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Índex* – Maio, 2020

Primeiro

Me concebeu

Me deu

Carne e ossos

E preencheu

De espírito

 

Curioso

Que a tudo

Pergunta

E lê

A outra face

Das histórias

O outro lado

Da palavra

Doce

Que se chama

Mãe

(“Para todas as mães do mundo”, Patricia Gonçalves Tenório, 08/05/2020, 09h00)

 

Nascimentos e cuidado de mãe no Índex de Maio, 2020 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Sobre a escrita criativa III | Organização Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) | Prefácio Luiz Antonio de Assis Brasil (RS/Brasil).

Estudos em Escrita Criativa On-line – Maio, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório e Diversos.

Trechos de “Exílio” ou “Diário depois do fim do mundo” | Patricia Gonçalves Tenório.

Livres de Isabelle Macor (France).

E os links do mês com o nosso Oleg Almeida (DF/Brasil):

https://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=4583&titulo=Entrevista_com_o_tradutor_Oleg_Andreev_Almeida

https://sites.google.com/site/olegalmeida/ensaios/ensaio-02

O lançamento do Sobre a escrita criativa III está acontecendo agora! Agradeço o carinho e a força de sempre, a próxima postagem será em 28 de Junho, 2020, abraços cheios de Saúde e Luz,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* – May, 2020

First

She conceived me

Gave me

Meat and bones

And filled

In curious

 

Spirit

Which questions

Everything

And reads

The other face

From the stories

The other side

Of the sweet

Word 

That is called

Mom

(“For all the mothers in the world”, Patricia Gonçalves Tenório, 05/08/2020, 09 a.m.)

 

Births and mother care in the May, 2020 Index on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

About creative writing III | Organization Patricia Gonçalves Tenório (PE/Brasil) | Foreword Luiz Antonio de Assis Brasil (RS/Brasil).

Online Creative Writing Studies – May, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório and Miscellaneous.

Excerpts from “Exile” or “Diary after the end of the world” | Patricia Gonçalves Tenório.

Books from Isabelle Macor (France).

And the links of the month with our Oleg Almeida (DF/Brasil):

https://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=4583&titulo=Entrevista_com_o_tradutor_Oleg_Andreev_Almeida

https://sites.google.com/site/olegalmeida/ensaios/ensaio-02

The launch of About Creative Writing III is happening now! I thank you for your affection and strength, the next post will be on June 28, 2020, hugs full of Health and Light,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Carinho de mãe e filhos, mesmo que à distância, no período de quarentena. Affection of mother and children, even at a distance, in the quarantine period.

“Sobre a escrita criativa III”* | Organização Patricia Gonçalves Tenório | Prefácio Luiz Antonio de Assis Brasil

 

O livro

Nasce

Para aquietar

A dor

Para acalmar

O corpo

Preso no

Isolamento

 

Porque a alma

Ah… a alma

É do tamanho dos

Sonhos

E muito mais…

 

(“Nasce a lenda”, Patricia Gonçalves Tenório, 01/05/2020, 05h47)

 

A literatura, quanto é vária**

Luiz Antonio de Assis Brasil

 

Quando se reúnem pessoas dotadas de vocação e força, é porque há algo superior que as une. Aqui, neste livro, a força é visível, e a vocação, inegável. Estamos falando de pessoas que se congregam em torno da literatura. A literatura é, com a desculpa das outras artes, a forma mais abrangente de expressão da sensibilidade humana, pois tem uma face bifronte: a face de quem escreve e a face de quem lê. Quem escreve necessariamente é um grande leitor. Nesta antologia estão artigos que justamente atendem a essas duas perspectivas, pois tanto há textos literários como textos que refletem acerca da escrita e do ato de escrever, fechando esse círculo virtuoso que tanto nos encanta. Daí porque o leitor de Sobre a Escrita Criativa III terá um manancial de experiências estéticas e intelectuais. Este volume resulta de diversas práticas em sala de aula, e só por isso, pela heterogeneidade de perspectivas do mundo e do ser humano, ele é capaz de levar-nos a vivenciar diferentes mundos de saber e emoção, induzindo-nos a conhecer frente e verso do ato criativo.

