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Índex* – Junho, 2018

Carrego 

As frases

Inacabadas 

Os sonhos

Por vir

Uma estrela

Cadente

Caindo

Em minha mão

Ainda quente

Ainda cheirando 

A jasmim

Até brotar

No centro

Uma palavra

De cor

Azul

(“Até meu céu nascer azul”, Patricia Gonçalves Tenório, 31/05/2018, 15h35)

 

O céu azul de final de semestre, início de outro no Índex de Junho, 2018 no blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Vinte e um | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Il Convivio (Itália), Alfredo Tagliavia (Itália) & “La bambina dagli occhi verdi” | Patricia Gonçalves Tenório.

Estudos em Escrita Criativa – Junho, 2018 | De Recife a Porto Alegre | Diversos.

Poemas de Cilene Santos (PE – Brasil).

Minicontos de Júlia Dantas (RS – Brasil) nos Estudos em Escrita Criativa – Porto Alegre.

E os links do mês:

– Homero Fonseca (PE – Brasil): https://medium.com/@homerofonseca/literatura-ostenta%C3%A7%C3%A3o-bc355b700c7c

– Gabriel Nascimento (RS –Brasil):  https://www.facebook.com/Reimundo45/

– Pedro Gabriel (PE – Brasil): https://lituraterre.com/espaco-letra-freudiana/  

Agradeço a atenção e o carinho de sempre, a próxima postagem será em 29 de Julho de 2018, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Index* June, 2018

 

I carry

The phrases

Unfinished

The dreams

For coming

A star

Cadent

Falling down

In my hand

Still hot

Still smelling

The jasmine

Until it comes out

In the center

A word

In color

Blue

(“Until my sky is blue”, Patricia Gonçalves Tenório, 05/31/2018, 3:35 p.m.)

 

The blue sky of the end of semester, beginning of another in the Index of June, 2018 in the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

Twenty-one | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil).

Il Convivio (Italy), Alfredo Tagliavia (Italy) & “La bambina dagli occhi verdi” | Patricia Gonçalves Tenório.

Studies in Creative Writing – June, 2018 | From Recife to Porto Alegre | Several.

Poems by Cilene Santos (PE – Brasil).

Very-short-stories by Júlia Dantas (RS – Brasil) in Studies in Creative Writing – Porto Alegre.

And the links of the month:

– Homero Fonseca (PE – Brasil): https://medium.com/@homerofonseca/literatura-ostenta%C3%A7%C3%A3o-bc355b700c7c  

– Gabriel Nascimento (RS – Brasil): https://www.facebook.com/Reimundo45/

– Pedro Gabriel (PE – Brasil): https://lituraterre.com/espaco-letra-freudiana/  

Thank you for the attention and the affection of always, the next post will be on July 29, 2018, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** “Olha para o céu, meu amor… Nessa noite de São João”. Música: Luiz Gonzaga  (PE – Brasil). Fotografia: George Barbosa  (PE – Brasil). “Look at the sky, my love … On that night of St. John.” Music: Luiz Gonzaga (PE Brasil). Photography: George Barbosa (PE – Brasil).

Vinte e um* | Patricia Gonçalves Tenório**

 

Ele perguntou o que era terça;

ela, perigosamente, não respondeu.

 

O que não se sabe sobre os terroristas é que eles levam uma vida perfeitamente normal. Se apaixonam, desiludem, se iludem com as promessas de vida eterna e dezenas de virgens flutuantes.

Oham sabia das virgens, cria nas virgens como ao próprio corpo armado, coberto com a túnica preta e o turbante branco. O que Oham não sabia era que uma das virgens atravessava o seu espaço no exato instante em que iria disparar as bombas.

– O senhor sabe quando é terça?

Ela lhe perguntou. Com tantos ao redor. Com olhos de pantera, ela perguntou. Será que sabia? Será que lhe adivinhou?

Yasmine era filha única, neta única de marajá. Ela poderia estar em casa, com as tantas amas, os muitos escravos, a pensar em nada, a não pensar. Mas para que deixar de viver a vida, experimentar a vida no seu sabor, nos aromas, no calor do mercado, o colorido das especiarias, que sabor tem o açafrão para Yasmine?

– O que tem na terça-feira?

