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Índex* – Março, 2019

Hoje

A noite nasceu

Para mim

As estrelas

Enfeitam os

Meus cabelos

Os cometas

Tecem o

Meu vestido

E a lua

Brilha cheia

Inteira

Na imensidão

Dos meus sentidos

 

Hoje

O dia nasceu

Para mim

E o meio-dia

As cinco horas

O pôr-do-sol

Me avisando

Que nem tudo

Está perdido

Que ainda

Tenho a mim mesma

Inteira

Na imensidão

Dos meus sentidos

(“Decidi por mim”, Patricia Gonçalves Tenório, 23/03/2019, 06h51)

 

A imensidão da Escrita no Índex de Março, 2019 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa – Março, 2019 | Com Bernadete Bruto (PE), Elba Lins (PB/PE), João Alderney (PE), Maria Eduarda Fernandes (PE), Osmar Barbalho (PE), Raldianny Pereira (PE), Talita Bruto (PE).

O MEU PÉ DE HORTELÃ | Cilene Santos (PE).

Agradeço o carinho e a participação, a próxima postagem será em 28 de Abril, 2019, abraço grande e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index*, 2019

 

Today

The night was born

For me

The stars

They adorn

My hair

The comets

They weave

My dress

And the moon

Glows full

Entire

In immensity

Of my senses

 

Today

The day was born

For me

And the noon

The five o’clock

The sunset

Let me know

That not all

It’s lost

That still

I have myself

Entire

In immensity

Of my senses

(“I decided for myself”, Patricia Gonçalves Tenório, 03/23/2019, 06:51 a.m.)

 

The immensity of Writing in the Index of March, 2019 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Studies in Creative Writing – March, 2019 | With Bernadete Bruto (PE), Elba Lins (PB / PE), João Alderney (PE), Maria Eduarda Fernandes (PE), Osmar Barbalho (PE), Raldianny Pereira (PE) and Talita Bruto (PE).

MY MINT FOOT | Cilene Santos (PE).

Thank you for the affection and participation, the next post will be on April 28, 2019, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A noite e o dia na Escrita de si mesmo. The night and the day in Writing  of yourself.

 

Estudos em Escrita Criativa – Março, 2019

Nos Estudos de 16 de Março de 2019, mergulhamos nas águas de Sophia de Mello Breyner Andresen, nas profundidades de Fernando Pessoa, no fado do Madredeus, nos azuleijos, culinária, literatura, poesia portugueses. Visitamos a cidade do Porto, Sintra, Lisboa, e colhemos jardins de poemas, pérolas-frases de reflexão metafísica, e técnicas de Escrita Criativa extraídas dos livros estudados.

Recebemos os tão caríssimos escritores de Recife (Robson Teles) e de Porto Alegre (Moema Vilela) e os seus processos criativos.

Fomos agraciados, mais uma vez, com textos de altíssima qualidade literária dos participantes e que oferecemos a vocês que acompanham os nossos Estudos em Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico, na Universidade Católica de Pernambuco, a Unicap.

E no próximo sábado, 06 de Abril de 2019, teremos mais um encontro que, tenho certeza, será maravilhoso. Iremos viajar pelo Brasil, com Clarice Lispector, Adélia Prado, Cida Pedrosa (PE) e Luiz Antonio de Assis Brasil (RS) – com o lançamento do seu Escrever ficção, o grande manual de Escrita Criativa no país.

