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Índex* – Fevereiro 2020

Aprendi

A escrever um

Romance

E nunca mais

Ponho os pés

No chão

E nunca mais

Desejo transformar

O personagem

Mas vivê-lo

A cada mínimo

Instante

E senti-lo

No pulsar

Do dia-a-dia

E agora

Já não sou

Mais

A mesma

(“Transformação”, Patricia Gonçalves Tenório, 08/02/2020, 05h48)

 

A escrita sempre em transformação no Índex de Fevereiro de 2020 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa 2020 On-line | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Abralic 2020 | Simpósio Escrita Criativa para o século XXI | Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil), Moema Vilela (MT/RS – Brasil) e Patricia Gonçalves Tenório.

Pílulas para o Silêncio Parte CLVI | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

XXXV Encontro Nacional da Anpoll | Frederico Fernandes (PR – Brasil).

E os links do mês:

 – Ana Elizabete e José Neto (PE – Brasil): https://www.borapralacomigo.com.br/2020/02/museu-do-amanha-rio-de-janeiro.html?m=1

 – Manuela Bertão (Porto – Portugal):

https://sussurrovento.blogspot.com/?m=1

 

Agradeço a participação, a próxima postagem será em 22 de Março de 2020, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* February, 2020

 

I learned

Writing a

Romance

And I’ll never set

Again

My foot

On the floor

And I’ll never want

Again

To transform

The character

But live it

At every minimum

Instant

And feel it

In the pulse

Of everyday life

And now

I’m no longer

More

The same

(“Transformation”, Patricia Gonçalves Tenório, 02/08/2020, 05h48 a.m.)

 

An ever-changing writing in the February 2020 Index on Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Creative Writing Studies 2020 Online | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Abralic 2020 | Creative Writing Symposium for the 21st century | Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil), Moema Vilela (MT/RS – Brasil) and Patricia Gonçalves Tenório.

Pills for Silence Part CLVI | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

XXXV National Anpoll Meeting | Frederico Fernandes (PR – Brasil).

And the links of the month:

– Ana Elizabete and José Neto (PE – Brasil): https://www.borapralacomigo.com.br/2020/02/museu-do-amanha-rio-de-janeiro.html?m=1

– Manuela Bertão (Porto – Portugal):

https://sussurrovento.blogspot.com/?m=1

 

Thank you for the participation, the next post will be on March 22, 2020, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Cheia, minguante, nova, crescente. A lua sempre em transformação. Full, waning, new, growing. The moon is always changing.

Estudos em Escrita Criativa 2020 On-line | Patricia Gonçalves Tenório*

Escritores do mundo inteiro já falaram de suas técnicas de maneira incansável. Descobrimos nas Cartas exemplares que Guy de Maupassant bebia em Gustave Flaubert. Virgínia Woolf compartilha os segredos da sua escrita em O leitor comum. Henry James derrama a própria técnica em A arte da ficção. Edgar Allan Poe explica, de trás para frente, como escreveu seu poema mais conhecido, “O corvo”, em “A filosofia da composição”. Milan Kundera revela os bastidores de A insustentável leveza do ser em A arte do romance. Orhan Pamuk conta da profecia paterna quanto ao Prêmio Nobel de Literatura que recebeu em 2006 em A maleta do meu pai. Por outro lado, Franz Kafka declara que tudo o que escreveu foi para ser respeitado na sua nunca entregue longa Carta ao pai.

Acredito que a Escrita Criativa está em tudo o que lemos e escrevemos, quer sejam textos ficcionais e poéticos, quer sejam textos teóricos, pois é preciso muita criatividade para conectar diferentes pensadores e recriar um pensamento próprio, com a nossa própria voz. Os Estudos em Escrita Criativa On-line nasceram dessa necessidade em extrair técnicas de criação dos romances, novelas, contos e poemas, e até mesmo de ensaios e artigos, e, agregadas à nossa bagagem de leitura e de vida, forjarmos com essas técnicas algo original, pois sob o nosso olhar único e insubstituível.