O rapaz lhe perguntou. O rapaz de olhos vivos, mais vivos que os seus, mais vida nos lábios grossos e os dentes de marfim, o turbante branco emoldurando o rosto, a túnica preta cobrindo o corpo alto, esguio.

Ele não desconfiou que o perigo ali se achava. Naqueles dedos finos. Naquele véu de púrpura. Os olhos de pantera adentravam os olhos seus, sondavam a alma por mistérios, e ali, no centro, no âmago do espaço seu, Yasmine o desvendou, Yasmine lhe sentiu a cintura, sentiu as bombas, o disparador.

– O que tem na terça-feira?

– É o dia.

– O dia?

– Do meu aniversário.

– Quantos anos?

– Vinte e um.

– Também tenho vinte e um.

– Por que então as bombas?

– Por que então o véu de púrpura?

Yasmine ali sentou. No chão. Na calçada do mercado. Onde Oham já devia ter disparado, já devia ter se entregado à vida eterna e às virgens prometidas.

Mas as lágrimas de Yasmine o atraíram para o chão. Na calçada do mercado. Tocou a mão de Yasmine. Ela não se esquivou. E assim permaneceram, o tempo da explosão, o tempo da fuga de casa de Yasmine, do paraíso de Oham.

Porque, se quiser, se vive tantas possibilidades, muitas vidas, muitas virgens num mesmo instante, num mesmo toque, num único beijo da virgem Yasmine e do homem-bomba Oham.

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Veintiuno

Elle preguntó qué era martes;

Ella, peligrosamente, no respondió.

 

Lo que no se sabe sobre los terroristas es que llevan una vida perfectamente normal. Se enamoran, se decepcionan, se ilusionan con las promesas de vida eterna y decenas de vírgenes flotantes.

Oham sabía de las vírgenes, cría en las vírgenes como en el propio cuerpo armado, cubierto con la túnica negra y el turbante blanco.

—¿El señor sabe cuándo es martes?

Le preguntó ella. Con tantos alrededor. Ella preguntó con ojos de pantera. ¿Será que sabía? ¿Será que le adivinó?

Yasmine era hija única, nieta única de marajá. Ella podría estar en casa, con las tantas amas, los muchos esclavos, a pensar en nada, a no pensar. Pero para dejar de vivir la vida, experimentar la vida en su sabor, en los aromas, en el calor del mercado, el coloreado de las especias, ¿que sabor tiene el azafrán para Yasmine?

– ¿Y que tiene el martes?

El muchacho le preguntó. El muchacho de ojos vivos, más vivos que los suyos, con más vida en los labios gruesos y los dientes de marfil, el turbante blanco amoldado al rostro, la túnica negra cubriendo el cuerpo alto, esbelto.

Él no dudó el peligro se hallaba allí. En aquellos dedos finos. En aquel velo de púrpura. Los ojos de pantera penetraban sus ojos, sondaban el alma por misterios, y allí, en el centro, en el núcleo de su espacio, Yasmine lo desveló, Yasmine le sintió la cintura, sintió las bombas, el disparador.

– ¿Y que tiene el martes?

– Es el día.

– ¿El día?

– De mi aniversario.

– ¿Cuántos años?

– Veintiuno.

– También tengo veintiuno.

– ¿Por qué entonces las bombas?

– ¿Por qué entonces el velo de púrpura?

Yasmine se sentó allí. En el suelo. En la calzada del mercado. Donde Oham ya debía haber disparado, ya debía haberse entregado a la vida eterna y a las vírgenes prometidas.

Pero las lágrimas de Yasmine lo atrajeron al suelo. En la calzada del mercado. Tocó la mano de Yasmine. Ella no se esquivó. Y permanecieron así, el tiempo de la explosión, el tiempo de la fuga de casa de Yasmine, del paraíso de Oham.

Porque, si se quiere, se viven tantas posibilidades, muchas vidas, muchas vírgenes en un mismo instante, en un mismo toque, en un único beso de la virgen Yasmine y del hombre-bomba Oham.

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* Extraído de Vinte e um / Veintiuno, Patricia Gonçalves Tenório. Tradução: Alexandra Viscrian, David Pérez García. Madrid: Mundi Book Ediciones, 2016.

** Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália); Prêmio Vânia Souto Carvalho (2012) da Academia Pernambucana de Letras (PE) por Como se Ícaro falasse, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutoranda em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: patriciatenorio@uol.com.brwww.patriciatenorio.com.br

 

Il Convivio*, Alfredo Tagliavia** & “La bambina dagli occhi verdi” | Patricia Gonçalves Tenório***

Questo libro può essere letto, come se fosse un film di 90 minuti, come se fosse una favola ludico-adulta, come se fossi tu a entrare nella pelle di Manoela, Letícia, Pedro, Jonatas, La maestra Mariana, il sindaco José, per scoprire quale posto ti appartiene nel mondo: un luogo dagli occhi neri o un luogo dagli occhi verdi?

“… il primo fil rouge della favola lo rintraccio nella dicotomia uguale-diverso, categorie che ancor oggi sconfinano nella squalifica, quando non nella violenza. Nella città in cui tutti avevano gli occhi neri giunge infatti Manoela, la bambina dagli occhi verdi, colei che non parlava se non con gli occhi, la barbara, e Fra’ Felipe, come nella nota Controversia di Valladolid del 1550 tra Ginés de Sepúlveda e Bartolomé de Las Casas, cerca “un’autorizzazione a credere che discendeva da questo mondo. Le contò le dita dei piedi e delle mani. Erano tutte là, uguali a quelle dei battezzati della domenina”. La drammatica e incredibile realtà sudamericana, e l’impossibilità di accogliere l’estranea (“Se avessero pensato di abbattere le mura dei cortili…”) rimanda prepotentemente all’attualità europea e ai continui appelli di papa Francesco relativi alla costruzione di ponti, non di muri. La favola dunque diventa, già dalle prime righe, realtà contingente: come relazionarsi con l’altro, con il diverso da noi? Minaccia oppure necessità?” (dall Prostfazione di Alfredo Tagliavia).

Patricia Tenório, laureata all’Università Federale de Pernambuco – UFPE, Master in Teoria della Letteratura, scrive poesie, romanzi e racconti dal 2004. Scrittrice e ricercatrice in scritura creativa, è madre di tre figli. Ha pubbicato dieci libri; As joaninhas não mentem, 2006, è stato insignito del premio Miglior Romanzo Straniero del Premio “Poesia, Prosa e Arti figurative” dell’Accademia Internazionale Il Convivio (Italia, 2008). Nel 2013 ha ricevuto il Premio Marly Mota dall’Unione Brasiliana degli Scritori (Rio de Janeiro) per l’intera sua opera.

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* Patricia Tenório, La bambina dagli occhi verdi. Una favola esistenziale, Ipoc, Grammata, 2016. In Il Convivio. Anno XIX, numero 1. Gennaio – Marzo 2018.

**Alfredo Tagliavia è nato a Roma nel 1978. Dottore di ricerca in Pedagogia, attualmente insegnante precario, ha svolto diversi viaggi di studio in Brasile. Per i tipi della EMI ha pubblicato il libro L’eredità di Paulo Freire. Vita, pensiero, attualità pedagogica dell’Educatore del mondo (2011). Per le edizioni IPOC ha tradotto il testo del filosofo brasiliano Marco Heleno Barreto Immaginazione simbolica. Riflessioni introduttive (2012). Di prossima uscita è il suo primo libro di narrativa Un giorno qualunque (edizioni Book Publish), una raccolta di racconti a sfondo pedagogico, ambientati fra Italia e Brasile. Contatto: alftag@alice.it

