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Índex* – Agosto, 2018

Descubro

Na palavra

Um suporte 

No qual me apoiar

Um alívio

Em desabafar

A angústia 

De não ter controle

A Patricia

Sem linha

Caneta

E cor

 

Na palavra

Me descubro

Inteira

Portadora

Do segredo

Mais íntimo

Mais âmago 

Que nem eu mesma

Sabia

 

Sorrio

Quando

A caneta

Sulca o papel

Em letra de forma

E reconheço ali

Todo um sentido

(“Toda poesia”, Patricia Gonçalves Tenório, 14/08/2018, 15h34)

 

O amor à Escrita no Índex de Agosto, 2018 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Uma autobioficção | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Um poema de escrita | Cilene Santos (PE – Brasil).

PALAVRA DE VIAJANTE (Lisboa) | Fred Linardi (SP/RS – Brasil).

Sete anos | Raldiany Pereira (PE – Brasil).

Catopelando | Mara Narciso (MG – Brasil).

“A mulher faminta” | Tiago Germano (PB/RS – Brasil).

Estudos em Escrita Criativa – Agosto, 2018 – Recife e Porto Alegre | Diversos.

E o link do mês com um poema de Alcides Buss (SC – Brasil): http://www.alcidesbuss.com

Agradeço o carinho e a participação, a próxima postagem será em 30 de Setembro, 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* – August, 2018

 

 

I discover

In the word

A support

To support me

A relief

To vent

The anguish

Of not having control

A Patricia

Without line

Pen

And color

 

In the word

I discover myself

Entire

Bearer

Of the most intimate

Secret

More core

Like myself even

Knew

 

I smile

When

The pen

Groove the paper

In shape letters

And I recognize there

A whole sense

(“All poetry”, Patricia Gonçalves Tenório, 08/14/2018, 3h34 p.m.)

 

The love of Writing in the Index of August, 2018 on the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

An autobiofiction | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

A writing poem | Cilene Santos (PE – Brasil).

WORD OF TRAVELER (Lisbon) | Fred Linardi (SP / RS – Brasil).

Seven years | Raldiany Pereira (PE – Brasil).

Catopelling | Mara Narciso (MG – Brasil).

“The Hungry Woman” | Tiago Germano (PB / RS – Brasil).

Studies in Creative Writing – August, 2018 – Recife and Porto Alegre | Several.

And the link of the month with a poem by Alcides Buss (SC – Brasil): http://www.alcidesbuss.com

Thank you for the affection and participation, the next post will be on September 30, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Quando a Escrita entra pelas Janelas da Alma. When the Writing enters through the Windows of the Soul.

 

Uma autobioficção* | Patricia Gonçalves Tenório**

Maria acordou cedo. Olhou para o lado. Para onde foi João? Para onde foi o amor que tanto lhe provocara?

Começaria um dia em branco. Escreveria uma nova história como se entranhasse no seio de sua mãe, e sulcasse o papel com a caneta Bic, preta, a tinta quase acabando, mas que rende tantas páginas.

Hoje seria diferente. Começaria pelo fim do dia, a chegada em casa, café para os filhos, banho, perfume, se preparar para o esposo-amante, e deixá-lo invadir as células cerebrais, os líquidos no estômago, e retirasse de si alguma ideia inusitada, e já haviam pensado antes desde os tempos atávicos.

Porque não havia nada de novo a ser escrito,  tudo fora dito entre os amantes, e sentou-se nua na cadeira da escrivaninha.

Olhou para ele. Entristeceu. Aceitou que era pobre e não havia nada a oferecer, a Maria. A mão pegou a caneta quase sem tinta preta e escreveu uma palavra.

(“Ave, Maria!”, Patricia Gonçalves Tenório, 17/08/2018, 05h40)

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* Feliz coincidência entre o tema dos Estudos em Escrita Criativa de Agosto, 2018 – escrever sobre o amor à escrita -, e o primeiro exercício da disciplina Teorias da Criação Ficcional, ministrada pelo Prof. Dr. Amilcar Bettega no PPGL da PUCRS, que assisto como ouvinte.

** Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália); Prêmio Vânia Souto Carvalho (2012) da Academia Pernambucana de Letras (PE) por Como se Ícaro falasse, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutoranda em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: patriciatenorio@uol.com.brwww.patriciatenorio.com.br

 

Um poema de escrita | Cilene Santos*

Buscando um Verso

 

Minh’alma está sedenta de poesia

Mas nenhum verso consigo escrever

De um poema que em mim anda vazio

E está cheio da saudade de você.

O coração me bate acelerado,

Quando penso em ti, toda manhã,

Exaurido da espera improfícua,

Caça em vão o meu verso com afã.

E tua ausência, que se faz presença,

Me torna assim, desnorteada e tola

E não me deixa gestar o meu poema.

Abortando-o sinto-me rendida

Impotente, incapaz de reavê-lo.

Acho que de mim anda a musa esquecida.

 

Março/17

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Cilene Santos é professora aposentada, poeta e vem todos os meses de Caruaru para Recife para participar dos Estudos em Escrita Criativa. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

PALAVRA DE VIAJANTE (Lisboa) | Fred Linardi*

Digite “livraria” no Google Maps, veja o que aparece nos bairros centrais de Lisboa, e você estará em apuros. Se você morar na cidade e tiver tempo, os apuros são financeiros; se você estiver por poucos dias, seus apuros estarão em escolher quais delas visitar.

A despeito das mais conhecidas, um dia fomos cruzando as ruazinhas e vielas do Baixo Chiado, até uma dessas menos mencionadas. Ela tinha aparecido no mapa como uma loja próxima de onde estávamos. Dava para ser naquele dia, e valia a pena! A livraria “Palavra de Viajante” é, oras pois, especializada em livros de viagem, desde os óbvios guias de turismo até os mais variados relatos de viagens empreendidas pelos escritores, assim como as narrativas onde toda a história é ficcional.

Pulemos os guias e vamos para os livros que fazem com que a gente se perca categoricamente em suas histórias. Estão lá Bruce Chatwin, Paul Theroux, Henry David Thoreau, Tiziano Terzani, John Reed e tantos outros que foram, voltaram e relataram. Há também aqueles que empreenderam viagens totalmente imaginárias, como Xavier de Maistre, Ítalo Calvino e Alessandro Baricco. Aliás, todo o fôlego perdido nas ladeiras da cidade foi definitivamente aniquilado diante de uma edição ilustrada e indescritível de “Seda”. Ainda contamos com os teóricos, diante de tantas reflexões que ainda não cruzaram os mares até nosso mercado editorial. “As viagens de Gulliver” estão lá, claro! A jornada de “Pinóquio” também, pois como uma livraria dessas não se dedicaria ao setor infantil? “A Viagem do Elefante”, de Saramago, adaptada para as crianças, está lá também.

Passei um tempão vendo quase todas as prateleiras e amaldiçoando a violenta conversão monetária. Peguei um teórico escrito por Paul Theroux sobre narrativas de viagem. A simpática senhora que cuida da livraria perguntou se eu queria pensar para levar depois, e reservou em sua mesa. Não fui buscar ainda. Ela deve estar achando que eu desisti. Eu considero um ato falho.

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** Fred Linardi (Americana/SP, 1982) é jornalista graduado pela Universidade Mackenzie, escritor e palhaço. Especialista em Jornalismo Literário, atualmente é mestrando em Escrita Criativa na PUCRS, escrevendo uma biografia sobre uma palhaça brasileira e aprofundando sua pesquisa em literatura de não ficção.  É sócio da Biografias & Profecias, editora focada na publicação de memórias familiares e empresariais. No campo da ficção, em 2017 foi contemplado com o 2º lugar no Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães, na Jornada Literária de Passo Fundo. Contato: fred.linardi@gmail.com