A interface da Literatura com outras formas de artes são agentes provocadores de escrita. Por isso o estímulo em se colocar diante de pinturas, esculturas, filmes, músicas, fotografias, espetáculos de teatro e dança. As artes possuem um fio sensível que transita entre elas – se comunicam. Quando aprecio um quadro de Edward Burne-Jones, ou uma música de Ludwig van Beethoven, partes do meu cérebro são despertadas, imagens vêm à tona e podem fazer brotar poemas, contos ou até mesmo romances.

A relação da Literatura com outras áreas de conhecimento também é uma ferramenta importantíssima para os nossos Estudos. Quando lemos um Gaston Bachelard e o seu A psicanálise do fogo, ou um Henry Bergson com Duração e simultaneidade e Roland Barthes e A câmara clara é possível vislumbrar esse fogo criador, por serem tais teóricos e outros estudados nos EEC On-line de uma poeticidade ímpar na forma que escrevem, e Poesia/Poiesis é criação.

E, principalmente, os EEC On-line nasceram da minha necessidade de compartilhar o universo infinito da Escrita Criativa. Tudo começou em 2016 com Bernadete Bruto e Elba Lins, em Recife, e o desejo de conversar sobre tudo o que eu apreendia no doutorado em Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Em 2017, um grupo de alunos da PUCRS (eu, inclusive) se reuniu para pensar em maneiras novas de divulgar o nosso trabalho em ambientes extra-acadêmicos. A partir dessa demanda, buscamos apoio na própria PUCRS e na XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco que aconteceria naquele mesmo ano. Com a boa receptividade na Bienal, criamos o projeto dos Estudos em EC, em Recife e Porto Alegre, nas Livrarias Cultura, em 2018, o que nos deu experiência para propormos o curso de Extensão na Unicap realizado no primeiro semestre de 2019, e a nossa primeira turma de Especialização Lato Sensu em EC Unicap/PUCRS, iniciada no segundo semestre.

No nosso curso on-line que iniciaremos em 10 de março de 2020, navegaremos por diversas regiões, línguas e países. Estudaremos escritores, poetas, teóricos e artistas do mundo inteiro. Descortinaremos técnicas presenteadas por criadores de todos os tempos, diversas culturas, diferentes linguagens. Através de vídeos curtos, gratuitos e semanais, tentaremos alcançar a máxima do nosso saudoso mestre Ariano Suassuna no seu Iniciação à estética, no qual nos alerta para estarmos sempre em busca da técnica, ou estudo contínuo, e do ofício, ou escrita diária, para quando a forma ou imaginação criadora descer do sol feito ave de rapina estarmos preparados para darmos o salto e criarmos uma obra de arte.

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* Escritora, dezesseis livros publicados, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e @estudosemescritacriativa (Instagram e Facebook).

** Na gravação dos Estudos em Escrita Criativa 2020 On-line, com Jaíne Cintra, Mariana Guerra, Juliana Aragão, e a (quase) participação especial de Preta. 

 

Abralic 2020 | Simpósio Escrita Criativa para o século XXI

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Prezadas(os) professoras(es) e pesquisadoras(es),

 

É com imensa satisfação que convidamos para participarem do simpósio Escrita Criativa para o século 21, que será realizado pela Abralic no período de 22 a 26 de junho de 2020, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É o simpósio de número 28.

As submissões de comunicações para o simpósio devem ser encaminhadas até o dia 29 de fevereiro de 2020 por meio do link: http://www.abralic.org.br/inscricao/comunicacao/

 

 

Atenciosamente,

Luís Roberto de Souza Júnior,

Moema Vilela Pereira,

Patricia Gonçalves Tenório.

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SIMPÓSIO ESCRITA CRIATIVA PARA O SÉCULO XXI

 

Prof. Dr. Luis Roberto de Souza Júnior (PUCRS)

Prof(a). Dr(a). Moema Vilela Pereira (PUCRS)

Prof(a). Dr(a). Patricia Gonçalves Tenório (UNICAP)

 

Resumo: Em 2020, a mais antiga oficina literária do país em funcionamento contínuo completa 35 anos de existência, tendo formado numerosos escritores brasileiros e estrangeiros e estimulado a criação de um primeiro programa completo de graduação e pós-graduação em Escrita Criativa no Brasil. Em um cenário de crescimento da área no país, com aumento de pós-graduações oferecidas e também da procura de interessados por cursos e oficinas de criação literária, é fundamental investigar e debater as pesquisas desenvolvidas em ambiente acadêmico para pensar caminhos para a Escrita Criativa no século XXI.

