Posts com

Índex* – Janeiro, 2019

Hoje acordei

Com o mar

De Sophia Breyner 

O desassossego 

De Fernando Pessoa

E umas palavras

Pulsando no peito

Querendo nascer

 

Uma canção de infância

Uma dança de roda

Ver a lua nascer

Redonda

O sol brotar

Imenso

 

E eu

Na pequenez

Desses meus versos

Deitá-los na rede

E descansar

(“Férias”, Patricia Gonçalves Tenório, 06/01/2019, 05h54)

 

A volta das férias e início de escrita no Índex de Janeiro, 2019, no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa 2019 | Boas vindas! | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

O Fantasma de Licânia | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

Mi Salamanca: guía de un poeta nordestino | David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

Por uma mobilidade performativa | Elilson (PE/RJ – Brasil).

Livraria Linardi y Risso | Fred Linardi (SP/RS – Brasil).

Vivendo na nuvem virtual | Mara Narciso (MG – Brasil).

 

Agradeço o carinho e a participação, a próxima postagem será em 24 de Fevereiro, 2019, abraço bem grande e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

____________________________________________

Index* January, 2019

I woke up today

With the sea

From Sophia Breyner

The unrest

From Fernando Pessoa

And a few words

Pulsing in the chest

Wanting to be born

 

A childhood song

A spinning dance

See the moon rise

Round

The sun will rise

Immense

 

And I

In the smallness

Of these my verses

Put them on the net

And rest

(“Holidays”, Patricia Gonçalves Tenório, 1/6/2019, 5:54 a.m.)

 

The return of the vacations and beginning of writing in the Index of January, 2019, in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Creative Writing Studies 2019 | Welcome! | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

The Phantom of Licânia | Clauder Arcanjo (RN – Brasil).

My Salamanca: guide of a northeastern poet | David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

For a performative mobility | Elilson (PE / RJ – Brasil).

Linardi and Risso bookshop | Fred Linardi (SP / RS – Brasil).

Living in the virtual cloud | Mara Narciso (MG – Brasil).

 

Thank you for the affection and the participation, the next post will be on February 24, 2019, a big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

IMG_8275

**

____________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Portugal, Brasil, Inglaterra, Japão, … e um oceano de palavras. Portugal, Brasil, England, Japan, … and an ocean of words.

Estudos em Escrita Criativa 2019 | Boas vindas!

Sejam bem-vindos(as) aos Estudos em Escrita Criativa 2019!

O grupo de Estudos nasceu em 2016, e vem se ampliando a cada ano no sentido de, a partir de teóricos de várias áreas de conhecimento (Literatura, Filosofia, Psicanálise, Semiótica…), e artistas de várias artes (Literatura, Poesia, Cinema, Fotografia, Teatro, Música…), alicerçarmos e provocarmos a nossa escrita para que ela floresça cada vez mais e melhor. Em 2018, tivemos encontros na Livraria Cultura do Recife e de Porto Alegre (cidade onde eu estava realizando até outubro de 2018 o doutorado em Escrita Criativa na PUCRS), e abordamos 8 temas, O tempo, O mito, A viagem, A música, O amor, O sonho, A imagem, O fogo. Na primeira parte do encontro, eu trazia teóricos, ficcionistas, poetas, artistas plásticos, cineastas para conversarmos sobre o tema do mês. Na segunda parte, fazíamos exercícios de desbloqueio relacionados com o tema. Na terceira parte, convidamos escritores locais para falarem sobre seus processos criativos.

Em 2019, trabalharemos a temática da viagem, com teóricos tais como Michel Onfray, Wladimir Krysinsk, Marcel Brion, Octavio Ianni, e ficcionistas/poetas selecionados por país/região/língua, tais como Margaret Atwood, Aldous Huxley, Emily Dickinson, Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Adélia Prado, e muitos mais. Teremos novamente a primeira parte teórica; na segunda parte, escritores convidados de Recife e Porto Alegre falarão do tema do mês e/ou de seus processos criativos; na terceira parte, aplicaremos juntos, eu e os escritores convidados de cada encontro, exercícios de desbloqueio com os participantes.

