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Índex* – Agosto, 2017

As palavras

Dos outros

Atravessam

As minhas mãos

Atravessam

Os meus ouvidos

E já não 

Posso dizer

Se são minhas

Se são desses

Escritores

Que me escrevem

E me impelem

A ser uma

Pessoa maior

E me cedem

Um pouco de

Inspiração 

E ofício 

E técnica

Para o que

Escrevo

Soar melhor

Em minhas mãos

(Sobre a Escrita Criativa, Patricia Gonçalves Tenório, 02/08/17, 18h06)

 

 

As palavras dos outros que me atravessam no Índex de Agosto, 2017 do blog de Patricia Gonçalves Tenório.

Quando Capitu chorou | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Fernando Luz (AL – Brasil).

Diálogos | Bernadete Bruto (PE – Brasil), Carlos Sierra (Colômbia), Elba Lins (PB/PE – Brasil) & Patricia Gonçalves Tenório.

“Exercícios literários: Café & Poesia” | Com Célia Medeiros (RN – Brasil) & Clauder Arcanjo (RN – Brasil), entre outros.

“O amor que não sentimos e outros contos” | Guilherme Azambuja Castro (RS – Brasil).

“Demorei a gostar da Elis” | Alexandra Lopes da Cunha (DF/RS – Brasil).

“Demônios domésticos” | Tiago Germano (PB/RS – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil), Marcos Torres (PE – Brasil) & Uilian Novaes (BA – Brasil). 

A partir de 28 de Agosto de 2017 estarão abertas as inscrições para o I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco (PUCRS – Brasil) que acontecerá de 13 a 15 de Outubro de 2017 na XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. As inscrições são gratuitas, vagas limitadas, e realizadas, com maiores informações, no link:

http://www.bienalpernambuco.com/i-seminario-nacional-em-escrita-criativa-de-pernambuco/

O lançamento do livro Sobre a Escrita Criativa, com artigos dos participantes do Seminário, será em 13 de Outubro de 2017, às 19h00.

Agradeço a participação e carinho, a próxima postagem será em 24 de Setembro de 2017, grande abraço e até lá,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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Index* August, 2017

The words

Of the others

They cross

My hands

They cross

My ears

And no longer

I can say

If they are mine

If they are from these

Writers

That write to me

That urge on me

To be a

Greater person

And give me

A bit of

Inspiration

And craft

And technique

For what

I write

Sound better

In my hands

(About Creative Writing, Patricia Gonçalves Tenório, 08/02/17, 6:06 p.m.)

 

 

The words of the others that cross me in the Index of August, 2017 of the blog of Patricia Gonçalves Tenório.

When Capitu wept | Patricia Gonçalves Tenório (PE – Brasil) & Fernando Luz (AL – Brasil).

Dialogues | Bernadete Bruto (PE – Brasil), Carlos Sierra (Colombia), Elba Lins (PB/PE – Brasil) & Patricia Gonçalves Tenório.

“Literary Exercises: Coffee & Poetry” | With Célia Medeiros (RN – Brasil) & Clauder Arcanjo (RN – Brasil), among others.

“The love we do not feel and other tales” | Guilherme Azambuja Castro (RS – Brasil).

“I took too long to like Elis” | Alexandra Lopes da Cunha (DF/RS – Brasil).

“Domestic Demons” | Tiago Germano (PB/RS – Brasil).

Study Group on Creative Writing | Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard (AL/PE – Brasil), Talita Bruto (PE – Brasil), Marcos Torres (PE – Brasil) & Uilian Novaes (BA – Brasil). 

From August 28, 2017 it will be opened the entries for the 1st National Seminar on Creative Writing of Pernambuco (PUCRS – Brasil), which will take place from October 13 to 15, 2017 at the XI International Book Biennial of Pernambuco. Entries are free, limited and made available, with more information, in the link:

http://www.bienalpernambuco.com/is-seminario-nacional-em-escrita-criativa-de-pernambuco/

The launch of the book About Creative Writing, with articles by participants of the Seminar, will be on October 13, 2017 at 7:00 p.m.

