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Índex* – Agosto, 2019

Assis criou

Uma personagem

Em mim

Que eu nem

Conhecia

Que eu não

Entendia

O amanhecer

Do meu

Enredo

 

É possível

Ensinar

Escrita Criativa?

Assis pergunta

Eu me pergunto

E insisto

No caminho

De juntar

Letrinhas

Contar histórias

Escrever ficção

(“Assim nasce uma Especialização”*, Patricia Gonçalves Tenório, 17/08/19, 16h40)

*Durante as aulas inaugurais da Especialização em Escrita Criativa Unicap/PUCRS ministradas pelo escritor e professor Luiz Antonio de Assis Brasil

 

Assim nasce um sonho no Índex de Agosto, 2019 do blog de Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa – Unicap/PUCRS – Agosto, 2019 | Diversos.

A QUARTA MARGEM DO RIO DO COMPANHEIRO ACÁCIO | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

O HUMOR CONTRA TODOS DE TCHEKOV | Helena Bruto (PE – Brasil).

“Água de Chloé” | João Paulo Gurgel de Medeiros (RN – Brasil).

Agradeço pelo carinho, a próxima postagem será em 29 de Setembro, 2019, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* August, 2019

Assis created

A character

In me

That I neither

Knew

That I don’t

Understood

The dawn

From my own

Plot

 

Is it possible

Teaching

Creative writing?

Assis asks

I ask myself

And I insist

On the way

To gather

Little alphabet letters

To tell stories

To write fiction

(“Thus is born a Specialization”*, Patricia Gonçalves Tenório, 08/17/19, 4:40 pm)

* During the inaugural classes of the Unicap/PUCRS Creative Writing Specialization given by writer and teacher Luiz Antonio de Assis Brasil

 

Thus is born a dream in the Index of August, 2019 from the blog of Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Lato Sensu Specialization in Creative Writing – Unicap/PUCRS – August, 2019 | Several.

THE FOURTH BANK OF THE ACÁCIO’S COMPANION RIVER | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

HUMOR AGAINST ALL OF TCHEKOV | Helena Bruto (PE – Brasil).

“Chloé Water” | João Paulo Gurgel of Medeiros (RN – Brasil).

Thanks for the affection, the next post will be on September 29, 2019, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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**

 

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Um sonho sempre nasce para todos nós. Fotografia: George Barbosa. A dream is always born for all of us. Photography: George Barbosa.

 

Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa – Unicap/PUCRS – Agosto, 2019

A primeira Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa na parceria entre a PUCRS e a Unicap nasceu na semana passada. Trouxemos um dos pais da Escrita Criativa no país, o escritor e professor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil.

Foi um final de semana pleno de surpresas boas, textos de qualidade, e o mestre nos guiando pelos caminhos do bem escrever.

Compartilho abaixo alguns textos gentilmente concedidos pelos participantes para emanarmos um pouco do aroma que vivenciamos nesses dois dias tão especiais e que para sempre nos recordaremos…

Abraços cheios de Luz e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Vida também é Arte

Patricia Gonçalves Tenório[1]

16 de agosto de 2019

 

Sentada em uma das cadeiras do anfiteatro, eu posso vê-los chegar, acomodarem-se em seus lugares, surpreenderem-se com o bloquinho de anotações e a caneta bic coloridos, o aroma do girassol sorridente.

A primeira turma da Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa da Unicap/PUCRS nasce hoje. É um sonho antigo que se faz novo, atual. Enquanto respiro o instante, relembro tudo o quanto caminhamos para chegarmos até aqui, as inúmeras pessoas que nos ajudaram e somos para sempre gratos, o que sofremos, o que sorrimos.

E vendo seus rostos iluminados, pequenos girassois que bebem da sabedoria e dos ensinamentos do mestre maior da Escrita Criativa no país, Luiz Antonio de Assis Brasil, penso que todos os esforços, os obstáculos, a quase desistência, valeram a pena, frutificaram.

Brotaram em sementinhas numa sexta-feira de agosto de 2019 em nossos corações.