As inscrições dessa vez serão realizadas diretamente no site da Unicap (http://www.unicap.br/universidade/pages/?p=1952), com número limitado de vagas, e certificado de participação. Informações: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com

Espero encontrá-lo(a) nos nossos encontros, abraço bem grande e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

www.patriciatenorio.com.br

 

______________________________________

Cartaz A3 e Banner_PAlegre

IMG_8773

Diário de Pernambuco, coluna Opinião, 23/01/2019

 

 

O Fantasma de Licânia* | Clauder Arcanjo**

I

Para Renard Perez

(In memoriam)

Dizem que toda cidade que se preza tem que ter o seu rei e o seu fantasma. Como a genealogia da Família Real não passou, nem de longe, pelas ribeiras do Acaraú, o reinado aqui tem sido do sol e, raras vezes, da bagunça organizada. Esta, na cadência do forró arrochado e sob as bênçãos do batismo da pinga braba. No entanto, com relação ao mundo dos fantasmas, a história tem sido bem diferente.

Explico. Mas, antes de dar seguimento, tenho que declarar, para não faltar com a verdade: o mundo dos fantasmas em Licânia se resumia a um único (e mísero) fantasma.

Não se sabe bem quando ele surgiu nos becos e ruas da província. Os compêndios históricos de Licânia nada testemunham; apesar de o João Américo, em meio às suas elucubrações etílicas, garantir que várias páginas dos velhos tomos foram abduzidas pela força do Além, “privando-nos da verdade histórica e do sumo antropológico do fato”.

O que é que um fantasma tem a ver com Antropologia? Ora se eu sei, caro leitor! Sou apenas um escrevinhador, bolas.

Deixemos o João Américo de lado, e entremos logo na questão que aqui me traz. Pois bem, pois muito bem. Certa noite, e lá se vai uma penca de natais, a Rita Gertrudes, quando vinha da Missa do Galo, ouviu um grunhido esquisito no beco do Mercado Público. Como estava escuro, e o Padre Araquento havia exagerado nas prédicas contra o pecado carnal, bem como nas tintas da descrição das labaredas do fogo do Inferno, a coitada andava com a cabeça a mil. Isso porque, apesar do avançado dos anos, ela ainda sentia o chamado da “carne fraca” e, por conseguinte, levava, sob o xale negro, o receio da condenação quando do Juízo Final. Quando ela quis acelerar o passo, o grunhido ganhou foros de coito, e a velhota arrochou a carreira no rumo de casa.

Ao passar na esquina do Eurico Carneiro, Rita Gertrudes ainda teve forças para gritar: “Valha-me, Senhora Sant’Anna! Prometo nunca mais pensar no Bastião. Eu prometo, eu prometo!”

Dona Adamir nunca viu pessoa mais veloz na vida. Quis acudir a prima distante, porém quando deu por tudo a rua estava vazia, nem sequer a presença dos vira-latas ou dos bêbados.

De manhã, logo cedo, não se falava de outra coisa. Na venda do café, na feira dos bichos, nas bodegas, na igreja, no confessionário, no banho na Pedra da Luiza. Enfim, os licanienses só tinham línguas e ouvidos para um fuxico: o fantasma de Licânia.

As pias Filhas de Maria foram ao Padre Araquento:

– Padre, a Santa Madre Igreja tem que agir.

O representante de Deus nas terras de Licânia estava mais preocupado com a quebra do apurado com o dízimo do que com qualquer coisa do mundo dos espíritos.

– E o que eu tenho a ver com isso, minhas filhas? – mais desabafou do que afirmou Araquento.

Como o velho pároco logo percebeu que, caso não desse atenção ao inusitado, a campanha para recuperação do dízimo, sem a ajuda das beatas, seria caso fadado ao insucesso, ele prometeu interceder junto ao Senhor Pai. Recolheu-se, fingiu orações e saiu de casa, na companhia do Raimundo Sacristão, com a estola, a cruz de madeira e uma porção de água benta.

Não posso aqui perder tempo relatando o pavor que tomou conta das carnes e do juízo do sacristão. O cabra tremia tanto, que quase derramou a água benta no percurso da casa paroquial até a cena da aparição fantasmal. “Tome tento, homem! Por onde anda a sua fé, seu filho de uma mãe frouxo?”

Ao chegarem ao beco do Mercado Público, Padre Araquento ornou-se com a estola, colocou a cruz de madeira na mão esquerda, fechou os olhos, rezou a metade de uma ave-maria e, em seguida, aspergiu água benta, exorcizando a entrada do lugar. Quando deu por si, o sacerdote percebeu que havia sido seguido por um séquito de desocupados. Tudo que eram fuxiqueiras do lugar, sem falar nos bebuns e na legião de aposentados, caminharam na sobra dos passos da dupla encarregada do esconjuro divino.