Catopelando | Mara Narciso*

Nos anos 1960, a nostalgia fala: não havia decoração pública nas Festas de Agosto de Montes Claros. Nem esse nome havia. Quando meiava o mês ventoso – “agosto chega como a ventania, cálice bento e abençoado, a dor do povo de São Benedito, no mastro existe para ser louvado” (Tino Gomes e Georgino Júnior) – os dançantes saiam para a rua. O Congado, nossa mais ardorosa tradição, tem na devoção a São Benedito, Nossa Senhora do Rosário e ao Divino Espírito Santo o motivo da festa.  As violas dos marujos de vermelho e azul (uma dissidência é branca) e dos caboclinhos com arcos, flechas e tangas de penas de galinha circulavam pelo centro da cidade. Ano após ano, podia-se ouvir a batida dos pandeiros, caixas e tambores dos catopês, com sua dança cadenciada, indo e voltando em fila indiana, com os estandartes e uma fé candente. Eram grandes em sua coragem e veneração aos santos, mas minguados em número. Na verdade, o Segundo Terno de Catopês de Nossa Senhora do Rosário, tinha à frente o grande Mestre João Faria, desde os 17 anos, e uma dúzia de homens e meninos, quase todos descalços, nem mesmo sandálias de borracha possuíam, trajavam roupas brancas surradas e empoeiradas, com minguadas fitas coloridas nos capacetes, traços que marcam o grupo, e uma dolorida cara de sofrimento. Não dá para tirar isso nem da História e nem da letra da música “Montesclareou” cujo verso diz “meus olhos cegos de poeira e dor”.

A antiga Igreja do Rosário, no meio da praça, foi derrubada pelo progresso e outra moderna com formato de barco passou a abrigar os dançantes em seus rituais, debaixo da quentura abafada do lugar. Lá se vão décadas e a festa mudou, recebeu o apoio de políticos, da população e especialmente da classe média, que aderiu e apoiou financeiramente, com jantares coletivos e doações, mesmo sem verbas oficiais. Sem contar os príncipes e princesas e quase toda a corte, que são provenientes da classe abastada, onde estão os festeiros que organizam o almoço dos participantes. Sem isso, a Festa dos Catopês, Marujos e Caboclinhos, negros, brancos e índios, respectivamente, este ano em sua 179º edição, 18 anos anterior à emancipação de Montes Claros, poderia ter desaparecido. Quem vê sua grandiosidade hoje, coligada ao Festival Folclórico – 40ª edição, apoiada e admirada pela plasticidade da sua dança, beleza e longevidade, nem sonha como já foi.

A classe média entrou nos ternos seguindo um ritual complexo, a começar pela exigência de fé, respeito às tradições e comparecimento aos ensaios. Chegou com trabalho e participação no cortejo. Não pode descaracterizar os rituais nem os figurinos. Os capacetes dos catopês mudaram, adquirindo pedrarias, penachos de pavão, e fitas coloridas até o chão. As faixas transpassadas no peito mostram a graduação dentro do reinado. Os chegantes estão, obviamente, sob o comando dos mestres e muitos se apresentam há décadas. São importantes na manutenção da festa, mas há discordantes veementes, que querem apenas os dançantes de raiz no desfile. Dentro dos limites estipulados, a manutenção dessa infiltração respeitosa é bem-vinda. A discussão e palpites são antigos, e alguns olhares externos querem expurgar o Festival Folclórico e dizer como os dançantes devem se comportar.

As Festas de Agosto, quer gostem ou não, valorizem ou pensem que sejam artificiais e aculturadas, mobilizam a cidade durante quatro dias e quatro noites, tumultuando o centro e trazendo vida e alegria ao sofrido povo da cidade.