Thanks for the participation and affection, the next post will be on September 24, 2017, big hug and until then,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O Guaíba de Porto Alegre se encontrando com o Capibaribe de Recife formando o Oceano Atlântico do I Seminário Nacional em Escrita Criativa de Pernambuco. The Guaíba of Porto Alegre meeting with the Capibaribe of Recife forming the Atlantic Ocean of the 1st National Seminar on Creative Writing of Pernambuco.

 

Quando Capitu chorou* | Patricia Gonçalves Tenório** & Fernando Luz***

 

I Capítulo – Um passeio pelo parque

 

Ela saiu do flat bem cedinho para receber os primeiros raios de sol no Parque Farroupilha.

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Era nova ali. Era uma nova vida. Passara na seleção de mestrado em Escrita Criativa e só conhecia Porto Alegre de retrato.

Saiu do flat bem cedinho e levou o celular escondido no casaco, apesar dos conselhos da mãe. Não saia com o celular à vista, Capitu!, a mãe lhe disse, a mãe lhe orientou. Mas Capitu queria fotografar os cantos daquela cidade nova.

A caminho do parque, viu a Faculdade de Medicina com os portões frondosos, frondosos feito as árvores que iria encontrar no Parque da Redenção.

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O Parque da Redenção era o outro nome do Parque Farroupilha, e o parque recebeu aquele outro nome por causa da precoce redenção da escravatura na cidade em 1884. Enquanto que Farroupilha se deve à revolução de mesmo nome, quando a várzea do parque ficou fora dos domínios da Vila de Porto Alegre.

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Uma senhora praticava sozinha yoga quando Capitu entrou no parque. O frio da manhã arrepiava o corpo encolhido dentro do casaco, apesar dos primeiros raios de sol.

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Lá estava ele. O sol. Desnudando os cabelos castanhos, a pele morena clara, os olhos da ressaca de tantas horas de avião.

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De Recife para Porto Alegre eram seis horas de avião. Isso quando não atrasava. Em Recife, quem levou Capitu para o aeroporto foi Bentinho – o pai e a mãe da menina não paravam de chorar.

Bentinho, silencioso. Bentinho, casmurro feito iria ser um dia. E é justamente para Bentinho que a moça da ressaca tira no celular aquelas fotografias do Parque da Redenção.

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* Exercício em Wattpad da disciplina Literatura e Linguagem Digital ministrada no doutorado em Escrita Criativa do PPGL da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS pelo Prof. Dr. Bernardo Bueno em 2017.2.

** Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008) por As joaninhas não mentem, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, linha de pesquisa Intersemiose, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, sob a orientação da prof. dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Acaba de ingressar (2017.1) no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), no doutorado em Escrita Criativa, sob a orientação do prof. dr. Luiz Antonio de Assis Brasil. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

*** Publicidade da Dior enviada por Fernando Luz. Contato: fernandinholuz@hotmail.com

Diálogos | Bernadete Bruto*, Carlos Sierra**, Elba Lins*** & Patricia Gonçalves Tenório

Hoje

Eu escrevi um

Poema

Que você disse

Que não gostou

Que você disse

Que não provou

O sabor da

Eternidade

 

Mas o que é

A eternidade

Para quem nunca

Amou?

Para quem jamais

Sonhou

Com uma vida

Lado a lado

Com uma história

Dentro de uma

História

Que o abismo

Do amor

Nos dá?

 

Que a vertigem

Do amor

Coloca

Em nossa

Imaginação fértil

Em uma

Composição tardia

Que nasce

Agora das minhas mãos

Assim

Como um poema

Morto

Assim

Como um beijo

Torto

Que você jamais

Provou

 

(“Poema sujo”, Patricia Gonçalves Tenório, 09/08/2017, 20h29)

 

Se perfeita a linha

Traçada com sentimento

e conhecimento

É poema limpo

Límpido

Lindo

Estampado

Na pura caligrafia

Do consentimento

De quem

Careceria?