 

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[1] Escritora, doutora em Escrita Criativa (PUCRS, 2018), participante na coordenação da Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS (2019.2). Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

 

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Ana Paula Almeida

Contato: apbalmeida76@hotmail.com

Exercício I:

 

A luz do quarto apaga sozinha na hora do jantar. Não posso desperdiçar aquela oportunidade que tanto aguardava. Visto a única calça e camiseta que ainda cabem em mim. Pego uma panela vazia e me encolho ao lado da porta.

Minhas mãos suam e tremem, assim como o meu coração. Ouço um ruído de passos se aproximando. Barulho que sempre surge no mesmo horário à noite. Minha única fonte de percepção do meio externo.

Percebo o som da chave. Levanto-me com um salto e me posiciono como um animal selvagem que é perturbado em sua toca.

No momento em que ele entra no aposento, a lâmpada volta a acender. Ele surge com os olhos cor de sangue, atentos a qualquer movimento. Cheira a suor e graxa. Segura um revólver e uma corda.

Fixo o olhar naquelas armas, sentindo-me como um vidro: estática e frágil. Ele se aproxima. Pego o objeto de alumínio, que escondia por trás das costas, coloco na minha frente e pergunto se trouxe minha refeição.

Não posso fazer mais nada. A luz que tanto me conforta, dessa vez tira-me a coragem. Não será agora que conseguirei lutar por minha liberdade.

 

Exercício II:

Arthur vive a história mais curta de sua vida

 

Arthur senta-se no trono letal. Há três anos, dois meses e três dias pensava diariamente como seria aquela cena.

No início não acreditava que aquilo aconteceria de fato. Achou que, de alguma maneira, conseguiria convencer as autoridades da sua inocência. Passou a sentir muita raiva da situação. Tentou se relacionar com outros detentos na tentativa de articular um plano de fuga, mas nada dava certo. Até que um dia aceitou seu destino.

Sinal dado para que se prossiga com a execução. Não funciona. Presidiário retirado do local para que seja realizada vistoria no equipamento.

Luzes se apagam. Gerador quebrado. Arthur corre no escuro em direção à porta. Percorre todo corredor e, no final, imobiliza um guarda responsável pela segurança. Pega as chaves e a arma, pede para que tire suas roupas, e as veste em seguida.

Continua o percurso até o portão principal e, fardado, consegue sair sem chamar atenção. Pega um taxi, estaciona em frente a sua casa, desce do carro e toca a campainha. Sua filha caçula aparece arregalando os olhos e sorrindo ao mesmo tempo. Pula para os braços do pai e o envolve com beijos.

A energia volta. Presidiário reconduzido à cadeira elétrica. Dispositivo acionado. Procedimento realizado com sucesso.

 

Cleyton Cabral

Contato: ccomunicador@gmail.com

História de fogo

 

Todo dia Barros acorda às seis da manhã. Olha o Instagram antes de se levantar.

Rola o feed: mulheres de biquíni, vizinha, novata do Corpo de Bombeiros.

Like. Like. Like.

Privada, escova de dentes, chuveiro.

Farda, café, um beijo na testa de Emilly e um selinho em Carla.

Bom dia, meu amor!

Bom dia, mozi, feliz nosso dia 04, bom trabalho, te amo!

Te amo, nêga, mais tarde nóis comemora!

Elevador, garagem, engarrafamento.

Like. Like. Like.

Serviço, cafezinho, conversa fiada.

Meio-dia: balança livre, 2 opções de carne, 1 copo de refresco.

Três da tarde: chamado, sirene.

Reconhece a casa.

Fumaça. Fumaça. Fumaça. Água. Água. Água.

Destruídos: geladeira, sofá, camas, roupas, uma bicicleta infantil.

Abre o Instagram: stories de Emilly na escola e Carla no trabalho. Ufa!

Selfie com casa de fundo: orgulho do meu trabalho.

Muitos likes.

