Posts com

Índex* – Dezembro, 2018

O Menino

Continua

Crescendo, fortificando

 

Até o umbral

De um novo ano

Até os primeiros raios

Do dia

Em que

Nos levantamos

Nos renovamos

 

E transformamos

Ao redor em

Paz

Luz

Amor e

Poesia

(“Em mim, nasce o poema”, Patricia Gonçalves Tenório, 25/12/2018, 06h05)

 

O umbral do novo ano se aproxima no Índex de Dezembro, 2018 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa – 2019 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

O Natal de Bernadete Bruto (PE – Brasil) e Cilene Santos (PE – Brasil).

Facas na literatura | David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

O fogo de Ina Melo (PE – Brasil).

Do fim | Geysiane Andrade (RS – Brasil).

Poemas de Márcia Maia (PE – Brasil).

Essa tal felicidade | Natália Setúbal (RS – Brasil).

E o desejo de um 2019 de muitos Sonhos realizados, Paz, Saúde, Luz, Amor & Alegria, a próxima postagem será em 27 de Janeiro, 2019, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

Index* – December, 2018

The Boy

Continues

Growing, fortifying

 

Until the threshold

Of a new year

Until the first rays

Of the day

On what

We get up

We renew

 

And we transformed

Around in

Peace

Light

Love and

Poetry

(“In me, the poem is born”, Patricia Gonçalves Tenório, 12/25/2018, 06:05 a.m.)

 

The threshold of the new year is approaching in the Index of December, 2018 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Studies in Creative Writing – 2019 | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

The Christmas of Bernadete Bruto (PE – Brasil) and Cilene Santos (PE – Brasil).

Knives in literature | David de Medeiros Leite (RN – Brasil).

The fire of Ina Melo (PE – Brasil).

From the end | Geysiane Andrade (RS – Brasil).

Poems by Márcia Maia (PE – Brasil).

Such happiness | Natália Setúbal (RS – Brasil).

And the wish for a 2019 of many Dreams realized, Peace, Health, Light, Love & Joy, the next post will be on January 27, 2019, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

____________________________________________

IMG_8707

**

____________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Sonhos a se realizarem no Ano Novo que se aproxima. Dreams to be fulfilled in the approaching New Year.

 

Estudos em Escrita Criativa – 2019

Os Estudos em Escrita Criativa nasceram em 2018 a partir do I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco que ocorreu de 13 a 15/10/2017 no Pavilhão do Centro de Convenções, em Olinda.

IMG_6830

Com o apoio da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, através dos Profs. Luiz Antonio de Assis Brasil, Cláudia Brescancini e Maria Eunice Moreira, e da XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, em nome de Rogério Robalinho, foram realizadas diversas oficinas e mesas, entre elas “Estimulando a leitura através da Escrita Criativa”, “A importância de um ambiente estimulante na Criação Artística”, “Devaneios Fílmicos, Cósmicos e Poéticos” e “Grupo de Estudos em Escrita Criativa”. Levamos para Recife escritores graúchos, tais como Assis Brasil, Valesca de Assis, Gustavo Melo Czekster, Daniel Gruber, María Elena Morán, e trocamos experiências com autores pernambucanos e de outros estados do país, entre eles Lourival Holanda, Maria do Carmo Nino, Igor Gadioli, Fernando de Mendonça, Cida Pedrosa, Robson Teles.

IMG_6703

IMG_6722

IMG_6694

O resultado extremamente positivo do I Seminário em 2017 nos incentivou a ampliarmos o projeto e levarmos para as Livrarias Cultura de Recife e Porto Alegre em 2018. Criamos encontros mensais, temáticos e independentes: O tempo, O mito, A viagem, A música, O amor, O sonho, A imagem e O fogo.

