Posts com

Índex* – Abril, 2019

Cercada

Pela escuridão

Insiste em mim

Um doce

Despertar

De esperança

Uma suave

Ilusão

Que me mantém

Em pé

E permite

Mais um passo

E outro

E mais outro

Até chegar

Ao meio-dia

(“Anunciação”*, Patricia Gonçalves Tenório, 06/04/2019, 05h14)

* Anunciação do antes, durante e depois do III Encontro dos Estudos em Escrita Criativa – Unicap e do I Lançamento Nacional de Escrever ficção, de Luiz Antonio de Assis Brasil.

 

Mais um passo rumo à Escrita Criativa no Índex de Abril, 2019 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Três Contos de Viagem | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Escrever ficção | Luiz Antonio de Assis Brasil (RS – Brasil).

Porto do tempo | Chico Alves d’Maria (RN – Brasil).

Dois pequenos trechos de Moema Vilela (MT/RS – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Abril, 2019 | Diversos.

Mais uma vez agradeço a atenção e o carinho de sempre, a próxima postagem será em 26 de Maio, 2019, abraço bem grande e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

Index* – April, 2019

Fenced

Through the darkness

Insists on me

A candy

Awakening

Of hope

A smooth

Illusion

That keeps me going

Standing

And allows

One more step

And another

And another one

Until arrive

Noon

(“Annunciation” *, Patricia Gonçalves Tenório, 04/06/2019, 05h14)

* Annunciation of before, during and after the Third Encounter of Studies in Creative Writing – Unicap and of the I National Launch of Writing Fiction, by Luiz Antonio de Assis Brasil.

 

One more step towards Creative Writing in the April, 2019 Index of Patricia Gonçalves Tenório’s blog.

Three Tales of Travel | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Writing fiction | Luiz Antonio de Assis Brazil (RS – Brasil).

Port of Time | Chico Alves d’Maria (RN – Brasil).

Two small stretches of Moema Vilela (MT / RS – Brasil).

Studies in Creative Writing – April, 2019 | Several.

Once again thank you for the attention and the affection of always, the next post will be on May 26, 2019, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

IMG_8923

IMG_8924

IMG_8925

IMG_8928

IMG_8929

IMG_8930

IMG_8931

**

____________________________________________

 

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Um passo após o outro pelo centro do Recife, PE – Brasil. One step after the other in the center of Recife, PE – Brasil.

Três Contos de Viagem – Patricia Gonçalves Tenório*

A Ladeira da Misericórdia**

Novembro/2007

 

Decidi ser aquele meu último carnaval em Olinda. Enxergava o maracatu, as sombrinhas coloridas dos passistas, o Homem e a Mulher da Meia Noite. Sorvia lentamente um capeta de sirigüela – passava se arrastando apertado pelas amídalas, senti o gelado tombar no meu estômago vazio.

Sentei na calçada dos Quatro Cantos. Observava. As fantasias mais coloridas, o calor sufocando, o sol queimando minhas pupilas verdes. Um trem de pessoas entoava uma marchinha antiga. Parecia ver carnavais de outras épocas, nos chapéus com plumas da porta  bandeira, o vestido armado se encontrando com os sapatos cobertos de glíter prateado; na cabeça, peruca barroca.

Acompanhava os casais de namorados em cada pequeno gesto, um beijo na nuca suada da mocinha, abraços apertados de um vilão em frente ao muro pichado de grafite. Crianças molhando umas às outras. O sol quebrava-se em prismas de cor nos jatos de água, repousando numa cabecinha marrom.

Os cachos desciam e subiam a ladeira dos ombros, ao som de Vassourinhas encolhiam-se, expandiam-se acompanhando a minha respiração ofegante: não teria cinco anos a menina. Usava uma fantasia de papel machê, mal lhe cobria o corpo roliço, macio. As sapatilhas azuis, quase cinzas, mostravam a trilha dos muitos passos dados naquela manhã de Sábado de Zé Pereira.

