Mas já li Pessoa e seus heterônimos: Caeiro, Bernardo e outro que não recordo agora. Gosto também de Eça de Queiroz e outros. Não sou especialista em literatura portuguesa, mas alguns autores me gustan. Recentemente estive lá e trouxe Florbela Espanca, Camilo Castelo Branco entre outros. A literatura portuguesa é vasta e riquíssima. Viva Camões.

                No terceiro módulo estudamos os autores tropicais. Clarice Lispector e Adélia Prado. Clarice já li alguma coisa, mas de Adélia li somente alguns poemas. Estou em débito com Adélia. Do Brasil gosto de muitos autores, de Machado a Paulo Leminski. Não esquecer dos Veríssimos, Patativa do Assaré com sua poesia genuína, homem do povo, poeta de vida sofrida. São tantos os autores que o pouco tempo para escrever o texto faz-me citar estes que vieram à memória.

               Depois demos um pulo para o Leste Europeu quando Patricia nos falou de Kundera que não li, de Kafka que já li alguma coisa e gostei muito. Quando jovem, talvez uns dezoito anos, menos de vinte certamente, e sem formação acadêmica, li A metamorfose. Aquela leitura me deu um “barulho” que não foi mole. Eu torcia para que Sansa voltasse a ser homem e deixasse de ser barata. Aquela agonia do sujeito metamorfosear-se em barata… Loucura. Li, porque encontrei free na internet, um livro de poemas de Wislawa Szymborska. Não lembro muito dos poemas. Talvez deva ler novamente.

Finalmente no quinto módulo viajamos dentro da literatura japonesa. Não consegui nada da Sei Shônagon, mas consegui o Romancista como vocação de Murakami que estou terminando de ler. Gosto das dicas, não sei se as aplicarei. Mas tudo o que aprendi neste curso até agora estou gostando. Pretendo colocar em prática algumas das técnicas junto com outras que domino e veremos no que dará. Certamente uma nova técnica que seja o misto das técnicas que conheço, das que estou aprendendo e das que conseguirei pôr em prática. Também vi alguns filmes que sugeriu. Alguns já havia visto. Sempre que vejo algum filme baseado em literatura ou fatos reais assisto. O Curso está gostoso e sempre espero a terça-feira para assistir um novo módulo. Prazer em conhecê-la. Grato pelo curso. Saudações poéticas e democráticas.


Módulo 6 – Os russos:

Bernadete Bruto

SEM TEMA

(…) eu canto

porque o instante existe e minha alma está completa.

(Cecilia Meirelles)

As batidas do coração saltam fortemente até os ouvidos. Mãos geladas, respiração em suspense, mente vasculhando ideias na pressa. Um estado de alerta sempre despertado em momentos como este, como se fosse assim sua natureza em resposta à vida e agora na escrita. O dia não estava ventando para que a friagem perpassasse pelo corpo como um aviso refletido em rosto tenso.

Sempre ele. O Senhor Tempo com um relógio entre as mãos cronometrando os passos por toda uma existência, marcando os dias, meses, anos… até aquele instante de criação. Está presente também na escrita que se espicha enviesada no caderninho em resposta, ao mesmo tempo em que vasculha as paredes da memória. Um caderno, a caneta, a escrita. Escreve buscando um tema que faça sentido as letras entortadas de forma quase ininteligível preenchendo o espaço entre linhas tão retas. Linhas tão retilíneas exigindo o perfeito à altura dos russos. E o tema brinca de esconde-esconde com aquela menina que ainda hoje vive correndo para acompanhar os passos largos cadenciados da mãe caminhando por todo centro da cidade. Agora, na escuridão da caverna empilhada de livros, se pergunta qual é mesmo o tema para hoje e tudo isso por culpa do tempo!  Caros leitores, quantas vezes ouvira e até afirmara que o tempo cura tudo? Parece que não é sempre assim… Mas talvez nem seja o tempo o verdadeiro vilão…

Faz muito tempo que respirou o ar puro olhando o céu azul, sentido a brisa leve passando como uma suave canção pelo corpo, o coro de passarinhos nas verdes copas das árvores, ressoando no coração em completa comunhão com a natureza. O tempo já distante nas deliciosas horas de ócio. Neste momento, somente a Água viva de Clarisse com uma pergunta se o tema é o instante.  O que sente é algo associado ao correr das horas sem gosto de passatempo. Faz muito tempo que o receio se instalou naquela mente a recitar Cecilia Meirelles: não sei se fico ou se passo… talvez ela não saiba mais como sair de casa e sabe que não pode ficar indefinidamente…