O presente simpósio pretende investigar os caminhos dessa área de pesquisa relativamente jovem no Brasil. A origem da Escrita Criativa vem dos tempos ancestrais. Reza a lenda que a mãe de Virgílio, o autor da Eneida, sonhou quando grávida com um loureiro. Consultou um mágico e este revelou, para alegria da futura mãe, que o filho seria um grande poeta. Mas o mágico advertiu: ela deveria enviar Virgílio para Roma para que aprendesse com os grandes poetas da época. Escritores do mundo inteiro já falaram de suas técnicas de maneira incansável. Descobrimos nas Cartas exemplares que Guy de Maupassant bebia em Gustave Flaubert. Virgínia Woolf compartilha os segredos da sua escrita em O leitor comum. Henry James derrama a própria técnica em A arte da ficção. Edgar Allan Poe explica, de trás para frente, como escreveu seu poema mais conhecido, “O corvo”, em “A filosofia da composição”. Milan Kundera revela os bastidores de A insustentável leveza do ser em A arte do romance. Orhan Pamuk conta da profecia paterna quanto ao Prêmio Nobel de Literatura que recebeu em 2006 em A maleta do meu pai. Por outro lado, Franz Kafka declara que tudo o que escreveu foi para ser respeitado na sua nunca entregue longa Carta ao pai.

No segundo volume da trilogia Sobre a escrita criativa, o escritor e professor da PUCRS Luís Roberto Amabile traça um panorama da área no exterior: “No meio acadêmico, as oficinas deram origem a um campo de estudos nos Estados Unidos, na década de 1930-40: a Escrita Criativa, que floresceu após a II Guerra. E naquele momento, em meados da década de 1980, quase todas as universidades norte-americanas e muitas europeias possuíam seus programas de Creative Writing. Além disso, em países da América Latina, como México e Argentina, crescia o número de oficinas de criação, mesmo sem vínculo acadêmico” (AMABILE, 2018, p. 257).

No Brasil, data de 1962 um dos primeiros cursos dessa natureza (LAMAS/ HINSTZ, 2002), ministrado pelo escritor e professor Cyro dos Anjos, na Universidade de Brasília (UnB). Quatro anos depois, Judith Grossmann fundou, na Universidade Federal da Bahia, as oficinas de criação literária. Na década seguinte, em 1975, no Rio de Janeiro, ocorreu uma oficina ministrada por Silviano Santiago e Affonso Romano de Sant’Anna (este último participou do Program in Creative Writing, iniciado pela Iowa University). E desde 1985, funciona, de maneira ininterrupta e inserida no Programa de Pós-Graduação em Letras, a Oficina de Criação Literária da PUCRS, ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil.

Chegamos ao cerne do simpósio: quais as possibilidades de desenvolver pesquisas sobre a Escrita Criativa em ambiente acadêmico? Em abril de 2019, Assis Brasil publica o livro Escrever ficção, resultado de sua experiência na área. Em agosto do mesmo ano, na aula inaugural da Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS em Recife, Assis Brasil aponta o crescimento da área no país, com aumento expressivo de Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu e Lato Sensu em Escrita Criativa.

Os alunos-escritores das pós-graduações em EC – tendo como pioneiro no país o caso da PUCRS, com graduação (2015), mestrado (2006), doutorado (2012), cursos de extensão e a especialização em parceria com a Unicap (2019) – se alimentam do fazer artístico dos escritores clássicos e contemporâneos, assim como da teoria da literatura, e outras áreas de conhecimento (filosofia, psicanálise, semiótica), outras artes conjugadas (cinema, fotografia, artes plásticas), que o ambiente acadêmico proporciona e facilita.

