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Índex* – Fevereiro, 2019

Sobreviver

Passar pelo umbral

Das coisas

Dos acontecimentos

E não me sentir

 

Viver

O instante como se fosse

O último

O filho como se nascesse

Agora

O dia como se morresse

Em um segundo

 

Amar

Mesmo que não receba

Ainda que não se acabe

Apesar da vida inteira

E ao outro não poder

Tocar

(“Ainda”, Patricia Gonçalves Tenório, 02/02/2019, 05h11)

 

O ainda sem fim do processo criativo no Índex de Fevereiro, 2019 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa – Fevereiro, 2019 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Diversos.

Margaridas descalças | Alcides Buss (PR – Brasil).

Dois textos de Cilene Santos (PE – Brasil).

Fogo, terra, água e ar | Mara Narciso (MG – Brasil).

Agradeço a atenção e o carinho, a próxima postagem será em 31 de Março, 2019, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* Februrary, 2019

Survive

Go through the threshold

Of things

Of the events

And I do not feel

Lonely

 

Live

The instant as it were

The last

The son as if born

Now

The day as if it died

In a second

 

Love

Even if you do not receive

Even if it does not end

Despite a whole life

And the other can not

Touch

(“Still”, Patricia Gonçalves Tenório, 02/02/2019, 05:11)

 

The endless still of creative process in the Index of February, 2019 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Studies in Creative Writing – February, 2019 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Several.

Barefoot Daisies | Alcides Buss (PR – Brasil).

Two texts by Cilene Santos (PE – Brasil).

Fire, earth, water and air | Mara Narciso (MG – Brasil).

Thank you for the attention and the affection, the next post will be on March 31, 2019, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Flanando por Londres, a língua inglesa e a Escrita Criativa… Flanking in London, the English language and Creative Writing…  

Estudos em Escrita Criativa – Fevereiro, 2019

Realizamos um sonho.

Quando, em agosto de 2016, cursando como ouvinte e aluna especial o doutorado que defenderia em outubro de 2018, conversava com Bernadete Bruto e Elba Lins sobre o encantamento que sentia em relação à Escrita Criativa em ambiente acadêmico, não imaginávamos que, quase três anos depois, navegaríamos tantos mares, alcançaríamos essa praia, sentiríamos os grãos de areia dos versos e contos gestados pelos participantes durante o primeiro encontro dos Estudos em Escrita Criativa 2019 na Unicap.

Passeamos por Londres e a língua inglesa, pelo universo distópico de Margaret Atwood, Aldous Huxley; sorvemos a Beleza e a Verdade de Emily Dickinson, John Keats; começamos pelo fim do conto, do poema com Edgar Allan Poe. E fomos brindados com os processos criativos desses escritores/poetas maravilhosos das cidades queridas Recife e Porto Alegre, Elba Lins e Bernardo Bueno.

Prometemos mais. Cumpriremos mais. Em março, navegaremos com nossos pais portugueses, nas cidades e nos escritores, poetas, artistas lusitanos.

E quem sabe esteja mais próximo do que imaginamos a Escrita Criativa da PUCRS na cidade do Recife…

Abraço bem grande e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Os textos:

 

A  DEUS, OS SONHOS

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

ADEUS MEU SONHO

DE SEMPRE

CRIAR UMA VIDA

A MIM ENSINADA

DE CERTA FORMA

A CENA

COMO NUMA FOTOGRAFIA

ENQUADRADA

 

ADEUS AQUELE SONHO

ANTIGO

ANCESTRAL

REPETIDO

PELA HISTÓRIA CONTADA

DE BOCA A BOCA

REPASSADA

 

ADEUS AO PASSADO

HÁ UM TEMPO

A UM SONHO INCUTIDO

AGORA SOFRIDO

ADEUS

AO QUE NÃO FAZ MAIS SENTIDO

ADEUS, SO LONG, FAREWELL

E ENTREGOU

A DEUS, OS SONHOS

 

DESCONSTRUÇÃO

ELBA LINS 

Contatoelbalins@gmail.com

 

Ela suportou tudo com bravura,

A cada dia passei a respeitá-la…

Ela não era mais, a aia, a serva, a mulher ao meu dispor.