IMG_8554

PHOTO-2018-11-07-21-13-14

Os encontros foram divididos em três partes. Na primeira parte, ministrada por Patricia Gonçalves Tenório, apresentamos, sob a temática do mês, teóricos de várias áreas de conhecimento (Teoria da Literatura, Filosofia, Psicanálise, Semiótica), artistas de diversas áreas de arte (Literatura, Cinema, Fotografia, Música, Artes Plásticas). Na segunda parte estimulamos os participantes a realizarem exercícios de desbloqueio relacionados com o tema. Na terceira parte convidamos escritores locais para apresentarem seus processos criativos, entre eles, em Recife, Flávia Suassuna, Fátima Quintas, Jacques Ribemboim, Ana Maria César e Adriano Portela, em Porto Alegre, Alexandra Lopes da Cunha, Andrezza Postay, Camilo Mattar Raabe, Luís Roberto Amabile, Annie Muller, Fred Linardi, Gisela Rodriguez, Júlia Dantas, Guilherme Azambuja Castro, Tiago Germano e Débora Ferraz. Firmamos parceria em Recife com a União Brasileira de Escritores – PE, em nome de Alexandre Santos e Bernadete Bruto, e em Porto Alegre com a PUCRS no sentido de convidarmos os escritores locais e termos o projeto apoiado por uma instituição relacionada com a Literatura.

O fogo da criação - Patricia Gonçalves Tenório - DP 281118

IMG_8005

FullSizeRender

O resultado foi surpreendente. Houve uma recepção além do esperado nas duas cidades. Chegamos a ter mais de 30 participantes por encontro e constatamos a eficiência do método na qualidade dos textos elaborados, a maioria das vezes, no instante mesmo da parte prática. E lançamos, no último encontro do ano em cada cidade, a coletânea de artigos Sobre a escrita criativa II com textos dos escritores convidados e escritores/professores do Brasil inteiro que fazem a Escrita Criativa acontecer.

Em 2019, daremos continuidade ao nosso grupo de Estudos em Escrita Criativa de Recife. Em breve estaremos anunciando o local e a data de início dos nossos encontros que estão sendo construídos com muito carinho. Aguardem!

E, em comemoração aos cinquenta anos de vida e quinze anos de escrita, serão lançados cinco livros bem especiais em Novembro, 2019. Aguardem também!

Desejo um Ano Novo de muita Paz, Saúde, Luz & Sonhos realizados, grande abraço e até breve!

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

 

O Natal de Bernadete Bruto* & Cilene Santos**

LEMBRANÇAS DE NATAL

Bernadete Bruto*

Recife, 11 de dezembro de 2018.

 

A bola era colorida e no Natal ela sempre sonhará como era bela aquela bola…

Os filhos andavam sempre junto da mãe.

Em dezembro não se trabalhava, nem estudava.

As férias eram na praia.

Há tempos a menina está na rua escrevendo sua nova vida.

Há muito os filhos largaram a mão da mãe.

Nas festas todos dançavam felizes.

A música vem do celular, quando Lennon não mais está aqui. Nem Vinícius, nem mais os amores idealizados. Ouve-se uma canção. É de Natal: I feel it in my fingers… ah! A canção nem mesmo é em português! Mas o Natal está em volta.

A menina pode brincar segura em casa que Papai Noel vai chegar e papai está em casa. Mamãe está viva! Vamos todos à missa do galo. Depois, na casa da vovó todos se abraçarão em breve. Aquela casa que já nem existe mais… Embora esteja na eternidade da alma.

Agora, as iguarias estão na mesa, alguns parentes envelhecidos ainda estão presentes (talvez o maior presente de Natal). No ar, o amor e olhar são os de sempre. O coração enxerga além.

Nesse ínterim, cinco mulheres seguem seu destino. Cada qual em seu tempo e idade, escolhas, dentro desta cidade e com amizade, juntas, comemoram com singeleza as mais puras lembranças de Natal.

 

O SENTIDO DO NATAL

Cilene Santos**

Recife, 21/12/2018

Natal! Festa deslumbrante.
Momento de muita luz.
Dia em que celebramos
A chegada de Jesus.
Como num deslumbramento,
O mundo se transfigura.
Dentro de cada pessoa,
Nasce nova criatura.
E esta metamorfose
Que ocorre em toda a gente
É o reflexo da nobreza
Da energia transcendente
Que emanou naquele dia
Em que Jesus complacente
Se fez menino e ensinou
A toda a humanidade
Que só o amor e o perdão
Purificam a nossa alma
E dão a oportunidade
De nos tornarmos Cristãos.
Que todos nós entendamos
Sua mensagem de amor.
Despertemos nova vida
E vivamos praticando
O que Ele ensinou.