 

Cristina Mesquita

Contato: cristinaamesquita@gmail.com

Travessia

 

Andava pelas ruas apressada. Depois de mais um dia em um trabalho que já não me enchia mais os olhos. Ou talvez nunca tenha enchido. Paro, de repente, diante de um sinal vermelho. Na espera para cruzar a faixa e chegar ao outro lado, sinto-me como um copo meio cheio de amarguras. Meio cheio de uma vida que escolheram para mim. Meio cheio da fadiga de uma rotina de papéis. Meio cheio de não ser. Ou seria meio vazio? Continuo a olhar para a luz vermelha, aguardando ansiosamente o momento em que ela me permitirá seguir em frente. Ouço o som de um coração que, até então, batia no silêncio. Mas hoje, por algum motivo, surgiu em mim essa vontade de cruzar a faixa e procurar algo que encha o meu copo. Uma vontade de descobrir o que há por dentro de uma madeira que, por muito tempo, acreditou ser oca. Uma vontade de florescer. A luz ficou verde.

 

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

Exercício I:

 

Fujo!

Não sinto chão áspero,

Não temo o vento rasgando minha pele,

Não penso no olhar dos outros.

Estou só!

E nesta cidade de concreto explícito

O que me punge, o que me marca, só o meu olhar pode dizer.

Mas meu olhar  foge de todos.

Meu olhar, perdido num mundo que desenhei só para mim, jamais será capturado por mesquinhos olhares, jamais será transfigurado por paixões banais.

No meu mundo de desenho incerto, onde busco  os cores do ontem  e o sabor do novo,

Só poderei chegar de pés descalços,

Somente poderei alcançar deixando para trás as paixões mundanas que me trouxeram até aqui,

Onde os muros sem cores são meu motivo da fuga.

Da fuga para um lugar azul – longe daqui.

 

Exercício II:

 

Carla vive sua mais curta história

 

Era segunda feira, ela acabara de fazer vinte anos e decidira se dedicar totalmente à dança –  sua maior paixão.

Sim, iria fazer a faculdade de dança.

Para fugir das restrições econômicas da família iria dar aula numa escola de balé,  mas sem deixar de lado seu envolvimento com as causas políticas e sociais de sua comunidade.

Seu objetivo final – dançar profissionalmente – também  proporcionaria uma mudança para os jovens que ela encontrava todos os dias parados na pracinha sem flores e sem alegria. Aquela praça iria mudar, ali as crianças e os jovens dançariam e em conjunto mudariam a história do bairro.

O dia amanhecera lindo, o sol brilhava queimando sua pele e lhe dando o calor necessário para enfrentar a fria realidade junto à família, que pouco se importava com seu sonho.

Andava pela calçada mentalmente planejava a visita à universidade, onde faria o teste final para concorrer à bolsa de estudos. Depois passaria na escola de dança onde trabalharia por duas horas.

A calçada inclinada, copiava o relevo do morro e lhe exigia muito cuidado para não escorregar… suas pernas – seu tesouro –  delas dependia o futuro.

No ponto do ônibus encontrou o amigo Jorge – de moto e lhe oferecendo carona. Ela aceita, insiste no cuidado com o trânsito.

Às 9h da manhã, uma hora após ter saído de casa, Jorge a deixa na porta da universidade sã e salva.

Naquela parte da cidade chovera…

Carla se apressa – o teste ocorrerá dentro de dez minutos.  Tenta alcançar seu destino e não nota que a chuva deixara a entrada da Universidade coberta de musgos escorregadios…

 

Fabiana Plech

Contato: fabianaplech@outlook.com

Exercício I:

 

Fluo, decorro…

não raiz.

Sem alma.

Sinto? Jamais.

Transbordo!

Além de mim, onde somente eu, há.

Não há mais espaço,

Deixo cair pedaços. Deixo?

Eles caem sem ordem.

Uma mutação… vai além do que vejo do lado de fora, a propulsão me leva  a algum lugar. Ainda ando, assim.