A mão crispada correndo aflita dá o tom da urgência perante o Senhor Tempo. É daí que surge aquilo que se esgueira no peito. O anseio de sempre que pensa que o momento acabou sem a chance de encontrar um tema. Quase enxerga os poucos grãos de areia que ainda restam no alto da ampulheta, sente na pele a fração de segundos que não permitirá chegar ao final. Respira fundo e abraça a ansiedade. Rende-se ao sentimento que caminha ao lado faz um bom tempo. Nem sabe mais quando se instalou em sua vida. Sabe que deve encarar a angústia.

Observo-a procurando a palavra derradeira, leitores. Percebo o esforço de tentar utilizar em pequeno pano de fundo algo dos ensinamentos da apurada escrita russa. Naquela estação da vida, os trilhos devem correr soltos, o trem que chega em breve parte e não pretende entregar os pontos desistindo da vida, tão amada! Chega, então, na aceitação do que pode ser escrito. Decide se entregar àquele instante poético cheio de serenidade onde um coração bate compassadamente, pura melodia, mesmo sem um tema.

Recife, 19 de agosto de 2020.

Joel Martins Cavalcante

Mulher virtuosa

        As palavras do pastor no culto de ontem, domingo, não saíam da cabeça de Lúcia. “Não leste que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e disse: – Por isso deixa o homem pai e mãe e une-se com sua mulher e os dois formam uma só carne? Não separe, pois, o homem o que Deus uniu.” Acordou cedo. Tinha de fazer o café da manhã do marido e dos filhos, além de passear com Bela, sua cachorrinha.

         “Oi, seu João, bom dia”, cumprimentou o vizinho idoso. Saiu por algumas ruas com Bela. Na mente a pregação do pastor remoía. Casamento é coisa de Deus. Divórcio é coisa do diabo. Se você não aguenta seu marido, ore e seja firme, porque Deus tem um propósito em tudo. Olha para o braço da mão que segurava a corrente da cadela. Estava roxo.

         Caminha pelas calçadas e nem percebe que Bela faz xixi onde não devia. A mulher de Deus é virtuosa. Se o casamento vai mal, a culpa é da mulher. Uma lágrima desce do rosto. Lembra das vezes que fez surpresas para o esposo, mas era ignorada. Só ganhava tapas em troca.

         Casou cedo. Nunca havia namorado antes. No encontro de jovens da igreja batista de uma cidade vizinha ficou encantada com aquele jovem que cantava louvor tão bem. As amigas em comum fizeram as apresentações. Ela, 16 anos, ele, 19. Um ano depois estavam casados. Nove meses em seguida vieram os gêmeos. Passaram cinco anos.

        No começo tudo foi como Lúcia sonhara. Amor para cá, amor para lá. Só bastou os filhos nascerem que tudo mudou. Ele ficava irritado com os choros, não queria ajudar nos banhos, colocar para dormir. “Isso é coisa para você”, dizia.

         Um dia, quando os bebês choravam muito com fome, ela foi fazer comida para eles. Na mesma hora o marido chegou do trabalho. “Cadê minha janta?”, disse. Não adiantou explicar o motivo do atraso. Ele derrubou a panela com papa de leite e meteu um tapa no rosto dela. “Eu sou prioridade. Eu, eu.” Depois vieram outras e outras.

         Todo domingo iam para a igreja. De mãos dadas entravam no templo. Ele levava um bebê, ela o outro. Lá havia um local onde as crianças pequenas ficavam. Duas horas de tranquilidade que passava. Orava para que a celebração fosse maior. Queria demorar para chegar em casa. O marido ainda cantava no grupo de música.

         Nem se deu conta quando já estava abrindo a porta de casa. O passeio com a cachorrinha passou rápido. Acordou o marido para o café. Deu banho nos filhos e os vestiu para irem para a escola. “Mãe, o que foi isso em seu braço?”, perguntou um deles. “Mamãe dormiu mal, meu anjo”, respondeu. Mas não ficou ressentida por mentir. Casamento é coisa de Deus.

        O marido foi para o trabalho. Lúcia levou os filhos para a escola. A professora, antes de receber os gêmeos, perguntou se estava tudo bem com ela. Viu seus olhos vermelhos. “Sim, professora. Graças a Deus.” Nunca teria coragem de deixar aquele casamento. Divórcio é coisa do diabo, disse o pastor.