 

________________________________________

* Bernadete Bruto (Recife/PE, 1958) é bacharel e licenciada em Sociologia, com especializações na área de Recursos Humanos e Direito Administrativo. É analista de gestão do metrô de Recife e poeta performática. Membro da União Brasileira de Escritores – UBE, da Associação dos Amigos do Museu da Cidade do Recife – AMUC, parceira da Cultura Nordestina Letras e Artes e participa da Confraria das Artes e dos Estudos em Escrita Criativa. Tem quatro livros publicados, sendo três coletâneas de poesias, Pura impressão (2008), Um coração que canta (2011), Querido diário peregrino (2014), e um infantil, A menina e a árvore (2017). Participa de antologias, assim como de diversas apresentações poéticas e performáticas. Contatos: bernadetebruto@gmail.com e www.bernadetebruto.com

** Cilene Santos, escritora, poeta, cordelista. Professora graduada em Letras, com especialização em Língua Portuguesa. Membro da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel, ocupando a cadeira nº 08, e tem como patrono Dimas Batista. Publicou Branca de Neve e os Sete Anões em Versos e a vida de Joel Pontes, em cordel. Participou dos Estudos em Escrita Criativa 2018 de Recife. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

 

Facas na literatura* | David de Medeiros Leite**

Alguns hábitos queremos largar, outros, não. O da leitura concomitante de dois livros faz tempo que me acompanha e, não fazendo força em sentido contrário, pretendo assim seguir. Na maioria das vezes, prefiro gêneros e assuntos díspares. Porém, recentemente, ocorreu-me uma incessante coincidência: dei-me conta de que estava lendo duas obras, cujos títulos faziam referências à faca. Sim, isso mesmo, ambos os títulos remetem a tão cortante instrumento de lâmina: Dançar com facas, de Hildeberto Barbosa Filho (Mondrongo, 2016); e Entre facas, algodão, de João Almino (Record, 2017).

François Silvestre diz que inveja é como colesterol, tem a boa e a ruim. Lembrei-me da brincadeira desse amigo, quando da leitura do Dançar com facas, pois, qualquer um que busca a concisão poética para versejar, com certeza invejará esse trabalho de Hildeberto. Como se costuma dizer hoje em dia, o tomo está “redondo”, cada poema deixa aquela impressão de que nada falta e nada sobra.

Quando comentamos algum livro, sempre nos deparamos com a dificuldade em eleger poema ou estrofe, mas, claro, temos que arriscar. No poema “Velhice”, Hildeberto, propositadamente melancólico, sentencia: “Os fardos da idade / começam a humilhar / o pobre corpo. // E a alma, / papoula desgarrada, / nem está mais aqui!”. Na mesma pisada, deparamo-nos com o poema “Horizonte”, talvez, carregando a representação mais impactante da obra: “Velhos com conhaque / na alma, lúcidos, / sem horizonte.” Imagem forte, que cala fundo em qualquer um que não tenha apenas uma pedra no peito, como sugere o cancioneiro popular.

Mudando a temática, porém no mesmo tom minimalista, vem o “Metáfora”: “Num antigo verso / falava das ‘pupilas da manhã’. // Hoje invento a metáfora: // nas tuas pupilas, Pâmela, nadam / todas as manhãs”. No poema “Verão”, a nordestina seca esturricada se mistura com um intimismo que não possui imbricação geográfica e puxa a conversa para abarcar outras estações que nem temos: “É verão / e as pessoas nem estão / mais alegres. // (Tudo é claro, quente, triste!) // O sol explode / dentro de mim / enquanto me despeço / das outras estações.”. Na mesma pegada intimista, no poema “El condor”, o eu lírico transfigura-se no próprio pássaro que ganha voz: “El condor, / nomearam-me os de outra espécie, / os que se dizem dotados / de uma segunda natureza. // Suspenso no azul, / com as asas abertas, / nomeio o mundo,”.

