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Índex* – Janeiro, 2020

Você

Que me deu a mão

Um dia

Que sorriu

Quando eu estava

Triste

Que deslizou as mãos

Nos meus cabelos

E disse que eu serei

Feliz

 

Você

Que acordou

Sem esperança

Voltou a ser criança

Pedindo colo

De mãe

 

Estou aqui

E agradeço

A honra de

Haver lhe conhecido

Ter compartilhado

Um pouquinho

Da sua essência

Linda

Leve

Livre

 

E ter lhe feito

Um pouquinho

Feliz

(“Você”, Patricia Gonçalves Tenório, 11/01/2020, 08h02)

 

Surpresas boas e esperança no Índex de Janeiro, 2020 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Cinco Livros | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

[Espaço] jornalista Martins de Vasconcelos | Organizadores Clauder Arcanjo, David Leite, Johann Freire (RN – Brasil) | Enviado por Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

Na próxima postagem, em 16 de Fevereiro, 2020, teremos uma surpresa que, tenho certeza, vocês gostarão muito.

Abraços cheios de Luz e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* – January, 2020

You

Who gave me the hand

One day

Who smiled

When I was

Sad

Who slid your hands

In my hair

And said I will be

Happy

 

You

Who woke up

Hopeless

Who became a child again

Asking lap

From mother

 

I’m here

And thank you

The honor of

Have known you

Have shared

A little bit

Of your essence

Beautiful

Light

Free

 

And have made you

A little bit

Happy

(“You”, Patricia Gonçalves Tenório, 01/11/2020, 08h02 a.m.)

 

Good surprises and hope in the January Index, 2020 from Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Five Books | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

[Space] journalist Martins de Vasconcelos | Organizers Clauder Arcanjo, David Leite, Johann Freire (RN – Brasil) | Sent by Rizolete Fernandes (RN – Brasil).

In the next post, on February 16, 2020, we will have a surprise that, I am sure, you will like very much.

Hugs full of Light and see you soon,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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**

 

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Uma surpresa boa que vem… A good surprise that comes…

Cinco Livros | Patricia Gonçalves Tenório*

Em 2019, lancei a coleção Cinco Livros em homenagem aos meus cinquenta anos de existência e quinze de escrita.

Em 2020, apresento alguns trechos dos Cinco Livros que, em breve, estarão nas quinze Livrarias Cultura do Brasil inteiro.

Ofereço com muito carinho a minha coleção de aniversário: boa leitura!

Abraço grande,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Capa 7 por 11

7 por 11:

 

As joaninhas não mentem (2006):

 

“A Torre… Para lá se dirigia Ariana. Colocou o elmo na cabeça, apertado era o elmo. Jeito de camponesa permitindo dores, respirou fundo, conseguiu encaixar sobre os cabelos longos, cor de sol, peleterra. Nos olhos castanhos, mar de sonhos brilhava na direção da Torre. Ariana não vendo a torre segurava firme as rédeas do cavalo Branco apertando com as pernas longas. Longos seriam os caminhos, tortuosos seriam os caminhos, perigosos seriam os caminhos. Mas ela prometeu. A si e à Irmã Clara. Lá estaria o que sempre sonhou. E por que temia? Por que tremia?” (p. 14)

 

Grãos (2007):

 

“Intervalo”:

 

“Tremi. Meus dedos finos quase o encontravam, tocava a mão que me oferecia, deixava-se seduzir. Ele continuando, talvez soubesse da minha desistência, de que estava pronta para entrar nas águas e me afogar, deixar o sal embeber meu corpo até ficar inchada, os lábios ressecariam se cobrindo com algas, os caranguejos carregando meus restos mortais para bem longe, além da curva  da praia, outros mares, minha consolação.

Um pouco  de  mim sendo repartido com outros, eu me daria enfim, não seria mais minha, inteira e unicamente minha, a outros pertencendo até virar pó.

O vento faria a parte dele, me traria de volta a Mateus, sujaria de novo seus pés, entranharia em suas roupas. Moraria na caixa de madeira.” (pp. 76-77)

 

“Reverência”:

 

“Hoje na escola me perguntaram qual a história mais rápida que vivi. Bah, eu me acho um bom contador de histórias. Não é à toa que os guris do mirante no bairro de Santa Tereza me chamam quando os gringos vão ver a vista da cidade.

[…]

O passarinho voou bem perto, logo quando estava na Praça da Matriz com o estilingue de lado; preparei a pedra, a pontaria certeira – o poeta me puxou a camisa, balançou a cabeça e disse pra eu passar mais tarde n’A rua dos Cataventos. Eu que não me meto com poesia; deixa pra lá, só sei contar histórias. E a mais curta? O sino da Igreja de Nossa Senhora das Dores vai tocar daqui um pouquinho; correndo chego a tempo de ficar embaixo, de costas, o tilintar no pé da barriga. Feito quando ficava boiando e boiando no rio Guaíba, a Rua da Praia ainda nem existia, a gente pulava e o sol esquentando rosto, os pés e as mãos, a água entrando pelos ouvidos e se guardando no coração.” (p. 91)

 

“O Tempo”:

 

“A grande verdade descortina em azul

E a cor dos teus olhos esvaece

No horizonte perdido dos meus dias

Sozinhos.