Não havia mãos dadas com alguém. Me acompanhava na despedida de quem éramos, cúmplices no desejo de um mesmo personagem. Se ela Colombina, eu um Pierrot disfarçado; se eu uma Julieta velha, ela um Romeu travestido. Não nos importávamos com os olhos alheios, eu tantas vezes antes não me importara, levando crianças de igual idade ao meu atelier, dando-lhes bombons coloridos e viciados, jogando cartas até surtirem efeito, despindo-os em canções de ninar. Somente então tomava-lhes o corpo miúdo emprestado, saindo minha alma deste cansado e doente, contaminando-as em carne e espírito, esperando absolvição no próximo carnaval.

Adorava esculpir na madeira depois de enterrá-los. No jardim, as estátuas marcavam o lugar dos caixõezinhos e lhes davam apelidos: Bolinha de Gude, Pipa, Boneca de Pano, Caminhãozinho. Uma vez tive muito trabalho com dois negrinhos irmãos, chuparam mais pirulitos que o necessário, entrei em êxtase muito antes dos pares de olhos esbugalharem, das minhas mãos longas cravejarem a espátula nas costas cor de jambo.

Plantei-os debaixo do pé de jabuticaba e no verão seguinte os frutos eram mais escuros e doces, tendo eu que aproveitá-los em compotas e geléias frescas. Vendi toda a produção no Mosteiro de São Bento. Ri imaginando os monges degustarem com torradas os negrinhos que antes eu havia me deliciado.

Acariciei os caracóis da menina sozinha, perguntei-lhe o nome.

Eugênia.

Numa suavidade saíam dos lábios as sílabas, minha cabeça girava querendo voltar ao passado e desistir do futuro.

Só mais uma vez.

Puxei a pulseira de Maomé e rezava na direção de Meca pedindo socorro para a tentação. Rezava as frases lentamente, com vigor e fé, mas não pedira àquelas mãozinhas gorduchas para desenhar minhas sobrancelhas, descer por meu nariz torto, descansando sobre os meus lábios.

Havia de ser a última chance.

Subimos a Ladeira da Misericórdia. Ela cantava o Hino do Elefante com a língua enrolada da idade, mais tarde se enrolaria nela mesma, eu começava a sentir o antigo formigamento nos dedos do pé esquerdo, as pernas, tronco e braços; quando encontrassem as unhas da mão seria tarde, o sol posto, o Mar Vermelho e o Rio Nilo descendo a ladeira, nos juntando ao Capibaribe e ao Beberibe formando o Oceano Atlântico.

IMG_8958

 

 

Um olhar sobre Istambul***

 

A primeira vez que vi Istambul meus olhos semi-cerrados descortinavam na janela do avião uma paisagem insólita, em nada parecida com as Mil e Uma Noites, Sherazade e os Quarenta Ladrões de Ali Babá. Encontrei edifícios altos e quadrados, torres finas de mesquitas rasgando espaço entre eles até o mais alto céu, terrenos inclinados, odores e cores do Grande Bazar, onde as especiarias saltavam gotas de saliva de minhas papilas, os cinco sentidos sendo despertados involuntariamente pelos passantes e turistas.

A lua cheia nunca me pareceu tão próxima. Banhava o rio do Estreito do Bósforo, meu peito apertou lembranças de quando eu era pequena e li Malba Tahan pela primeira vez.

O Homem que Calculava.

A imagem que me faziam os turcos não se alterava ainda. Os via como grandes comerciantes, negociadores do Estreito que encurtava distâncias marítimas entre o Ocidente e o Oriente. Comecei a retirar o véu da história, relembrei Constantinopla, Alexandre, o Grande, a escrita cuneiforme. As conexões com as culturas européias me vinham então à memória, não era apenas a conexão física: os turcos serviram de canal de pensamentos e religiões, se manifestando em alto e bom som, nas mesquitas espalhadas na cidade, as palavras do Profeta:

 

Não há outro Deus que Deus

Não há outro Deus que Alá

Deus é o maior

Maomé é o seu Profeta

Venha salvar-te

Venha rezar

Deus é o maior

Não há outro Deus que Alá

 

Os cantos das preces ressoam como em eco, mas são independentes e não parecem se importar comigo. Procuro entender essa cultura tão diversa da minha. Na Turquia, apesar das mulheres não serem obrigadas a cobrir o rosto com o véu, muitas o usam por não se sentirem capazes de agir diferente da tradição. Nisso encontro um ponto de apoio, me agarro a esse ponto para tecer o véu do pensamento, deslizando da realidade para o imaginário do artista.