Um vácuo me faz divergir de mim… sou eu em todos os simples bloquinhos de minha demolição.

Implosão,  enfim…

O porvir

 

Exercício II:

 

Visando manter sua condição financeira privilegiada, Adelaide, uma senhora de 68 anos, trabalhava como costureira, sem desistir ou dar cabimento ao cansaço.

Mãe de cinco filhos dependentes, ademais o cônjuge, graças à sua personalidade de agente motriz da vida de cada um, tornando-se eterno engenho de fazer dinheiro.

Seu maior medo, a inutilidade. Questãozona de honra era a demonstração de seus dotes cognitivos nas peças de alta costura que projetava, causando cada vez mais veneração.

Naquele dia, o marido, apelativo qual um rebento, solicitava, aflito, para que ela colocasse um bolso enorme em suas calças, afim de que um meliante não conseguisse subtrair seus pertences, antes que ele flagrasse.

Adelaide, debruçou-se sobre a calça, com maestria, colocou o alforje bem na braguilha da calça. Causando o desespero e um grande desentendimento entre eles. Como iria ele abrir a roupa bem na braguilha em plena via pública?

Este dia foi talvez o dia mais curto e mais terrível de suas vidas. Curto porque foi ali que tudo acabou. Todos os sonhos todo glamour de ser uma costureira de renome.  Instalava-se com isso algo desesperador. Após retumbantes fracassos, tudo se arrebentava e cada vez mais no começo.

O dia mais curto de sua vida era todo ele em que começava a existir. Esqueceu quem seria, esqueceu como comeria, esqueceu que nome teria. Então Adelaide, passou a ter uma formatação nula, sequer saber que existia, certamente Alois Alzheimer saberia dizer o porquê da vida de Adelaide ter perdido a cor. A demência seria, pois, tudo o que ela mais temia.

 

Heloísa Ramos Lacerda

Contato: helramoslacerda@gmail.com

Clara vive a mais curta história da sua vida

 

Clara chegou para mais um dia da sua pesquisa. Estava feliz por ter alcançado o seu espaço, pesquisar novos medicamentos para o câncer de pâncreas. Havia reunido suas economias, recebera ajuda da família e partiu para mostrar ao pai que sim, mesmo sendo uma filha mulher, conseguiria ter sucesso e fazer diferença no mundo.

Não diria a ninguém que passou a noite chorando com saudade dos amigos e da família no Brasil. Já percebeu, nas entrelinhas, que sua colega disputa com ela o sucesso da pesquisa, e, receia ter seu experimento modificado numa noite qualquer. Não estava nada fácil para Clara firmar-se nesse caminho.

Hoje passou o dia bem concentrada no trabalho, e teve a feliz surpresa de avaliar um paciente que está muito bem, dois anos após o início da quimioterapia que desenvolveu no laboratório. Em se tratando de câncer de pâncreas em estágio avançado, é o melhor resultado já descrito. Ficou louca para ligar e anunciar ao mundo, principalmente ao pai.

Ao final do dia de trabalho, pegou sua bolsa e olhou o celular. Surpresa, contabilizou muitas ligações do Brasil. Não sabia se ficava feliz ou alarmada e decidiu ligar. Quem atende é a mãe, que confirma ter tentado falar com ela:

– Estou muito aflita, acho que precisamos da sua ajuda.

– O que houve, mãe, algo grave, alguma doença?

– Pois é linda, seu pai começou a perder peso há 30 dias, os olhos ficaram amarelados. Fomos ao médico hoje, que indicou uma tomografia de urgência. Ele nos informou que seu pai está com câncer de pâncreas.

 

Hugo Peixoto

Contato: hugocpcoutinho@gmail.com

Lauro vive a mais curta história de sua vida

 

Fechou a porta de madeira com força e olhou para os lados, do cruzamento até a ponta da rua, para ver se tinha alguém observando. Fazia isso todas as vezes que fechava o bar, mas na sexta-feira, dia de música ao vivo e quando os boêmios prolongavam as conversas dramáticas até quase a alvorada, tinha mais cuidado e dava uns empurrões na porta para ver se estava trancada.