Muitos querem ver, fotografar e filmar o desfile que começa na Praça Dr. João Alves e desce até a Praça Portugal na direção da Igreja do Rosário. A cacicona Maria do Socorro Pereira Domingues, no comando dos caboclinhos, é a única mulher a ocupar esse cargo. O Mestre Zanza – João Pimenta dos Santos, catopê da velha guarda, tem 85 anos, desfila desde o nascimento, e esse apelido foi-lhe dado pela mãe, porque ficava “zanzando” pela casa. Firme no cortejo até hoje, tem recebido homenagens e honrarias. O Mestre João Faria, um carroceiro na vida real e um rei na vida de sonho e sua inconfundível marcação de ritmo, partiu aos 74 anos, em 10 de janeiro de 2018. Nesta festa, a passagem do seu Terno, comandado pelo neto Yuri Farias Cardoso, de 19 anos, arrancou lágrimas dos mais sensíveis, inconformados com as perdas definitivas.

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Mara Narciso é médica e escritora de Montes Claros (MG) e toda semana me presenteia com suas crônicas belíssimas. Contato: yanmar@terra.com.br

Sete anos | Raldiany Pereira*

Nossa senhora das crianças crescidas

Rogai pelas mãezinhas zelosas

Que procuram, perplexas!

Seus bebês e criancinhas perdidas…

 

Lembro bem

Tenho certeza

Foi ontem ainda

Ouvia lá fora

A voz grave e suave

De meu amoroso pai

E dedilhava as cosquinhas

De minha amada mãe

Dentro de sua barriga!

 

Logo depois foi aquele…

Acuda-nos Deus!

Não sabiam o que fazer

Para silenciar

Os choros meus.

 

Berço, móbile, mosquiteiro

Banho no balde

Banho de sol

Primeiro banho de mar

Primeiro banho de piscina

Primeiro banho de chuveiro

Em pé, com sete meses, no banheiro.

 

Chocalho, babador, sling, carrinho…

Passeios manhã e tarde pelo condomínio.

 

Meu primeiro dentinho

Minha primeira febre

Meu cabelo ralinho.

 

Sentei, ajoelhei, dei meu primeiro passinho.

Aos nove meses,

Desembestei na carreira!

Que asneira!

Que tombo!

Que galo!

Era bebê… e me sentia menino…

 

Meninote fui para a escola

E encontrei outras criancinhas.

Lembro-me especialmente de Teresa…

Como chorávamos!

Sem querer largar nossas mãezinhas.

 

Ainda usávamos fraldas

E não largávamos nossas chupetinhas

Presas aos paninhos

Cuidadosamente guardados

Entre nossas mãozinhas.

 

Trenzinho, barquinho, carrinho, peteca…

Blocos de madeira, blocos de montar, legos minúsculos…

Triciclo, patinete, bicicleta sem rodinhas…

Super-heróis, super-vilões…

Bombeiro, mocinho, polícia, ladrão…

Bola de meia, bola de gude, pião…

Pipa, patins, tobogã…

 

O que é isso?

Caiu seu primeiro dentinho?

Nossa!

Já nasceram outros seis!

 

Qual seu nome?

Quantos anos você tem?

Me chamo Pedro Antonio.

Completo sete anos em julho.

Dia 26.

 

Cresço. Cresço.

Cresço rápido demais.

Vê…!

Já quase alcanço

O ombro de minha mãe.

 

Ao meu filho querido

e a todas as pessoas que fazem parte

da sua história, imprimindo em sua vida

doces memórias.

Raldianny Pereira

26.07.2018

Em maio de 2014, Antonio Menezes deu uma entrevista. Ele foi um dos repórteres que cobriu a passagem da seleção brasileira de futebol pelo Recife na Copa de 1958. Tia Íris, então professora do maternal, assistiu a entrevista, reconheceu o pai de seu aluno e me falou sorrindo: “Pedro Antonio vai ter muitas histórias para contar”.

Em maio de 2016, Antonio Menezes partiu. Seis meses depois, em novembro do mesmo ano, Tia Íris também cumpriu sua jornada.

Poderíamos dizer… “gostaríamos que eles estivessem aqui… celebrando o 26 de julho de 2018 conosco”. Seria uma verdade. De fato, queríamos muito os dois abraços. Como abraçam gostoso!