*** Patricia Gonçalves Tenório scrive prosa e poesia dal 2004. Ha pubblicato undici libri, Major – eterno è lo spirito (2005), Le coccinelle non mentono (2006), Grani (2007), La dona a metà (2009), Dialoghi e D’Agostinho (2010), Come se Icarus parlasse (2012), Fără nume/Sans nom (Ars Longa, Romania, 2013), Ventuno/Veintiuno (Mundi Book, Spagna, aprile, 2016), e La bambina di occhio verde (libri fisici e virtuali, Recife e Porto Alegre, maggio e giugno, 2016), tradotto in italiano da Alfredo Tagliavia, La bambina dagli occhi verdi, pubblicato nel settembre, 2016 dalla casa editrice IPOC – Percorsi italiani di Cultura, di Milano. Ha difeso il 17 settembre, 2015 la tesi di master in Teoria Letteraria della linea di ricerca Intersemiosis presso l’Università Federale di Pernambuco – UFPE, “Il ritratto di Dorian Gray, di Oscar Wilde: un romanzo indiciale, agostiniano e prefigurale”, con il allegato Lo dimmenticante di storie (Appunti per una Teoria di Finzione), sotto la guida della Prof. Dr. Maria do Carmo de Siqueira Nino, pubblicato in ottobre, 2016 dalla casa editrice Scriptum Omni GmbH & Co. KG/ Nuove edizioni Accademiche, Saarbrücken, Germania. È entrata in 2.017.1 nel programma di Pos-Laurea in Lettere della Pontificia Università Cattolica di Rio Grande do Sul (PUCRS) in dottorato di ricerca in Scrittura Creativa. Contatti: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

Estudos em Escrita Criativa – Junho, 2018 | De Recife a Porto Alegre

Os Estudos em Escrita Criativa do primeiro semestre de 2018 cumpriu sua missão. Cumpriu a missão monstruosa de tentar unir as duas pontas do Brasil, as duas cidades em que eu flutuava nas idas e vindas do doutorado em Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, única com graduação, mestrado e doutorado na área do país.

As duas cidades se fizeram unas sob as temáticas do tempo – e Agostinho de Hipona, Erich Auerbach, Oscar Wilde –; do mito – e Yuval Harari, André Jolles, Vincent Van Gogh –; da viagem – e Michel Onfray, Luiz Vaz de Camões, Christopher Vogler –; da música – e Thomas Mann, Hermann Hesse, Platão.

E os conceitos se ampliaram – o Eterno e o Tempo agostiniano, Figura dos Primeiros Padres Cristãos, a Pergunta que se anula na Resposta do mito, os viajantes e sedentários desde Abel e Caim, a Teoria Barroca dos Afetos.

E os convidados especiais – Alexandra Lopes da Cunha, Alexandre Santos, Débora Ferraz, Fátima Quintas, Flávia Suassuna, Gustavo Melo Czekster, Jacques Ribemboim, Júlia Dantas, Guilherme Azambuja Castro, Tiago Germano.

E os escritos grandiosos dos participantes – Adriano B. Cracco, Ana Elisabete Cunha, Antonio Ailton, Bernadete Bruto, Cilene Santos, Dulce Albert, Elba Lins, Eliane Mascarenhas, Gabi Vieira, Gabriela Guaragna, Gabriel Nascimento, Giliard Barbosa, João Orlando Alves, Ina Melo, Inalda Dubeux Oliveira, João Paulo Nascimento de Lucena, Luciana Beirão de Almeida, Marco Polo Laufer, Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva, Monique Becher, Rackel Quintas, Rodrigo Ribeiro.

A infinita gratidão por tudo que constuímos juntos. O segundo semestre vem com muitas novidades e desafios. Mas, com vocês, sei que conseguiremos dar o salto e transformarmos a nossa Escrita Criativa em obra de arte.

Com vocês, os escritos dos participantes de Junho, de Recife a Porto Alegre, dos Estudos em Escrita Criativa – 2018.

Grande abraço e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Ana Elizabete Cunha

Recife, 09/06/2018

Contato: anaelisabetecunha@gmail.com

Venha ao colo de leite

e diga o som que Aninha;

Brinca sem tempo de fim

sentando em pele rosa, tão branca, rosinha.

 

Mas ao silêncio adormece, entorpece,

Respirando anseios de mãe.

Fita o nada e enlouquece;

Renova toda a vida em outro instante.

 

Respira… Já vou;

Respira… Aqui estou:

Um sempre nunca distante.

 

Quem foi cria de puro alento

é o todo e o tudo

a que seja remetido.

 

Se tem a escuridão nos olhos,

ofusca o sol por um sorriso.

Cachos, castanhos e noite

até que se faça esquecido…

 

(“A criança de sonho” – Ana Elisabete Cunha, 09/06/2018, 11:30h)

 

O SOM DA ANCESTRALIDADE

Bernadete Bruto

Recife, 09/06/2018

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Olhou a foto pendurada na parede do quarto, sorrindo ao se rever naquele instante mágico. Atrás da silhueta risonha o TAJ MAHAL e como ele, o som, cheiro, cores retornando para aquele instante mágico inesquecível.