Muitos podem achar que ter consciência dos mecanismos da criação é um desmancha-prazeres; muito ao contrário: conhecer é, também, uma forma de prazer. Lembremo-nos de Edgar Allan Poe, que escreveu o extraordinário poema “The Raven”, e, dado o grande sucesso com que foi recebido, resultou num outro texto do mesmo Poe, “The Philosophy of Composition”, em que o poeta explica o mecanismo que utilizou para escrever o poema, e esse ensaio célebre causa tanto prazer quanto a leitura do próprio “The Raven”. Assim, sugiro ao leitor abeirar-se desses textos sem prejulgamentos, e que os percorra sem se perguntar acerca do gênero que está lendo – se poesia, se prosa, se prosa poética, se reflexão teórica. Tenha em conta que nossa época rompeu as compartimentações esquemáticas dos gêneros literários e, por outro lado, a sucessão da variedade atende ao desejo contemporâneo de tudo investigar, tudo fruir, como um jornal de faits divers, só que, dessa vez, com conteúdo. Por último, quero registrar a proeza que é publicar este volume; dadas as condições dispersivas da cultura e da economia brasileira, cada livro que sai ao público pode ser considerado um milagre. Mas cada milagre tem quem o realize, e é fácil identificar esta pessoa: Patricia Gonçalves Tenório. Ela é a alma e a razão desta coletânea. Praticando a expressão de Quintiliano, suave in modo fortiter in re, Patricia literalmente consegue culminar todos seus propósitos, e o resultado está aqui, neste terceiro tomo de uma sequência que tem tudo para seguir em frente. E agora a palavra está com você, leitor.

Porto Alegre, verão de 2020.

 

 

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* Veja também no http://www.patriciatenorio.com.br/?p=9215

** Prefácio de Luiz Antonio de Assis Brasil em Sobre a escrita criativa III. Diversos autores. Organização: Patricia Gonçalves Tenório. Recife: Raio de Sol, 15 de maio 2020, às 19h.

*** Booktrailer de Sobre a escrita criativa III. Com Luiz Antonio de Assis Brasil, Adriano Portela, Bernardo Bueno, Bernadete Bruto, Elba Lins e Raldianny Pereira. Design: Jaíne Cintra. Roteiro: Juliana Aragão. Edição: Mariana Guerra.

Sobre a escrita criativa III – PDF: Sobre a escrita criativa III

Estudos em Escrita Criativa On-line – Maio, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório*

Eu vi o mundo… ele começava no Recife

Antes da pandemia, acordaríamos cedo e sairíamos, a pé, para nos deslumbrarmos com uma cidade que parecia não ser nossa, como se estivéssemos em um país que não é nosso, como se fôssemos estrangeiros: Recife do Marco Zero, Rua do Bom Jesus, Torre Malakoff, Praça da República, Rua da Aurora, Praça Maciel Pinheiro, Brasília Teimosa, Pina, Boa Viagem.

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Foi essa a cidade escolhida para falarmos para o mundo – como pintou o artista pernambucano Cícero Dias  no painel “Eu vi o mundo… ele começava no Recife” –, no terceiro módulo do curso gratuito Estudos em Escrita Criativa On-line, cidade que vestirá com suas cores uma das escritoras que se sentia a mais brasileira de todas, apesar de haver nascido na Ucrânia, e habitou em Recife ainda na infância: Clarice Lispector.

A começar pelo conto “Felicidade clandestina”, que nos descreve uma Clarice menina e o desejo de ler um livro: As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. O cenário é o centro do Recife. Podemos imaginar a pobre menina Clarice caminhando pelas ruas da capital pernambucana, saindo da Praça Maciel Pinheiro em direção à Rua da Imperatriz, buscando o livro desejado em uma das principais livrarias da cidade. E uma colega rica, depois de exercer um poder sádico em reter o livro desejado, é obrigada pela mãe a cedê-lo, por tempo indeterminado, à menina pobre que, ao chegar em casa, toma-o nos braços, na rede, e se faz mulher com o livro-amante.

Chegaríamos ao estado-nação das Minas Gerais. Viríamos de ônibus noturno do Rio de Janeiro de Macabéa (de A hora da estrela, de Clarice) para cá, numa viagem de doze horas. Sentiríamos o aroma mineiro, o sabor do pão de queijo, da couve refogada, do doce de leite com queijo minas. Olharíamos ao redor, e parece que também nos sentiríamos em casa, apesar das singularidades ou alteridades de cada tempo-espaço visitado.