Na áurea da juventude esquecida

Nos poucos rubros que escondo

No rosto exposto que vejo

Na flor que murcha e se esquece.

E tudo o que fui me aparece

A tela pintada se agita

Vendo a distância construída

Na efêmera fumaça perdida.” (p. 100)

 

“Fotografia”:

 

“Fotografia se perdendo

Nos caminhos vivos, verdes

Linhas procuram contorno de um rosto

Amarele-sendo, amarele-sendo

Descobre que não mais se sabe.” (p. 102)

 

“Nome”:

 

“Eu queria prender teu nome

E guardar na profundidade de mim

Onde possa procurar teu sentido e descobrir

Porque não sais dos meus pensamentos

Encontrando um lugar tranquilo

Para ali deixar anônimo

Eu pergunto e não respondes

Porque tu sabes, oh, meu querido

Tu sabes que não existe a verdade.” (p. 118)

 

A mulher pela metade (2009):

 

“Luto por um retorno à natureza. Ao despir-me de vaidades, orgulhos, bens desnecessários à real sobrevivência humana. Por que não nos juntamos, eu, você, e quem mais conseguirmos convidar numa aldeia indígena em uma das poucas praias de mata virgem do litoral brasileiro, antes que o sonho se realize? O sonho que se transforma em realidade. O sonho que sonhei de Séphora, o sonho em que ela é a emissária do poder divino, eu sou um simples captador de imagens, interpreto-as cada vez mais próximo da verdade, e a verdade me transformará.” (p. 138)

 

[…]

 

“Te aceito

Te escolho

Jogo os dados

Entre a parede e o chão de mármore

Eles vêm plenos de apostas

Às respostas

Que por ti fiz um dia

 

Abro a janela do quarto

É azul

É sol que brilha

Incendeia esta matéria efêmera

Que se chama corpo

Que já foi tua

Ainda é tua

 

Lembro a primeira vez

Aquieto o coração

Brinco de esconde-esconde

Entre um pulsar e outro

Tu estás lá

Tu me sondas

 

Encho os pulmões com

A tua presença

Implodo na natureza

Dos teus sentidos

Sou a parte que me destes

Nesta caminhada terrena

Que volta

Retrocede

Até o grão de mostarda” (p. 158)

 

 

D’Agostinho (2010):

 

“Pastor de estrelas”:

 

“Quando envelhecer

Despirei dos olhos sonhos novos

Vestirei luvas de aço nas mãos dadas

Cobrirei as rugas de insensatez

 

Fincarei os pés no chão

Não alcançarei estrelas

Nem asas de gaivotas

 

Então

O verão me vestirá

Com os últimos raios de sol” (p. 173)

 

“O Tejo-Poderoso”:

 

“No rio Tejo

Corto caminho

A um lugar seguro

Agarro as margens

Como se fosse isca de anzol

Como se fosse peixe de pescar

Como se fosse haste de bambu

 

Carrego nos ombros

O mundo inteiro

Como se fosse Deus Todo-Poderoso

Como se fosse bicho que não teme

Como se fosse homem que não sofre

 

Volto às margens

Como se nunca tivesse nascido

Como se sempre soubesse quem sou

Como se não houvesse a morte” (p. 189)

 

“D´Agostinho”:

 

“Os lábios sussurram beijos

De um beija-flor

Assustado com os próprios olhos

Nas pétalas do girassol

Girou em si

E não percebeu

O pôr do sol longínquo e reticente

 

Às margens de mim

Persigo a imagem

Do que fui um dia

Para beber a sabedoria

Na audácia de uma criança

 

Cubro-me em púrpura –

Desvendar olhos alheios

E fazê-los enxergar o que em parte sinto

Mas bato o pó das sandálias

E caminho até a eternidade” (p. 202)

 

“La isola”:

 

“Daquela matéria fui feita

Daquela matéria amada

Nem por mim

Nem por ninguém

De um nada

Me encontro

E pronto

Eu me vejo só

 

Sobre os rochedos

Nas cachoeiras

Abrindo passagens

Entre as sereias

Visgo cantante

Cor de arco-íris

Que no céu acaba

Não me deixa

Potes

Toques de Midas

Apenas entardecer

E incerteza

 

Finco o pé

No âmago

No abismo

No nada

Em que me encontro

E pronto

 

Eu me vejo só” (p. 218)

 

“Leitura”:

 

“Cartas eu fiz

Para te mostrar um dia

Uma palavra

Desfiará centenas

Milhares

De explicações

 

Certas

Erradas

Pedaços de mim que sondas

Perplexa

De imaginar que um dia

Passei por caminhos

Estreitos

Confusos

Concisos de dor

De agonia

 

Cavei nas palavras

Cores

Flores

Para te dar um dia

Elas murcharam

Ao meu toque

Reflorescem

No roçar dos teus olhos” (p. 232)

 

Diálogos (2010):

 

“Escadaria”*:

 

“Procurei um lugar tranquilo para me sentar na livraria. A seção de romances era a mais populosa, os best-sellers, os jornais literários com os autores célebres que apareciam na TV nos programas de variedades, participando de entrevistas ridículas e sem nenhuma razão de ser.