Excelentes leitura e início de semana,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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PARA UMA MARIA EM MARÇO

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

“Fiz de mim o que não pude e o que poderia fazê-lo, não o fiz”… A frase perseguia aquela jovem. Achava bonita e ao mesmo tempo dolorida, soando lá no fundo, como um aviso.   Lembro bem a primeira vez que entrou em contato com o poema. Poema que nunca mais a deixou… A frase pronunciada para si em cada fase da vida, como se alguém lhe sussurrasse perto do ouvido instigando a viver. “Fiz de mim o que não pude e o que poderia fazê-lo não o fiz.”…

Hoje, sentadas na beira do mar, observo a senhora trabalhando em seu quadro. O jogo de tintas à disposição, a escolha das cores. As pinceladas vigorosas pintam toda uma história capturada, cheia de cores! Repleta de nuances como este mar. Mar que contemplo, sentindo no ar respirado uma existência inteira. O quebrar das ondas me transporta para longe, num passeio a milhares de eras. Passeio por vários lugares chegando sucessivamente em todos os portos desses mares já navegados.

Volto à praia. Olho para ela, a pintora de vida, ali, inteira, imersa em seu trabalho, enquanto o som do mar nos acompanha. No quadro de cores fortes e vibrantes, a prova concreta do quanto já realizou nesta existência. Fecho o livro de poemas aconchegado ao colo e sorrio. Justamente no mês dedicado à mulher desvendo uma delas – entre tantas – que fez tudo o que poderia fazer na vida e está feliz! Que assim seja para todas um dia.

 

DE SOPHIA, DE PESSOA E DE MIM

ELBA LINS

Contato: elbalins@gmail.com

 

Quem sou eu?

Nada!

 

Nada do que me dizem

Nada do que sinto

Pode me definir

Sou luz

Sou cor

Sou mar bravio

Sol forte

Que me levanta da cama

A cada dia

Sou nada

Sou apenas sonho

Que por vezes me queda

Na janela perdida do meu quarto

Quando penso nas viagens todas

Que podia fazer

Mas que se perdem

Na minha impossibilidade…

De levantar da cama e agir

Que se perdem no meu medo

De fluir

 

Quem sou eu?

 

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso tenho em mim todos os sonhos do mundo.(*)

 

Eu sou inclusive

Sonhos de mar

De azul

De navegar

Em ondas bravias

E me agarrar

Nas crinas brancas das ondas

E me deixar levar

Ao desconhecido em mim.

 

(* F. Pessoa – Álvaro de Campos em Tabacaria)

 

 

O MAR DE POETAS

– QUINZE MINUTOS –

João Alderney

Contato: joaoalderney@hotmail.com

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, a poeta portuguesa que conheci hoje nas palavras e na admiração de Patricia Gonçalves Tenório, deixou-me ansioso, ainda hoje quero conhecer um pouco mais, pesquisar a vida dela, ler a poesia que tanto entusiasma minha mestra de literatura. Quero ver, especialmente, como a lusitana consegue falar, em todos os poemas que cria, desse componente da natureza que todos amamos, o mar.

Quero ver se traz passagens poéticas como aquela do conto do literato uruguaio Eduardo Galeano, descrevendo o garoto Diego que morava do lado da montanha oposto ao oceano, mas o pai, pobre e atarefado, não podia atender ao pedido dele, para levá-lo a conhecer essa maravilha do planeta. Nada como um dia atrás do outro, até que chega o momento que Santiago lhe diz: Amanhã cedo te levo pra ver o mar, filho. Depois de muita caminhada, surge a imensidão azul de água à frente dos olhos do menino. Tal foi o deslumbramento, tal foi o fulgor sentido que o pequeno ser ficou mudo, da beleza. E quando finalmente conseguiu falar, trêmulo, gaguejando, pediu: “Pai, me ajuda a olhar!”

Cantador de viola, o cearense José Pretinho após apanhar feio do também poeta popular, o piauiense Manoel Vieira Machado, em décimas, no esquema de rimas abbaaccddc, do martelo agalopado, versos decassílabos, onde os pés, ou tônicas, caem nas sílabas métricas 3, 6 e 10 (exemplo: o meu barco trilhava mar sereno), voltou para Fortaleza e sentou-se, ainda pesaroso, para contemplar a Praia de Iracema, observou o movimento das ondas do mar, comparou o marulho ao som dos cavalos em galope e, para obter o que melhor os traduzia, valeu-se dos versos hendecassílabos no ritmo 2, 5, 8 e 11 (exemplo: amei tua voz, Clara Nunes, princesa) para criar o galope à beira-mar, excelência de canto, igualmente em décimas e mesmo esquema rímico. Esses repentes dos cantadores têm, ainda, “cantando galope na beira do mar”, como último verso, condição que permite parcas exceções, não inclusa a palavra mar, imprescindível. Criado o novo cântico, desafiou o algoz piauiense e devolveu a pisa, em dobro.