“A baronesa” | Charles Allington | Cinco últimos capítulos

Sexto capítulo:

A Baronesa · Capítulo 6

Depois da morte do pai de Charles Allington e de um encontro inesperado do investigador com a mãe – que ele não via desde a infância, quando ela abandonou a família – o policial, às voltas com a investigação do desaparecimento do barão Viktor Shoemberg, recebe uma carta da genitora que se torna um ponto de inflexão na vida dele.

Leia o sexto capítulo de “A baronesa”

Acompanhe os demais episódios da novela

No novo episódio de “A baronesa”, novela foto-áudio-ensaística em vídeos e podcasts com episódios semanais, também acompanhamos a abertura e o desenrolar do inquérito que enfim indicia Natália pela morte de Viktor e o tão aguardado início do julgamento, que, pela repercussão do caso, se assemelha a um dos espetáculos de ópera com plateia lotada nos quais a baronesa Shoemberg está acostumada a dominar os palcos.

E, durante o interrogatório, ela, agora ocupando o bancos dos réus e argumentando com todos os seus recursos para ser inocentada, reconta em detalhes os últimos momentos ao lado do marido e os anos de humilhação pública por conta das traições recorrentes de Viktor, enquanto o público presente no tribunal se compadece com o relato de um casamento infeliz marcado por mentiras e infidelidade.

Sétimo capítulo:

A Baronesa · capítulo 7

À medida que aumenta a tensão diante do início iminente do julgamento de Natália, principal suspeita pela suposta morte do marido, o barão Viktor Schoemberg, ela e Charles experimentam uma aproximação nunca vivida antes. E num breve momento no tribunal – ela no papel de ré, ele no do investigador que, em última instância, a levou até ali – eles se questionam. “E se ninguém for o culpado?”, provoca a baronesa, ao que o detetive retruca: “E se não houver uma pessoa morta?”, como se ali, diante do juiz e da plateia, hesitasse sobre todo o trabalho que conduziu o caso até o tribunal do júri.

Leia o sétimo capítulo de “A baronesa”

Acompanhe os demais episódios da novela

No sétimo capítulo da novela “A baronesa“, somos levados à sessão da Corte que pode mudar definitivamente os rumos não só da vida de Natália, mas também de Charles e alterar o destino de toda a família da baronesa. Acompanhamos as emoções dos advogados, das testemunhas e a angústia dela diante da possibilidade de condenação. E ouvimos o depoimento crucial do pai da acusada, que pode enfim trazer à tona a verdade diante da grande plateia que acompanha o julgamento como um grande espetáculo teatral.

Oitavo capítulo:

A Baronesa · Capítulo 8

Se a tensão no tribunal durante a sessão de julgamento de Natália – acusada pelo assassinato do marido, o barão Viktor Schoemberg – já ia às alturas, uma surpresa no depoimento do pai da baronesa provoca uma reviravolta e deixa o clima entre os presentes ainda mais nervoso. E enquanto acompanha a escalada de suspense, o investigador Charles Allington, que narra a cena, lida com suas expectativas e o espanto de uma mudança drástica nos rumos da história que ele acompanhava havia tanto tempo. E, diante da possibilidade crescente de uma condenação, resolve tomar outra postura.

Leia o oitavo capítulo de “A baronesa”

Acompanhe os demais episódios da novela

No oitavo capítulo de “A baronesa”, vamos a fundo nas expectativas de Charles e mergulhamos no eu lírico do narrador, seus medos, frustrações e a escalada da paixão por Natália. Ao mesmo tempo vemos o julgamento avançar e a chegada inexorável do momento que vai determinar o destino da baronesa.

Nono capítulo:

A Baronesa · Capítulo 9

Natália, condenada e cumprindo pena após ser sentenciada como responsável pela morte do marido, o barão Viktor Schoemberg, agora vive confinada em uma penitenciária e precisa se resignar à nova vida longe dos palcos e das festas pomposas da alta sociedade vienense. Além da liberdade, a decisão do tribunal também tirou dela o título de baronesa. Abatida, triste e solitária, ela agora culpa Charles Allington – responsável pela investigação do caso – pelo seu infortúnio.