A seção de poesia era a mais vazia, em ressonância com a necessidade do silêncio quando queremos experimentar o sentimento de solidão do poeta. Eu caminhava entre Rimbaud, Mallarmé, Fernando Pessoa, Drummond e eles me trouxeram tanta melancolia que eu não pude mais suportar.

O envelope fechado. Eu abria minha bolsa com cuidado me perguntando: É a vida? É a morte? Olhava a seção de livros para crianças, ninguém estava lá, milagrosamente não estava lá. Um domingo, de tarde, e as crianças não haviam chegado. Por quê? Talvez um sinal, a resposta para a minha pergunta, o resultado, positivo, negativo que carregava nas mãos?

Quando percebi, estava no meio da escada coberta com pequenos vasos de flores que vira antes em algum livro de J. M. Simmel durante minha adolescência. Como se chamava? Ah, “Não Matem as Flores”.” (p. 256)

* Na escadaria da Livraria Cultura – Recife – Pernambuco.

 

“O retorno das lentes cor-de-rosa”*:

 

“Por mim – aquela que se esconde assustada por trás do rosto – voltava ao colo materno, ficava olhando o móbile sob o mosquiteiro.

Faltam-me as letras, fartam os livros, pesam-me os sonhos – onde estão eles? Segui pela estrada reta, corri, corri para espantar as lágrimas, secar os risos, e de nada adiantou tantas árvores, tantos ramos, poucas rosas, muito espinho.

Naquela esquina, num outro canto, aquietarei a alma? Sorverei delícias? Sobe, sobe, passarinho verde, sai das grades onde te puseste. Quem sabe encontres a menina de tranças e lentes cor-de-rosa, doce e amargo a escorrer pela face, para um dia, talvez, subir o monte e admirar a planície.” (p. 260)

* Relendo “Lentes cor-de-rosa”, meu primeiro texto publicado em 2004.

 

“Em busca do gato de Schrödinger”:

 

“Hoje não fui à missa, não rezei rosários, nem picotei jornais velhos: propus a mim encontrar o gato de Schrödinger.

Uma amiga tentou uma vez e ficou com as mãos tortas de tanto apalpar o dia inteiro para ver se o gato estava no umbigo ou debaixo do travesseiro. Acho que ela não procurou direito, porque às vezes vejo rabos de gatos e camundongos com suas patinhas fugindo pela fresta da janela em noites de lua cheia.

Pode ser que os lobos não uivem mais depois que eu encontrá-lo. Mas para que me servem nuvens escuras escondendo luas e o sangue escorrendo no pescoço se não sinto mais o palpitar nas próprias veias?

O gato saberá, decerto. E se não responder, corto seus bigodes longos e os faço de espanador de estrelas para que elas realizem logo os meus desejos. Casar, ter filhos, morar numa casinha de campo? Quem saberá o que se esconde sob os meus sonhos? Vai ver o gato me perguntando o que não respondo pode atravessar o espelho que me impõe e fazer companhia. Poderá deitar-me nua sobre a relva e arranhar-me as costas? Lamber o pescoço? Provocar arrepios?

Esse gato, assim manhoso, se enrolará entre as minhas pernas e fará moradia. E nem que a lua saia detrás das nuvens escuras, o sangue estanque, os lobos uivem, arrancarei minhas raízes da sua terra úmida – me farei novelo de lã vermelha para que ele me desfie.” (p. 266)

* Diante do texto Gato de Schrödinger, de Anderson Fonseca.

 

“Oráculo”*:

 

“Levaria uma hora de carro entre Belo Horizonte e Sete Lagoas. Cíntia uma vez foi de ônibus, precisava misturar-se com o suor de um dia de trabalho, o aroma das frutas e verduras nas sacolas de feira, a tontura das curvas fechadas; no volante o motorista jovem.

– Adélcio.

Perguntei várias vezes enquanto caminhávamos até o estacionamento do aeroporto. Lembrei uma maneira de se gravar um nome.

– Quantos minutos para chegar a Sete Lagoas, seu Adélcio?

– Está muito frio estes dias, seu Adélcio?

– O senhor pode desligar o rádio, seu Adélcio?”

[…]

“Fotos, fotos, fotos. E não dá para captar o meu sentimento de sertão.

– Não vai dar dez minutos e o São Francisco chega.

O mar doce. Pedi, em nome do Pai, que Ele me batizasse novamente: não acredito que tenho as coisas que desejo, mas tenho o meu desejo nas coisas. Sorri com o frio da água na nuca, os pés descalços, as calças jeans suspendidas até os joelhos. De joelhos me refiz e o homem novo levantou-se das pedras e sobre as pedras edificou o seu caminho. E se Manuelzão não quisesse me receber em Andréquicé? Um novo João a ele perguntava, para entre a barba longa suspirar-lhe algum segredo? Quicé de André, quiçá de Maria. Quem sabe do João que sabia que ele não sabia?” (p. 261 e 264)

* Percorrendo o Circuito Guimarães Rosa – Minas Gerais.