Entro no harém do Palácio Topkapi. Imagino-me uma das concubinas, laço um nome recém chegado aos meus ouvidos: Ivgênia. Imagino-a de uma tez cobre, olhos verdes amplos, inquisidores. Eles querem uma resposta por estar ali aos treze anos, entre outras meninas, as mais belas, doadas ou arrancadas de suas famílias. Não entendo o que vejo, ao mesmo tempo maravilhada com os lustres de cristal vermelho, os tapetes longínquos com desenhos apenas de flores e arabescos, onde a figura humana não era representada por causa da religião.

Sou dopada todos os dias para não querer fugir daquele ambiente quase hermético se não fossem as clarabóias. Antigas mulheres do sultão, eunucos e filhas me vigiam, me educam, alimentam, cobrem meu corpo com óleos e véus. Se eu for rejeitada pelo sultão, serei entregue aos guardas fora do harém para ser usada como o rejeito exige. Se engravidar de um dos eunucos, na maior das impossibilidades, morrem eu, a criança e o eunuco, pois não existem eunucos que não sejam negros aqui no palácio.

Sabemos tudo sobre o sultão, nós, as concubinas. Dormimos em qualquer parte, em camas de campanha, ou quando muito em quartos mais simples que o das quatro esposas de nosso dono e senhor.

 

Beylerbeyi Sarayi

(Palácio do Senhor dos Senhores)

 

Saio do harém, não quero mais ser Ivgênia, nem faltar-me o ar todos os dias, nem tornar-me louca aos vinte anos. Desejo aprender as palavras soltas e cantadas nas mesquitas, os prefixos que tudo dizem e significam, numa lógica contrária à minha, me desestrutura e faz começar tudo novamente, vestir-me de herege, alcançar a mais alta torre para da pequena janela do avião cerrar meus olhos e sonhar com outro tempo.

 

 

Oráculo****

 

Levaria uma hora de carro entre Belo Horizonte e Sete Lagoas. Cíntia uma vez foi de ônibus, precisava misturar-se com o suor de um dia de trabalho, o aroma das frutas e verduras nas sacolas de feira, a tontura das curvas fechadas; no volante o motorista jovem.

– Adélcio.

Perguntei várias vezes enquanto caminhávamos até o estacionamento do aeroporto. Lembrei de uma maneira de se gravar um nome.

– Quantos minutos para chegar a Sete Lagoas, seu Adélcio?

– Está muito frio estes dias, seu Adélcio?

– O senhor pode desligar o rádio, seu Adélcio?

Saímos no outro dia bem cedo para Cordisburgo. A cidade do coração.

Existe uma cidade onde nosso coração se instala? Ou seria aquela onde depositamos sonhos de criança, esperando um outro que nos reconheça?

– O senhor é aquele ator da novela das oito?

Ajeitei os óculos escuros, abri a janela do carro, fotografei as nuvens.

As nuvens.

Nuvens que me abraçam, nuvens calmas, nuvens silenciosas. Elas queimavam ontem ao pôr do sol. Hoje sussurram segredos, provocam mistérios.

– A estação de trem defronte à casa de Guimarães Rosa.

Será por isso sua busca por outras paragens? Viajar abandonando a si para ser o outro? Na pele do personagem, a minguilim Polyana recita trechos, musica palavras.

– Somente na voz de um mineiro essas palavras brilham.

(Polyana pediu um autógrafo.)

Na venda de seu Fulô, encontro cavalinhos de madeira, bacias de alumínio em que minha avó Rita juntava as mangas-rosas e distribuía com os vizinhos; fazia suco, peito de velha – um picolé dentro de um saquinho comprido.

Visitei as bordadeiras. Comprei uma colcha para mamãe, uma colcha com palavras e imagens do Grande sertão: dali por diante poderia navegar nas veredas de outro João e não me cobrar visitas constantes enquanto papai viajava.