– Ide para as vossas casas! Rezai o terço, não sem antes o ato de contrição. O fim está próximo, renunciai ao pecado e aproximai-vos da Casa de Deus. Quem não estiver em dia com o dízimo, que procure o Raimundo na sacristia. Dai a Deus o que é de Deus!

– Hoje a puta Rosinha Piaba recebe parte dos seus atrasados! – gritou um arruaceiro no meio da multidão, deixando o sacristão rubro de raiva, o vigário irritado, enquanto a gaitada espocava em meio ao rito exorcista.

***

No próximo capítulo, a saga do fantasma de Licânia há de continuar.

_____________________________________

IMG_8775

_____________________________________

* Primeiro capítulo de O Fantasma de Licânia. Clauder Arcanjo. Ilustrações: João Helder Alves Arcanjo. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2018.

** Contato: clauderarcanjo@gmail.com

Mi Salamanca: guía de un poeta nordestino* | David de Medeiros Leite**

I

 

Na Plaza Mayor, turistas desfrutam de bares e terraços. Apreciam arcos e pavilhões, pilares e medalhões. Pétreos olhares de Alfonso XI, Antonio de Nebrija, Carlos II, Cristóbal Colón e dos Reyes Católicos contemplam o frenesi de estudantes que festejam a vida. No Café Novelty, Torrente Ballester cinzelou aforismos, pensamentos e sentimentos.

Em rito histórico, tudo é testemunhado pela esculpida pedra de Villamayor.

 

I

 

En la Plaza Mayor, los turistas se deleitan de bares y terrazas. Aprecian arcos y pabellones, pilares y medallones. Pétreas miradas de Alfonso XI, Antonio de Nebrija, Carlos II, Cristóbal Colón y de los Reyes Católicos contemplan el frenesí de estudiantes que celebran la vida. En el café Novelty, Torrente Ballester cinceló aforismos, pensamientos y sentimientos.

Cual rito histórico, todo queda atestiguado por la esculpida piedra de Villamayor.

 

_____________________________________________

IMG_8776

_____________________________________________

* Extraídos de Mi Salamanca: guía de un poeta nordestino. David de Medeiros Leite. Tradução: Alfredo Pérez Alencart. Mossoró, RN: Sarau das Letras/Trilce Ediciones, 2018.

** Contato: davidleite@hotmail.com

Por uma mobilidade performativa* | Elilson**

Plataforma de acesso sem catracas

 

Este livro é costurado por palavras, imagens, salivas, impressões digitais, intervalos, espaços em branco e outros índices de encontros; interligado por conjuntos precários de circunstâncias, escolhas, acasos, agenciamentos, acordos, negociações, afetos, pesos, volumes, moedas, deslizes e atritos – dentre outras propriedades e acontecimentos de palavras-e-corpos. Tenta preservar nas entrelinhas esbarros, ruídos, timbres, cacofonias, tintas e peles. Pesa toneladas de ferro, concreto armado, gente, poeira e palavras. Balança, corre e freia. Faz inúmeras baldeações. Tem temperatura variante, de modo geral, entre 20 e 40 graus Celsius, múltiplas durações e um valor que se divide entre pagamento de tarifas metropolitanas, compra de materiais precário-relacionais, impressão e tiragem.

Seu conteúdo é cartografado pela descrição de ações performáticas realizadas em ruas e transportes coletivos da cidade do Rio de Janeiro entre 2016 e 2017. As ações e proposições teóricas que integram este livro estão vinculadas à pesquisa de mestrado que desenvolvo no Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da UFRJ, com orientação da professora Eleonora Fabião. A abordagem geral da pesquisa é a proposição e investigação de inter-relações entre arte da performance e mobilidade urbana. Assim, o conteúdo deste livro flerta, dentre outros aspectos, com o planejamento urbano da cidade do Rio de Janeiro e suas transformações, com iniciativas poéticas e políticas para praticar a circulação na cidade, com a experimentação dos transportes coletivos como espaços performativos, com a relação entre caminhada e história e com o interesse pela concidadania.