 

“O domador de bolas de sabão”:

 

“Tu me plocs me pla, eu me plocs me plon. E ploc lá, ploc qui, não ploca plocon. No placa plo, no placa pli, plaquê, plaqui, não plaploquê.

No se plaque a plocon de plocagem de um ploc plocante, não se ploquê pla.

Placa ploc pla, plisser plum plonger plinecante.

Plic, ploc e plonc.” (p. 273)

* Em Paris, no pátio do Museu Georges Pompidou, assistindo a uma apresentação de O domador de bolas de sabão.

 

Vinte e um (2016):

 

“Alice no espelho”:

 

“Alice ainda não havia se visto no espelho. Sentada, as duas perninhas dobradas, os bracinhos estendidos até as mãos tocarem as mãos.

Mas que surpresa o gelado do espelho! O gelado das minhas mãos!

Me levantei devagar, do tamanho das pernas, meio tonta, caminhei de lá para cá. A outra Alice parecia se divertir com o passeio, pois sorria, como se fosse me contar algum segredo.

De repente, papai chegou: a porta era por onde papai chegava e mamãe saía, aprendi. Mas babá não me deixava chegar perto da porta para não me machucar.” (p. 284)

 

“Clube de Suicidas”:

 

“No princípio era para ser um clube de suicidas. Chegava-se, cadastrava-se, pulava do décimo terceiro andar, no décimo terceiro prédio, da avenida Treze de Maio.

Ou nos degraus da escadaria do Cristo Redentor, na frente dos trilhos, o bondinho da floresta da Tijuca, Santa Teresa, no Palácio do Catete, onde Getúlio se matou.

Mas se José chegasse, se cadastrasse e pulasse, tudo assim continuaria, tudo assim permaneceria um eterno se matar. Porque José chegou com sonhos, desses que não se vendem, se dão. Desses que não se têm, se imaginam. E alguns dos suicidas, em vez de se jogar, iam lá, bem de mansinho, ouvir os sonhos de José, os sonhos que ele não sabia escrever, só falar; não sabia o porquê, só o lembrar.” (p. 293)

 

“O dia da minha vida”*:

Dia de minha vida!

Rumo à noite, lá vai!

Há ardor em teu olho

semividrado,

goteja lágrimas teu orvalho,

desliza quieta sobre mares brancos

a púrpura de teu amor,

tua última, tímida bem-aventurança.

Ditirambos de Dionísio, Friedrich Nietzsche

1.

“Provavelmente, eram elefantes no meio da sala.

Seus pesos e suas medidas estreitavam a mesa até o chão, desfazendo a madeira em fibras corrediças, moendo, moendo, virando bagaço.

Das janelas de açúcar se via a mãe com o pote de água na cabeça. A mãe, no alto do monte, a chamar a menina. A mãe com as nuvenzinhas de algodão percorrendo riachos e cachoeiras quando riscavam o céu em relâmpagos e trovões.

Por entre o canavial o tatupeba se escondia das formigas tanajura de tão grandes ancas, por medo de se engasgar.

Paredes de portões altos não impediam o rasgar do sol ao meio-dia nem a freira moça que se escondera do príncipe encantado.

O príncipe caiu do cavalo, e não me pergunte por que eu não estava lá para reerguê-lo, eu que sempre adivinho a queda antes do recomeço.

E nas pernas expus meus músculos que os elefantes cismavam esmagar, transformando a madeira em pó moído, o bagaço, em cristal, doce mel dos usineiros.” (p. 295)

* Diante de telas do pintor pernambucano Lula Cardoso Ayres (1910-1987).

 

“O Grito”:

No começo foi o grito.

Anésia Pacheco e Chaves

Acendo o abajur e a lâmpada queimada não ajuda a chegar ao banheiro, lavar o rosto, olhar no espelho quebrado.

Me olhar no espelho quebrado.

Crescem rugas no meu rosto estranho. Não pertenço a este lugar? Desde ontem vejo coisas, sinto coisas e não sei o que dizer.

– Aceita este homem…

Bebo um café bem forte. Tão forte o café que a garganta arrepia as amídalas, desperta as papilas.

– … na saúde e na doença…

Tomo um banho demorado. Faço espuma com o sabão, ensaboo o corpo inteiro à procura de mim mesma.

– … respeitando-se…

Que sorte ser feriado! Não preciso levar as crianças ao colégio, a roupa na lavanderia, o cachorro para passear…

– … como seu futuro ex-marido?” (p. 301)

 

“Eu, comigo e Deus”:

 

“Ficava em 20, Maresfield Gardens, num subúrbio de Londres. Vindo de metrô, descia na estação de Hampstead Northern, atravessava a rua e subia uma ladeira. Eu me perdi duas vezes até encontrar a placa da casa-museu, uma casa de dois andares, tipicamente inglesa. A rua estava calma, com as folhas das árvores levitando pelo chão.