Ela, era brava

Admirável

Queria agora ficar com ela, tê-la junto a mim…

Mais tarde lhe diria isto.

 

Eu teria que reverter a situação atual, pois

Hoje, depois de muitos meses, recebemos a notícia reveladora

A notícia que esperamos tanto:

Ela estava grávida

Enfim teria o filho meu.

Desrespeitando todas as regras, corri para lhe falar.

Parei ao pé da porta,

Imaginei que estava ao banho,

De fora, ouvia os pingos d’água que lavaram seu corpo, caindo lentamente.

Cada pingo que caía, eu escutava e sabia estar mais próxima a hora

De ver frente a frente o fruto gerado.

 

E de repente ouvi/senti

Algo escorrer por baixo da porta

Algo viscoso

Algo vermelho

Algo que trazia junto de si

O que antes fora vida,

O que antes, alimentara,

O filho meu.

 

DE TRÁS PARA A FRENTE, DE FRENTE PARA TRÁS

Helena Bruto

Contatohelenabruto@gmail.com

 

DE FRENTE PARA TRÁS

 

– Quão bom é saber que tudo valeu a pena.

– Que felicidade é se encontrar no ponto final, olhar para trás e agradecer os ensinamentos do caminho.

– Agora tenho certeza!

– Não do passo adiante, mas daquilo que percorri. O destino é mais fácil de se entender quando muito foi vivido; quando se olha para trás e se vê as formas dos próprios passos.

– Por isso, não sofro mais com o futuro…

– Agradeço ao passado, aproveito o presente, sorrio e dou um passo adiante.

 

DE TRÁS PARA A FRENTE

– O que o futuro guarda para mim?

– Tenho medo. O caminho parece escuro e não sei o que me espera. Será que vai se abrir para mim? Será que conseguirei iluminá-lo, ou irei sucumbir?

– Tenho dúvidas…

– Não sei o que se encontra na minha frente, gostaria de poder enganar o tempo para saber o meu destino e, assim, tranquilizar o presente.

– Como é difícil não saber! Como é difícil se mover!

– Na falta de certezas, encontro abrigo na coragem. Com medo estampado no rosto, dou o primeiro passo e vou com fé.

 

ANÚNCIO NO JORNAL

João Alderney

Contatojoaoalderney@hotmail.com

 

Leio anúncio no jornal, logo cedo, sobre curso de Escrita Criativa e penso que é boa oportunidade de aprender mais sobre o assunto. O simples relacionamento com pessoas com o mesmo propósito já é enriquecedor.

Faço outras coisas da rotina da vida, inclusive convidar minha filha caçula pra fazer o curso comigo. À tarde, lembro do anúncio, vou pro computador fazer a inscrição, já estava esgotado. Que pena. Envio e-mail para a líder, Patrícia, informando e desejando sucesso, ela o retorna com entusiasmo e simpatia, isso só aumentou meu interesse. Ainda deu esperança que poderiam surgir vagas, e, se fosse o caso, eu seria avisado na semana seguinte. Ah, que bom se acontecer, pensei.

Aconteceu. Recebi e-mail de Miguel, informando, disse que surgiram quatro vagas, que eu me apressasse e que a inscrição teria que ser presencial. Mesmo sendo incorrigível descansado, tentei me apressar e consegui fazer a inscrição com o simpático Miguel que me informou que eu estava preenchendo a última vaga. Ufa.

Já na primeira aula vi que o entusiasmo de Patrícia é ainda maior do que eu pensara. Ah, isso vai dar bons frutos, salve!