Mas eu e Pedro Antonio preferimos dizer que nossos amores celebram a vida conosco numa vida de outra dimensão. E se nossos sentidos não conseguem percebê-los na dimensão dessa outra vida, nossos sentimentos atravessam o véu e os abraçam. Como sempre!

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Raldiany Pereira é escritora, mãe de Pedro, e participaram pela primeira vez dos Estudos em Escrita Criativa em 11 de Agosto de 2018, quando foi lido o belíssimo “Sete anos”. Contatoraldianny@gmail.com

“A mulher faminta”* | Tiago Germano**

Tenta fechar os olhos, mas o barulho do interfone não o deixa dormir. No colchão em que cabem três dele, camadas de lençol amarrotado modelam um corpo. Tem a nítida impressão de que ela ainda está ali. Da janela, uma luz difusa se reflete na parede do quarto. As mãos procuram o celular. Confere o mostrador do relógio. Três e meia da madrugada e o interfone que não para de tocar. Desliza para o lado e coloca os pés no lugar mais seguro que encontra. Um cânion aberto por pilhas de livros e papéis assume o espaço que os poucos móveis não conseguem preencher. Desvia cambaleante de cada um dos obstáculos. Uma pilha tomba e uma cascata de páginas forma um pequeno estuário no chão. Projeta os membros de um lado para o outro do corredor. Desloca-se mais com as mãos tateando as paredes que com os pés tropeçando nas caixas. O som do interfone ecoa metálico pelo apartamento. É quase possível senti-lo vibrar na superfície das paredes. A porta do quarto de hóspedes está aberta e trancá-la é a primeira coisa que faz antes de continuar a seguir o eco até a cozinha. Liga a luz e uma rajada incandescente atravessa a retina. Procura o aparelho entre a pia de louças acumuladas, uma coluna parcialmente submersa de porcelana barata, um iceberg que vai dos pratos maiores para os pires menores, os talheres por cima, os copos encaixados uns dentro dos outros, as panelas de alumínio num caos perfeitamente organizado. — O senhor sabe que eu só faço minha obrigação — diz a voz roufenha do porteiro, do outro lado da linha. No sexto andar do prédio, o vazio é tal que o silêncio consegue se sobrepor às desculpas pela hora. — A vizinha de baixo tá perguntando se o senhor não deixou alguma coisa estragar na geladeira ou no forno. A geladeira está vazia, e é preciso esfregar muitas vezes os olhos antes de verificar as quatro bocas do fogão apagadas, a válvula do gás fechada há sei lá quanto tempo e nem um traço de lixo na área de serviço, não fosse o pequeno lodaçal que demarca o trajeto de chorume das sacolas recém-recolhidas. Na pia, as roupas sujas permanecem mergulhadas em uma solução de sabão em pó e água sanitária. As janelas continuam fechadas. — O senhor sabe como é gente velha. Já é a terceira vez que ela me pede pra ligar perguntando. Larga o aparelho no suporte. Vai até a sala e tenta sentir o cheiro. O notebook hiberna na mesa de jantar. Confere o dia da semana na tela. Na avenida, ouve um carro frear e acelerar subitamente. As rodas parecem se desconjuntar na lombada, os pneus cantando à medida que o carro se afasta.

Solta as trancas da porta corrediça e só então percebe o reflexo da TV ligada no mudo. Abre a porta de vidro que dá para a varanda e o vento começa a uivar invadindo a sala. Não se lembra de ter posto o DVD no aparelho. Não se lembra de ter abandonado o filme no meio. Tira a camisa suada e deita no sofá. Há uma sensação de alívio em colocá-la sobre o rosto, o suor do corpo ainda quente encharcando a malha. Aumenta o volume no controle remoto. Pela gola aberta da camisa, acompanha a cena que se repete na tela. É noite e um grupo de criaturas cerca uma caminhonete ardendo em chamas. Dentro da cabine, um corpo carbonizado desprende uma espessa nuvem de fumaça. Faces desfiguradas aglomeram-se no para-brisa. As criaturas arrombam a cabine e desmembram o cadáver, roubando restos de carne humana com as mãos. O vermelho das tripas salta no colorido digital. Um homem devora um pedaço de pele lacerada, uma tira que parece do tamanho exato da epiderme que lhe falta no pescoço. Começa, enfim, a se lembrar. Tudo, de fato, aconteceu no quarto ao lado. Sabe agora exatamente de onde vem o cheiro. Tem alguém morto neste apartamento.