Ao entrar, encontrei uma senhora, bem velhinha, que vendia os bilhetes e souvenirs. Ela me disse que não podia fotografar, mas me chamou a um canto da loja e perguntou:

– Quer ver onde Freud encontrou Deus?

Parei um instante com a pergunta. Poderia ficar séculos remoendo em minha mente uma resposta digna de meus estudos, digna da lucidez, digna de…

– Não acredito em Deus. Ela me olhou de mansinho. Passou a mão enrugada no meu rosto jovem. Puxou-me pelo braço.

– Venha mesmo assim.

Eu não sabia se ia ou corria embora. Mas resolvi arriscar e caminhar pelo pequeno jardim; sentei-me em uma das espreguiçadeiras, onde um dia sentou Freud com o suposto visitante.

– Foi aqui. Ela me deixou a sós. A sós com meus pensamentos. A sós com a possibilidade de ser Freud algum dia, um dia de verão londrino, sentando a uma espreguiçadeira, com uma jarra de limonada rósea na mesa ao lado.

– Deus está aqui.” (p. 305)

 

“Vinte e um”:

Ele perguntou o que era terça;

ela, perigosamente, não respondeu.

 

“O que não se sabe sobre os terroristas é que eles levam uma vida perfeitamente normal. Apaixonam-se, desiludem-se, iludem-se com as promessas de vida eterna e dezenas de virgens flutuantes.

Oham sabia das virgens, cria nas virgens como ao próprio corpo armado, coberto com a túnica preta e o turbante branco. O que Oham não sabia era que uma das virgens atravessava o seu espaço no exato instante em que iria disparar as bombas.

– O senhor sabe quando é terça?

Ela lhe perguntou. Com tantos ao redor. Com olhos de pantera, ela perguntou. Será que sabia? Será que lhe adivinhou?

Yasmine era filha única, neta única de marajá. Ela poderia estar em casa, com as tantas amas, os muitos escravos, a pensar em nada, a não pensar. Mas para que deixar de viver a vida, experimentar a vida no seu sabor, nos aromas, no calor do mercado, o colorido das especiarias, que sabor tem o açafrão para Yasmine?

– O que tem na terça-feira?

O rapaz lhe perguntou. O rapaz de olhos vivos, mais vivos do que os seus, mais vida nos lábios grossos e os dentes de marfim, o turbante branco emoldurando o rosto, a túnica preta cobrindo o corpo alto, esguio.

Ele não desconfiou que o perigo ali se achava. Naqueles dedos finos. Naquele véu de púrpura. Os olhos de pantera adentravam os olhos seus, sondavam a alma por mistérios, e ali, no centro, no âmago do espaço seu, Yasmine o desvendou, Yasmine lhe sentiu a cintura, sentiu as bombas, o disparador.

– O que tem na terça-feira?” (p. 323)

 

A menina do olho verde (2016):

 

“A cidade universitária”

 

“Foram derrubados os muros da cidade, o Muro Alto não existia mais. Plantaram jardins conjuntos, escreveram livros para uns aos outros ler. Era bom aquele começo, com a esperança no coração.” (p. 351)

[…]

“Que sabor tem um Beijo? Para ele? Para ela? Tem o gosto de encontro, encontro assim meio de lado, a cabeça de Manoela deitada de lado para receber o Beijo de Pedro. Era feito um aconchego aquela cabeça deitada no ombro de seu amado. O Beijo assim torto parecia. Mas não era torto, era místico, e ali se fazia um santuário.

Naquele instante celestial, um Raio de Sol tocou a Cabeça de Manoela. A Cabeça da menina permanecendo deitada, pendendo assim para o lado, era mais fácil o Raio de Sol a tocar e se inserir no pensamento. Houve então uma Epifania. Todos os momentos vividos, o antes, o agora, o depois explodiram em Manoela, como se fossem um instante só. E a menina-mulher podia no corpo de Pedro entrar, no corpo do homem-menino penetrar, feito o ar em seus pulmões.” (p. 362)

 

Capa 12 horas

12 horas (2019):

 

“Qual o perigo de se aproximar de alguém enquanto não acontece a queda do avião? Enquanto narra a história que pode salvar-lhe a vida, tal como uma Sherazade, a moça de tez suave permite ao rapaz ao lado se aproximar dos seus cabelos. Os cabelos estão soltos, desgrenhados, assanhados por causa da turbulência do avião. A máscara de oxigênio caída há décadas de segundos, há séculos de minutos, lá atrás, no início da turbulência. Ele retira a própria máscara e segura com as duas mãos o rosto de Arabella, que não teme o perigo de se aproximar de alguém enquanto não acontece a queda. O oxigênio não faz falta naquele instante de silêncio. O oxigênio vem dos pulmões para a boca, e abre a boca, feito um gesto salva-vidas. E beijam a boca um do outro naquele instante de silêncio. E se despedem da vida, dos amores, do passado e do futuro, de quem são e de quem nunca serão. E beijam os lábios. E oxigenam o cérebro. E apagam o silêncio. Até chegarem à partícula de Deus.” (p. 67-68)

 

Doze horas é uma novela ensaística em três camadas. Narrada na terceira pessoa do singular, conta a história de Arabella Fantini, quarenta e cinco anos, solteira e sem filhos, nascida em Recife, residente em Porto Alegre, e museóloga do Museu de Arte do Rio Grande do Sul – MARGS. Ela traz à tona artistas desconhecidos, e, uma bela tarde, recebe a carta com fotografias da obra de Fernandes Vieira, artista português que o remetente afirma ter conhecido seu pai, desaparecido desde os treze anos da museóloga.