No caminho até a casa, ali perto, fez as contas do dia e da semana. Estava difícil, movimento fraco, talvez a mulher dele estivesse certa. Só a sexta salvava, mas parte do que arrecadava era para pagar ao músico, então dava no mesmo. Um rato gordo cruzou a calçada e o distraiu. Bicho nojento, mas é esperto e está comendo bem.

Abriu a porta de casa tentando não fazer barulho, mas, assim que entrou, viu a luz fraquinha por baixo da porta do quarto de Arturzinho. Mais perto, ouviu tiros, explosões e gritos desesperados. Abriu sem bater.

– Já falei que não quero jogo de videogame até essa hora.  Vamos, desliga.

– Você não é meu pai.

– Não importa, desliga. Eu e sua mãe já conversamos sobre isso.

– Mãe não está.

– Não?

– Saiu umas quatro da tarde. Pedro do Táxi que veio buscar.

Lauro correu até o quarto e procurou as duas malas que ficavam em cima do guarda-roupas. Procurou também no cantinho, do lado da cama. Encontrou apenas um envelope com seu nome sobre o travesseiro rasgado, como se ele fosse notar apenas quando deitasse para dormir.

 

Lara Ximenes

Contato: larafximenes@gmail.com

Lourdes vive a mais curta história de sua vida

 

Lourdes busca todos os dias parar de fumar. Começou o hábito muito cedo, aos 14 anos, mas teme o câncer de pulmão mais do que a morte em si — o câncer é mais lento e doloroso, ela pensava. Ainda mais para alguém como Lourdes, que não tem plano de saúde. Ela também recusava totalmente a ideia de ser cuidada, mesmo que pelos filhos. Achava fraqueza depender de alguém. Última vez que dependeu, viu-se à deriva, e sentir-se pairando na instabilidade (emocional, financeira e física) era a coisa que ela menos gostaria de viver novamente.

Desde então, diz para si mesma que só ela cuidaria de si e dos seus desejos, sonhos e necessidades, pois ela e somente ela estaria sempre ali. Alguém com essa filosofia não pode jamais ficar à mercê do câncer. Mesmo assim, Lourdes ainda não tinha conseguido vencer aquele vício. Hoje com 50 anos, sente-se presa aos velhos hábitos, como fumar, pintar as unhas com o esmalte Gabriela e assistir Domingão do Faustão quando não está emendando turnos no bar onde trabalha, na Zona Sul da cidade, para fazer um dinheirinho a mais no fim do mês.

Numa terça-feira incandescente, às 14h50, a garçonete aproveitou o intervalo no trabalho para comprar cigarros. Ao lado do fiteiro, notou um novo empreendimento numa galeria aparentemente vazia. As letras em neon e vitrines escurecidas em fumê revelavam que se tratava de um sex shop. A garçonete encarou a porta por 20 segundos antes de abrir. Como o calor do verão recifense não dá trégua, até que seria bom entrar e aproveitar pelo menos um pouco daquele ar-condicionado. Entre balões vermelhos e pretos, estavam em promoção de inauguração vários óleos, fantasias eróticas e brinquedos que ela não sabia o nome. Pousou os olhos em um muito pequeno, cromado e esteticamente agradável. Descobriu em seguida que aquele era um vibrador que se chamava bullet, e estava custando apenas R$30,00 de acordo com a simpática atendente que não falou seu nome. Nesse dia, Lourdes não comprou cigarros. No dia seguinte, também não. Conseguiu, enfim, parar de fumar.

 

Raldianny Pereira

Contato: raldianny.pereira@gmail.com

Escultura hiper realista em madeira

 

Senti cada golpe

A talhadeira me marcava

O estilete me marcava

Me fiz assim

Um eterno quase ir

Olhar perdido

Um chão sempre fixo

 

 

 

A QUARTA MARGEM DO RIO DO COMPANHEIRO ACÁCIO* | Clauder Arcanjo**

Companheiro Acácio, cinquentão, amigo do recolhimento e das surpresas (pelo visto já recuperado da última intercorrência que o levou a alguns dias de hospitalização, bem como a refletir sobre a Indesejada das Gentes), foi visto por mim, semana última, à beira do rio da minha aldeia. Explico.