Em O homem da mão seca, da poetisa e escritora mineira Adélia Prado, a narradora Antônia escreve em seus cadernos poéticas, compartilha conosco segredos do seu processo de criação. Descobrimos que sempre fecha as passagens, revisando os conceitos, e que uma personagem (a filha Clara) fala dentro da fala da outra personagem (a mãe Antônia), como se fossem aquelas bonecas russas, as mamuskas.

Finalizamos o terceiro módulo dos EEC On-line com um exercício de desbloqueio a partir das autoras elencadas e a sugestão de filmes relacionados com Recife, Minas Gerais, Brasil e a Escrita Criativa.

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* Escritora e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e http://www.estudosemescritacriativa.com/

 

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Módulo 2 – Aula 4 – Portugal:

 

Módulo 3 – Aula 1 – Brasil:

Módulo 3 – Aula 2 – Brasil:

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E os nossos Exercícios de Desbloqueio!

 

Módulo 1 – Língua Inglesa:

 

Ágata Cruz

Contato: agatamg7@gmail.com 

Olhar Offred (of Fred)

 

Eu a via com diversão, estava exausto, tenso, irritado, com medo. Mas agora, iria relaxar. Seus olhos me fitavam com medo, mas eu não me importava, no fundo a guerra tinha endurecido meu coração. Era provável que antes disso eu não a tratasse assim, me lembro de Anne. Ela me lembra a Anne. Tão doce, suas mãos eram macias, seu beijo era suave, seus olhos me olhavam com amor, com desejo. Nunca pude ter a Anne por completo em meus braços e abraços e saciar o meu desejo. Mas ela não está mais aqui, a guerra destruiu todos os nossos planos… Quem sabe destruiu também os planos dessa aia… Mas isso não importa, porque estou pensando isso? O que está acontecendo comigo? Devo estar completamente louco, estressado. Não perderei mais tempo e irei simplesmente me satisfazer esta noite. Não serei delicado, como seria com Anne. Não farei ela feliz, como faria com a Anne. Anne… Ela se parece com a Anne. Que saudade que sinto! Meu peito está apertado, não posso demonstrar afeto… Porque não? Será que a guerra também não destruiu os sonhos dela? O que está acontecendo comigo?! Devo estar ficando completamente louco…

Já chega de pensar e ficar perdido em meus devaneios do passado. Preciso aceitar que a Anne se foi e nunca mais irá voltar. Nunca mais a terei em meus braços.

Daqui sinto o medo dessa mulher como nunca antes senti. Realmente não devo estar bem, não posso deixar que perceba. Mas ela está tão tensa que não consigo evitar. Seus olhos, seus olhos me fitam com ódio, nojo e repulsa. Ela não me quer, como a Anne me queria. Mas ela se parece com a Anne. Eu a beijo com doçura, envolvo meu braço em sua cintura e minha mão em sua nuca. Sei que ela está me olhando, mas sinto seus ombros relaxarem. Continuo a beijá-la e agora parece que a Anne está em meus braços, sinto seu cheiro, sinto sua mão macia no meu rosto. Estou completamente apaixonado, a beijo com mais intensidade, sinto seus braços em volta do meu pescoço, ela cada vez mais próxima a mim corresponde com paixão. Me sinto feliz, mais leve, amo a Anne. Essa será a nossa primeira noite e farei com que seja inesquecível para ela. Paro pra respirar e me afasto um pouco, abro os olhos e… onde está a Anne? O que aconteceu? Quem a levou?

 

Olga Nancy

Contato: olga.cortes@acad.pucrs.br 

(Sem título)

03/04/2020

 

Arquitetura.

Tua.

Nada.

Crua. Safada.

Fada.

Sem asa. Amada.

Calada!

(Sem título)

 

Victoria Gorelik

Contato: gorelik.vbg@gmail.com 

 

A catarse é sem sentido

Voz teimosa

Negação

Maníaco quer ordenar

A desordem com sentido

Quer dar-se vida

A ti

Que morreu

És enlutado às palavras

Tenta formas à dependência

 

Mas sua catarse tem sentido

E o sintoma é escritor

 

Módulo 2 – Portugal:

 

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com  

Atracada em casa

“Viver a vida em sonho falso é sempre viver a vida.”

                                                                                                            (Livro do desassossego, Fernando Pessoa)

                                                                                                             

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Sentada naquela sala de casa, sem saída, a empregada pública, em frente ao computador, olha na tela o cursor que pisca, como se contasse o tempo de espera para se ter uma resposta. Sente a solidão deste trabalho em tempo incerto.