Arabella viaja de Porto Alegre para Lisboa a convite do remetente, um curador renomado, e escreve “um diário imaginário” no laptop durante as doze horas de voo. Ao seu lado senta-se Marcelo Bergson, cinquenta anos, solteiro e sem filhos, professsor de literatura de uma “universidade próxima ao apartamento de Arabella no centro de Porto Alegre”, que guarda os segredos de ter se envolvido com uma aluna menor de idade e ser o causador da morte do irmão mais novo em um acidente de carro.” (p. 94)

 

Capa 13

13 (2019):

 

“O carro”:

20/11/2018

 

“Na mesa ao lado, uma moça, cabelos cacheados e curtos, rosto vermelho queimado de sol, lê um livro que não consigo ver a capa direito, mas parece que é Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie. A moça folheia as últimas páginas como se o mundo acabasse no próximo segundo.

Olho a tela do celular. A agência de turismo avisa do passeio de amanhã. Que eu leve um boné. Use protetor solar 50. Vá com uma camisa de malha clara por cima da sunga.

O garçom atende a moça que lê. Ela pergunta o que ele sugere de sobremesa, e olham ao mesmo tempo para o meu prato que acaba de chegar.

Uma mulher vestida de branco observa a cena. Ela escreve num caderno de papel pautado. Levanta o rosto e diz:

– Desculpe perguntar, mas qual é o crepe que o senhor está comendo?” (p. 13)

 

“Um conto de novembro”:

27/11/2018

 

“Poly saiu de casa triste e cansada. Não aguentava mais ser maltratada pela família.

Saiu pelas ruas da cidade sem rumo ou destino. Qualquer lugar seria melhor que a sua casa, sem puxões de orelha, chutes nos quadris, cárcere num canto escuro, racionamento de água e alimento.

As ruas estavam escuras naquela hora do dia. Apesar de novembro, sempre vem uma chuva antes do verão, antes que o sol queime o corpo inteiro, abrindo feridas no pelo das costas ou no dorso.

Andou, andou, e quando pensava que não aguentaria mais, andava mais um pouquinho. E mais um pouco, até ouvir uma música de piano.” (p. 20)

 

“O astronauta”:

04/12/2018

 

“Imagine a cena: olho para a plataforma metálica de uns trinta metros, o foguete pintado de azul-escuro, daqueles azuis que não sabemos o que vai dar no outro lado.

Lembro as conversas com tio Cândido, amigo de papai e considerado um gênio. Ele trabalhava com Estatística, e numa tarde de domingo – estaria ele bêbado? – olhou para mim, no auge dos meus sete anos, e disse:

– Augusto, você tem de ser astronauta um dia!

Daí em diante eu não pararia de pesquisar, não pararia de estudar para a difícil seleção, para a impossível situação de pairar por cima das nuvens, da estratosfera, da camada de ozônio furada em milhares de quilômetros; acima de tudo isso estaria eu um dia e o sonho de um menino de sete anos.” (p. 40)

 

“O exercício”:

11/12/2018

Para Bernadete

 

“Saí de casa hoje cedo, no Parnamirim, para ir à casa de Patricia, em Boa Viagem, e a nossa última aula do ano.

Desde 2016 seguimos esta rotina boa: nós nos encontramos uma vez por mês para conversarmos sobre literatura, cinema, artes plásticas – e tudo o que nos der na telha. Fazem parte do grupo Elba, Patricia, Luisa, Talita e eu. Elba escreve poesias e resenhas maravilhosas e a conheci numa aula de dança de salão lá na zona norte – hoje o trânsito está fogo na roupa! Vou tirar uma foto e mandar pras meninas no WhatsApp.

Patricia, conheci numa reunião da Confraria das Artes. Eu estava tão nervosa porque ia apresentar algo sobre Goa – cidade das minhas raízes. Mas, na hora H, tudo se dissipou, o medo desapareceu, e eu era outra no meio de gente amiga. E ali, do outro lado da mesa redonda, estava uma Patricia maravilhada.” (p. 55)

 

“A lista”:

19/12/2018

 

“Tomar café rapidinho.

Levar a cachorrinha para passear.

Fazer a feira de frutas, legumes.

Consertar a pia do banheiro.

Ligar para mamãe e contar como foi a prova.

Colocar a roupa para lavar na máquina.

Levar a cachorrinha para passear de novo.

Passar, na volta do passeio com Poly, na padaria, e pedir da calçada, pois o padeiro não deixa Poly entrar, aquele pão de coco que eu gosto tanto.