Em 21 lições para o século 21, o Ph.D. em História pela Universidade de Oxford, e atualmente professor na Universidade Hebraica de Jerusalém, Yuval Noah Harari, nos alerta da necessidade de estarmos sempre nos recriando, porque, no futuro, as profissões serão líquidas, as vocações, mutáveis, os cenários, imprevisíveis. Nada mais pertinente, nos 35 anos da oficina idealizada e conduzida por Luiz Antonio de Assis Brasil, trazermos para o XVII Congresso Internacional da Abralic “Diálogos Transdisciplinares”, em Porto Alegre, a capital brasileira da Escrita Criativa, trabalhos que abordem as mais diversas possibilidades da área neste século e além.

 

Referências bibliográficas:

AMABILE, Luís Roberto. Escrita criativa, a aventura começa. In Sobre a escrita criativa II. Organização: Patricia Gonçalves Tenório. Prefácio: Bernardo Bueno. Recife: Editora Raio de Sol, 2018.

ASSIS BRASIL, Luiz Antonio. Escrever ficção: Um manual de criação literária. Colaboração de Luís Roberto Amabile. São Paulo: Cia das Letras, 2019.

FLAUBERT, Gustave. Cartas exemplares. Tradução: Carlos Eduardo Lima Machado. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2005.

HARARI, Yuval Noah. 21 lições para o século 21. Tradução: Paulo Geiger. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

JAMES, Henry. A arte da ficção. Tradução e prefácio: Daniel Piza. Osasco, SP: Novo Século Editora, 2011.

KAFKA, Franz. Carta ao pai. Tradução: Marcelo Backes. Porto Alegre: L&PM, (1919 in) 2007.

KUNDERA, Milan. A arte do romance. Tradução: Teresa Bulhões C. da Fonseca e Vera Mourão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

LAMAS, Berenice Sica; HINTZ, Marli Marlene. Oficina de criação literária: um olhar de viés. 2ª ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.

PAMUK, Orhan. A maleta do meu pai. Tradução: Sérgio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

POE, Edgar Allan. A filosofia da composição. In Poemas e ensaios. Tradução: Oscar Mendes e Milton Amado. Revisão e notas: Carmen Vera Cirne Lima. 3ª ed. revista. São Paulo: Globo, 1999

WOOLF, Virgínia. O leitor comum. Tradução: Luciana Viégas. Rio de Janeiro: Graphia, 2007.

Minibiografia dos coordenadores:

Luís Roberto de Souza Júnior (Amabile) (Assis/SP, 1977) estudou Teatro e Jornalismo na USP e trabalhou na imprensa paulistana por mais de uma década. É mestre em Letras e doutor em Teoria da Literatura na PUCRS, onde atualmente cursa o doutorado e é professor da graduação em Escrita Criativa. Teve contos e peças incluídos em antologias no Brasil, em Portugal e na Espanha. O amor é um lugar estranho (Grua, 2012), seu livro de estreia, foi finalista do Prêmio Açorianos 2013. O livro dos cachorros (Patuá, 2015) havia anteriormente vencido a chamada para publicação do Instituto Estadual do Livro do RS. Também colaborou com Luiz Antonio de Assis Brasil em Escrever ficção: Um manual de criação literária, que a Companhia das Letras lançou em 2019. Contato: luisrobertoamabile@gmail.com

Moema Vilela Pereira é Doutora em Escrita Criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Professora adjunta na Escola de Humanidades da PUCRS, lecionando nos cursos de Escrita Criativa e de Letras. Uma das coordenadoras do curso de Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS. Mestra em Letras – Estudos de Linguagens (Linguística e Semiótica) pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e em Letras (Escrita Criativa) na PUCRS. Graduada em Comunicação Social (Jornalismo) pela UFMS. Autora dos livros Ter saudade era bom (2014), finalista do Prêmio Açorianos, Guernica (2017), Quis dizer (2017) e A dupla vida de Dadá (2018). Publicou contos, poesias, artigos e ensaios em diversas antologias e revistas literárias brasileiras.

Contatos: moemavilela@gmail.commoema.pereira@pucrs.br

Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem dezesseis livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália); Prêmio Vânia Souto Carvalho (2012) da Academia Pernambucana de Letras (PE) por Como se Ícaro falasse, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE), doutora em Escrita Criativa (PUCRS), organizadora e ministrante dos Estudos em Escrita Criativa (2016 a 2019.1). Uma das idealizadoras e coordenadoras do curso de Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS, e ministrante, em março de 2020 (juntamente com a Profa. Moema Vilela Pereira), da disciplina Empreendedorismo Literário.