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* Trecho do primeiro capítulo do livro A mulher faminta, de Tiago Germano.

** Tiago Germano nasceu em Picuí (PB) e foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura e do Prêmio Açorianos de Criação Literária com o seu primeiro livro de crônicas, Demônios domésticos, lançado em 2017 pela Le Chien, de Porto Alegre. O texto “Óculos Ray-Ban”, que abre este volume, venceu o Prêmio Rubem Braga de Crônicas em 2016. A mulher faminta, finalista do Prêmio Açorianos de Criação Literária 2016, é seu primeiro romance e publicado pela Moinhos, de Belo Horizonte, em 2018. Contato: tdgermano@gmail.com

 

Estudos em Escrita Criativa – Agosto, 2018 – Recife e Porto Alegre

Os encontros de Agosto, 2018 em Recife e Porto Alegre falaram sobre O amor. Não somente o amor entre os amantes, mas, principalmente, o amor à escrita. Passeamos pelos encontros do primeiro semestre, revisamos conceitos, e acrescentamos o de carcaça de John Keats, quando o poeta se esvazia de si para se preencher com Poesia,  Ficção, com Escrita Criativa. Encontramos essa carcaça na escrita de Orhan Pamuk, de Ian McEwan, e tantos outros artistas de diversas artes, teóricos de inúmeras áreas de conhecimento…

A partir dessas conexões do octógono dos Estudos em Escrita Criativa, fomos presenteados com textos que se encontram aqui neste post, com os processos criativos de Ana Maria César (Recife), Annie Müller e Luís Roberto Amabile (Porto Alegre), e outros textos que foram além do tempo e do tema do mês e que se encontram em posts individuais.

E nos preparamos para os encontros de Setembro, 2018 em Recife e Porto Alegre que falarão sobre O sonho. Desta vez teremos a honra e a alegria de receber Adriano Portela (Recife), Gisela Rodriguez e Fred Linardi (Porto Alegre) para falarem sobre suas criações artísticas, poéticas, literárias.

Que venha Setembro e uma boa leitura!

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Branco

André Souto

Recife, 11/08/2018, V Encontro de Escrita Criativa

Contato: asla56@outlook.com

 

A tela à sua frente. Branca. O cursor pisca. Oscila. Pronto a receber alguém. Alguma coisa, mesmo sem trama nem final.

A tela: insulto e desejo. Sozinho e sentindo a presença. Frio, branco: o olhar do inquisidor mudo.

Compreendeu “a luta mais vã”. Arremeteu contra os seus moinhos de vento.

No cursor inquieto, a pergunta tantas vezes repetida:

— E agora?

 

                                                                    

 

ESCRITA AMOROSA

BERNADETE  BRUTO

Recife, 11 de Agosto de 2018

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

Foi principalmente por amor que pegou o papel e escreveu o primeiro poema. Vieram outros depois, que rasgou por não achar bonito comparado com os da irmã. Aquela sim tinha o dom, a vez, a voz e todos os olhos e amor daquela grande família.

Ali do seu canto, percebeu, também queria ser amada, embora fosse apenas uma menina perante a adolescente cheia de vida. Foi à luta. Insistiu. Alguns olhares se voltaram e pousaram na sua pessoa miúda. A partir dali, ganhou seu espaço e um lugar na família.

Depois o ato de escrever surgiu como confissão de outros amores transitórios, doloridos ou desenganados. Muitas lágrimas pingando no papel, unidas à escrita desenfreada, foram despejadas e, por vezes, o ato tenha ficado meio desbotado.