Enquanto espera, no silêncio da manhã, ouve em seu coração o compassado eco das ondas do mar e sonha. Vê o amplo mar que cobriu sua infância e juventude. Mar por diversas vezes experimentado em vários tons, gosto e tepidez, hoje, uma quimera escondida no fundo da alma, no mar absoluto de seus pensamentos e naquele quadro afixado na parede.

Despertando do transe, a empregada pública responde ao e-mail que brota na tela, como uma concha na areia da praia, depois que a onda recuou. Em resposta, recebe um WhatsApp com explicações mais detalhadas sobre o que fazer, rompendo o sossego das quatro paredes onde está encerrada.  Mais incógnita do que antes, aguarda um sinal de vida vindo lá de fora. Notícias boas e as más…

Em seu trabalho solitário, emparedada como aquela tela onde barcos enfileirados estão refletidos no mar, ela sente sua limitação. Recorda da velha imensidão do mar, da existência colorida, além de seu apartamento, além do tempo. Aquele instante eterno, aquele rumor de gente saudável, contente!

O que ela sente, ali atracada, é o que os portugueses nos confiaram desde o nascimento e se chama SAUDADE.

 

Elba Lins

Contatoelbalins@gmail.com

Isolamento Social

29.04.2020

 

Nestes dias de solidão inquietante

Preciso desenhar dentro de mim

O mundo inteiro

O sol

O mar

A vastidão infinita de pessoas

 

Sou só.

Um simples fio.

E não posso ser puxado para fora

Para não destruir toda

A trama tecida do Universo.

 

Sou apenas uma dama de ouro

Que se tirada destrói

O castelo de cartas.

 

Johany Medeiros

Contato: johanymedeiros6@gmail.com 

Isolamento de uma poetisa II

 

Você trocou o verde por arranha-céus e
claustrofóbicas massas cinzentas.
Partiu para a cidade grande,
para poluição constante,
sem ao menos me dizer adeus.

Enquanto isso,
escrevo poemas que nunca chegarão até você,
mantenho-me isolada do que sobrou do mundo,
porque preciso,
— porque eu quero,
porque não mais posso olhar os pássaros do meu jardim,
admirá-los, sem me sentir culpada.

Afinal, eles me ensinaram a voar
e você sempre teve medo de altura.
— por que você não gosta de pássaros?

 

Luciana Beirão de Almeida

Contato: lubeirao@hotmail.com

De Fora Pra Dentro

 

A cidade,

Antes agitada,

De repente parou.

Aquietou-se.

E eu,

Aqui dentro,

Consigo ouvir

O canto dos pássaros.

Uma criança que brinca,

Alheia aos perigos que nos assolam.

Consigo escutar o silêncio.

Consigo escutar o meu silêncio.

Meus pensamentos,

A minha alma,

Que me acalma.

Eu, aqui de dentro,

Estou aprendendo a olhar pra dentro.

 

Mariana Moura

Contato: mariana.moura88@gmail.com

O Mar e o fim de tarde

 

Lá no final dessa vila circundada de areia

Existe um pôr-do-sol irretocável

Que cai todos os dias alaranjado, como se o mar beijasse

Nele mora toda a simplicidade do que é viver em plenitude

Contemplar aqueles instantes do dia traz todo o sentido da existência

Que é amor gratidão paz e presença

Os quais vêm como ondas mostrando que nada é perene

Mas taí a vida em magnitude.

 

Giovana Teixeira Pereira

Contato: gigiteixeira.pereira@gmail.com 

UM DIA NA FEIRA, SONHOS E EU

 

Minha mãe me acordou cedo naquela manhã de sábado. Tínhamos que ir às compras, porque muita coisa lá em casa estava acabando. Leite, pão, manteiga, arroz. Essas coisas, sabe. Nem fiquei brava nem nada, porque a verdade é que as férias já estavam me cansando. Tudo o que eu fazia era dormir, comer e brincar (mas não era legal, porque eu não tenho irmãos, então sempre tenho que inventar todas as brincadeiras sozinha).

Desci as escadas bem rápido depois de trocar a roupa e escovar os dentes. Encontrei mamãe no quintal me esperando e regando nosso jardim. O dia estava bem claro, sabe, como aqueles dias de verão em que você, ou tem piscina, ou derrete no sol.