 

(“Sobre um Poema Limpo”, Bernadete Bruto, 14/08/2017, 12h01)

 

Quando o último homem

Descobriu que estava só

Que a sua raça seria esquecida

Teve a necessidade de dar testemunho

De escrever a bíblia

Enxergou nos frutos luminosos

Do passado

E descobriu que sua longa vida

Foi uma forma de suicídio

Uma linha mal costurada

No tecido do infinito

 

(“Linha”, Carlos Enrique Sierra, 14/08/2017, 08h31)

 

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O poema

Gritou comigo

Lutou

Bradou

Para que

Eu não o deixasse

Preso

Na gaveta

 

Veio o vento

E o espalhou

Nos quatro cantos

Do planeta

A semente

Lutou

Brotou

E nasceram

Flores raras

Poemas em folhas

Claras

Iluminando o meu

Dia

Aliviando a minha

Noite

E me fazendo

Dormir

 

(“Flores raras”, Patricia Gonçalves Tenório, 16/08/2017, 06h56)

 

Para Patricia por seu poema “Flores raras”

O poema gritou com ela

E seus ecos chegaram até mim

Eram estampidos

Os sons de gavetas se abrindo

Gavetas jogadas ao chão

De onde saiam

Folhas coloridas

Repletas de poesias

Que voavam pela casa

Fugiam pelas janelas

Batiam em portas fechadas

E se faziam borboletas

Coletando pólen

De novos poemas

De novas flores

Que se espalhavam

Pelo mundo

Que coloriam o cinza dos tristes

O cinza das horas

E davam novas cores

A quem ousasse tocá-los.

 

(“De poesia, cores, borboletas e gavetas violadas”, Elba Lins, 20.08.2017, 09h50)

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* Bernadete Bruto (Recife/PE, 1958) é bacharel e licenciada em Sociologia, com especializações na área de Recursos Humanos e Direito Administrativo. É analista de Gestão do metrô de Recife e poeta performática. Membro da União Brasileira de Escritores-UBE, da Associação dos Amigos do Museu da Cidade do Recife – AMUC, parceira da Cultura Nordestina Letras e Artes e participa  da Confraria das Artes e do Grupo de Estudos em Escrita Criativa. Tem três livros publicados, todos coletâneas de poesias: Pura impressão (2008), Um coração que canta (2011) e Querido diário peregrino (2014), participação em antologias, assim como diversas apresentações poéticas e performáticas. Contatos: bernadetebruto@gmail.com e www.bernadetebruto.com

** Carlos Enrique Sierra Mejía (Itagüí, Colômbia, 1967) é poeta, narrador, crítico, jornalista cultural e editor colombiano. Obras publicadas, entre outras: Habitación desnuda (Fondo Editorial Ateneo, Medellín, 1997), La estación baldía (Secretaría de Educación y Cultura de Medellín, 1998), Noticias del Espejo (Transeúnte Editor, Medellín, 2008), Do amor e da guerra, Antologia poética Português – espanhol (Mangue Editora, Recife, 2015). Prêmios:  Prêmio de Poesia León de Greiff, Alcaldía de Medellín, 1997, Prêmio de Poesía Ciudad de Itagüí, 2006, Beca de investigação em crítica literária, Ministério de Cultura, 1998, Menção “Melhor comentarista de livros de Colômbia”, Câmara Colombiana del Libro, (pelos seus trabalhos no jornal El Colombiano), 1994, Beca de Investigação em Artes Escénicas, Colcultura, 1994, Prêmio de Estímulos a Publicações Culturais, da Alcaldía de Medellín, 2007 y 2009. Como artista plástico foi co-diretor  do grupo de Performance R-Acción e atualmente, trabalha com o escritor Sidney Nicéas no grupo Mangue Cultural onde tem dado continuidade a esse trabalho. Contatos: sierracarlosenrique@gmail.com