Contatos: patriciatenorio@uol.com.brwww.patriciatenorio.com.br

Pílulas para o Silêncio Parte CLVI* | Clauder Arcanjo**

O retrato na parede não lembra as mulheres de Licânia. Não sei o motivo; suspeito que, para mim (ser-criança), as verdadeiras damas devem ter a tez de minha mãe.

Se Freud explica?! Pode ser, este austríaco foi um grande filho de uma mãe.

 

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Nos olhos, a nódoa de uma tristeza antiga. Daquela de tingir o olhar de um cinza tão indescritível que a cabeça queda, (res)sentida com tanta desventura.

 

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— Alto lá! — Anunciou-lhe o anjo.

— Arcanjo Gabriel, eu preciso entrar. Subi aos céus, na esperança de entrar e aqui ficar. Sofri muito na Terra, renunciando às ditas “tentações”. Nem sei como consegui. Nos últimos dias, ó Senhor!, estava quase caindo em tenta… — argumentou o cristão, os olhos rubros de desespero e fúria.

— Serenai! O mundo de Jeová está próximo… Calma! Pelo amor do Pai!… — Alegou o guardião das hostes celestiais, enquanto tentava identificar, no Livro de Deus, o destino daquela alma.

— Eu quero entrar. E vou fazer isto agora. Dá-me o que é meu, e lá vou eu! Saia do meio. Ora bolas! Se não… a minha vida não valeu a pena. E chega de intermediário! Faça-me o favor de convocar: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Fui claro? — Ordenou, enquanto o firmamento, entre aleluias, parava no Tempo.

 

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Quando punimos o próprio filho, por mais terrível que seja a sua falta, o penitenciado somos nós.

 

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Alegria é difícil. Felicidade, raridade. Vida feliz, quimera inalcançável.

 

Só os tristes sobrevivem aos desaforos do mundo. Salve, então, Sra. Melancolia!

 

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* Publicado n’O mossoroense em 09/02/2020 no http://www.omossoroense.com.br/clauder-arcanjo-pilulas-para-o-silencio-parte-clvi/

** Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras. Contato: clauderarcanjo@gmail.com

Mobilidade [inter]urbana-performativa* | Elilson**

“Vestindo camisa polo cinza e calça jeans, iniciei a ação na Rua Buenos Aires, uma das principais vias de passagem e acesso para o mercado da Saara. Alguns passos e alcancei com os olhos uma mão esticada para fora de um prédio. Pedi o panfleto, explicando a proposta. Antes de escolher o ponto do meu corpo, Verônica compartilhou: ‘Eu tô daqui de dentro colocando só a mão pra rua, pois panfletar no Rio de Janeiro é ilegal, você sabia? Se eu der um passo pra calçada, o guarda já pode me multar. Aqui eu tô assegurada na legalidade, trabalho pra essa clínica odontológica há muitos anos’. Me contou quanto recebia e frisou que tem todos os seus direitos assinados. Mas é comum os panfleteiros serem legalizados? ‘Ih, nada! Arrisco que serei a única.’ Destaquei o alfinete e ela decidiu: ‘Já que sou a primeira, vou centralizar meu anúncio bem aqui, no teu coração, pra dar boa sorte nos caminhos’.” (p. 50)

 

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* Trecho extraído de Mobilidade [inter]urbana-performativa. Elilson. Projeto apoiado pelo programa Rumos Itaú Cultural 2017-2018. Rio de Janeiro, 2019.