Antes, jamais poderia imaginar o que aconteceria, parodiando com a escrita da própria canção, cuja letra e melodia ecoam de uma lembrança longínqua, tão distante quanto sua ancestralidade provém.

Era criança num terraço. A música ressoava do aparelho radiofônico seduzindo para uma dança (som de harmônio indiano), explicitava um convite: “a Índia fui em férias passear, tornar realidade um sonho meu…”

Hoje, após dez anos, feliz por um sonho realizado, retorna aliciadoramente ao trecho daquela canção da infância, cuja melodia produz um verdadeiro encontro do corpo com a alma: “Se nada mudar no ano que vem, a Índia vou voltar para ver meu bem.” (som do harmônico indiano)

 

A Canção Proibida

Cilene Santos

Recife, 15/06/2018

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

 

O ano, 1957. Exatamente quando eu me preparava para a Primeira Comunhão, uma canção foi lançada e fez muito sucesso.

Mas fomos orientadas pelas nossas catequistas para não cantar nem ouvir aquela música. Segundo elas, quem cantasse “Eu vou pra Maracangalha, eu vou…” fazia apologia ao inferno.  Seria o mesmo que dizer: “Eu vou pra o inferno, eu vou…” e eu tinha medo do inferno e do capeta. E na minha inocência, eu levava a sério o que elas  ensinavam. E sofria porque sendo algo proibido, aguçava mais o meu pensamento e só a canção proibida manifestava-se. Tentava pensar nas brincadeiras, nas bonecas, mas nada adiantava.

A música teimava, insistia e ficava. Eu pedia a Deus e aos santos para me libertar daquele peso.

Com o passar do tempo, mudei meus conceitos religiosos, passei a ter uma visão diferente do pecado e de Deus. Descobri que Deus não era um carrasco, como me foi apresentado. O inferno não existia. E eu perdi os medos que me afligiram  a infãncia. Eu não seria mais uma pecadora meramente pelo fato de cantar aquele samba tão bonito de Dorival Caymmi.

Todos esses acontecimentos ficaram enclausurados em minhas memórias. Entretanto, hoje, quando me encaminhava ao trabalho, fui surpreendida por aquela melodia. Um alto-falante em alto e bom som tocava a canção, na voz estrondosa do seu compositor.

Nem tive medo! Até segui cantarolando feliz e achando graça. Como pude sofrer tanto, em meus sete anos de idade, por causa de uma canção tão bela. E todo aquele passado veio à tona, justamente quando ouvi a “Canção Proibida”. E nem doeu!

 

Dulce Albert

Recife, 09/06/2018

 

UMA CANÇÃO PARA MAMÃE

Para a mãe já acamada que diziam não mais ouvia, nem falava e, talvez, visse muito pouco, só vulto, ficou junto a sua cama, e, ao confortá-la, cantarolou: “E a fonte a cantar… e a mãezinha: ‘Chuá, chuá’”… Ouviu…respondeu ao seu carinho. Com emoção gritou: mamãe cantou…mamãe cantou!

 

Elba Lins

Recife, 09/06/2018

Contato: elbalins@gmail.com

 

Na praia o sol escaldante lhe queimava a pele, potencializando o fogo que se espalhava pelo corpo.

Os olhos azuis refletiam o sol, refletiam o mar…

E sem saber que de longe alguém lhe observava, andou sem destino, procurando a companhia que melhor se adaptasse à emoção que estava sentindo.

Era solidão, era poder, era desafio…

Lembrou do filme, bem antigo.

Mergulhou na amplitude do pensamento e abordou a primeira pessoa que cruzou o caminho.

A profecia se fez, e de longe observei…

 

(A Moça com Olhos de Blues

Durante o exercício na aula de Escrita Criativa – A Música

Pensando na música La Belle de Jour, de Alceu Valença e no filme A Bela da Tarde)

 

Gabi Vieira

Recife, 09/06/2018

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

 

Ouviu o velho som emitido pelo aparelho quase tão velho quanto, distraindo-se do que estivesse fazendo. Na solidão do pequeno quarto, sentiu ondas de lembranças lhe levarem para outra época, outra casa, outra vida.