*** Elba Santa Cruz Lins (Monteiro/PB, 1957) é formada em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco (1979), fez MBA em Gestão de Negócios (EAD) pela PUC-PR. Trabalhou durante 34 anos na área de Telecomunicações da CHESF (Companhia Hidroelétrica do São Francisco). Atualmente aposentada, dedica-se à escrita. Fez curso de Contação de Histórias no Zumbaiar (Recife). Faz poesias e há um ano participa do GEEC – Grupo de Estudos em Escrita Criativa, sob a coordenação de Patricia Tenório. Lançará em Outubro, 2017 seu primeiro livro, Do outro lado do espelho: O feminino em estado de poesia. Contatos: elbalins@gmail.com

“Exercícios literários: Café & Poesia” | Com Célia Medeiros* & Clauder Arcanjo**, entre outros

Cinzas

Célia Medeiros

 

Nessa ânsia desenfreada para desaparecer e reviver

Depois dos sonhos que ficaram antes do pôr do sol

Cerra os olhos, pende o corpo, e em estado latente

Vê-se estática, num estado de deplorável morbidez.

Não tem forças, não consegue sequer mirar o horizonte

Que era cinza e agora é azul vibrante,

Não tem alma, não tem olhos, nada vê

Embora traga um desejo revestido de esperança.

Nada muda, tudo continua como está.

O sol sumiu, a chuva cai, e cresce a sua embriaguez.

Quer sumir por outros campos, por outros tantos caminhos,

Que não precise pisar firme nesse chão, que não se esforce,

Pois todo esforço nesse instante é vão.

Apenas quer alçar voo, e depois de algum tempo, renascer

Como a Fênix, que ressurge das cinzas e volta a viver.

 

Cinzas

Clauder Arcanjo

 

– Foi tudo tão ligeiro…

A fumaça ainda anunciava a força das labaredas.

– Você está preso!

Os olhos lhe ardiam, dadas as cinzas que a tudo cobriam.

Quase dois anos, desde a tragédia até o júri popular.

Hoje, o juiz a anunciar:

– Crime: homicídio premeditado. Trinta anos, em regime fechado.

– Foi tudo tão ligeiro…

 

Remissão

Célia Medeiros

 

Depois que se fez noite em meus dias,

Sob o véu negro do pecado, o meu rosto disfarçou

Aquela lágrima dorida que embaçou o meu olhar.

O pensamento feito um turbilhão

Voou para aquele templo abençoado

Onde me vi aos pés da cruz ajoelhada,

Refletindo sobre a minha vida,

Guiada pelo livre-arbítrio;

Quanto fiz certo e quanto fiz errado…

Ali clamei ao Senhor, nosso Deus!

Ó Pai, bondoso e justo, a Ti peço clemência,

Embora não seja merecedora, pois sou alma errante.

Venha em meu auxílio; perdoa os meus pecados,

Fazendo-me mais leve, consciente e amorosa,

Apagando de minha mente todos os rancores,

E, do meu coração, os desamores.

Como nos ensina o Vosso mandamento

Maior, sobre a lei do amor,

Quando enviastes Teu amado Filho,

Como ser perfeito a ser seguido,

Que se doou por completo para nos salvar.

Concede-me, enfim, a remissão de meus pecados,

Fazendo-me digna de amar e ser amada,

Um ser de luz, por Ti abençoada.

 

Remissão

Clauder Arcanjo

 

– Perdeu a língua, foi?

Na penitenciária, ninguém sabia da sua voz. Apenas, do seu silêncio.