Lanchar pão de coco, rechear com requeijão, beber leite com Nescau. Ligar para Sérgio, como se quisesse saber como foi a prova, mas na verdade é só para ouvir a voz dele. Ficar uma hora com Sérgio ao telefone, e na rádio toca Oceano, de Djavan.

Tomar banho demorado…

… escovar os dentes…

… hidratante no corpo…

… lavanda atrás das orelhas…

… e nos pulsos…

… me vestir…

… e ir à universidade tentar me encontrar com Sérgio, para vermos juntos, os dedos cruzados, o frio na barriga, a lista da seleção de doutorado.” (p. 86)

 

Capa 14

14 (2019):

 

“Mim mesis mesma”

05/10/2013

 

“Ouço Tom

E o tom acalma

As minhas células cerebrais

Ativadas

Esgotadas

Com as perguntas

Que um amigo fez

 

As perguntas

Que são apostas

Às respostas

Que me fiz um dia

 

E quem diria

Que da música do maestro

Em mim brotasse a letra

Aquela embalsamada

Em óleos ancestrais

 

Que flutuava e flutuava

Pelo espaço” (p. 16)

 

“Um presente de rei ou o lobo da estepe”:

19/07/2014

 

“Dizem que o amor

É para os loucos

É para os poucos

É para os bons

 

Você me deu

Uns poemas assim

Do tamanho

Dos meus sonhos

E eu aqui

Com o seu presente

Embrulhado em jornal

 

Para lembrar

Que a vida é

Tão pequenina

Que o meu tempo

De menina

Transparece agora

Nos seus olhos de cristal” (p. 27)

 

“1969 ou magma ou a origem do poema?”:

16/09/2014

 

“Nasci

Quando o homem

Foi para a Lua

E nunca mais

Pus os pés no chão

Vivo a sonhar

Com um mar de estrelas

Um mar de palavras

Que se juntam

Num mesmo leito

Mesmo oceano

De sentidos

Até atingir

O centro da Terra” (p. 34)

 

“No Theatro São Pedro”:

19/03/2016

 

“Que o sonho

Não se transforme

Em velho

Vai e vem

Do dia a dia

 

Que a hora

Em mim

Apague

Qualquer impressão

De angústia

Qualquer invasão

De penúria

 

Aposto

Num texto bom

Que há de vir

Entre uma linha

E outra

Entre uma palavra

E o som

Da minha própria Voz

 

Até

Imaginar-me

Nua

Diante da

Plateia escura

Dos meus

Ais” (p. 43-44)

 

“Quem escreve não se cansa de buscar”:

06/08/2016

 

“Se eu fosse um

Passarinho

Esqueceria as

Folhas mortas

Do passado

Arrancaria as

Ervas daninhas

Do presente

E passearia

Suavemente

No céu azul

 

Mas como

Não sou um

Passarinho

Vivo à cata

De migalhas

Vivo em busca

De palavras

Assim

Pequenininhas

Que possam

Traduzir

Por um segundo

A imensidão

De eternidade

Presa aqui

No meu peito” (p. 50-51)

 

Capa 15

“Estudos em Escrita Criativa 2018”:

 

“Em agosto de 2016, por sentir a necessidade de compartilhar o que apreendia na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, em Porto Alegre, iniciamos, as escritoras e poetisas Bernadete Bruto (PE), Elba Lins (PB/PE) e eu, um grupo de Estudos em Escrita Criativa, em Recife. Eram encontros quinzenais que, na continuidade, passaram a ser mensais. Nos encontros conversávamos sobre os teóricos estudados por mim na PUCRS, fazíamos conexões com ficcionistas, poetas e outras áreas de conhecimento além da teoria da literatura, tais como psicanálise, filosofia, física, sociologia, história e outras artes, como cinema, fotografia, teatro, artes plásticas, música.

O grupo foi crescendo com as escritoras Luisa Bérard (AL/PE) e Talita Bruto (PE) em abril de 2017. Em conversas com colegas da PUCRS, percebemos a necessidade de divulgar nossos trabalhos em espaços extra-acadêmicos e por outras cidades do Brasil. Levamos o projeto à Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, na figura de Rogério Robalinho, e à PUCRS, representada pelos profs. drs. Luiz Antonio de Assis Brasil, Cláudia Brescancini e Maria Eunice Moreira, que nos apoiaram. E assim nasceu, em outubro de 2017, o I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco na XI edição da Bienal, com a presença de escritores gaúchos e pernambucanos.