[…]

________________________________________

IMG_8777

IMG_8778

________________________________________

Por uma mobilidade performativa. Elilson. Rio de Janeiro: Editora Temporária/Rumos Itaú Cultural. 2017.

** Contato: elilson_@hotmail.com

Livraria Linardi y Risso | Fred Linardi*

Era para ser um dia de passagem rápida pelo terminal rodoviário de Montevidéu, mas decidimos sair de Colônia de Sacramento mais cedo. Antecipamos as passagens e saímos três horas antes. Das livrarias da capital uruguaia que gostaríamos de conhecer, a Linardi y Risso era a única na qual ainda não havíamos conseguido entrar. Além de ter sido uma dica da minha amiga Annie Piagetti Muller, a LyR carrega em seu nome o meu sobrenome.

É uma das mais antigas livrarias do país e, certamente, a mais antiga em atividade, aberta em 1944 por Adolfo Linardi Montero. Oito anos depois, ele se associou a outro descendente de italianos, Juan Ignacio Risso. Hoje, na segunda geração, é administrada pelos filhos Alvaro Risso e Andres Linardi.

No fim da tarde do dia 27 de dezembro, quando entramos lá, um senhor veio de uma das salas administrativas e nos deu boas-vindas. Eu arrisquei meu espanhol inexistente dizendo da minha satisfação de estar lá, não apenas pelo belo lugar, mas também por eu ser um Linardi. Eu não sabia, mas ele era o próprio Andrés, que parou o que tinha para fazer, me convidou a sentar numa das cadeiras de leitura e pediu para eu continuar falando em português mesmo – seria mais simples.

Contou-me dos primeiros anos da livraria, quanto era apenas uma pequena loja num outro prédio daquele mesmo centro de Montevidéu. De quando ele começou a trabalhar junto do seu pai, do início da sociedade e da compra daquele prédio onde eles estão hoje. A livraria, especializada em títulos latino-americanos, dos antigos ao mais modernos, também costuma lançar alguns livros com o selo próprio.

Eu, que já havia conhecido o Café Brasilero, frequentado por Eduardo Galeano e que fica na rua logo de trás, imaginei o tanto de outras mentes que haviam passado entre aquelas prateleiras. A resposta veio quando Andrés me mostrou uma foto do pai ao lado de Pablo Neruda numa foto na parede do escritório, ao lado de outros registros do lugar, cuja história recebeu a presença de outros como Mario Benedetti, Juan Carlos Onetti, Armonía Somers, Juan José Saer, Mario Vargas Llosa…

Perguntei-lhe se havia um livro sobre a história da loja, e ele me assentiu com a cabeça. Trouxe um exemplar único, que não estava à venda, produzido por eles próprios. Mas havia um outro, escrito por Patricia Demicher Ilaria, sobre famílias italianas no Rio da Prata. “Deste tenho vários. Pode levar como um presente.”

Impossível não me sentir em casa naquele ambiente e com aquela conversa. Falamos do que sabíamos dos nossos antepassados. Lembramos que há, na região da Calábria, uma forte concentração de Linardi. Era de lá que eu havia encontrado a documentação dos meus e, há alguns anos, havia descoberto que na cidade de Rossano é produzido um vinho chamado Linardi. Ele já conhecia e, há algum tempo atrás, haviam conseguido uma remessa de garrafas através de uma encomenda.

Ao final da conversa, o telefone tocou com latidos de cachorro. Era sua esposa, para quem começou a contar sobre a visita inusitada dos parentes brasileiros. Depois de desligar, contou para nós sobre o motivo do toque do telefone. “Ela cria sheepdogs”. Com livros, vinhos e cachorros, não há necessidade de melhores companhias e referências para encontrar laços que unem parentescos, mesmo que não tão próximos.

 

(Montevidéu, dezembro de 2018)

____________________________________

PHOTO-2019-01-01-19-17-33 2

PHOTO-2019-01-01-19-17-33 3

PHOTO-2019-01-01-19-17-33 4

PHOTO-2019-01-01-19-17-33

PHOTO-2019-01-01-19-17-46 2

PHOTO-2019-01-01-19-17-34

PHOTO-2019-01-01-19-17-46

____________________________________

* Contato: fred.linardi@gmail.com

Vivendo na nuvem virtual | Mara Narciso*

Estou vivenciando uma crise existencial, que se agrava. Enfrento uma perda de credibilidade em relação a coisas, fatos, pessoas e ciência sem precedentes. A culpa é minha por não estar preparada para a volatilidade e múltiplas interpretações dos acontecimentos. A labilidade das notícias me deixa insegura em relação a muito do que ocorre. Até se ocorre. Isso me tem feito perder o sono, mas não o apetite. Sorte minha ser psicanalisada há 17 anos, senão perderia de vez a racionalidade.