Leia o nono capítulo de “A baronesa”

Acompanhe os demais episódios da novela

No nono capítulo de “A baronesa”, vemos que, ainda assim, Charles insiste em se manter próximo de Natália, ainda que ela demonstre uma certa repulsa por ele durantes as breves visitas à penitenciária que o detetive mantém como rotina. E assim, de certa forma, ele também se sente prisioneiro. Também entendemos como o destino, irônico, coloca Natália no papel de Elektra, personagem que ela tão bem encarnou nos seus dias de glória diante de uma plateia lotada no Staatsoper de Viena.

Décimo capítulo:


Catarse, purificação dos afetos, o trabalhoso “parto” dos personagens, o desvelar das técnicas narrativas de Charles Allington – o heterônimo que assina a autoria de “A baronesa“: no capítulo final na novela foto-áudio-ensaística publicada sob a forma de vídeos e podcasts, o escritor revela seu método artístico e os bastidores, ainda que fictícios, numa trama que se desenvolve em várias camadas, que levaram à criação do enredo.

Neste apêndice da obra, Charles também aproveita para mostrar como fez uso de mecanismos narrativos utilizados por grandes autores na elaboração da história, provando que a arte da escrita é uma fascinante e infinita reinvenção.


Leia o décimo capítulo de “A baronesa”


Acompanhe os demais episódios da novela

A reunião crucial com o editor, etapa que determina a publicação do livro ou sua condenação ao esquecimento eterno, momento que costuma ser de ansiedade e angústia para os escritores, também é retratada por Charles, que também se ocupa, em “A baronesa“, de falar da relação escritor-obra-leitor, do processo de identificação com os personagens e de como, em última instância, o autor de um livro escreve para o mais exigente público: ele mesmo.

Escrita Criativa em mim* | Patricia Gonçalves Tenório**

Agosto, 2020

Capítulo 1 – Domenico

            Pode-se escutar os passos das pessoas subindo a escadaria de ferro. No auditório, as cadeiras organizadas em fileiras de cinco, e os inúmeros convidados não param de subir os degraus da escadaria, com roupas coloridas, sorrisos e o desejo de conhecer aquele velhinho misterioso.

            Abril de 2002. 18h. José Mindlin chega na hora marcada. Eu o aguardo na entrada da Livraria Domenico que inaugurei há aproximadamente um mês. Ele traz debaixo do braço um exemplar do seu Uma vida entre livros[1]. E uma dedicatória:

“Para Patricia, que também sofre do mesmo mal de viver entre livros, a piedade do José Mindlin.”

            Mindlin nos presenteia com uma palestra inesquecível sobre a leitura, ainda melhor, sobre o amor à leitura dos livros raros que ele tanto possuía. Nos conta casos detetivescos de como conseguiu escavar exemplares originais de O guarani, Os lusíadas, por exemplo; de como abriu e fechou uma livraria por vender e logo em seguida recomprar dos clientes os livros que, no íntimo, não desejava se desfazer; de como esse repórter, advogado, empresário, escritor, editor, livreiro e bibliófilo da cidade de São Paulo, aos treze anos iniciou a sua coleção de livros raros pelos sebos da cidade e além-mares, até chegar ao número inacreditável de trinta mil volumes, que guardava com todo cuidado e carinho na biblioteca da sua residência – em 2006 o acervo foi inteiramente doado para a Universidade de São Paulo (USP).

           E nada mais justo, para inaugurar o primeiro dos doze capítulos desta coluna mensal, do que trazer o exemplo do grande leitor que foi José Mindlin. A leitura, especialmente dos clássicos, é a base para que se escreva cada vez mais e melhor. Não canso de lembrar do saudoso mestre Ariano Suassuna quando na sua bíblia, Iniciação à estética,[2] nos avisa que é preciso o ofício, ou trabalho diário, mas também – ouso dizer principalmente – a técnica, ou estudo contínuo, para quando a forma, ou intuição criadora, descer do sol feito ave de rapina, estarmos preparados para dar o salto e fazermos nascer uma obra de arte.

            No próximo capítulo, navegaremos pelas oficinas literárias, do Brasil e do mundo, uma das ferramentas imprescindíveis para alavancar a Escrita Criativa em mim.


Domenico Livraria. Abril, 2002.



[1] MINDLIN, José. Uma vida entre livros: reencontros com o tempo. Prefácio: Antonio Candido. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo e Companhia das Letras, 1997.

[2] SUASSUNA, Ariano. Iniciação à estética. Texto revisado e cotejado por Carlos Newton Júnior. 5ª edição. Recife: Ed. Universitária da UFPE. 2002.