Eu viajara a Licânia a fim de visitar o meu velho pai: nosso bom Zequinha, deveras alquebrado pelas enfermidades dos anos e sempre mergulhado num silêncio abissal. Segundo os médicos, consequência da senilidade; segundo Acácio, forma de protesto e de repúdio a tanta asneira dos discursos mercuriais, descargas de fogo e sangue, que grassa pelo país, de norte a sul, de leste a oeste. Pois bem, voltemos às ribeiras do nosso Tejo.

— Acácio!?…

Ele, impassível, continuou a rabiscar no leito das águas do Acaraú.

De imediato, agachei-me, ladeando-o.

— O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia…

Acácio olhou-me com as veias do pescoço intumescidas, senti-o com a garganta invadida por um grito, protesto seu contra o lugar-comum; mas, antes que ele vomitasse golfadas de impropérios sobre mim, abracei-o. O afago e o perdão sempre interromperam sua sequência de disparo. Acácio bom, Acácio generoso, Acácio dadivoso no perdão.

— Chegaste quando a Licânia, Companheiro Acácio?

Após letrar mais alguns parágrafos nas águas turvas do rio de Licânia, ele respondeu-me, com a voz embargada por algo que eu, até então, não conseguira atentar:

— Precisava vir aqui, o retorno à província se me fazia questão de honra, algo inadiável. Aqui é o meu torrão, cá quero tornar quando me encan… — E as palavras recuaram, embargadas perante a presença da emoção.

Desta feita, fui eu a rabiscar garatujas na superfície do remanso, tão emocionado quanto o Companheiro.

— Não rabisque os meus escritos, seu… — disparou, quase aos berros, Acácio. — Não vê que estou a escrever algo importante!? Procure outra ribanceira, seu filho de uma…

— Companheiro!?… Perdeste os bons modos? — Defendi-me, confesso que mais com o fito de recuperar a respiração, atordoado que estava depois daquele coice de direita do nosso Companheiro.

Ele serenou os ânimos, voltou a agachar-se frente ao nosso Jordão; e, minutos depois, tornou a batizar o leito com sua letra miúda e ilegível.

Tentei, Champollion do sertão de Licânia, entender aqueles rabiscórios naquela espécie de Roseta líquida. “A quarta margem do rio… mora… no… ”.

— Quarta margem do rio?!… Queres agora superar o Guimarães Rosa? Quarta margem?!… Por essa, confesso aqui, eu não contava, eu nunca esperava! Por acaso, tu também tens pastos, buritis plantados no teu apartamento?! Explique-me — indaguei-o, em ar de menoscabo, com as mãos na cintura, como a desafiá-lo com um espadim de embira.

Companheiro Acácio se virou lentamente em minha direção e, sem delongas e com a fala mansa de costume, sibilou algo ao vento, suspeito que mais para si próprio do que para outrem:

— Não se volte para o interesse dos outros, cabrão. Não se preocupe em ser como cortiça n’água, o homem que merece a alcunha de ser pensante tem que se encontrar consigo próprio, mergulhar nas águas fundas do mistério, “quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso”. Melhor, “parece chamar tudo para dentro de si”. Não se satisfaça com a primeira, nem com a segunda margem. Ao se deparar com o enigma da terceira margem, rosianamente não tenha medo de desafiar-se, de superar as nonadas do cotidiano e se abeirar da quarta margem do rio. Sim, companheiro Acácio, a quarta margem…