Uma notícia pode ser contada de forma igual, porém, se extraindo dela apenas o sumo, conforme o interesse de quem conta. Isso tem sido feito sistematicamente, o que gera insegurança em quem escuta a análise. Dizem por aí que o que falta é “interpretação de texto”. E isso deve estar me faltando. Ainda bem que não me falta interpretação das ações humanas. Não me importo com o que pensam, mas me importam as consequências desses pensamentos.

Ter ética é natural para mim, mesmo assim procuro me esforçar para tomar as decisões corretas. A profissão médica me traz um problema a cada meia hora. Isso é complexo. Preciso tomar uma decisão e dar uma solução de instante em instante, há 39 anos.

Até a ciência tem se mostrado fluida, diluída, incorpórea. Muitas tendências, num vai e volta, tudo solto no ar, até mesmo em relação à alimentação. Medicamentos e condutas consagrados são postos em cheque. Essa maluquice gera desconforto, desconfiança, incerteza.

Não é fácil escovar os dentes sempre da direita para a esquerda, primeiro a parte de cima e depois a parte de baixo e de repente ser obrigada a fazer absolutamente ao contrário. Até usando a mão não dominante. Dizem ser um ótimo exercício cerebral, que cria novas conexões melhorando o desempenho dos neurônios. Isso melhoraria a memória e facilitaria o aprendizado, afastando o Mal de Alzheimer.

Tudo faz mal nesse mundo excessivamente industrializado. A inteligência artificial avança sobre os humanos degolando-os e colocando-os em seus devidos lugares. A verdade da manhã é mentira à tarde. O certo será o errado e vice-versa.

Meu ceticismo atingiu seu ápice. Meus eternos questionamentos não descansam. Não acredito em mais nada. Quando eu disse isso à minha psiquiatra, ela não gostou. Mas eu emendei: na Psicanálise eu acredito.

Estou desanimada com a humanidade, mas quando vejo alguém arriscar a vida por um cão, em choro. Ao mesmo tempo em que me sinto frágil me fortaleço com minha determinação. Por exemplo, estou aborrecida com algum fato desagradável. Penso: não vou ficar chateada. E fico bem de imediato. Apenas o treinamento dá esse domínio.

Ainda assim minha incredulidade anda me incomodando. Especialmente com as declarações de pessoas que estudam, porém em fontes díspares das minhas. Ou elas usam óculos diferenciados que lhes dão uma visão peculiar do mundo, ou eu faço uso deles. Pessoas que vivem as mesmas experiências podem ter visões diametralmente opostas.

Não quero ferir susceptibilidades com a minha irreligiosidade. Mas não me furto em me posicionar, ainda que nesse tempo de pessoas armadas de paus, pedras, balas e palavras, não me faltem bordoadas. Ah, eu deixo barato. Eu deixo de graça. Eu não preciso retrucar. Mas também não sou obrigada a me conter. De vez em quando a casa cai.

Meus 19 anos de redes sociais, num tempo em que nem existia esse nome, me ensinaram que as letrinhas não têm entonação, que são geralmente ferinas, mesmo quando não são. Então, para que responder? Prefiro que os paus, pedras, balas e palavras fiquem sem serventia. E que as expressões doces sejam encontradas e disseminadas pelos poetas. Eu conheço alguns maravilhosos. De outros sinto falta, pois se calaram para sempre.

Hoje meus pensamentos se voltam para meu estimado amigo virtual Pedro João Bondaczuk, jornalista, escritor de muitos cabedais, íntegro, equilibrado, sábio, que nos presenteava com reflexões de imenso poder. Muitas vezes se perguntava: quem eu sou? De onde eu vim? Para onde eu vou? Pedro acreditava em Deus, força criadora do universo, mas não acreditava em vida após a morte. Para ele, envio minha insensatez e minha saudade. Há 103 dias Pedro partia e hoje seria seu aniversário de 76 anos. O vácuo permanece.

________________________________________

P&B 2

________________________________________

* Contato: yanmar@terra.com.br