Era o mais antigo prisioneiro. Há quase trinta anos, sempre sozinho, a mão numa fotografia e a outra a debulhar um terço. Infinitas contas. Dia e noite, noite e dia. Na cela e no pátio.

– Perdeu a língua, foi?

 

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* Contato: cely.marry.love@hotmail.com

** Contato: clauderarcanjo@gmail.com

“O amor que não sentimos e outros contos”* | Guilherme Azambuja Castro**

O cheiro triste das bergamotas

Quando a mãe disse que andava de onda com um cara, e que ele se chamava Bebeto, logo imaginei um homem gordo. Que nem o Bud Spencer. Por causa da letra bê de Bebeto, acho.

Mas não.

Esse homem que um dia apareceu lá em casa, bigode fininho, voz arranhada por causa do cigarro e dizendo “eis o famoso Carlos”, era um magricelo. Aí, nessa hora, o homem imaginado não se encaixou no de verdade, mas por algum tipo de mágica já me fez esquecer do imaginado.

Era assim. Pronto. Era assim.

O Bebeto.

Mas por que seria famoso eu? Aí eu disse:

– Não sou famoso.

E ele:

– Ah, és… Muito famoso.

Disse isso afagando minha cabeça enquanto entrava no chalé, que é minha casa e de onde eu vi meu pai ir embora num dia calorento: saiu levando nosso carro e eu ali, sentadinho na varanda, os olhos baixos, matando formigas com os chinelos. O motor de repente desapareceu na BR e nunca mais.

Pois aqui ele chegou, o Bebeto, dizendo que eu era famoso.

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Abertura do primeiro conto de O amor que não sentimos e outros contos. Guilherme Azambuja Castro. Recife: Cepe, 2016.

** Guilherme Azambuja Castro (Santa Vitória do Palmar/RS, 1979) é formado em Direito e Mestre em Escrita Criativa pela PUCRS. Atualmente cursa doutorado em Escrita Criativa, também pela PUCRS. Publicou em coletâneas de contos e em revistas literárias digitais. Foi vencedor do 21º Concurso de Contos Luiz Vilela em 2011. Em 2014 foi finalista do Prêmio SESC de Literatura na categoria Contos. Foi vencedor do Prêmio CEPE de Literatura, categoria Contos, em 2015. Seu primeiro livro, O amor que não sentimos e outros contos, foi publicado pela editora CEPE em abril de 2016. Contatos: guilherme.castro.001@acad.pucrs.br

“Demorei a gostar da Elis”* | Alexandra Lopes da Cunha**

LIBERTAD DIAS DA COSTA

 

Demorei a gostar da Elis. Só passei a admirá-la depois de adulta, quando ela já estava morta. Ela não apenas cantava, ela vestia as canções, uma segunda pele que a encobriam. Ou melhor, arrancava a própria pele e cobria-se com as alheias, um comportamento kamikaze.

Quando ela morreu, eu tinha treze ou quatorze anos e era fã dos Beatles. Tinha todos os discos. Na verdade, os discos eram do meu tio e ele deixou para trás quando partiu e, ao voltar, não se importou que eu tivesse me apropriado deles. Disse que o fato de eu gostar dos Beatles fazia de mim uma pessoa melhor.

Tiu Cau sumiu de repente. Durante um tempo, não entendi o que tinha acontecido. Se perguntava por ele, os adultos olhavam para os lados, desconversavam e minha avó ficava com os olhos úmidos, suspirava, ah, o Luiz Cláudio. Ficava esperando para ver se dizia mais alguma coisa, mas não, ficava nisso. O tempo em que esteve fora mudou muito o tio Cau. Ao vê-lo anos depois, achei que tinha algo diferente, mas pensei que era devido ao fato de eu ter crescido e ele envelhecido.