Bom, saímos logo em seguida e mamãe disse que antes do mercado íamos à feira. Eu não me importei. A verdade é que estava um pouco desanimada. Todas as minhas amigas tinham ido viajar e eu não tinha nada para fazer durante o dia. Às vezes eu conversava com a minha mãe, mas não eram conversas muito longas. Quando eu dizia isso para ela, mamãe falava: “Bom, mas é claro, você tem nove anos, o que uma menina de nove anos e uma mulher de quarenta e dois vão dizer uma para a outra? Você devia procurar a Laís para brincar um pouco, ela vai adorar.” Eu consegui pensar em muitas coisas sobre as quais podíamos conversar, mas não disse nada, porque mamãe parecia ter certeza. (Laís era uma garota que morava lá na rua, mas ela era cinco anos mais velha do que eu e eu não achava que gostava tanto assim de mim. Os adultos nunca entendem as coisas direito.)

Quando chegamos à feira já tinha bastante movimento. Mamãe e eu estávamos na barraca das maçãs quando uma senhora com um vestido lilás falou “Roberta, quanto tempo!!!!” Mamãe virou e respondeu “Madalena, meu Deus! Quando foi a última vez que nos vimos mesmo?” E as duas começaram a conversar como se eu nem estivesse ali. Fiquei meio emburrada. Até minha mãe tinha uma amiga e eu não. Quando a senhora que minha mãe chamou de Madalena pareceu me notar, mamãe me apresentou para ela como sua filha, Elena, só de nove anos.

Depois daquele dia fiquei pensando nas palavras dela, porque eu não entendia. Por que eu tinha nove anos? Minha mãe tinha quarenta e dois? Parecia que a única coisa que eu tinha era aquilo, mais nada. Seria isso eu? Só o meu tamanho? Talvez seja por isso que mamãe nunca conversa comigo e ninguém me enxerga direito na feira. Não sei se faz sentido, mas eu não me acho tão pequena assim. Quero dizer, sei que sou pequena, mas não me sinto assim. Meus sonhos são bem grandes, isso não vale de nada? Não quero crescer só para ter tamanho, já sou grande, porque tenho sonhos. Sabe, eu queria muito falar isso para mamãe, mas não acho que ela ia me ouvir. Aí acabei escrevendo aqui.

 

 

Vanessa da Silva

Contatonessacy99@gmail.com

Adentro de mim

 

Uma vez, certamente, li…

Que sou do tamanho que me vejo

Como posso então ir

Além dos acordes desse sofrimento

Que enfrento no meu mundo adentro?

 

Sou feita de grandes desafios em um mar aberto

Coberta de tamanha profundeza

Eu sou meu mundo inteiro ferido

Que se dissolve no restante do

Cosmos místico.

 

 

Trechos de “Exílio” ou “Diário depois do fim do mundo”* | Patricia Gonçalves Tenório

Março, Abril, Maio…, 2020

 

Dia 4

 

21 de março. Sábado. 11h45 da manhã.

Estou no meu quarto e resolvi escrever uma espécie de diário para acompanhar o período de exílio.

Acordei às 06h com Preta latindo muito para alguém descer. Minha filha levantou meio tonta e desceu com ela, mas fiquei preocupada se a cachorrinha continuava com diarreia, e não consegui meditar.

Meditar me deixa em paz comigo mesma. Assim como ir para a missa, e amanhã não poderei ir. Parece que faz um mês que fui para a missa no domingo passado, e não sei quando poderei ir novamente. Parece que faz um mês que foi o dia 1.

 

Dia 1

 

Quarta-feira. 15h11.

Passei o dia tentando ensaiar para as gravações de sábado pela manhã. Conseguimos chegar em quinhentas inscrições no site e cem no Youtube dos Estudos em Escrita Criativa On-line.

É o que me salva. Deus, em primeiro lugar, e a minha produção em segundo. Mas em segundo lugar encontra-se também a análise, que faço há quase quinze anos.

Não consegui ensaiar para as gravações de sábado pela manhã, porque sou muito autocrítica. Assim como estamos autocentrados nesse período de exílio.

Mas penso que a tensão de ir para São Paulo, no auge da pandemia, é o motivo principal para não conseguir ensaiar, para não me considerar suficientemente boa, nem como escritora, professora, mulher. Mãe.