Os cupinzeiros, barro açúcar-e-canela à luz do sol, espalhados pelos campos

Nas estalactites vejo os castelos de areia ao contrário, quando pingávamos, eu e Paola, irmãos de carne e sangue, pingávamos areia e água do mar formando torres altíssimas de onde eu a salvaria de ogros e dragões de fogo. Paola ganhou o mundo na garupa de um vendedor de pulseirinhas e a última vez que soube notícias estava no Paraguai. Não houve Bolo de Casamento, nem o Véu da Noiva, feito de carbonato de cálcio, enquanto aquela em forma de Abóbora é de magnésio de ferro.

– Estamos num leito de rio.

Edson Alixandre.

– Há quanto tempo trabalha aqui?

– Ah, faz tempo com força.

(A força daquele olhar.)

– Não tem medo de ficar preso aqui embaixo?

– Não. É só pensar que cada gruta é uma janela.

Da janela do meu quarto no hotel, dá para ver uma das lagoas que são mais de Sete Lagoas. Posso caminhá-la sem pensar em Laura e na briga que tivemos no set de filmagem.

(A falta das palavras.)

Subindo à Curvelo, deparei com a igreja de São Geraldo e me perguntei por que não falo mais com meu pai. Diante da escultura em papel do Ecce Homo que o santo fez, faço-me uma promessa diante de anjos e querubins que um dia, diante daquele mesmo altar, traria a graça de ter meu pai de novo ao meu lado.

Gosto da comida mineira. Tutu, o feijão tropeiro, lingüiça, couve, carne de porco. Para rebater, uma boa cachaça. Doce de leite e queijo branco para tirar o sal da boca, depois café para tirar o doce, água para tirar o café; depois começa tudo de novo.

Corinto é árida, de uma falta de mel para adoçar meus lábios, verde para colorir os olhos, brisa para aquietar calor. Talvez aqui Riobaldo melhor crescesse. Riobaldo com suas inquietações. No deserto quando cai chuva nasce oásis; em Minas, buritizeiro.

Corri os olhos nas planícies e as árvores me enganavam em buriti quando eram na verdade árvores de coquinhos, ou a Barriguda, ou Ipês roxos, amarelos, vermelho cru.

– É preciso entrar na arte desarmado, sem artifícios.

Então não seria eu um artista, Cíntia? Não seria eu detentor da interpretação divina da Palavra?

Em Morro da Garça finquei o pé entre lágrimas, O recado do morro e o Cruzeiro dos Martírios.

– Daqui só saio se me abençoares!

E uma senhora bem velhinha, vestido branco, carvão na pele, largou panela e fogão à lenha para se declarar.

– Fui muito feliz aqui. Um moço feito o senhor, não devia de estar chorando. Pois eu larguei tudo só para ver essa belezura mais de perto. Olhe, eu me chamo Isabel de Zuína.

Nem me deu graça nem me reconheceu. Dali saí voltando com o seu Adélcio, a noite caindo rápida com as estrelas anunciando a lua cheia.

Lua cheia. Moeda dourada que se prateia e vem cantar

Não há

            Oh, gente

            Oh, não

            Luar como este

            Do Sertão

 

Na ida a Três Marias, pedi a Adélcio para dirigir. Ele me guiando, ele me dizendo o certo e o errado e de tanto ouvir decorei seus passos, ensinei seu nome.

A chapada. Os buritis. De um instante ao outro todo o mistério se revelava e o que era depois virou presente. As flores guardei para devolver a Laura que me disse antes quem realmente eu era e ainda nem sabia.

Fotos, fotos, fotos. E não dá para captar o meu sentimento de sertão.

– Não vai dar dez minutos e o São Francisco chega.

O mar doce. Pedi em nome do Pai que Ele me batizasse novamente: não acredito que tenho as coisas que desejo, mas tenho o meu desejo nas coisas. Sorri com o frio da água na nuca, os pés descalços, a calça jeans suspendida até os joelhos. De joelhos me refiz e o homem novo levantou-se das pedras e sobre as pedras edificou o seu caminho.