 

 

Maria Eduarda Fernandes

Contatomefernandesdemelo@gmail.com

 

De todas as palavras que conheço, alguma tem de haver para explicar isso que sentimos todos os dias. Para explicar como acreditamos ser normal nos perdermos pelo meio do caminho, deixando pedaços de nós no trânsito da segunda-feira, na reunião da terça, nas quatro únicas horas de sono da quarta, no bar da quinta que a gente, exausto, só foi porque precisava provar para si mesmo que aguentava um pouco de vida no meio dos dias.

Alguma coisa tem que explicar o sumiço dos nossos interesses, o leitor assíduo que só abre livros no final de semana, o amante de música que não vai para shows, o enólogo que bebe o mesmo vinho há seis meses porque só consegue passar naquela loja por cinco minutos entre uma missão diária e outra.

Alguma expressão, palavra, ditado, momento, situação, história, reflexão precisa me explicar porque eu me perco de mim toda segunda-feira e só me encontro, eu, a quem eu tanto amo, dois dias na semana, e mal tenho tempo de contar a mim mesma tudo o que mudei enquanto estivemos longe.

 

Clichê, de Osmar Barbalho

Contatoosmarbarbalho@gmail.com

 

A primeira vez que eu a vi, Ela me chamou a atenção. Ela não era bonita. Mas a sua cara era pura tesão. Ao lado do Restaurante Leite, Ela e outras fazem ponto para vender e provocar emoções a quem quisesse pagar. Ela era diferente. Seu rosto é o que o IBGE chama de pardo! Pardo…? Ela tem os olhos pretos que quando olham para um possível cliente intimida de pronto. Eu acho Ela uma princesa. Um sorriso que sempre propõe alguma coisa. Sua boca tem os lábios grossos, carnudos e sempre tem um batom vermelho VERMELHO. Seu cabelo é curto, acho que é de chapinha. Mas o que chama atenção é o seu andar. Ah, isso chama. Todos os homens olham! “Quanto custa o programa?” pergunto. Ela diz. Não entendo. Ela repete: “…o quarto é quinze rial…” e o “…dela é trinta e cinco…”. “Tem de pagar antes.” Ela diz, “…nunca lhe vi por aqui…”. A partir desse dia, desse contato, sempre eu a via. E ficava imaginando coisas…!

 

Viagem inominável

Raldianny Pereira 

Contatoraldianny.pereira@gmail.com

 

Vivo em Shangri-la. Meu amor sempre assim designou nossa terra, nosso chão, nossa morada. Recém-chegada àquele lugar tecnológico, espantei-me com a multidão captada e cooptada por uma pequena tela. Inertes. Também inertes estavam os seres dentro daquela tela. Apenas um ser agia. E agia tão espantosamente inerte que o pavor visitava e apenas uma voz saia timidamente daquela imagem de horror. Horror. O horror em mim, visitante neófita e desavisada, vinda de Shangri-la, o horror atormenta minha alma deste então, desde aquele cartão postal desta viagem inominável. O horror não sai de mim. O horror de uma morte transmitida por aquela tela. O horror provocado por aqueles que fazem daquela tela, e do horror da morte transmitida por ela, seu meio de vida. Inertes. O ser humano é um bicho muito frágil, apesar de achar-se forte. Mata-se um ser humano muito facilmente. E muito rapidamente, em pouco mais de um minuto, no máximo três. Sem fazer força alguma. Dizia a tela. Inerte. Diziam na tela. Inertes. E não me sai da cabeça a horrenda, a terrível imagem daquele pobre menino pobre cujo peito foi deliberadamente sufocado pelo peso do peito de outro ser humano, um segurança de um supermercado. Segurança de quê? Segurança de quem? Não sei dos detalhes que não justificam um assassinato. Não me interessam. Mas tenho certeza. Tratava-se de um faminto. Um faminto, faminto de justiça que sucumbiu à força da segurança e do segurança. Vivo o horror do rosto inerte do garoto morto. Jovem. Muito jovem. Quantos anos terá resistido a esta vida? Mais horrível ainda a imagem do rosto inerte do segurança assassino. Terrível. Quisera jamais ter visto esta imagem. O horror do rosto inerte dos seres que assistiram no local do crime àquela morte infame. A inércia cúmplice nos rostos que não vi, mas visualizei nos passos fardados de outros seguranças assassinos. Penso no garoto pobre. Penso na mãe do garoto pobre. Penso na pobre mãe do segurança assassino. Penso no horror dessas cidades tecnológicas que me trouxeram este horror. Penso que gostaria muito que esta fosse apenas uma história inventada. Mas eu não criaria uma história de assassinato. Muito menos a história de um garoto assassinado diante das telas asfixiado por um segurança, corpo a corpo, peito a peito, rodeado por olhos, bocas, mãos, pernas, corpos, almas inertes. E penso… vou voltar para Shangri-la. E gostaria que Shangri-la se fizesse para toda gente.