Quando morreu, a Elis tinha trinta e seis anos. Ela e a mãe eram de 45. Minha mãe. Lembro da cara que ela fez quando divulgaram a notícia da morte da Elis, o olhar recriminatório, o modo característico de contrair os lábios como fez para mim tantas vezes, acabando comigo sem precisar dizer palavra. Drogas, só pode, sua única observação, segura da verdade como sempre, enquanto tragava nicotina de um dos seus cigarros longos e chiques. Minha mãe foi uma mulher moderna em vários aspectos, professora universitária, fluente em dois idiomas estrangeiros, mas, por outros, conservadora, preconceituosa.

Libertad. Este nome foi uma praga que infernizou minha vida, principalmente a infância e boa parte da adolescência. Hoje, eu o suporto, consigo achar algum charme nele, embora preferisse Alice, Daniela. Carregá-lo ensinou-me a ser paciente, pois sempre tenho de repeti-lo duas, três vezes. E soletrar. E explicar que é espanhol, ao que me perguntam se sou espanhola e tenho de dizer que não. Por vezes, pronunciam: “Libertadi”. E, se seguido do sobrenome, ainda piora, vira “Libertadidias”.

Meu nome não foi uma homenagem à Libertad Lamarque. Ninguém com menos de setenta anos sabe quem foi esta senhora, talvez nem meu pai. Ele só ouvia música clássica e Ray Coniff, nunca entendi. Quando eu escutava aquelas músicas, tinha vontade de gritar: pai, desliga este troço. Pelo o que sei, a escolha foi a única demonstração de contrariedade dele, o Doutor Mariano Eusébio da Costa. Um dia antes de eu nascer, publicou-se o Ato Institucional número 5. Meu pai passou a vida a se esquivar da política. Tinha uma incrível habilidade para falar muito sem dizer nada, coisa que seu pai e irmão nunca conseguiram fazer e, por isso, se estreparam. Mas aí, veio o AI-5. Nós morávamos em Brasília, onde meus pais fizeram suas carreiras acadêmicas, e eu nasci. Um impulso, uma coisa idiota, como quando falamos o que não queremos em uma discussão. Ou não temos tempo de refrear a vontade de dizer e sai, mas nos arrependemos logo depois. Ele deve ter captado no ar o sentimento de raiva e medo ao seu redor, pensado no seu pai, no seu irmão, e achou que a maneira segura de expressar o que sentia era batizar sua filha com um nome de estátua. Era perfeito. Se alguém perguntasse, poderia vir com aquela história da Libertad Lamarque.

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Abertura de Demorei a gostar da Elis. Alexandra Lopes da Cunha. Ilustrações: Thiene Magalhães. São Paulo: Kazuá, 2017.

** Alexandra Lopes Da Cunha (Brasília/DF, 1970) é formada em Administração de Empresas com mestrado na mesma área pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS. Autora de Amor e outros desastres (2012), finalista do Prêmio AGES, na categoria Narrativas Curtas no mesmo ano, Vermelho-goiaba, vencedor do concurso IEL 60 anos em 2013 na categoria Contos Autor Estreante, e de Bífida e outros poemas (2016). Doutoranda em Escrita Criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Contatos: alexcunham@gmail.com

“Demônios domésticos”* | Tiago Germano**

Óculos Ray-Ban

 

Eu procurava meu pai nas gavetas da escrivaninha, entre as lentes quebradas de seus óculos Ray-Ban. Foi nas 3×4 rejeitadas que conheci seu bigode, a angústia de suas rugas, seus primeiros cabelos brancos. Foi no canivete suíço que vi a ferrugem de sua adolescência, seu passado se apagando como um extrato bancário. Colhi as peças desfalcadas do xadrez. Colei as folhas rasgadas dos cheques. O faxilete de prata e as medalhas de ouro. Os cartões vencidos e as canetas perdidas. O tesouro em moedas de um centavo.