A boa receptividade no I Seminário nos incentivou a ampliar o projeto e propor à Livraria Cultura o grupo de Estudos em Recife e Porto Alegre. A ideia inicial seria termos oito encontros mensais e temáticos – o tempo, o mito, a viagem, a música, o amor, o sonho, a imagem, o fogo. Os temas foram intuídos tanto dos textos canônicos quanto dos contemporâneos da literatura ocidental. Utilizando o mesmo formato do grupo original – dividir o encontro em uma parte teórica e outra prática –, acrescentamos um momento de conversa com os escritores locais, o que atenderia à necessidade de divulgar os trabalhos dos colegas da PUCRS em espaços extra-acadêmicos. Por intermédio da parceria com a União Brasileira de Escritores de Pernambuco, representada pelo presidente e escritor Alexandre Santos, nós o convidamos para os oito encontros, além de mais sete escritores locais – Flávia Suassuna, Fátima Quintas, Jacques Ribemboim, Ana Maria César, Adriano Portela, Maria do Carmo Nino e Lourival Holanda; em Porto Alegre, com a parceria da PUCRS, convidamos, para os sete  encontros, quatorze colegas que fazem mestrado ou doutorado em Escrita Criativa – Júlia Dantas, Guilherme Azambuja, Débora Ferraz, Tiago Germano, Alexandra Lopes da Cunha, Gustavo Melo Czekster, Annie Müller, Luís Roberto Amabile, Gisela Rodriguez, Fred Linardi, María Elena Morán, Daniel Gruber, Andrezza Postay e Camilo Mattar (caso único da Teoria da Literatura, mas grande poeta).

É com imensa alegria que compartilho a parte teórica dos nossos oito encontros dos Estudos em Escrita Criativa, 2018.” (p. 103-104)

 

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Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem dezesseis livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália) e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE), doutora em Escrita Criativa (PUCRS), organizadora e ministrante, desde 2016, dos Estudos em Escrita Criativa. Uma das idealizadoras e coordenadoras do curso de Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS. Contatos: patriciatenorio@uol.com.brwww.patriciatenorio.com.br

 

 

 

[Espaço] jornalista Martins de Vasconcelos | Organizadores Clauder Arcanjo, David Leite, Johann Freire | Enviado por Rizolete Fernandes

INTRODUÇÃO

 

Há dois anos, a editoria do Jornal de Fato convidou o escritor Clauder Arcanjo para coordenar a página 2 do periódico, dentro de um projeto de reformulação deste. De pronto, Clauder aceitou o desafio, convidando diversos escritores, intelectuais e professores a cooperarem, “de forma aberta, honesta e franca”, com seus textos.

Nascia, assim, algo plural e aberto, e o espaço não poderia levar outro nome a não ser o do inesquecível Jornalista Martins de Vasconcelos. Apodiense adotado por Mossoró que, segundo Raimundo Nonato, era “um homem simples, trabalhador e bom. Retrata o caráter de um sincero idealista, cujos dias, embora lhe tenham decorrido fartos de decepções, deixaram-lhe contudo, lugar para as manifestações de entusiasmo, do bom humor e de um sadio e permanente otimismo”. Detentor de “espírito polimático, o diretor de ‘O Nordeste’ foi, à sua época, o tipo representativo do homem de letras da província, do artista que realizou uma obra intelectual duradoura, num meio pequeno, numa cidade mercantil, muito mais preocupada com os lucros do que com os problemas da literatura”.

Aécio Cândido, Ângela Rodrigues Gurgel, Cadu Paiva, Clauder Arcanjo, David Leite, Dom Marcelo, Dulce Cavalcante, Flávia Arruda, Johann Freire, José de Paiva Rebouças, Kalliane Amorim, Klarice Holanda, Lilia Souza, Manoel Onofre Júnior, Raimundo Antonio de Souza Lopes, Rizolete Fernandes, Thiago Gonzaga, Vanda Jacinto… foram, de início, nomes que, com seus estilos, opiniões e lirismo, transformaram o Espaço numa trincheira opinativa e literária que orgulha, sobremaneira, o jornalismo potiguar. A esta grande equipe de colaboradores, juntaram-se outros valorosos nomes: César Calheiros, Edmílson Caminha, Enéas Athanázio, Francisco Obery Rodrigues, Hildeberto Barbosa Filho, Ítalo Gurgel, Padre Guimarães Neto, Vera Lúcia de Oliveira… tornando o espaço cada vez mais plural e eclético, homens e mulheres “sonhadores, idealistas, combativos, daqueles que não envelhecem com a idade”. Tudo para honra e graça à memória do multifacetado e inquieto mestre Martins de Vasconcelos.

Com o tempo, e com o incentivo dos leitores, o pedido para que reuníssemos, em livro, uma coletânea das páginas então publicadas. Resolvemos (Clauder Arcanjo, David Leite e Johann Freire), de pronto, coordenar uma edição em que cada autor selecionaria três dos textos já publicados.

A seguir, caro leitor, a primeira coletânea do Espaço Jornalista Martins de Vasconcelos: crônicas, ensaios, contos, resgates históricos, opiniões, memória, aforismos, perfis… Enfim, à moda do mestre que nos guia, um tributo ao bom, sério, plural e perene jornalismo.

Boa leitura!

Antonio Clauder Alves Arcanjo, David de Medeiros Leite e Johann Freire

(Organizadores)

Setembro de 2019

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* Introdução de [Espaço] jornalista Martins de Vasconcelos. Organizadores: Clauder Arcanjo, David Leite, Johann Freire. Mossoró: Sarau das Letras, 2019.