E, quando Hildeberto aborda o mister poético ou a própria poesia como arte, entra em cena o doutor em literatura a nos ensinar lições difíceis de assimilarmos nesse mundo de danações e açodamentos. Difíceis porque o aprendizado requer maturação, condição antagônica à pressa dos dias atuais. Contudo, vamos lá. Com a dificuldade do escrutínio antes mencionado, considero “RIO/POEMA”, como o ápice do livro: “Rio nenhum vale um poeta, / porque rio é somente rio, / e suas correntezas têm destino certo, / e suas margens são apenas margens. // O poeta, não. / É rio, é margem, é correnteza, / é água, muita água, correndo por dentro, / enchente, naufrágio…”.

O paraibano Hildeberto Barbosa Filho encerra o livro com o poema que o nomeia: “Dançar com facas / não é apenas ofício de bailarino / nem dos saltimbancos de ruas. // Se a vida é um tablado, / dançamos todos, com facas, / (…) Dançar com facas / também é ofício de poeta.”.

Já no romance Entre facas, algodão, do mossoroense João Almino, o protagonista possui algo machadiano nisso de “atar as duas pontas da vida”, ou seja, a urdidura acontece a partir de sua decisão de, já setentão, resolver deixar Brasília e comprar uma fazenda no sertão potiguar, onde pretende se instalar e “recompor” um passado que lhe consome.

Além da determinação de largar a vida de advogado na capital federal pela de plantador de feijão, milho e “até algodão”, o personagem principal carrega em si o desejo incontido de vingar a morte do pai. Sem falar que tudo está entremeado com laivos sentimentais, na medida em que vive uma separação conjugal e procura reinventar uma paixão da adolescência.

Romancista com sólida carreira, João Almino sustenta uma linguagem leve numa trama bem sequenciada que prende o leitor. Entre tantas facetas, o romance possui uma característica que merece registro: os personagens manuseiam redes sociais, como WhatsApp e Facebook, ao mesmo tempo em que se ancoram em costumes antigos da vida sertaneja.

E a crise familiar que envolve o protagonista (único personagem cujo nome não é revelado, pois o livro baseia-se em um diário do mesmo), também acontece em duas “dimensões”: tanto na questão da vingança do pai, que termina por gerar uma dúvida quanto à própria paternidade biológica que, até então, era inquestionável, como também no que diz respeito a sua relação com os três filhos, cujas convivências são perpassadas por questões afetivas confusas e bastante atuais.

Um excerto do romance pode justificar parcela do título e situar mais ou menos as lembranças do cenário da infância vivida: “No Riacho Negro, meu padrinho vivia da lavoura do algodão, da oiticica e da carnaúba. Sobretudo do algodão. Me lembro que puxava com orgulho o capucho de algodão para mostrar o tamanho da fibra”.

Quanto às facas existentes por entre a maciez algodoeira, as perspectivas que se abrem são variadas e propositais. Desde a já comentada desforra paterna, até as agruras vividas e revividas pelos personagens, nas diversas épocas e dimensões apresentadas. O sertão de outrora, violento pelo coronelismo. Um pouco da vida moderna, como registros em voos de Brasília a Fortaleza.

Tudo isso sob a pena de quem não é amador no ofício. João Almino coleciona prêmios com outros romances, além de respeitado ensaísta em questões políticas e sociais.

Enfim, entre a poesia de Hildeberto e o romance de Almino, caro leitor, vi-me imbricado num mundo de facas sentimentais por entre um algodoal poético romanesco. Duas obras que enriquecem sobremaneira as letras brasileiras.

______________________________________

* David de Medeiros Leite é professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Doutor pela Universidade de Salamanca – Espanha. Entre outros, publicou os seguintes livros; Incerto Caminhar; Ruminar (Poesia); Cartas de Salamanca; Casa das Lâmpadas (Crônica). Contato: davidmleite@hotmail.com