O voo está marcado para as 19h45. Havíamos escolhido esse horário por causa das aulas do meu filho mais novo, que foram suspensas desde segunda-feira. No final, não teve aula, mas demoramos a chegar no aeroporto, a companhia aérea informou que havia cancelado nossas passagens e nos colocou no próximo voo para São Paulo.

Meu filho caçula estava muito angustiado com essa viagem. O problema do zumbido contínuo no ouvido esquerdo e a possibilidade de perder a audição o fez querer ir logo a São Paulo para uma consulta com uma otorrino especializada na área e pesquisadora da USP.

Mas São Paulo é uma cidade de alto risco da pandemia. Saímos de casa de máscaras-filtro doadas pelo pai do meu filho, e ficamos o tempo inteiro lavando as mãos.

Chegamos em São Paulo às 00h30. Fomos para o hotel, ficamos no mesmo quarto. Finalmente retiramos as máscaras. Meu rosto estava todo marcado.

 

[…]

 

Dia 40

 

Segunda-feira. 09h.

Hoje fazem quarenta dias que escrevo neste Diário.

Ontem terminei de ler Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago.

Os dois, a escrita e a leitura, começaram no mesmo Dia 04, sábado 21/03/2020. Quanto tempo se passou, e parece que foi ontem. Sinto um cansaço imenso, uma vontade infinita de dormir para sempre. Mas ainda bem que as obrigações me chamam – guardar roupas lavadas desde sexta-feira, higienizar o pano de chão da entrada que faço diariamente, fazer café, dar água e comida de Preta, porque a minha filha já desceu com ela.

Sinto-me abandonada pelo livro que terminei de ler.  Mas existem outros na biblioteca, e é bom dar um tempo – ou fazer o luto da leitura, como dizem alguns –, para depois começar a ler uma nova história.

Parece que Saramago adivinhou o período de desterro. Ou mesmo me adivinhava. Porque encontro, quase no finalzinho do Ensaio:

“À noite não comeram, só o rapazinho estrábico recebeu algo para entretenimento dos queixos e engano do apetite, os outros sentaram-se a ouvir ler o livro, ao menos o espírito não poderá protestar contra a falta de nutrimento, o mau é que a debilidade do corpo levava algumas vezes a distrair-se a atenção da mente, e não era por falta de interesse intelectual, não, o que acontecia era deslizar o cérebro para uma meia modorra, como um animal que se dispôs a hibernar, adeus mundo, por isso não era raro cerrarem estes ouvintes mansamente as pálpebras, punham-se a seguir com os olhos da alma as peripécias do enredo, até que um lance mais enérgico os sacudia do torpor, quando não era simplesmente o ruído do livro encadernado ao fechar-se de estalo, a mulher do médico tinha destas delicadezas, não queria dar a entender que sabia que o devaneador estava a dormir.”[1]

 

Saramago utiliza técnicas de escrita refinadíssimas, tais como repetição de listas, mas em contextos diferentes…

“Proclamava-se ali o fim do mundo, a salvação penitencial, a visão do sétimo dia, o advento do anjo, a colisão cósmica, a extinção do sol, o espírito da tribo, a seiva da mandrágora, o unguento do tigre, a virtude do signo, a disciplina do vento, o perfume da lua, a reivindicação da treva, o poder do esconjuro, a marca do calcanhar, a crucificação da rosa, a pureza da linfa, o sangue do gato preto, a dormência da sombra, a revolta das marés, a lógica da antropofagia, a castração sem dor, a tatuagem divina, a cegueira voluntária, o pensamento convexo, o côncavo, o plano, o vertical, o inclinado, o concentrado, o disperso, o fugido, a oblação das cordas vocais, a morte da palavra, Aqui não há ninguém a falar de organização, disse a mulher do médico ao marido, Talvez a organização seja noutra praça, respondeu ele.”[2]

 

[…]

 