Uma vida na qual morava em um enorme casarão, não no minúsculo apartamento atual. Tempos em que corria por vastos jardins que faziam os simples cactos – as únicas plantas que tinha tempo para cuidar – na varanda de hoje se encolherem de vergonha. Em fantasias e com apetrechos em mãos, dançava seguindo o ritmo e a história daquela música emitida pelo mesmo aparelho – em suas memórias, limpo e recém-adquirido – que agora se empoeirava em sua sala.

Sorriu.

Com o lápis em mãos e o coração cheio de saudade, deixou que o Pirata José guiasse seus pensamentos até a princesa tão linda, ambos personagens insubstituíveis de seus sonhos de criança.

 

João Paulo Nascimento de Lucena

Recife, 09/06/2018

Contato: jpn.lucena@gmail.com

 

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante”. A conformação é sempre algo que mexe com a gente. Nalguns mais do que noutros. Disseram ter a ver com o amadurecimento e citaram um romance de formação, desses em que um jovem tem sua vida apresentada no olho do furação e, no desenrolar da estória, é ou não resolvida. Algo como Truman saindo da caverna de seu próprio Big Brother – com ou sem paranóia. De tanto ouvir, de tão visível, é, por vezes, subestimado. Vai ver conformar-se é com-formar-se, em seu sentido radical: radical de raiz, de individual e coletivo. Sofreu porque, talvez, como dissera o Maluco Beleza, é “chato chegar a um objetivo num instante”. Maldita procrastinação do ser-humano.

 

Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva

Recife, 09/06/2018

Contato: duda.tenorio@hotmail.com

 

É engraçado o que girar faz com as pessoas e como a música leva a isso.

Girar por dentro em busca de algo ou girar o corpo junto com a melodia e o ritmo.

Era primeiro dia de Carnaval e, ainda reunidos na casa de um amigo,…

“Eu ia lhe chamar

Enquanto corria a barca”

Corpos que nem sempre trocam palavras iniciam um processo de trocar movimentos que vêm do som.

Arritmia. A expressão do som no espaço, o éter acima de todo e qualquer elemento, afinal, ele vem antes de tudo, até da luz.

É de onde tudo nasce. E éter é espaço. O som não se propaga no vácuo.

E é por isso que, ao se embeber de música, o ser nasce de novo.

“Abre a porta e a janela e vem ver o sol nascer”

 

Rackel Quintas

Recife, 09/06/2018

Contato: rackelquintas@gmail.com

 

Tomaram-lhe orelha,

garganta e boca,

entre pães e cigarro aceso;

entre-vinhos.

Naquela mesa,

era só e presente

feito a passadeira,

enfeitando todas as coisas.

Era fantasma colorido

de gozo e som

de voz grave que cantava saudade

em tons amarelos, azuis e pretos;

em lutos.

E olhava janelas-retratos,

Olhava pessoas e pássaros,

Imagens inacabadas;

Olhava pegadas.

Amarelas, azuis e pretas.

Ninguém sabia que doía tanto

uma mesa no canto

e pranto… tanto.

Tomaram-lhe as mangas, os sulcos:

Manto.

Naquela mesa está faltando

Encanto

E a saudade dele tá doendo, enfim.

 

Gabriel Nascimento

Porto Alegre, 13/06/2018

Contatos: gsabritto@yahoo.com.br e https://www.facebook.com/Reimundo45/

 

5 anos. Não mantive contagem, mas é natural que ela sim. Sou interrompido pelo concerto matutino de buzinas e gritos. Minha cabeça faz uma apresentação surpresa, o ruído das baquetas quase me leva ao frenesi.  O concerto da manhã atinge o crescendo pelas 18:00, as buzinas da Ipiranga se juntando no refrão. O zunido me mantém acordado até a madrugada, quando o dia reserva sua melhor performance. O vento toca as folhas nas árvores com dedos praticados, um maestro exemplar. A música traz sensações, e com ela lembranças, resultando em marcas úmidas em meu rosto, lembrando-me dos tempos atuais, da pessoa que não pode mais ouvir essa orquestra muda.