O fogo* de Ina Melo**

Lara estava com 17 anos e vivia mergulhada nos livros. Desde menina era apaixonada pelo fogo, que exercia enorme atração sobre ela. Curtia as explosões dos vulcões e qualquer coisa relativa ao fogo lhe causava estranhas sensações.  Às vezes pensava nas histórias de bruxas que arderam nas fogueiras e sonhava ver de perto a erupção de um vulcão.  Nos fins de semana se refugiava na fazenda do avô, um antigo engenho reformado, mas que conservara todo o mobiliário antigo com pratarias, cristais e belos tapetes. A grande biblioteca era a sua paixão desde que aprendera a ler. Lá costumava passar horas e horas sonhando com um mundo fantasioso e encantado. A história de Roma incendiada a encantava! Ele, o avô, fizera de Lara a sua neta preferida. Ela se apaixonou por Camões ao ler sua obra maior, Os Lusíadas. Vivia recitando versos e mais versos e isso a enchia de orgulho e o fogo ardente da paixão lhe despertava um intenso calor. À noite, costumava sentar do lado de fora da casa para ver as chamas ardentes das fogueiras queimando em altas labaredas, que segundo os peões, ajudava a afastar da casa grande os bichos peçonhentos. Quando voltava para casa seu corpo jovem ardia num calor que ela não sabia explicar. Foi numa dessas noites que resolveu falar com o avô sobre o amor e a paixão. Queria saber o que diferenciava o coração do corpo. Ele com muita firmeza explicou a diferença, falando dos sentimentos e da necessidade do corpo de ser tocado e acariciado. Ao se deitar voltou a ler o velho refrão que dizia “amor fogo que arde sem queimar” e se deixou acariciar pelas  próprias mãos, sentindo na pele uma gostosa sensação de prazer. Apagou as luzes, tirou a roupa e adormeceu. De madrugada, sentiu um forte arrepio e viu os seus pelos ouriçados. Aí pensou na Bíblia e no fogo do inferno. Levantou-se, abriu de leve a porta e foi para o terreiro. O céu estava bordado de estrelas e a lua parecia uma velha senhora gorda vestida de dourado. Saiu caminhando até encontrar uma enorme fogueira com chamas altas e trepidantes. Chegou mais perto e viu um homem sentado de cabeça baixa fumando um cigarro de aroma doce e envolvente. Assustado com a presença silenciosa de Lara, ele ia se levantar quando ela agachou-se ao seu lado. O fogo ardia cada vez mais forte. O cheiro dos jasmins inundava o ambiente. O corpo de Lara queimava num doce calor. A fina camisola de cetim deixava a descoberto o colo de marfim e quase furando o tecido os pequenos bicos dos seus empinados seios. O estranho voltou-se para ela, olhou bem dentro dos seus olhos e de leve passou as mãos sobre o seu colo deixando-as mergulhar por baixo da fina seda. Aqueles dedos macios percorreram de alto a baixo o corpo virgem de Lara. Pareciam que tocavam as teclas de marfim de um piano. Ela não reagiu e se deixou acariciar, deitando-se na grama macia. Foram momentos de grandes descobertas. O estranho nada falava e debruçou-se sobre ela de leve e começou a beijar-lhe os lábios rosados e virgens. O mistério do amor é insondável.  A carne acorda ao toque do homem e logo nasce o desejo que explode sem se saber o porquê. Foi assim que sob o ardente calor do fogo Lara conheceu a paixão da carne. Os corpos rolaram quentes como as brasas que os cercava. Com doçura e carinho ele foi lhe ensinando os caminhos do prazer, até que ambos explodiram numa poeira de estrelas. Quando Lara acordou sabia que não era mais a mesma pessoa. Algo mudara no seu interior. Foi para o banheiro e examinou todo o seu corpo branco e nada achou de diferente. Curiosa sentou-se e percorreu com as mãos o sexo rosado coberto com uma leve penugem, e nada encontrou de estranho. Mergulhou na banheira de águas mornas e voltou a se acariciar lembrando das macias mãos e dos beijos quentes do estranho cavaleiro do fogo. Não lembrava de mais nada. Só da imensa e gostosa sensação de felicidade que invadiu seu coração. Envolta no macio roupão, voltou para a cama, se abraçou com o travesseiro e ficou esperando que o encantado desbravador dos seus mistérios voltasse para os seus braços.

_______________________________

* Texto escrito no último encontro de 2018 dos Estudos em Escrita Criativa de Recife, em 10/11/2018.