E se Manuelzão não quisesse me receber em Andréquicé? Um novo João a ele perguntava, para entre a barba longa suspirar-lhe algum segredo? Quicé de André, quiçá de Maria. Quem sabe do João que sabia que ele não sabia?

Buritis

_________________________________

* Patricia Gonçalves Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem 11 livros publicados e 5 no prelo. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE, 2015) e Doutora em Escrita Criativa (PUCRS, 2018). Ministra o Curso de Extensão Estudos em Escrita Criativa na Unicap. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br

** Texto publicado em Sonhos de Carnaval, 2009, Organização Cássio Cavalcanti.

*** Texto extraído de Vinte e um, Patricia (Gonçalves) Tenório, 2016, a ser relançado em novembro de 2019 em 7 por 11 pela Editora Raio de Sol.

**** Percorrendo o Circuito Guimarães Rosa – Minas Gerais. Texto extraído de Diálogos, Patricia Tenório, 2010, a ser relançado em novembro de 2019 em 7 por 11 pela Editora Raio de Sol.

 

Escrever ficção* | Luiz Antonio de Assis Brasil

Escrever ficção - Luiz Antonio de Assis Brasil

 

Além de vinte livros publicados, Luiz Antonio de Assis Brasil ostenta o mérito de ter alavancado o talento de alguns dos maiores autores brasileiros da contemporaneidade. Nesta espécie de manual para quem deseja escrever livros de ficção, ele registrou sua experiência ao longo de 34 anos ininterruptos de trabalho na Oficina de Criação Literária da Escola de Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e no programa de pós-graduação em escrita criativa da mesma instituição.

Ao adotar a perspectiva de um ficcionista que fala a outros ficcionistas, o autor apresenta ferramentas essenciais para a formação de um escritor. Assis Brasil foge das fórmulas prontas e ressalta o papel da leitura constante de obras literárias. São elas – e não apenas os teóricos e estudiosos da literatura – as grandes referências de seus cursos e deste guia indispensável, que contou com a colaboração de seu ex-aluno, o escritor e professor de escrita criativa Luís Roberto Amabile.

Com a premissa de que “ser ficcionista é exercer nossa humanidade”, título do primeiro capítulo, Assis Brasil aborda temas como a concepção dos personagens; o conflito na narrativa; o enredo e a estrutura; o espaço e o tempo; a focalização e o estilo da escrita.

Como conclusão, apresenta um “roteiro para a escrita de um romance linear”, espécie de guia para quem quer se lançar na empreitada que é criar uma obra de ficção de qualidade.

 

_______________________________

* Extraído da apresentação de Escrever ficção: um manual de criação literária. Luiz Antonio de Assis Brasil. Colaboração: Luís Roberto Amabile. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

** Luiz Antonio de Assis Brasil nasceu e vive em Porto Alegre. Foi violoncelista na orquestra sinfônica da sua cidade e posteriormente tornou-se professor universitário, escritor e, de 2011 a 2014, secretário da Cultura do Rio Grande do Sul. Fundou em 1985 aquela que é, hoje, a mais antiga oficina literária brasileira em atividade no âmbito acadêmico, que também deu origem aos prestigiosos cursos de graduação, mestrado e doutorado em escrita criativa na PUC-RS. É autor de Figura na sombra e O inverno e depois, entre outros títulos. Contato: http://www.laab.com.br/

Porto do tempo* | Chico Alves d’Maria**

Porto do Tempo

 

Olho para trás.

Amores, amigos, dores,

acenam do cais.

 

O tempo pousou bem ali,

descansa as asas.

 

Só uns segundos,

enquanto a inspiração não vem.

 

Vida breve

leve-me leve,

leve-me.

 

Que o tempo voa

e a morte,

por sorte,

nunca se atrasa.

 

Inteiramente

 

Metade de mim

sou eu – outra se esqueceu

que sou mesmo assim.

 

Há uma espera em mim,

que nunca alcança o fim.

Que se procura,

qual saudade sem cura.

 

Espinho que não cessa,

mordaça que não cala.

O gatilho e a bala.