Somente quando olhou para si e para o outro com amor, o ato de escrever foi tornando-se forte, sereno e eficaz. Hoje, escrever continua sendo um ato de amor, que chega impregnado do grande amor que ela tem por si e pelo outro.

Assim ela imagina que deva ser. É essa busca no seu ato. Quando isso acontecer, um dia, a sua escrita poderá ser conhecida pelo próprio ato que a moldou desde o princípio, podendo ser denominada de AMOROSA.

 

 

O PODER DA PALAVRA

Cilene Santos

Recife, 19/08/2018

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

 

Pudesse ser

Um gesto,

Um olhar,

Uma miragem.

Mas foi uma palavra,

Guiada pelo vento

Que, num relance,

Invadiu-me a alma.

Alojando-se,

De lá fez morada.

Uniu-se aos sentimentos

Que lá já se encontravam.

E, me atormentando.

Suplicava liberdade,

Em forma de poesia.

Relutei. Expliquei.

Não era ainda chegada a

hora.

Não sou liberta.

Sou prisioneira da minha inspiração.

Não me pertence o momento

De a poesia vir à luz.

E a palavra, com rogos instantes,

Não respeitou o meu instante.

De súbito, a explosão.

Fui vencida!

O verbo se fez asas

E alçou voo

Rumo ao infinito

Mundo da escrita.

 

 

ODE A KEATS

ELBA LINS

Recife, 11/08/2018

Contato: elbalins@gmail.com

 

Me esvazio de mim

De minha existência sem graça

Quando vejo teus olhos de sombra

A me mostrar confusos caminhos

Por onde a alma transita

Quando de paixões

Quando de dores

Quando de mistérios

Que entrevejo através dos teus olhos.

 

Teus olhos de sombra

São lagos profundos

Onde mergulho

E me perco de mim mesmo.

São bosques escuros

Por onde avanço

Na certeza de me perder

Por onde caminho tresloucadamente

Buscando a vida ou a morte

Buscando enfim, a luz

Dos teus olhos mornos.

 

 

Gabi Vieira

Recife, 11/08/2018

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

 

Aos sete anos, lhe foi dado papel e lápis, não importa mais por quem. Na euforia de sua mente curiosa e de seu jeito espivitado, encarou a folha em branco com uma urgência que só cabe às crianças – e ouviu alguma coisa. Com espanto, percebeu vir daquele papel à sua frente. Um chamado, uma súplica, uma única palavra:

 

“Escreva”.

 

Tão simples, mas tão extraordinária. Tão curta, mas tão longínqua. Tão silenciosa, mas tão desesperada.

 

E então, o que lhe restava? Não podia apenas ignorar aquele pedido, que era de certa forma uma ordem, uma necessidade profunda cujas raízes já sentia brotar no próprio âmago. Era isso. Não tinha jeito.

Se não escrevesse, sufocaria.

Depois disso – depois de se entregar ao papel, às palavras e às ideias – não mais foi somente o que se era. Foi alegria, foi tristeza. Foi ódio, foi amor, e nem sempre soube descrever o que se era. Foi Anna, foi Julia, foi Stella, mas também foi Caio, Davi, Lucas. Foi tanto e ao mesmo tempo foi tão pouco. Seu corpo não era mais composto de água, sangue, carne, osso. Na pele, se imprimiam as paisagens que criara no fundo da mente e depois passara para o papel. Os cabelos esvoaçavam com o vento das risadas daquelas vidas que trouxera à existência, caminhando ao seu lado como velhas amigas. E nas veias, corriam as letras que pulsavam de seu coração, espalhando-se pelo corpo todo e dando-lhe a plena certeza de que ela própria era feita de palavras.