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Unicap, 16/02/2019

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Sala de imprensa

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Diário de Pernambuco, coluna Opinião, 23/01/2019

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Jornal do Commércio, 05/02/2019

Próximos encontros:

Cartaz A3 e Banner_PAlegre

Margaridas descalças | Alcides Buss*

As cidades são sujas e barulhentas,
mas têm lugares limpos e agradáveis.
Com sorte, encontram-se flores vivas
e seu perfume.

Não se atire sempre ao pessimismo.
Manhãs douradas ainda existem.
Você as tem, muitas vezes,
porém raramente as vê.

Procure a sua enquanto é tempo
e dela faça o antídoto
secreto, inviolável, contra todas as mortes
que, visíveis ou invisíveis, impermeabilizam
os cinco sentidos.

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* Contatos: http://www.alcidesbuss.com/ e alcides-buss@hotmail.com

Dois textos de Cilene Santos*

O HOMEM

01/02/2019

 

Em frente à minha casa

Passou voando um pássaro

Passou um gato

Passou um cão

Não deixaram rastro

Passou um homem

Ficou uma casca de banana

Tomei a casca coloquei no lixo

E fiz um poema.

 

O MEU PÉ DE HORTELÃ

03/02/2019

 

Vez ou outra, vou à feira livre. Gosto de ver o colorido das frutas, das hortaliças e o branco da goma de tapioca, que mais parece um monte de neve. Na última vez em que estive lá, comprei um maço de hortelã miúda, cujas raízes foram preservadas pelo vendedor. Chegando a casa, resolvi salvar aquela plantinha. Em uma caqueira, fofei a terra e plantei aquele ser, supondo que ainda houvesse vida. Aguei com cuidado. Coloquei na varanda e aguardei Cheguei até a esquecer a minha plantação.

Numa tarde chuvosa, em um daqueles momentos em que a gente acha tudo uma chateza e procura o que fazer, peguei um livro e deitei na rede. Iniciei a leitura.

De repente, a personagem principal (descobri no caminhar da leitura) fala que havia tomado um “chazinho de hortelã” para curar a insônia. Olhei rápido para a caqueira ao lado, onde plantara as raízes. Surpresa e satisfação! Não é que haviam brotado algumas folhinhas de minha hortelã! Que alegria senti!  Passado o momento, me perguntei: como um fato tão corriqueiro me trouxe tanto prazer, em meio a um mundo cheio de tecnologia, inventos e eventos científicos?

Bem, dei um carinho à plantinha, coloquei água e retirei alguns talinhos, que não sobreviveram. Agora, sou proprietária de um pé de hortelã miúda. Colho folhinhas e faço chá, sucos, acompanhados de frutas, coloco na salada e saboreio feliz.

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* Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

Fogo, terra, água e ar | Mara Narciso*

Quando há fúria da natureza fala-se em revolta dos elementos. Os filósofos da Grécia antiga acreditavam que a matéria provinha dos quatro elementos fogo, terra, água e ar, que neste ano encontram-se revoltados com os maus tratos impetrados ao planeta. A destruição está cobrando um preço mais alto do que podemos pagar. A Terra, nosso Domo Azul, o único lugar onde podemos viver vem sendo destruída desde a revolução industrial.  A água é o bem em maior risco, pois dos 7,6 bilhões de pessoas (população mundial em outubro de 2017), uma em cada três não tem água potável, no entanto continuamos contaminando nossos mananciais.