** Contato: ina.melo2016@gmail.com

Do fim* | Geysiane Andrade**

O sol queimaria a pele se não fosse a nuvem cinza que se punha contra. Mesmo assim, só o mormaço formaria grandes manchas vermelhas nos braços e no peito. No chão, a terra absorveria os raios, que penetrariam suas entranhas e formariam crostas como magma resfriado. Ressequidos, abririam-se rasgos ao longe, marcando a geometria do horizonte, à espera das poucas gotas de chuva. Tal qual os lábios sedentos e pálidos como tudo ao redor.

A vegetação seria ora como cactos e árvores secas da caatinga ora como as gramíneas do deserto. Nenhum vento sopraria naquela direção. Os olhos tentariam se abrir, mas seriam puxados para baixo, talvez pelo peso ou apenas por cansaço. A imagem se formaria turva, sem contorno nem contraste, apenas um leve borrão à frente, que iria crescendo e chegaria cada vez mais perto.

Algo maior que as nuvens cinza, mais vermelho que as manchas na pele e mais quente que os raios de sol. Chegaria cada vez mais perto. A cabeça iria de um lado para outro, não sentiria as pernas ou braços. Ardendo no calor, com a saliva escassa e o gosto de sal intenso, vomitaria se não fosse o nó no estômago. A respiração já seria pouca antes, pelo ar rarefeito e pela fragilidade, mas em breve cessaria. E os batimentos cardíacos seriam cada vez mais fortes e acelerados, depois decairiam na mesma velocidade. A temperatura, antes acima dos 40 graus, se amornaria até congelar os pulmões e sair o último sopro.

A imagem turva correria em sua direção e a encontraria: um corpo celeste se desprenderia do espaço, sem aviso e sem radar. Não teria mais tempo de gritar, fugir ou chorar. Os olhos se apertariam ainda mais e não haveria tempo para despedidas ou arrependimentos. O corpo imóvel. A mente vazia. O coração frio. Nenhum suspiro a mais, nem suor ou dor.

_______________________________________

* Texto escrito no encontro sobre O sonho, em 12 de Setembro de 2018, dos Estudos em Escrita Criativa de Porto Alegre.

** Contato: geysiaandrade@gmail.com

 

Poemas de Márcia Maia*

Cotidiana e virtual geometria. Márcia Maia. Manaus: Edições Muiraquitã, 2008

 

cinzas

 

fosse a venda o remédio imane à cura

que banisse a poesia da cidade

fosse o dia o negror que a emoldura

e imolando-a qual prenda à tempestade

mata a lenda que amor é amargura –

fantasias compostas de saudade

vã magia que em chita ousa ver renda

renda rota sem charme e sem magia

que em saudade colore as fantasias –

na amargura fugaz refaz-se a lenda

(tempestade finita – inútil prenda)

num cantar que emoldura o tolo dia

e à cidade que nega-se à poesia

diz a cura ao poeta – a morte é venda

 

soneto

 

quanto tempo resistimos sem tocar-nos

quanto tempo quantos dias quantas horas

se o desejo não desiste de aflorar-nos

vem e vara madrugadas rompe auroras

 

nessa mão pássaro breve a ensaiar-nos

velhos voos solitários sem demoras

sem que menbro toque vulva sem beijar-nos

(na tevê desfilam plânctons faunas floras)

 

e o antigo cheiro a sexo a inebriar-nos

que invadia o quarto a casa aonde moras

e rompendo o lacre frágil da janela

 

se estendia rua afora a delatar-nos

(em um tempo feito de antes não de agoras)

faz-se espelho que oculta e não revela

 

 

Onde a minha Rolleflex? Márcia Maia. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2012.

 

em câmera lenta

 

o ar aquareliza-se em cinzentos

os verdes envelhecem de repente

o rubro do sobrado se anemiza

a tarde por inteiro empalidece

 

os pássaros mais cedo se recolhem

e a breve quietude prenuncia

o instante que desata a tempestade

 

 

epigrama

 

em cada verso de amor

há um naufrágio iminente

um tsunami descrente

seu imanente furor

 

e um campo de margaridas

 

o resto é tolice

(artifício de escrita)

acácia desflorida no verão

 

_____________________________________________

 