Mal declarou aquela profusão de filosofices — “já todo inventado, saramicujo, fazendo muita serenância” —, algumas para mim tão enigmáticas, notei que Companheiro Acácio levantou-se, fitou o céu azul licaniense, bateu uma poeira imaginária na camisa branca, olhou para mim (não sei se com um sentimento de pesar ou de provocação) e, antes de tomar o rumo do Serrote da Rola, propagou em tom de pastor de nuvens:

— Um homem vale pelo que busca e não pelo que encontra. Buscar é preciso, porque viver não nos basta, além de termos um devir impreciso. Outro dia, li: “Essas coisas ocorrem nuns escuros, é custoso de saber se a gente deve se aprovar ou confessar um arrependimento: nos caroços daquele angu, tudo tão misturado, o ruim e o bom”. Ah, viver é uma nonada. “Somos que vamos.”

E Companheiro Acácio saiu, com passos messiânicos, de “miúda dureza”, por entre a mataria espinhenta, a caminhar pelas sendas de pedras — “sem nem por isso afrouxar do fôlego de ar que Deus empresta a todos” —, tão marcadas pelos passos dos nossos caboclos ancestrais. Ele, sempre “espritado”, com a biloca dos olhos fincada no cocuruto do firmamento.

Quanto a mim?! “Eu permaneci com as bagagens da vida.”

 

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* Publicado em 19 de agosto de 2019 no site Segunda Opinião: https://segundaopiniao.jor.br/a-quarta-margem-do-rio-do-companheiro-acacio-por-clauder-arcanjo/

** Contato: clauderarcanjo@gmail.com

O HUMOR “CONTRA TODOS” DE TCHEKHOV* | Helena Bruto**

“Um homem extraordinário e outras historias” foi a minha primeira imersão no universo de Anton Pavlovitch Tchekhov, autor russo mais conhecido pelos seus contos, muito embora também tenha produzido conteúdo em outras áreas, como: novelas, cartas e peças teatrais.

Como não tinha conhecimento sobre o estilo do autor, fui tentando entendê-lo ao longo dos diferentes temas abordados nas dezoito histórias apresentadas neste livro. Contraposição de classes, realismo fantástico, fábulas de amor e até algo próximo a uma esquete de humor. Mas, ao final, de qual maneira esses variados temas se unem? Apesar de explorar diversos prismas da alma humana, Tchekhov faz a sua análise quase sempre com uma pitada de humor ácido.

Quanto às críticas, o escritor não apresenta restrições na hora de apontar alvos: classe média, poetas contemporâneos, os mais humildes, as fobias humanas e até vícios individuais de uma família. Todos são “vítimas” dos gracejos e julgamentos do escritor.

No caso, acredito que os dois primeiros capítulos podem ser melhor apreciados se forem lidos de forma conjunta. No primeiro – “Desgraça alheia” –, o autor foca na maneira presunçosa com a qual o jovem de classe média trata um camponês falido, rogando-lhe críticas pela falência e comentando de forma paternalista como poderia ter evitado seu malogro. No segundo momento – o conto: “O sapateiro e a força maligna” – ele demonstra a falsa percepção com a qual o engraxate observa e deseja a existência daqueles que vivem no luxo. Inveja esta que se transforma em decepção após uma breve experiência no calcado dos outros.

O conto “Pavores” inicialmente nos remete às histórias fantásticas de Guy de Maupassant, até que chega o momento da conclusão, onde, no lugar de tentar assustar o leitor, ele senta-se ao seu lado para que possam divertir-se com as crendices alheias.

“Trapaceiros à força – Historinha de Ano Novo” é uma história mais leve e que se assemelha ao modelo de uma esquete de humor, com os personagens alterando o tempo de acordo com a sua própria conveniência durante o último dia do ano.

Em “Amor de peixe”, a fábula do amor platônico de um peixe por uma garota russa é usada como pano de fundo para apontar a melancolia e o pessimismo da época.

Também merece destaque “O relato do jardineiro-chefe”, onde o humor aparece em segundo plano em detrimento da crença na bondade e empatia humana, embora até essas questões sejam abordadas com o auxílio do humor.