“Proclamava-se ali os princípios fundamentais dos grandes sistemas organizados, a propriedade privada, o livre câmbio, o mercado, a bolsa, a taxação fiscal, o juro, a apropriação, a desapropriação, a produção, a distribuição, o consumo, o abastecimento e o desabastecimento, a riqueza e a pobreza, a comunicação, a repressão e a delinquência, as lotarias, os edifícios prisionais, o código penal, o código civil, o código das estradas, o dicionário, a lista de telefones, as redes de prostituição, as fábricas de material de guerra, as forças armadas, os cemitérios, a polícia, o contrabando, as drogas, os tráficos ilícitos permitidos, a investigação farmacêutica, o jogo, o preço das curas e dos funerais, a justiça, o empréstimo, os partidos políticos, as eleições, os parlamentos, os governos, o pensamento convexo, o côncavo, o plano, o vertical, o inclinado, o concentrado, o disperso, o fugido, a oblação das cordas vocais, a morte da palavra, Aqui fala-se de organização, disse a mulher do médico ao marido, Já reparei, respondeu ele, e calou-se.”[3]

 

… descrição de personagens sem lhes dar nomes, mas que intuímos quem são…

“[…] todas as imagens da igreja tinham os olhos vendados, as esculturas com um pano branco atado ao redor da cabeça, as pinturas com uma grossa pincelada de tinta branca, estava além uma mulher a ensinar a filha a ler [Sant’Ana e a Virgem Maria criança], e as duas tinham os olhos tapados, e um velho com um livro aberto onde se sentava um menino pequeno [São José e o Menino Jesus], e os dois tinham os olhos tapados, e um velho de barbas compridas, com três chaves na mão [São Pedro], e tinha os olhos tapados, e outro homem com o corpo cravejado de flechas [São Sebastião], e tinha os olhos tapados […].”[4]

 

… isso tudo sem dizer, mas mostrando.

Chove muito em Recife. Fecho as páginas do Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. A pandemia pode acabar a qualquer instante. Ou não. Durar meses feito a cegueira branca. Ou quando vejo a notícia no portal da UOL: Fernando Meirelles contraiu a Covid-19 e afirma que esta pandemia é infinitamente menos impactante que os problemas ecológicos. Coincidência? O mesmo homem que levou ao cinema a adaptação do Ensaio[5]?

Não acredito em coincidências. Apenas sei que preciso fazer, no sistema do banco do celular, os pagamentos e as transferências da semana, ir na biblioteca procurar um novo livro para ler, e talvez aguardar mais quarenta dias, quarenta meses. A vida inteira.

 

[…]

 

Dia 53

 

Domingo. 09h44. Dia das Mães. Estou no meu quarto depois de um início de dia abençoado, com envio de poema e vídeo “Para todas as mães do mundo”, assistir missa com padre Marcelo Rossi e dom Fernando Figueiredo desde o começo (está começando agora umas 06h10 na Rede Globo), tomar café demorado, organizar sala, cozinha, lavanderia, higienizar a entrada com água sanitária e pinho, descer com Preta somente às 09h30 e alimentá-la. Um dia perfeito.

Ontem à noite gravei seis vídeos. O do poema de hoje pela manhã, e os das leituras de cinco poetas que amo de paixão para postar nos Estudos em Escrita Criativa durante a quarentena – Poesia para sublimar a dor.

Começando com a poetisa russa Anna Akhmátova e o seu “Terceira”:

“Eu, como um rio,

fui desviada por estes duros tempos.

deram-me uma vida interina. E ela pôs-se a fluir

num curso diferente, passando pela minha outra vida,

e eu já não reconhecia mais minhas próprias margens.

Oh, quantos espetáculos perdi,

quantas vezes o pano ergueu-se

e caiu sem mim. Quantos de meus amigos

nunca encontrei uma só vez em toda a minha vida,

e quantas paisagens de cidades

poderiam ter-me arrancado lágrimas dos olhos;

mas só conheço uma cidade neste mundo

embora nela fosse capaz de achar meu caminho até dormindo;

e quantos poemas nunca cheguei a escrever,

e seus refrões misteriosos pairam à minha volta […]”[6]

**

Depois me emaranhei na “Ubiquidade” do pernambucano-recifense-brasileiro Manuel Bandeira:

“Estás em tudo que penso,

Estás em quanto imagino:

Estás no horizonte imenso,

Estás no grão pequenino.

 

Estás na ovelha que pasce,

Estás no rio que corre:

Estás em tudo que nasce,

Estás em tudo que morre.

 

Em tudo estás, nem repousas,

Ó ser tão mesmo e diverso!

(Eras no início das cousas,

Serás no fim do universo.)

 

Estás na alma e nos sentidos.

Estás no espírito, estás

Na letra, e, os tempos cumpridos,

No céu, no céu estarás.”[7]

**

Flanei na brisa d“A rua dos cataventos”, do gaúcho-brasileiro Mário Quintana:

“I

Escrevo diante da janela aberta.