** Elilson (Recife, 1991) é mestre em Artes da Cena – performance (UFRJ) e graduado em Letras (UFPE). Trabalha principalmente com performance, escrita e instalação. Tem participado de festivais e exposições em cidades como Assunção, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. Em 2017, publicou “Por uma mobilidade performativa” (Editora Temporária). Em 2018, foi contemplado com o Rumos Itaú Cultural e com o Prêmio EDP nas Artes do Instituto Tomie Ohtake, realizando por meio deste, uma residência no ateliê R.A.R.O (Buenos Aires). www.elilson.com

 

XXXV Encontro Nacional da Anpoll | Enviado por Frederico Fernandes

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Amoras* | Natalia Borges Polesso**

Flor, flores, ferro retorcido

 

Os cabelos crespos lhe escorriam como rios rebeldes pelos ombros. Talvez fosse o fato de estar sempre de chapéu e alpagartas que lembrasse um pouco o Renato Borghetti, o cara da gaita. Toda vez que penso naquele tempo e lugar e tento me lembrar do rosto das pessoas e talvez da voz, o que me vem de mais marcante é a imagem dela.

Em 1988, mas, pensando agora, parecia tudo muito mais antigo. Na frente da minha casa ficava o mercado do seu Kuntz, uma peça de chão batido com paredes sem reboco. Era ali que eu passava as tardes com a Celoí, filha do seu Kuntz. A mãe da Celoí tinha morrido de parto, o que os tornava, o seu Kuntz e a Celoí, uma dupla muito séria. Eu gostava de ir lá porque era exatamente na frente da minha casa e porque ela tinha o último álbum da Xuxa, aquele com Ilariê, Abecedário e Arco-íris, e a gente ficava dançando na frente da vendinha até mais ou menos as seis e trinta, porque sabíamos que às sete horas o transformador da rua explodia. Sim, era sempre às sete horas da noite. O transformador, acho, não aguentava tanta gente assistindo novela, tomando banho, ligando rádio, usando o liquidificador, quem sabe, e começava a fazer barulhos e soltar faíscas, até que bum! Todos ficavam sem luz por algumas horas, como se estivéssemos em uma remota aldeia amazônica. A rua não tinha calçadas feitas, os paralelepípedos eram completamente irregulares, o que arrancava muitas unhas de nós, crianças, que estávamos aprendendo a jogar bola, andar de bicicleta ou simplesmente dançar a música mais tocada do momento. Nada mal para aquele bairro pobre na divisa entre Campo Bom e Novo Hamburgo.

Minha casa ficava entre duas oficinas: a da família Klein, todos loiros de olhos perturbadoramente azuis, pai, mãe e filhinha pequena, não lembro o nome deles; e a da figura mais marcante da minha infância, cujo rosto eu vi uma única vez e nunca mais me esqueci. As duas oficinas tinham clientela boa, mas havia uma tensão entre os terrenos, tensão que atravessava as paredes da minha casa por ambos os lados.

Meus pais eram amigos da família Klein e, com frequência, almoçávamos juntos nos fins de semana. Meu irmão e eu brincávamos com a menina deles. Acho que ela tinha a idade do meu irmão, mas está tudo impreciso. O fato que mais se enraizou na minha memória desses almoços foi um dia em que ouvi a seguinte frase: como pode uma machorra daquelas? E eu, curiosa que era, rapidamente perguntei o que era uma machorra. Silêncio completo, minha mãe começou a rir de um jeito esquisito, era embaraço. Os homens coçaram a cabeça e se enfiaram rápidos dentro dos copos de cerveja que bebiam. A mãe da família Klein estava tão estarrecida que aquela palavra tivesse ido parar na minha boca que começou a rir também. Minha mãe tentou remediar. Cachorra, minha filha, cachorra. Mas eu tinha certeza que tinha ouvido machorra e insisti. Eles mudaram de assinto e me ignoraram. O que eles não estavam esperando era que eu ficasse de orelhas em pé, ligada em tudo o que falavam, e, quando voltaram ao assunto, eu preferi ficar quieta ouvindo, fingi interesse em uma boneca, mas minha atenção estava completamente direcionada a eles. Então eu entendi que falavam da vizinha da oficina. Ela era uma machorra.