O desejo de ser meu pai cabia dentro de uma nécessaire. Eu criança só tinha uma escova de dentes. Observava meu pai às escondidas. Ria a cada quilo contado na frente do espelho, esperava a cânfora derramada dos pés para compará-los com os meus. Me ocultava na mala do carro se a encontrava aberta. Observava meu pai às escondidas, sem me revelar. Conversava com meu pai em silêncio, ele dirigindo e eu o observando. Encarava seus olhos pelo retrovisor, enquanto eles não me encaravam. Parava em seus movimentos, confundia suas ruas, sobrava nas curvas de suas sobrancelhas.

Cortei-me nas lâminas de seu barbear. Abri as fendas do sofá só para ver quantos palitos deixara ali, esquecidos ao longo da vida. Quando não coube mais na mala do carro, ouvi suas fitas cassete para ouvir seu silêncio enquanto o espreitava. Quando não se usavam mais pochetes, quis usar a sua pochete. Quando não se usavam mais suas roupas, quis herdá-las todas.

As maçãs que meu pai mordia antes de mim não tinham o mesmo gosto. Em uma mordida ia-se quase a maçã. Hoje não mordo as maçãs, corto-as pela metade. Talvez seja a falta daquela mordida.

Um dia meu pai me levou ao trabalho. Na saída, comemos macarronada. Vinguei todas as minhas maçãs naquela macarronada. Na volta quis estar na mala do carro para espreitá-lo. A fita cassete tocava e eu o ouvia silenciar. Disse que ia me esconder no banco traseiro para assustar minha mãe. Me escondi foi para fitar os olhos dele.

Meu pai falava dormindo, mas eu nunca entendia o que ele queria dizer. Meu pai tomava banho de sandálias calçadas, mas os crachás nas suas gavetas eram todos vazios. Meu pai passeava de moto. Eu o abraçava, mas nunca via os olhos dele pelo retrovisor.

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Crônica de abertura de Demônios domésticos. Tiago Germano. Porto Alegre: Le Chien, 2017.

** Contatotdgermano@gmail.com

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Agosto, 2017 | Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard, Talita Bruto, Marcos Torres & Uilian Novaes

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – Agosto, 2017

Patricia Gonçalves Tenório

 

Em 19 de Agosto de 2017, expliquei para as minhas alunas/companheiras de estudo o porquê de trazer os assuntos estudados no doutorado em Escrita Criativa da PUCRS para as nossas aulas/encontros: para compartilhar com elas o meu aprendizado, e, juntas, ampliarmos nossos caminhos de escritoras/poetisas.

Na Newsletter de Agosto, 2017 encontramos diversos diálogos. E foi, a partir do livro-diálogo Portugueses do Brasil & Brasileiros de Portugal (2016), da jornalista, romancista portuguesa, e licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Leonor Xavier (1943), que estou estudando para a disciplina Literatura Portuguesa, ministrada pelo Prof. Dr. Paulo Kralik, que iniciamos, eu e minhas alunas, a nossa aula.

Com dezenove entrevistas que remetem à época em que viveu no Brasil, Leonor nos brinda com depoimentos tais como os de Caetano Veloso, Carlos Drummond de Andrade, Fernanda Montenegro, Júlio Pomar, Marília Pêra, Ruth Escobar, sobre a relação de brasileiros com Portugal, de portugueses com o Brasil, e, principalmente, dos seus processos criativos. Trago ao centro um trecho do depoimento do filósofo, poeta e ensaísta George Agostinho Baptista da Silva (1906-1994), ou simplesmente Agostinho da Silva, nascido em Porto e falecido em Lisboa.

Agostinho fala dos dois mundos, não só Brasil e Portugal, mas do que poderemos aproximar do exercício que sugeri às minhas alunas e que apresentarei mais adiante.