 

Luciana Beirão

Porto Alegre, 13/06/2018

Contato: lubeirao@hotmail.com

 

Nota MI

 

Dó, Ré, Mi, Fá, SOU.

De .

SOU de , SI.

MI FA LÁ

SI SOU,

Ou não SOU.

Ai, que DÓ.

 

Página em branco

 

Da página em branco

Sai uma nota.

Sai uma música.

Da página em branco,

Sai uma palavra.

Uma poesia.

A página em branco vira música,

Batida,

Sentimento.

Sentimos música,

Ouvimos poesia.

Aquela página virou vida.

 

Dor de cotovelo transcontinental

Marco Polo Laufer

Porto Alegre, 13/06/2018

Contato: falecom.marcopolo@gmail.com

 

Sou brasileiro. Nunca saí do Brasil. Gostaria muito de conhecer o Velho Mundo e, enquanto isso não acontece, crio mundos onde meus personagens possam viver suas vidas sem serem perturbados.

Meu sangue é bem misturado, e desde pequeno tive contato com muita gente: negros e italianos, portugueses e índios, árabes e japoneses. Mas o que mais me fascinava era quando meu pai falava com o seu Erich e a dona Sylvia, vizinhos nossos.

Fui crescendo e descobri: aquilo era alemão. O Erich Huebel nascera nos confins da Áustria e fugira para cá assim que a Segunda Guerra acabou, e falava um português todo cheio de remendos; e a dona Sylvia, benzedeira e cartomante, nascera num lugar dentro do Brasil onde todo mundo falava só naquela língua, que não se ensinava na minha escola.

O destino me levou a São Paulo, onde morei por dez anos. Aquilo foi para mim um paraíso: a babel onde se falavam mil línguas, e eu não me importava que o cheiro do esgoto se misturasse com o cheiro das especiarias e dos segredos escondidos na curva da cada esquina.

Mas uma certeza eu sempre tive: meu coração bate dentro de um iceberg no mar do norte. Não posso ouvir holandês, sueco ou qualquer desses xingamentos que lembrem neve ou um sol triste e meio apagado, que meu coração fecha os olhos e sinceramente chora.

Lembro quando isso começou a se tornar uma verdade inegável.

Eu era jovem, nervoso e desorganizado, e tudo dava errado. Só pra mim.

Um colega do cursinho teve de sair mais cedo e perguntou se eu podia ficar com uma sacola dele, que ele pegaria no dia seguinte. Eu disse que sim.

Cheguei em casa e, claro, fui bisbilhotar.

Tinha uma fita K7 escrita Björk*.

Nome estranho. ‘O’ tremado. Podia ser alemão.

Botei no som da minha irmã, rezando a Elfos e Exus que a fita não mascasse.

Era uma música muito estranha para meu ouvido inculto e muito pouco musical. Mais tarde aprendi que aquilo era um piano e um violoncelo, com uma vassourinha varrendo a bateria, e que assim tocava-se jazz.

Aquela música mexeu muito dentro de mim. Especialmente a segunda faixa.

Não entendia uma palavra. Nem inglês nem espanhol. Doce e áspera, triste e calma, uma voz de criança com trinados de gato. Era massagem em minhas orelhas e meus demônios, prontos a afiar machados e ceifar cabeças, queriam agora encontrar uma flor e dar-lhe terra, água, adubo e um vaso.

Quando findou, sentia-me órfão, não sei de quê.

Pedi uma cópia pro meu colega, que me deu a ficha completa**. Era um disco de música islandesa. Islandeses são descendentes diretos dos vikings, e era bem possível que aquelas canções anunciassem a vinda do deus do trovão ou o crepúsculo dos deuses.

Mas pelo menos me acalmavam.

Anos depois, já na era da informação, fui atrás das letras.

Realmente são faixas de jazz de estilos variados, muitas são versões de clássicos americanos, e as letras mais raivosas falam apenas de corações despedaçados.

Em especial a minha preferida, a faixa 2, com o singelo título de “Luktar Gvendur”.

A letra fala de Gvendur, o ‘acendedor de lampiões’ (Luktar), que passava pelas ruas ao cair da noite e acendia as luzes do passeio público.