Agora me pergunto, quem amaria mais o mar? A poeta do Porto ou o menestrel nordestino? Acredito que esse jogo vai dar 1×1. Empate na cabeça!

 

O MAR

Maria Eduarda Fernandes

Contato: mefernandesdemelo@gmail.com

 

Da primeira vez que (lembro) botei os pés no mar, fui queimada por uma água-viva. Me recordo tão pouco daquele dia, naquela praia distante que não sei o nome, com um pai que não vejo há anos e uma irmã que, disseram, se formou em Direito mês passado.

Daquela água-viva, lembro bem. Era rosa e roxa, parecia um brinquedo, e por isso quis levá-la comigo. A dor foi imediata e o choro também. Naquela época, uma vida inteira atrás, meu pai corria quando eu gritava, com a preocupação de quem nunca iria embora. Por horas tentaram me acalmar, mas eu sabia que a dor nunca ia passar e pedia, do alto dos meus oito anos e com absoluta certeza já sabendo o que era melhor pra mim, que cortassem meu braço fora.

Mas a dor passou e deixou apenas a bolha da queimadura, marca que por semanas exibi com orgulho, atrelada à incrível história da menina que, sozinha, lutou contra o bicho esquisito da praia sem derramar uma lágrima.

Por anos, tive medo do mar e, quando finalmente o visitei novamente, não estava sozinha e a água salgada não foi a única coisa estranha que senti no meu corpo. Levei anos para me recuperar do que aconteceu, do que começou ali e terminou anos depois no quarto de hóspedes daquela casa de praia. Mas hoje, com ele longe e parte das pessoas que me viram crescer me acusando de arruinar a reputação de um bom homem, decidi fazer as pazes com o mar.

Cautelosamente, finquei os pés na areia com a certeza de que não sabia o que estava fazendo e fui hipnotizada pelas ondas quebrando, chegando sem pedir licença, fazendo um estardalhaço e agonizando, para enfim morrerem nas minhas pernas. Já eu fiz o caminho inverso: por tanto tempo morri, agonizei e agonizo, mas levantei e fiz barulho, passei derrubando quem estivesse na minha frente e quisesse me impedir de virar oceano.

Olhei de novo o mar, como se buscando coragem para me molhar. Mas lembrei que ondas não precisam provar nada para ninguém. E para mim, já me provei há muito tempo.

Virei as costas e fui embora. Sempre preferi piscina, mesmo.

 

1 É 2 3 É 5

Osmar Barbalho

Contato: osmarbarbalho@gmail.com

 

Todo dia. Seja por volta das 10 horas ou no final da tarde lá pelas 4 horas. Ele fica no início da ponte ou no final. Tanto faz. 1 é 2 3 é 5! Ele não para de repetir. Quando vem um grupo ele dispara: 1 é 2 3 é 5! De início você não entende o que significa 1 é 2 3 é 5!. Mas ele não para. 1 é 2 3 é 5. A medida que ele diz 1 é 2 3 é 5, seus olhos procuram outros olhos desatentos. Quando seu olhar encontra o olhar de alguém, aí ele diz enfático: 1 É 2 3 É 5! E num gesto, ele oferece o produto: um Cola Rato. 1 Cola Rato é 2 reais, 3 Colas Rato são 5 reais. Tem gente que compra. Mesmo vendendo ele não para. 1 é 2 3 é 5! Sempre em busca de um olhar. Sempre em busca de uma venda. Ele tá lá todos os dias. No início ou no final da Ponte da Boa Vista. 1é 2 3 é 5! Repete, repete, repete!