* Coluna publicada mensalmente nos blogs www.veragora.com.br/tesaoliterario e www.patriciatenorio.com.br.      

** Escritora, dezessete livros publicados, sendo um em formato vídeo-podcast, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa

Simpósio 28 | Escrita Criativa para o século XXI | Abralic 2020

Data              | Horário     |    Temática

15/09/2020     19h-21h Personagens e narradoras/es: processos de criação e criações em processo

Ana Luiza Tonietto Lovato

Cristina Moraes Vazquez

Mariana Rissi Azevedo

Sandra Araújo de Lima da Silva

22/09/2020     19h-21h Formação, práticas, percursos de pesquisa e criação na Escrita Criativa

ALEXANDRA LOPES DA CUNHA

Luís Roberto Amabile

Patricia Gonçalves Tenório

29/09/2020     19h-21h    Construção de personagens e narradores/as e atravessamentos entre artes e gêneros literários

Altair Teixeira Martins

FERNANDA VIVACQUA DE SOUZA GALVÃO BOARIN

Gustavo Melo Czekster

Maria Williane da Rocha Souto

06/10/2020     19h-21h Formação, práticas, percursos de pesquisa e criação na Escrita Criativa II

Luciany Aparecida

María Elena Morán Atencio

Moema Vilela Pereira

Maiores informações:
https://www.abralic.org.br/

Poemas de Cilene Santos*

AZUL LILÁS

11/04/2020

Abri portas e janelas

E deixei o Sol entrar.

Reguei as plantas lá fora

E pus-me a observar.

Vi que o mundo estava lindo

Como nunca vi estar.

De um Céu azul lilás

Com salpicos de algodão.

Que encantou os meus olhos

E enlevou meu coração.

Um beija-flor sorrateiro

Roubou da Latana o mel

E feliz saiu voando,

Misturando as suas cores

Com o azul lilás do céu.

O INVERNO

20/07/2020

Uma cortina de água

Escondeu o meu azul

Fiquei sem sol

Perdi o céu

Perdi o Cruzeiro do Sul

O mar em cinza se tornou

A paisagem perdeu a cor

Todos se guardaram

Um bom vinho para aquecer o corpo

Um grande amor para aquecer a alma

Os olhos sonham com a Primavera

O Inverno chegou.

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* Cilene Santos, escritora, poeta, cordelista. Professora graduada em Letras, com especialização em Língua Portuguesa. Membro da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel, ocupando a cadeira nº 08, e tem como patrono Dimas Batista. Publicou Branca de Neve e os Sete Anões em Versos e A vida de Joel Pontes, em cordel. Participou dos Estudos em Escrita Criativa 2018 de Recife. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

“À noite, sonhamos”* | Paulo Paiva**

À noite, sonhamos

Normalmente não me lembro de meus sonhos, mas este é recorrente. Estou de volta ao apartamento da Tijuca, num domingo à tardinha. Minha mulher veste as nossas filhas com suas roupas domingueiras para irmos participar da missa semanal. Elas estão indóceis, antevendo o final: a ida ao Bob’s onde cada uma dará cabo de um hambúrguer com coca cola.

Terminado os preparativos, todos vão à igreja. Após o final da cerimônia, uma delas me puxa pela mão: vamos, pai, tô com fome.

Voltando para casa dou a ordem: escovar os dentes e dormir. A seguir, ouço o chamado para contar uma história. Pela enésima vez falo de uma menina que não obedeceu à mãe e foi passear na floresta, onde apareceu um lobo e a perseguiu, sendo salva por um lenhador.

Terminado o relato da odisseia, desligo as luzes do quarto e beijo as três. Logo adormecem. O apartamento era bem simples, mas nele habitava o bem querer.

Acordo com um misto de tristeza e aceitação. A última delas casou há três anos, mas ainda não consegui processar bem esses fatos.

“Pai, vem rezar e contar uma história pra gente”. Como eu gostaria de ouvir isso de novo.

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* Crônica que dá nome ao livro: À noite, sonhamos: crônicas. Paulo Afonso Paiva. Olinda: Livro Rápido, 2020.

** Paulo Paiva foi Oficial do Corpo de Saúde da Marinha (R1), é membro da SOBRAMES-PE (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores), e tem dez livros publicados, entre eles O Avestruz Voador (Contos, CEPE, 2007), Torre Malakoff (Crônicas, CEPE, 2014) e A Hora Neutra do Amanhecer (Crônicas, Livro Rápido, 2019). Contato: paivap50@gmail.com