Sobre o capítulo que divide o título com o livro, a história do homem extraordinário trata da figura de uma pessoa com uma visão bem definida, embora estreita, de mundo e que, por esta razão, os seus pequenos vícios se sobrepõem até a grande virtude ser uma boa pessoa. É interessante destacar que a expressão “homem extraordinário” é utilizada em outro conto do livro, mas com o sentido oposto.

Ao final, com apenas este livro de parâmetro, Tchekhov apresenta características em comum com outros escritores russos clássicos, principalmente com relação à análise da sociedade de sua época. O escritor mostra vícios, medos, paixões e tragédias humanas. Tudo em uma narrativa leve de ser lida e acompanhada de um humor ácido.

 

19 de julho de 2019.

 

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* Exercício do VI Encontro dos Estudos em Escrita Criativa 2019 sobre Os russos.

** Contato: helenabruto@gmail.com

“Água de Chloé”* | João Paulo Gurgel de Medeiros

Prólogo

 

O grisalho era a cor dominante sobre a pequena cidade. Atravessando as nuvens, carregadas, dava para contemplar toda a periferia do lugar. Uma grande ponte, desgastada, já que fora construída ainda à época das capitanias, atravessava o caudaloso rio que distribuía a população nos dois principais bairros. Casas coloniais embaralhadas no meio dos prédios modernos davam o tom da tradição. As cores vivas dos edifícios, com traços retos e nunca com mais de cinco andares, passavam uma sensação de restauração malfeita quando destoavam das fachadas estacionadas no tempo das casas mais antigas. Uma grande praça, arborizada e com traves naturais no gramado, acolhia os visitantes da pequena igreja barroca, branca e com nódoas amareladas na superfície de suas bordas, por fora, e dourada, mas triste, por dentro.

Enquanto brincava com Aurora e Alex na relva, já adolescentes, mas ainda com espírito pueril, Pedro tropeçou no vinho, tingindo a toalha e alimentando as gramíneas. A vibração no bolso da calça o fez sacar do telefone – um número estrangeiro. Mais um número desconhecido que seria bloqueado – os golpes eram frequentes. Jogou o telefone para longe, sobre o verde ébrio perto da toalha. Era dia de folga. Nenhuma urgência o perturbaria. Aurora, como sempre fizera na tenra idade, puxava seus cabelos e, enquanto caía, sentiu as primeiras gotas das nuvens. Correram todos para a copa do pé de castanhola. Pedro protegeu o telefone, que não parava de tocar. Não resistiu. Os gritos dos dois, como duas crianças, vendo os espelhos d’água nos buracos ao redor. Tapou um dos ouvidos para ouvir a voz que parecia ser distante. A visibilidade, agora, não chegava a cinco metros. De repente, tudo escureceu.

– Tô entendendo nada.

– Buongiorno, Pietro? Un uomo… suo padre.

– Alô? Está cortando.

O barulho das águas tirava a compreensão daquelas palavras ditas num vinil do outro lado da linha.

– È Pietro? Suo padre è morto… Your father…

– Hi! Where are you talking from? Talk in English, please!

– Non… inglese… Un po’…

– Where are you?

– Your father… dead.

Pedro apenas sorriu para seus filhos. Gostava sempre de lembrar-lhes de que deveriam manter o espírito de juventude e espontaneidade. De longe, Rafaela esperava o aguaceiro amainar. Conseguiu ver Pedro sem ação e correu para eles. Todos os dentes de Aurora. Para eles tudo era diversão. Pedro, imóvel. Com uma mão no tronco do pé de castanhola e outra no nariz, procurava alguma coisa além das nuvens. Nunca se soube se foram lágrimas que se perderam na chuva. Rafaela ouviu um som metálico do alto-falante do telefone sobre a grama molhada:

– Mi dispiace… Mi dispiace così tanto.

Pedro sempre acreditou que somente os bons se vão em dia de chuva.

 

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* Prólogo de Água de Chloé. João Paulo Gurgel de Medeiros. Mossoró: Tinteiro Azul, 2019.