 

Que só se deixa ver

pela porta entreaberta,

na cadeira vazia,

à meia-luz

na sala.

 

______________________________

IMG_9054

______________________________

* Poemas extraídos de Porto do tempo. Chico Alves d’Maria. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2019.

** Chico Alves d’Maria é o atual pseudônimo de Francisco Alves Filho, nascido em Areia Branca – RN, em 1955. É engenheiro, poeta, escritor, compositor, letrista, cantor e ator. Na literatura, estreou em 2016 com o livro de poesias Ancoradouros e, em 2017, lançou o livro de prosa denominado Contos de Areia. Agora, lança Porto do tempo, seu segundo livro de poesias.

Dois pequenos trechos de Moema Vilela*

A dupla vida de Dadá. Moema Vilela. Guaratinguetá, SP: Penaluz, SP, p. 16-17.

 

Relógio

Por cinquenta anos, o marido foi seu despertador, até o dia em que nenhum dos dois acordou.

 

Rodrigueana

As almas eram gêmeas, portanto os corpos gostavam da mesma coisa: a esposa do irmão dela.

 

Disco rígido

Perdeu o computador, ganhou uma namorada – que a técnica podia prometer sigilo e profissionalismo na recuperação dos dados do HD, mas não indiferença frente àquelas fotos.

 

Uma vida completa

Sim, teve o filho, o livro, a árvore, mas também a estricnina.

 

 

Guernica. Moema Vilela. 1ª ed. Porto Alegre: Edições Udumbara, 2017.

 

Maria

O vento despenteou o lago, entrou dentro do cardigã vermelho. Correu junto com o casal que brincava no píer como dois filhotes, avançando e recuando, rolando no gramado. O casal tinha pés  como tábuas soltas, desequilibrados, até que ele a levantou nos braços e girou. Maria se sentiu ventar: ela, sorriu no batom vermelho dentes brancos e uma covinha. Tinha dezesseis anos.

__________________________________

IMG_9055

__________________________________

* Moema Vilela é escritora e jornalista, doutora em Letras pela PUCRS. Autora de Ter saudade era bom (Dublinense, 2014), finalista do prêmio Açorianos. Publicou contos, poesias e ensaios em antologias e revistas brasileiras. Contato: www.moemavilela.com

Estudos em Escrita Criativa – Abril, 2019

Os Estudos em Escrita Criativa de Abril, 2019 na Unicap foram indescritíveis.

Desembarcamos de volta ao Brasil no Recife, Pernambuco, com a ukraniano-brasileira Clarice Lispector, desbravamos as Minas Gerais de Adélia Prado, Guimarães Rosa, e trouxemos do pampa gaúcho um dos pais da Escrita Criativa no país, Luiz Antonio de Assis Brasil, com o primeiro lançamento nacional do seu Escrever ficção.

E fomos brindados, mais uma vez, com textos maravilhosos dos nossos participantes.

O quarto encontro dos nossos Estudos, que acontece no próximo sábado 04/05/2019 na Unicap, teremos a honra de viajar para o Leste Europeu com Milan Kundera e Wislawa Szymborska, e de receber dois escritores maravilhosos para falarem do seu fazer-fazendo da Escrita Criativa. Geórgia Alves (PE) e Arthur Telló (RS).

Desejo uma boa viagem e leitura, grande abraço,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

________________________________________________

O tao de Beatriz

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

Frase: ‘Tudo havia passado, porque nada passa,  é agora que tudo é.”

SINOPSE

Beatriz é uma mulher madura que mora em Recife junto com sua filha Tita e as netas gêmeas, Bela e Flor,  vivendo um relacionamento conflituoso. Beatriz  é uma mulher madura que tem o costume de conversar com o livro aberto. Um dia ela observa que o livro tem uma com diferente e ao colocar a mão na página, descobre um portal que faz retornar ao passado. Faz algumas viagens, até que o livro escreve o final, não dando mais acesso para essas viagens. Beatriz tinha descoberto o segredo do agora.

Inicio :

Abre o livro, nele o desenho de Bodidharma e o pensamento sobre o agora…!isso me lembra aquela frase da Adélia Prado: Tudo havia passado, porque nada passa,  é agora que tudo é.”- pensa Beatriz.