Em cinco de novembro de 2015 a Barragem de Fundão de rejeitos de mineração da empresa Samarco em Mariana, na microrregião de Ouro Preto, se rompeu e tirou do mapa o Distrito de Bento Rodrigues. Matou 19 pessoas, vegetação, animais, solo, Rio Doce e mar do Espírito Santo. Em Minas, a catástrofe macabra ambiental, fluvial, marítima, animal e humana recebeu músicas de protesto, com deslocamento de legiões de ambientalistas, hoje chamados de xiitas, radicais e contrários ao “progresso”, coisa que desconheço o que seja. A ganância falou altíssimo. O minério se foi, os rejeitos ficaram. O campo de guerra está lá. Não aconteceu a justa reparação.

Os desastres anunciados causam indignação, reportagens, músicas, poemas e crônicas. São 717 represas de rejeitos tóxicos no Brasil, com conhecido potencial exterminador, especialmente no verão. Em Brumadinho, Minas Gerais, a revolta da terra, não, da lama, se repetiu. As perícias revelaram, em princípio, indícios de descaso. Engenheiros da Vale confessaram pressões psicológicas para dar pareceres técnicos favoráveis, afirmando ser o rompimento daquela barragem de amplo poder de destruição, mas com baixo risco de ruptura. Rompeu no dia 25 de janeiro de 2019, matando 322 pessoas. Foram encontrados 157 corpos, e mais 165 estão soterrados, a maioria homens jovens, fato chorado amplamente. Parte da Mata Atlântica foi destruída. O Rio Paraopeba está morrendo. A lama contaminada por metais pesados caminha em direção a Represa de Três Marias. Especula-se se terá capacidade de reter o material tóxico e fatal para todos os tipos de vida e evitar que chegue ao Rio São Francisco. E que a palavra tragédia não perca seu sentido fantasmagórico e literal pelo excesso de repetição.

Na noite de seis de fevereiro de 2019 aconteceu uma chuva torrencial no Rio de Janeiro, com ventos de 110 km por hora. Matou sete pessoas e derrubou mais de 200 árvores. Meteorologistas afirmaram ter sido uma tempestade de verão. A pista da ciclovia Tim Maia, inaugurada em janeiro de 2016, e que já desabou em três locais, tem sua demolição cogitada. Na primeira vez uma super-onda, não prevista pelo projeto, derrubou o tabuleiro, que caiu no mar, matando duas pessoas. O deslizamento de terra da encosta fez tombar árvores sobre dois ônibus, vitimando duas pessoas. A Avenida Niemeyer, paralela a Ciclovia Tim Maia, entre a montanha e o mar ficou interditada. Ruas viraram rios, sendo que a região da Barra da Tijuca e das comunidades Rocinha e Vidigal foram as mais atingidas. Mesmo com sirenes disparadas nas áreas de risco, a força e a velocidade dos excessos da Natureza levaram casas, carros e pessoas.

Na noite seguinte, houve um curto circuito em cadeia nos ares-condicionados do Alojamento do Centro de Treinamento do Time Sub-15 do Flamenco, localizado dentro de um contêiner, gerando incêndio que se alastrou rapidamente, sem possibilidade de fuga das vítimas. Tinha apenas uma porta de saída. Dez dos 13 jogadores de 14 e 15 anos, que moravam lá, morreram carbonizados. Na manhã seguinte, outras treze pessoas morreram num tiroteio com a polícia.

Numa noite, morte por água e terra, na outra morte por fogo no ar-condicionado. Viver não é perigoso. É perigosíssimo. Desculpem-me Guimarães Rosa e seu personagem filósofo inesquecível, Riobaldo, mas a amarga história contada pelo drama coletivo está nos deixando sem chão, levado pelo descaso, e sem palavras, levadas pelo embotamento psíquico. Precisamos lavar a nossa alma.