* Márcia Maia é médica e se aventura nos caminhos da poesia. Publicou Espelhos (2003), segundo lugar no 3º Concurso Blocos de Poesia; Um Tolo Desejo de Azul (2003); Olhares/Miradas (2004); Em Queda Livre (2005) e Cotidiana e Virtual Geometria (2008), vencedor do Prêmio Violeta Branca Menescal (Manaus, 2007). Participa de coletâneas no Brasil e em Portugal. Seu livro Onde a Minha Rolleyflex?, ganhou o Prêmio Eugênio Coimbra (Recife, 2008). Faz parte de Dedo de moça – uma antologia das escritoras suicidas (São Paulo: Terracota Editora, 2009). Publicou ainda Sem Amém (pela Editora Moinho de Ventos, 2011). Edita os blogues Tábua de Marés e Mudança de Ventos e Itinerário. Participante dos Estudos em Escrita Criativa 2018 de Recife. Contato: marciamaia@uol.com.br

 

 

 

 

Essa tal felicidade* | Natália Setúbal**

Abro o jornal e as duas primeiras notícias que leio é que hoje inicia o outono e que também é celebrado o Dia Internacional da Felicidade. Achei curiosa a data comemorativa e me pus a refletir sobre ela.

A felicidade está nas coisas simples e inocentes, escreveu Baudelaire. Ligo o rádio e escuto a canção dos gaúchos Kleiton e Kledir: ser feliz é tudo o que se quer.

Nestes tempos bizarros – de tantas intolerâncias e turbulências – ser feliz virou empretada complicada (até rimou!). Alguém aqui conhece bem de pertinho quem consiga ser feliz full time? – Nem eu!

E no que me cabe, la vie n’est pas rose! Até porque tudo flui, tudo é só (im) permanência como na metáfora do rio do velho Heráclito. Só podemos contar com a nossa percepção. E se para uns a felicidade é ser lindo e famoso, para outros é acertar na loteria gorda, viajar sempre na primeira classe ou se hospedar em resorts luxuosos. Ou ter abdomen negativo e um amour de cinema.

Pois fecho redondinho com o poeta de Fleurs du Mal. Fui aprendendo a valorar o pequeno, o simples, o mínimo. Até porque, creio que estamos em trânsito. Que a vida é um piscar de olhos. De repente, tchibum. Assim, quando me sinto desassossegada com as mazelas e chatices do cotidiano, quando travo na redação de uma inicial ou de uma contestatória, me permito pausas. Nessas horas, meu mantra passa a ser Sai e Busca, do Buda Sidarta Gautama. É quando passo a mão nos meus olhos e os levo para passear. E eles se encantam com tudo. As paineiras em flor, o passo manso do quero-quero no campo, o riso solto de uma criança. Sentindo-me reiniciada por essa pequena epifania junto à Natureza, volto para a minha roça achando Deus mais do que nunca de uma delicadeza e benevolência sem limites.

Curiosamente, sempre que se inicia uma estação do ano farejo algo no ar. Um pressentimento me diz que vem novidade a caminho. E já me alvoroço toda.

E mais uma vez me permito esperar. Com a paciência de um gato.

 

___________________________________

** Extraído de 35 anos respirando literatura: XXIII antologia. Coordenação editorial: Iara Almansa Carvalho. Porto Alegre. UBE/RS, 2018.

** Natália Setúbal nasceu em Porto Alegre numa ensolarada manhã de Natal. Servidora pública concursada é aposentada da Administração Pública Estadual. Exerce a advocacia nas áreas cível e consumerista. Atua como Conciliadora Judicial junto aos CEJUSCs do Poder Judiciário Estadual. É ativista dos Direitos dos Animais e idolatra felinos. Na primeira infância sonhava aprender a ler. Aos seis anos de idade auto alfabetizou-se lendo jornal. E, desde então, virou amante dos livros. Tem crônicas literárias publicadas na Antologia CRONICANDO (2008) e poemas publicados no Jornal Zero Hora e em várias revistas literárias. Em 2015 participou da Oficina de Haikai com Alice Ruiz, e em 2018 dos Estudos em Escrita Criativa organizados pelos escritores Luiz Antonio de Assis Brasil e Patricia Gonçalves Tenório. Recebeu Menção Honrosa no Prêmio Lila Ripoll de Poesia 2018. Contato: nataliasetubal.adv@gmail.com