No outro dia, fiquei plantada no muro para ver se a encontrava e, quando ouvi as alpagartas arrastadas se aproximando, me estiquei mais ainda por cima da cerca. E caí. Ela veio correndo me socorrer e me lembro de uma voz de fada me perguntando se eu estava bem, se tinha me machucado. Minha mãe saiu correndo de casa, me ergueu pelos pulsos e me puxou de volta para o pátio. Ouvi um obrigada por parte da minha mãe, um de nada por parte da vizinha, seguido de um ronco de cuia. Olhei para a minha mãe e perguntei por que ela era machorra. O ronco da cuia parou. Minha mãe enrubesceu e, enquanto me arrastava para dentro de casa, perguntou onde é que eu estava ouvindo uma coisa daquelas. Eu respondi que tinha sido no almoço do dia anterior. As alpagartas estalaram na terra dura em direção ao galpão da mecânica. Minha mãe se escorou na pia com as duas mãos no rosto e suspirou de um jeito muito preocupado. Eu fiquei em pé, limpando a terra dos meus cotovelos e verificando se estava tudo certo comigo, afinal, eu tinha caído por cima de uma cerca; estranhamente, minha mãe não estava preocupada com isso. Minha filha, você não pode dizer essas coisas para as pessoas. Eu perguntei de que coisas e de que pessoas ela estava falando, porque honestamente não me lembrava, e a resposta veio na forma de um tabefe no ombro. Não doeu, mas eu fiquei muito magoada e fui para o quarto chorar. Entre um soluço e outro, eu ficava tentando entender o que era uma machorra e por que aquilo tinha ofendido a vizinha e preocupado a minha mãe. Cheguei à conclusão de que deveria perguntar mais uma vez.

É uma doença, minha filha. A vizinha é doente. Voltei para o quarto quase satisfeita. Se era doença, por que não tinham me dito logo? Fiquei pensando se era contagiosa, mas concluí que não era, porque a mecânica estava sempre cheia. Voltei para a cozinha. Doença de que, mãe? Minha mãe mais uma vez colocou a mão no rosto e respirou fundo. De ferro retorcido que tem lá naquele galpão. Eu não sabia que se podia pegar doenças de ferro retorcido, mas me dei por satisfeita quando no outro dia a professora explicou sobre o tétano.

Na manhã seguinte, eu fiz o que qualquer pessoa faria por um doente, ou o que eu entendia, na minha cabeça de criança, que qualquer pessoa faria: levei flores. Eu tinha visto na tevê. Peguei as flores que cresciam atrás da minha casa, flor de mato mesmo, umas amarelinhas e um punhado de margaridas. Fui até a mecânica bem cedo sem que ninguém me visse e deixei as flores na porta dela, dentro de um copo d’água. Deixei também um bilhete desejando melhoras e pedindo que, por favor, colocasse as flores num vaso e devolvesse o copo, porque minha mãe poderia dar falta. Ao meio-dia, quando eu voltava da escola, vi que as flores não estavam mais lá e sorri contente, porque ela as tinha recolhido. Entrei em casa feliz e saltitante, mas minha alegria foi quebrada em pedacinhos quando vi a cara da minha mãe, com o copo na mão, perguntando o que eu tinha na cabeça. Eu expliquei para minha mãe que, se a vizinha estava mesmo com machorra, seja lá que doença fosse aquela, alguém precisava ir lá e desejar boas melhoras. E foi o que eu fiz. Minha mãe me abraçou bem forte e disse que eu era uma ótima menina e que por isso eu não devia brincar perto da oficina. Eu perguntei de qual e ela disse que era a da vizinha. Então eu perguntei se eu podia brincar perto da oficina do senhor Klein e ela disse que sim. Eu saí para falar com a Celoí, porque não me interessava brincar em oficina nenhuma.

A Celoí colocou o disco da Xuxa e nós ficamos dançando entre os sacos de feijão e a pilha de cera vermelha para piso. Lembrei, naquela hora, que minha mãe sempre comprava aquela cera e eu não entendia porque nosso chão não era vermelho, mas, quando eu fui perguntar para a Celoí sobre a cera, a vizinha entrou. Eu parei de dançar e fiquei petrificada. Meu primeiro pensamento foi de que uma doente não deveria sair de casa, então, perguntei: a senhora está melhor? Ela virou para mim com os cabelos molhados em cima do rosto e, com uma boca bem rosada e uns olhos carinhosos cor de mel, me disse que nunca esteve tão bem. Agradeceu as flores e se ajoelhou para me dar um beijo. Nessa hora, minha mãe apareceu e me puxou pelos cabelos. Ouvi o pai da Celoí dizendo não se preocupe, Flor.