“Espero que essa coisa de ver o mundo exista em todos os portugueses, pelo menos naqueles que não perderam a qualidade de ser português. Temos de pensar que há dois mundos para ver: o de fora e o de dentro, que é outro mundo interessante. E com uma complicaçãozinha, é que não sabemos se o mundo de fora brota do mundo de dentro, ou o contrário.” (DA SILVA apud XAVIER, (1988 in) 2016, p. 16)

Em 17 de Agosto de 2017, conheci a exposição Chão arejado, com livro de mesmo nome, do poeta Marcos Torres, com interpretações gráficas de Uilian Novaes. Marcos, através da artista plástica, professora da UFPE e minha orientadora de mestrado Maria do Carmo Nino, organizou um seminário no qual a escritora carioca Paloma Vidal, o professor da UFPB Marcelo Coutinho, e eu, conversávamos sobre amálgamas no processo criativo.

E foi a partir da imagem de capa de Chão arejado que minhas tão queridas alunas compuseram, a oito mãos, utilizando algo semelhante ao que estou apreendendo na outra disciplina da PUCRS, Literatura e Linguagem Digital (post “Quando Capitu chorou”), que propus à Bernadete, Elba, Luisa e Talita que criassem, em ordem alfabética, um texto (escolheram em forma de poesia) no nosso grupo de WhatsApp.

Então vamos à(s) leitura(s).

 

Referências bibliográficas

DA SILVA, Agostinho. In: Portugueses do Brasil e Brasileiros de Portugal. Alfragide, Portugal: Oficina do Livro, 2016.

TORRES, Marcos. Chão arejado. Interpretações gráficas de Uilian Novaes. Guaratinguetá, SP: Penalux, 2017.

 

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Chão arejado

 

A fome que envergou meu corpo e reverbera no fundo.

Ai!!! Tenho Fome!

Uma fome imensa de vida, de luz, de ser…

 

(Bernadete Bruto, 19/08/17, 12h28, bernadete.bruto@gmail.com)

 

Queria voar como estes pássaros que esperam minha morte.

Queria fluir livre no céu azul

Encontrar minha tribo perdida

Minha paz

Mas meu sangue flui para esta terra seca

E estes pássaros não me deixam voar

Preciso lutar!

Preciso fugir!

Preciso viver!

 

(Elba Lins, 19/08/17, 12h31, elbalins@gmail.com)

 

E na efêmera existência,

Que o tempo impiedosamente devora,

A urgência dos sonhos gritam

Exigem espaço e luz

Tenho pressa!

Tenho sede de vida!

Tenho…

 

(Luisa Bérard, 19/08/17, 12h44, luisaberard@gmail.com)

 

Esquálidos. Eu. Os corvos. Não corvos, urubus.

Mais do que solidão, mais que um severino, mais do que Poe em nossas vistas.

Fica a pergunta irrepreendida: viver, imediatismo?

Tragédia escassa.

Somos sem conteúdos pra nos abastecer

Esquálidos. Eu.

A massa fina virando comida.

Ossos. Detritos.

Urubus.

A máquina pavorosa dos tempos decompostos.

O que somos.

O que temos.

O que viramos.

 

(Talita Bruto, 19/08/17, 12h49, talitabruto@gmail.com)

(Exercício do Grupo de Estudos em Escrita Criativa a partir da imagem extraída de NOVAES, 2017, p. 81)

 

E na página 83 o poeta Marcos Torres responde…

 

epiderme exposta

 

nunca ouvi dizer que urubu é sinônimo de cor de epiderme.

tenho muitas cores.

eu, fico aqui, paralisado e em choque, com minha cabeça nua.

vendo daqui esta terra em decomposição me enchendo de náusea.

 

diante deste céu calado e mouco

desloco-me em longos voos sobre as planícies frias,

em meio a este ar rarefeito e quente que sopra dum chão ardente.

um movimento fatigante.

enxergo tudo com esta minha visão panorâmica.

 

sou atraído pelo monte de carne amontoada sobre as valas.

nem sei o que aconteceu por aqui e ali.

nunca me dizem nada.

faço isso para deixar o chão arejado.