Meio:

O livro

Faz 3 Viagens ao passado em tempos diferenciados.

O agora

Final:

Beatriz abre o livro naquela manhã, lê a frase escrita em letras douradas. O desenho do DARUMA que inicialmente estava com os olhos em branco, agora está preenchido. Ela compreende o ocorrido. Fecha o livro e respira o momento eterno.

 

 

Buscando o sentido da vida

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

 

 

Oh lume!

Oh luz sagrada!

Alumia o meu caminho

Já percorri estradas

Já Escalei montanhas

Sem nada encontrar

Cheguei a rios

Mas tive medo de mergulhar

Dancei cirandas fados  e tangos

Me perdi nos passos

Do eterno buscar

Fiz poemas

Escrevi dor

Fugi por ruas escuras

Com alma em brasa a me perturbar

Falei línguas, teci histórias

Deixei de falar

Me escondi de mim

Garimpei pelos caminhos

Pelos atalhos, rios, riachos

Buscando pedras preciosas e gema brilhante

Não pude alcançar

Parei de correr

Parei de andar

Olhei para dentro de mim

E encontrei a semente

Da flor de criar

 

EU CAÇADOR DE MIM

Inalda Dubeux Oliveira

Contato: inaldaoliveira@uol.com.br

 

A tarefa do curso de Escrita Criativa hoje era escrever,  em 15 minutos, uma síntese para um conto, mas o que me inspirou foi a música de Milton Nascimento e fiz a reflexão abaixo.

Caçador de mim: caçada interminável. A minha começou há 79 anos e não parece estar mais próxima ao “mim”. Cada etapa acrescenta uma nova camada a um núcleo multifacetado.

Comecei, como todos nós,  buscando “ser parte de”:  ser aceita, ser amada, pertencer. Para isso, achei que tinha que ser do jeito que os outros queriam: certinha, previsível, obediente, correspondendo a todas as expectativas.  O pronome que me regia era o PORQUÊ. Tudo tinha uma razão, uma explicação racional, pois se assim não me comportasse, não seria aceita. Durou algum tempo essa etapa, até a panela de pressão explodir. Briguei com tudo e todos. Acho que até chutei o cachorro!

Fui mudando e passei a perguntar PARA QUE, buscando minhas motivações. “É preciso necessidade para as coisas acontecerem” . Esta frase de Maria Adélia Prado foi importante nesta minha reflexão, pois ao perguntar “para que”, eu encarava meus sentimentos. Fiz análise, busquei me conhecer, e pouco a pouco, as coisas começaram a acontecer. Joguei fora muita tralha que carregava no meu barco de vida e passei a buscar novos valores. Fiquei mais leve, mais autentica. Passei a rir mais. Descobri a beleza de poder dizer o que quero de uma maneira cordial, que não fere os outros, mas que respeita minha forma de ser.  Continuo “certinha” em parte, pois o núcleo está lá, mas perdi muitos de meus medos.

Passei do “para que” para o “PORQUE NÃO?” Porque não iniciar um mestrado aos 58 anos? Porque não ir fazer um intercâmbio na França aos 73?  Por que não escrever algumas crônicas, mesmo não sendo escritora? Porque não encarar novos desafios?

E continuo buscando: continuo caçando meu “mim”.

Mas, como no meu percurso, descobri a importância do humor, quero terminar com uma anedota que remete ao tema.  Sou psicóloga e, como quase toda nossa categoria, somos chegadas a falar “psicologês” (palavra inventada por mim) quando nos encontramos. Uma vez, indo para um cinema com uma amiga engenheira, paramos na casa de uma psicóloga, pois era seu aniversário. Lá estavam várias outras psicólogas e o papo era “a busca da identidade”. Pra frente e pra trás, como todo o psicologês, que não acabava nunca. Ao final, impaciente, a engenheira perguntou: Por que tanta confusão? Não dá para fazer uma 2ª via?

Talvez, com a 2ª via, minha caçada termine.