Minha caneta é cor das venezianas:

Verde!… E que leves, lindas filigranas

Desenha o sol na página deserta!

 

Não sei que paisagista doidivanas

Mistura os tons… acerta… desacerta…

Sempre em busca de nova descoberta,

Vai colorindo as horas quotidianas…

 

Jogos da luz dançando na folhagem!

Do que eu ia escrever até me esqueço…

Pra que pensar? Também sou da paisagem…

 

Vago, solúvel no ar, fico sonhando…

E me transmuto… iriso-me… estremeço…

Nos leves dedos que me vão pintando!”[8]

 

Confirmo a força da escrita própria da mineira-brasileira Adélia Prado em “Oráculos de maio”:

“Sei que Deus mora em mim

como em sua melhor casa.

Sou sua paisagem,

sua retorta alquímica

e para sua alegria

seus dois olhos.

Mas esta letra é minha.”[9]

**

E finalizo quebrando todas as barreiras de tempo e espaço, que a Poesia gentilmente nos oferece, com “Pleno de vida agora”, do poeta estadunidense-do-norte Walt Whitman:

“Pleno de vida agora, sólido, visível,

Eu, aos quarenta anos de idade e aos oitenta e três anos de Estados Unidos,

A alguém, um século adiante ou muitos séculos adiante,

A ti, que ainda não nasceste, me dirijo, procurando-te.

 

Quando leres estes versos, eu, que era visível, invisível me terei tornado,

Agora és tu, sólido, visível, lendo meus poemas, procurando-me,

Imagino a tua felicidade se eu pudesse estar contigo e fosse teu camarada,

Sê feliz como se eu estivesse contigo. (Não estejas tão certo de que não estou neste momento junto a ti.)”[10]

 

O dia de hoje está sendo perfeito. O de ontem também.

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*Trechos de Exílio ou Diário depois do fim do mundo encontram-se também no blog de Moema Vilela https://www.osdiaseasnoites.com.br

** Esses e outros vídeos também serão postados nos stories do Instagram dos Estudos em Escrita Criativa: @estudosemescritacriativa

[1] SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 305-306.

[2] SARAMAGO, José. Op. cit., p. 284, sublinhado nosso.

[3] SARAMAGO, José. Op. cit., p. 295-296, sublinhado nosso.

[4] SARAMAGO, José. Op. cit., p. 301, colchetes nossos.

[5] Trata-se de Ensaio sobre a cegueira. Blindness. 2008. Brasil, Canadá, Japão. 121 min. Direção: Fernando Meirelles. Com Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael García Bernal, Danny Glover, Sandra Oh, Alice Braga, entre outros. Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=kxvKalWMPb0

[6] AKHMÁTOVA, Anna. Terceira. In Antologia poética. Seleção, tradução, apresentação e notas: Lauro Machado Coelho. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009, p. 125, colchetes nossos.

[7] BANDEIRA, Manuel. Ubiquidade. In Bandeira de bolso: uma antologia poética. Organização e apresentação: Mara Jardim. Porto Alegre, RS: L&PM, 2008, p. 110-111.

[8] QUINTANA, Mario. I A rua dos cataventos. In Quintana de bolso. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 7.

[9] PRADO, Adélia in HOHLFELDT, Antonio. Oráculos de maio. In A epifania da condição feminina. In Cadernos de Literatura Brasileira. Número 9. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2000, p. 96.

[10] WHITMAN, Walt. Pleno de vida agora. In Folhas de relva. Tradução: Luciano Alves Meira. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 149.

Livres de Isabelle Macor*

Fragment de dialogue K.Lenkowska - L'Harmattan - Trad. I. Macor - jpg

Mémoire opérationnelle_Pamiec operacyjna Ewa Lipska - Introduction et Traduction Isabelel Macor - jpg

Ouvrage chez L'Arbre à paroles 02-05-2020 à 23.26

Ouvrage chez Noir sur Blanc

Ouvrage publié chez Aubier - Flammarion jpeg

Ouvrages - Halina Poswiatowska 01-05-2020 à 16.19

Ouvrages publiés chez Grèges - 30-04-2020 à 23.21

Ouvrages publiés chez Lanskine 30-04-2020 à 23.45

 

* Contactisabelle.macor@gmail.com