“Tinha a cabeça grisalha, e a luz fazia seu cabelo brilhar; se ele avistasse um jovem casal, ele não acendia o lampião e os deixava sob a sombra da escuridão; lembrava de seu doce amor, o ressentimento passava e seu coração quebrado até conseguia sorrir um pouco.”

Meu coração ainda pulsa, um pouco mais fraco talvez, numa geleira, mas quando estou com os nervos à flor da pele, ouvir essa música é o que basta para acalmar meus monstros e dar mais um tempo até o próximo apocalipse.

* (OBS: era o começo da era do CD, eu nem tinha aparelho).

** (CD: Gling-Gló, Cantora: Björk, ano: 1990).

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Sala de imprensa:

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Nossos encontros de Junho, 2018:

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Os próximos encontros:

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Estudos em Escrita Criativa - Porto Alegre - RS

Poemas de Cilene Santos*

Doce Amanhecer

Maio, 2018

 

Um raio do Sol

Desce à Terra.

Fecunda o ar

E faz nascer sorrisos

De olhos que já não riem.

Faz secar lágrimas

De quem já não percebe

O encanto do existir.

Desnubla olhares,

Para que toda a gente aprecie

A beleza da translucidez

De um dia de sol.

E a magnitude deste dia

Atravessa a alma de todos,

Até o ocaso,

Quando o dia findo

Despede-se e dá as boas-vindas

À noite que chega.

 

Quereres

Junho, 2018

 

Quero dividir contigo

A minha vida.

Contar segredos

Que para ninguém eu conto.

Falar dos sonhos

Que sonhei na madrugada.

Mostrar no rosto

Uma lágrima caída.

E no olhar, um sorriso de chegada.

Quero te dizer que vi

Uma flor se revelando,

Um sol se pondo

E uma estrela deslizando.

Te direi também

Que ouvi uma canção

Que de ti me fez lembrar.

Quero te surpreender

Em uma manhã de sol,

Usando aquele vestido

Branco neve de cetim.

Rir contigo, duma piada engraçada.

Depois, ficar em silêncio.

Sem pensar em nada.

Dormir abraçada a ti

E, ao acordar, ver teu rosto

Sorrindo para mim.

 

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* Cilene Santos é professora aposentada e grande poetisa. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

Minicontos de Júlia Dantas nos Estudos em Escrita Criativa – Porto Alegre

Mito

25/04/2018

O sol ardia no meio da tarde. O ar seco arranhava na garganta. Um vento eterno soprava a poeira para cima da encosta. No horizonte cinza, não havia nada. Acima das nuvens, não havia nada. Debaixo dos pés, nada. Para a frente e para trás, nada. Sísifo sentou-se sobre a pedra e descansou mil anos.

 

Viagem

16/05/2018

Lisete saiu Furiosa na casa da mãe. Essa velha nunca vai mudar, pensou a caminho da rodoviária, gente que. Só tem estudo não vai pra frente. Lisete sim ia pra frente. Ia pro banco da frente do ônibus que a levaria embora de São Pedro da Serra. Passou lendo as três horas do caminho. Depois estudou a semana toda, depois o ano e, depois, a vida. A essa altura já tinha um cargo de coordenação, uma aposentadoria engatilhada e uma mãe morta. Foi no dia em que um bem-te-vi desafinou seu canto matutino que Lisete teve vontade de voltar a São Pedro da Serra. Deixou uma reunião pelo meio, abandonou o casaco blazer e embarcou descalça no ônibus que a traria de volta. No lugar da mãe encontrou uma casa tomada por plantas. Começou uma jardinagem feita com as próprias mãos e só descansou dias, semanas, anos depois, quando percebeu os dedos calejados.

 

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Julia Dantas é escritora, editora e jornalista. Seu romance Ruína y leveza (Não Editora, 2015) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, prêmio AGEs de Livro do Ano e Prêmio Açorianos de Criação Literária. Tem contos publicados em antologias e revistas literárias. Mestre em Escrita Criativa pela PUCRS, tem experiência em traduções técnicas a partir do inglês e do espanhol e atuou durante três anos como preparadora de originais na Editora Dublinense, em Porto Alegre. Hoje se dedica ao doutorado na mesma área, mantém uma coluna quinzenal no jornal Zero Hora e finaliza seu segundo romance. Contato: juliadantas@gmail.com