 

Clarice, Betânia, Mary

– Quinze Minutos –

João Alderney

Contato: joaoalderney@hotmail.com

 

Assisti à entrevista de Clarice Lispector, creio que a última. Mulher verdadeira, profunda, talentosa, produtiva, criadora de acervo literário em poesia e em prosa que todos encanta, tantos apaixona, a despeito de ser pessoa simples, direta. Declara, na ocasião que receber estudantes em casa é prazer, alegria.

Não é ligada em fama, em glória, é ligada na vida.

Ex minha, obcecada pela escrita de Clarice, apaixonada pela literata precocemente encantada, contou-me certa ocasião sobre encontro casual da cantora Maria Betânia, em aeroporto, com a autora de A Hora da Estrela e, vibrante como é, quais seus fãs consigo, fez alarde ao chamar de “Minha deusa” e ajoelhar-se aos pés da ídolo, motivo de constrangimento e repulsa da escritora que tinha na discrição fundamento da personalidade.

Amo Clarice, amo Betânia, não sei fazer análise dessa cena. Espontaneidades não devem ser passíveis de julgamento.

Enquanto a diva de Restos de Carnaval diz, naquela entrevista, estar falando do próprio túmulo, lembrei de MaryElizabeth Frye que verseja: “Não chorem no meu túmulo, não durmo lá, nem tampouco me abrigo; sou brisa, trago o perfume da flor; sou brilho de diamante, sou luz do sol que germina a semente. Não parem lá, eu não morri.”

Mary falou por si, falou por Clarice, falou por Betânia, as três vivem, tornaram-se imortais!

 

Osmar Barbalho

Sinopse Vuco vuco

Contato: osmarbarbalho@gmail.com

 

Sinopse (de um conto)

Uma Rua que é um “vuco vuco”! (o mesmo que confusão, suruba)

Resumo

Uma Rua é o personagem. Ela é importante porque tem vida do início do dia ao final da tarde. Uma Rua ocupada por vendedores  ambulantes. Muitos camelôs. Se vende de tudo. Água Mineral, roupas íntimas, amoladores de tesouras, produtos chineses e acessórios para celular. E muito mais… Uma pessoa homem sai as 5h da sua casa longe dessa Rua. Ele tem de chegar, ir no depósito onde estão guardados os seus produtos e chegar cedo na rua para ocupar o seu  espaço. A Rua não está em nenhum guia. Mas ela é intensa, porque outros fazem o mesmo movimento. Durante o dia o personagem trabalha gritando o que vende. Se aborrece com seus vizinhos. Ele vê pessoas, muitas pessoas passarem pela Rua para irem ao Mercado de São José, comprar sulanca ou ir tomar a bênção de São Félix na Penha (Basílica da…). Vive o ciclo do dia que acaba quando não existe mais ninguém na Rua. Às vezes sai vitorioso porque vendeu, apurou! Às vezes irritado porque não vendeu nada!

Em tempo: esta Rua é a Tobias Barreto, fica no bairro de São José cortando o Camelódromo, uma de suas extremidade é a Casa da Cultura e a outra é a Rua das Calçadas.

 

__________________________________

 

Recife, 06/04/2019

PHOTO-2019-04-06-12-20-53 (2)

PHOTO-2019-04-06-12-20-53 (1)

PHOTO-2019-04-06-12-20-51

PHOTO-2019-04-06-12-20-48

PHOTO-2019-04-06-12-20-46

Foto João Alderney

Escrita Criativa

 

Olha onde se entrosou João Alderney

em meio à estrelas da literatura

mas, há planaltos e planícies, sei

estava lá em busca de cultura.

 

O Assis Brasil, o Carrero, a Patrícia

a fina flor da Escrita Criativa

não se pode perder a hora propícia

nem desdenhar da energia impulsiva!

 

Salve! Oh, bons mestres, vivas e carinho

o intrínseco mister de vossas almas

traz tesouros imersos. É o caminho

do nascer de outros astros. Haja palmas!

 

Obrigado, queremos lhes dizer

satisfeitos, sinceros, com prazer!

 

João Alderney, 2019.

 

Próximo e último encontro dos EECs 2019

Cartaz A3 e Banner_PAlegre