Flor, o nome dela era Flor. E ela parecia uma flor mesmo. Na verdade, o nome dela era Florinda. Eu perguntei para a Celoí no dia seguinte e comentei sobre a história da doença. A Celoí revirou os olhos como quem chama alguém de ignorante, não disse nada, me pegou pela mão e me levou até o quarto dela, pegou um ursinho peposo e duas barbies. Muito bem, não eram duas barbies, eram imitações, mas davam para o gasto e serviram muito bem para o que ela me explicou. Eu tinha oito anos, a Celoí tinha onze ou doze. Ela pegou uma boneca e o ursinho e começou a explicação. Esse é o homem e essa é a mulher, quando os dois se amam, vão para o quarto e ficam assim – e colocou um em cima do outro –, teu pai e tua mãe fazem isso e é por isso que tu existe e teu irmão também. Eu sacudi a cabeça e tentei acompanhar o raciocínio. Depois ela pegou as duas bonecas, fez a mesma coisa e disse que tinha gente que fazia daquele jeito. Isso é machorra, mas é feio falar disso, meu pai disse.

O seu Kuntz era um homem bem quieto, mas sabia dar atenção às pessoas. Ele e a Flor eram amigos, seguido eu via os dois tomando chimarrão no pátio dela ou na frente da vendinha. Até pensei que eles fossem namorados e perguntei para a Celoí. Ela me deu um sopapo e irritada quis saber se eu não tinha aprendido nada com a explicação das bonecas. O fato era que bonecas eram bonecas, ursos eram ursos e machorras eram machorras. A Celoí tentou de novo: vamos ver, por exemplo, tu gosta mais de boneca ou de carrinho? Depende qual boneca e qual carrinho. A Celoí revirou os olhos daquele jeito. Prefere dançar Xuxa ou brincar de pegar? Eu não sabia responder, porque tudo dependia e eu não estava entendendo aonde ela queria chegar. Tá bem, gosta de rosa ou azul? Gosto de verde. Meu deus, essa é sua última chance, gosta mais de mim ou do Claudinho? O Claudinho era um guri da rua que a Celoí achava lindo. De ti, é claro, eu respondi. Então tu é machorra, ela falou sem paciência.

Voltei para casa cabisbaixa naquele dia e, ao atravessar a rua, dei de cara com a Flor, escorada entre o meu portão e o contador de luz. Pequena, por que está com essa carinha triste? Porque a Celoí acha que eu estou doente também, que eu tenho o mesmo que a senhora. Arrastei os tênis no cascalho. Ela se agachou e colocou a mão na minha testa, como se para conferir alguma febre. Bobagem, tu tá ótima. Não há nada de errado contigo. Eu ergui os olhos para ver se ela tinha uma cara honesta. Ela tirou os cabelos da frente do rosto e o transformador explodiu. As faíscas que caíam iluminaram os olhos dela e, naquele momento, ela era a flor mais bonita que eu já tinha visto.

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* Conto extraído de Amora. Natália Borges Polesso. Porto Alegre: Não Editora, 2015, p. 56 a 63, e lido em 08/02/2020 durante a disciplina Oficina de Narrativa II – O romance e a novela da Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa ministrada pela autora.

** Natalia Borges Polesso (Bento Gonçalves, 6 de agosto de 1981) é uma escritora, pesquisadora e tradutora brasileira. Atualmente é pesquisadora de pós-doutorado com bolsa CAPES (PNPD), na Universidade de Caxias do Sul. É doutora em Teoria da Literatura pela PUCRS (2017). Concluiu o mestrado em letras pela Universidade de Caxias do Sul com uma dissertação sobre a obra de Tânia Faillace. Seu primeiro livro, Recortes para álbum de fotografia sem gente, venceu o Prêmio Açorianos de 2013 na categoria contos. Ganhou o Prêmio Jabuti de 2016 com o livro de contos Amora. Em 2017, foi incluída na lista Bogotá39, que reúne os 39 escritores mais destacados da América Latina. Em 2019, lançou seu primeiro romance, Controle. A autora tem seu trabalho traduzido para o inglês e o espanhol e sua obra está publicada em diversos países.