 

PARA SOPHIA

Raldianny Pereira

Contato: raldianny.pereira@gmail.com

 

Você me foi apresentada em outubro de 2016 quando assimilava uma grande e recente perda: a finitude da vida do meu amor. A encontrei tardiamente, considero. Mas antes tarde do que mais tarde. Tratava-se de um encontro científico, e não nego minha surpresa por você estar ali, num ambiente tão pouco afeito aos sentimentos e à poesia. Não nego também minha imensa felicidade por nosso encontro.

Quis logo saber quem era que tão profundamente conhecia minha alma. Era “poeta do outro lado do mar” e já não mais na mesma dimensão da minha existência. Fiquei triste. Não poderia alimentar o sonho de falar-lhe, abraçar-lhe, ter meus olhos nos teus. “Mas reconheço a sua voz há muitos anos. E digo ao silêncio o seus versos devagar”, de olhos fechados, desde então:

Escuto mas não sei

Se o que ouço é silêncio

Ou deus

 

Escuto sem saber se estou ouvindo

O ressoar das planícies do vazio

Ou a consciência atenta

Que nos confins do universo

Me decifra e fita

 

Apenas sei que caminho como quem

É olhado amado e conhecido

E por isso em cada gesto ponho

Solenidade e risco

(“Escuto”, Sophia de Mello Breyner Andresen)

 

 

Talita Bruto

Contato: talitabruto@gmail.com

 

Assim. Calados pensamentos.

Passando, sussurrando no toque.

Quanto tempo.

Correu. Em fim.

Olhos sob o verde olhar.

O azul

e branco

do céu

não se assustam pelo toque.

Luzia, luzia admirada.

Caindo sede aguada.

A face que roda

(redemoinho)

a fechadura.

E pisca atenção

ao que achou e viu, encantou.

E foi. Embora…já esteja

instante

onde sempre

fluiu

de dentro

o azul

e branco

do céu

norteando…

firmando…

se diziam isso,

ela quem ouvia.

 

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Sala de imprensa:

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Próximos encontros:

Cartaz A3 e Banner_PAlegre

O MEU PÉ DE HORTELÃ | Cilene Santos*

Vez ou outra, vou à feira livre. Gosto de ver o colorido das frutas, das hortaliças e o branco da goma de tapioca, que mais parece um monte de neve. Na última vez em que estive lá, comprei um maço de hortelã miúda, cujas raízes foram preservadas pelo vendedor. Chegando a casa, resolvi salvar aquela plantinha. Em uma caqueira, fofei a terra e plantei aquele ser, supondo que ainda houvesse vida. Aguei com cuidado. Coloquei na varanda e aguardei. Cheguei até a esquecer a minha plantação.

Numa tarde chuvosa, em um daqueles momentos em que a gente acha tudo uma chateza e procura o que fazer, peguei um livro e deitei na rede. Iniciei a leitura.

De repente, a personagem principal (descobri no caminhar da leitura) fala que havia tomado um “chazinho de hortelã” para curar a insônia. Olhei rápido para a caqueira ao lado, onde plantara as raízes. Surpresa e satisfação! Não é que haviam brotado algumas folhinhas de minha hortelã! Que alegria senti!  Passado o momento, me perguntei: como um fato tão corriqueiro me trouxe tanto prazer, em meio a um mundo cheio de tecnologia, inventos e eventos científicos?

Bem, dei um carinho à plantinha, coloquei água e retirei alguns talinhos, que não sobreviveram. Agora, sou proprietária de um pé de hortelã miúda. Colho folhinhas e faço chá, sucos, acompanhados de frutas, coloco na salada e saboreio feliz.

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* Contatocilenecaruaru2013@gmail.com