 

 

para um poema de amor

Márcia Maia

Recife, 11/08/2018

Contato: marciamaia@uol.com.br

 

acordei querendo escrever um poema de amor

 

um poema que de amor reluzisse

nessa manhã sem azul

que trouxesse de volta o bem-te-vi sumido

e reinventasse ninhos no pinheiro

e fantasmas amigos na varanda

vivos ou não

 

um poema que verdágua transbordasse

num misto de mar e capibaribe

de paralelepípedo e mangue

e que fizesse florir em pleno inverno os

baobás e todas as acácias

guardando os flamboyants para o verão

 

um poema que se negasse ao corriqueiro

eu te amo e dissesse do amar

com verso e rima

numa voz peculiar de gesto novo

que fosse efêmero como o bronze esverdeado

das estátuas e permanente como o brilho

que há nas bolas de sabão

 

que dissesse de mim sem me dizer

e alardeasse o querer de cada gente

dispensando os como os quando e todos os porquês

 

e que algum dia em um livro em um blogue

onde quer que alguém o visse

que se lhe abrisse um sorriso ao fim de o ler

 

 

Ana Paula Bardini

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: apbardini@terra.com.br

Encontrar palavras que se possa expressar

Sentimentos que insistem em não se mostrar

 Não tem nada de pensado

Muito menos de ensaiado

Vem da alma no momento apropriado

Tomam forma, dando vida ao inanimado

 E, aos poucos, a natureza antes dura

Se matiza e se mistura

Como cores em pintura

Na extrema delicadeza

De sua ímpar beleza

Tem-se então uma sinfonia

Sonhos e desejos em total harmonia

Palavras não se deve procurar

Pois são elas que se fazem encontrar

#APB

 

Nem sempre sou fala, às vezes sou escuta

E é quando escrevo que me sinto ouvida

 

Nem sempre sou clara, às vezes sou escura

E é quando escrevo que me revelo luz

 

Nem sempre sei quem sou, às vezes não sei

E é quando escrevo que me desvendo em mim

 

Nem sempre sou Ana, às vezes sou Paula

Mas sempre que escrevo sou sem-fim

 

Muitas em mim.

#APB

 

 

Escrever-se

Gabriela Guaragna

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: gabi_guaragna@hotmail.com

 

Antes mesmo de pousar no oco da boca, o beijo das palavras entregam-se aos pulmões e escorrem, feito água morna, pela ponta de cada dedo que segura uma letra. A caneta finca o papel como se fincasse a musculatura mais profunda e assina nas vísceras as vozes que não encontraram espaço na garganta. Escritor desagua-se sobre o papel e a escrita o escreve em si.

 

 

Gabriel Nascimento

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: gsabritto@yahoo.com.br

 

Quatro da manhã. Deveria estar exausto, mas meu corpo desconhece senso comum. O ronco de minha mãe desmata o silêncio como uma motoserra. Respiro fundo, sufocando o grito que quase escapa. Meu amigo ouve sem reclamar, como se a reclamação lhe desse identidade. Nunca questionei como um pedaço de papel é meu melhor amigo. Curioso como o inanimado nos dá identidade. Sem palavras, uma folha é somente isso. E sei que é o ato de impor a tinta no papel que me torna um escritor. Tudo bem. Prefiro um pulso dolorido do que um grito no escuro.

 

 

GESTAÇÃO

Luciana Beirão de Almeida

Porto Alegre, 15/08/2018

Contato: lubeirao@hotmail.com

 

A palavra,

Fecundando a página,

Gerando vida.

Nutrindo sonhos,

Acalentando sentimentos.

 

Vai se formando uma ideia,

Ponto por ponto,

Linha por linha.

 

A tinta pressiona o papel,

Até ficar tudo pronto

Para a derradeira expulsão!

 

 

LIGAÇÃO

Luciana Beirão de Almeida

 

Como letra que forma a palavra,

Sou única.

Como palavra que forma o texto,

Sou só.

Cada palavra,

Cada ser,

Cada um.

Formando um todo.

Um arco-íris cintilante e belo,

Numa ciranda multicolorida.

Iluminando,

Brilhando,

Unindo,

Sendo!

 

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Recife, 11 de Agosto de 2018

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Porto Alegre, 15 de Agosto de 2018

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