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Índex* – Março, 2017

Foi às portas do

Inferno

E provou

O gosto árduo

De amar e

Não ser amada

*

Mesmo só

No infinito

Purgatório

Experimentou

Gotas de orvalho

Que desciam

Suavemente

Lá do

Céu

*

Avistou São Pedro

E suas chaves

Douradas

E os portões

Dourados

Que se abriam

De par em par

Como se para Beatriz

Fossem

Como se para Beatriz

Abrissem

Um sem fronteiras

De bênçãos

E felicidade

*

Pedro sorriu para Beatriz

Ele que negou

Três vezes

Ele que sofreu

Três vezes

O suplício de negar

A quem muito

Amava

*

Ele estendeu a mão

Ela se encolheu

Ele deu mais um passo

Ela compreendeu

Que o verdadeiro

Amor

É aquele que tudo

Com a consciência de talvez

Nunca

Receber nada em troca

(“Dante ao contrário”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 04/03/2017, 15h05)

O Amor sem receber nada em troca no Índex de Março, 2017 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

A volta de um”A menina do olho verde” | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Alfredo Pérez Alencart (Salamanca – Espanha) | Poemas.

Geórgia Alves (PE – Brasil) | “Reflexo dos Górgias”.

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PB/PE – Brasil).

Luís Augusto Cassas (MA – Brasil) | “A Poesia sou Eu”.

Marta Braier (Argentina) | Por Rolando Revagliatti (Argentina).

E os links do mês:

– O lançamento de “Não verás amanhã” (29/03/2017), de e no blog de Gustavo Melo Czekester (RS – Brasil): www.homemdespedacado.wordpress.com

– A fotografia de Tatiana Barroso de Oliveira (“Dona Mariana”) no Singular e Plural: www.singulareplural.wixsite.com

– A tradução e apresentação de Tiago Silva da escritora Namrata Poddar na Revista da UEPB: www.revista.uepb.edu.br/index.php/sociopoetica/article/view/3427/1873

Agradeço a participação e carinho, a próxima postagem será em 30 de Abril, 2017, grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – March, 2017

 

She went to the doors of

Hell

And proved

The hard taste

Of loving and

Not being loved

*

Even alone

In the infinite

Purgatory

She tasted

Dew drops

That descended

Gently

There from

Heaven

*

She sighted St Peter

And his golden

Keys

And the golden

Gates

That opened

Wide

As for Beatriz

Were

As for Beatriz

Opened

One without borders

Of blessings

And happiness

*

Peter smiled at Beatriz

He who denied

Three times

He who suffered

Three times

The punishment of denying

Who he much

Loved

*

He held out his hand

She cringed

He took another step

She understood

That the true

Love

It’s the one which

One gives

With the consciousness of maybe

Never

Receive nothing in return

(“Dante to the contrary”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 04/03/2017, 15:05)

 

The Love without receiving anything in return in the Index of March, 2017 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

The Return of a “The Green Eye Girl” | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Alfredo Pérez Alencart (Salamanca – Spain) | Poems.

Georgia Alves (PE – Brasil) | “Reflection of the Gorgias”.

Study Group in Creative Writing | With Bernadete Bruto (PE – Brasil) & Elba Lins (PB/PE – Brasil).

Luís Augusto Cassas (MA – Brasil) | “Poetry is Me”.

Marta Braier (Argentina) | By Rolando Revagliatti (Argentina).

And the links of the month:

– The launch of “You will not see tomorrow” (03/29/2017), from and on the blog of Gustavo Melo Czekester (RS – Brasil): https://homemdespedacado.wordpress.com/

– The photo of Tatiana Barroso de Oliveira (“Dona Mariana”) in the Singular and Plural: http://singulareplural.wixsite.com

– The translation and presentation by Tiago Silva of the writer Namrata Poddar in the UEPB Magazine: http://revista.uepb.edu.br/index.php/sociopoetica/article/view/3427/1873

Thanks for the participation and affection, the next post will be on April 30, 2017, big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A Crítica Genética de um Poema. The Genetic Critique of a Poem.

A volta de um”A menina do olho verde” | Patricia (Gonçalves) Tenório

A ALVORADA

(Extraído de A menina do olho verde, Recife: Editora Raio de Sol, 2016)

Os dois se olhavam através da Alvorada. Manoela, no deserto, adivinhava o rosto de Pedro na janela da casa de professora Mariana, de onde ele não saía mais. E Pedro sentia a menina do olho verde com o toque dos raios de Sol em seu rosto envelhecido.

Eles haviam envelhecido, cada qual no próprio Tempo. Mas possuíam ainda um coração de criança, um sentimento de menino e menina da cachoeira. Sabiam-se um ao outro pertencentes, sabiam-se um ao outro congruentes, e venciam aquele abismo de Tempo e Espaço só com a força do pensamento.

O pensamento os salvara de não se sentirem sós. Apesar da distância, apesar do silêncio, sabiam estar entre si conectados, entre si apaixonados, mesmo havendo o Mestre Desconhecido. Manoela não se lembrava mais do encontro com o Mestre Desconhecido. Parecia que havia acontecido com outra pessoa, com uma estranha, que buscava a origem do prazer. Mas o prazer pode assumir tantas formas, e mais se aproxima da plenitude quando se aproxima do Amor.

A menina-mulher resolveu subir o Monte das Respostas Perdidas. Não podia mais adiar. Que houvesse perigos, riscos e informações contraditórias: a todos enfrentaria. É preciso escolher um destino, escolher um caminho a seguir. E então, sem medo, sem qualquer arrependimento, subir o Monte, passo a passo, pé a pé.

Fez para si um sapato confortável para o Monte escalar. Era feito de fibras de algodão colhido no deserto que agora deserto não era mais. Manoela vivia na abundância e a abundância de sentido buscaria. Não mais temor de não ser suficiente, pois suficiente nunca se é. Nos aproximamos do suficiente, roçamos o suficiente, mas a nós alguma coisa sempre faltará.

E é nessa falta que se insere a Criação. É na falta mais intensa, na falta mais sofrida que a Palavra se apresenta como a salvação derradeira. Manoela sabia disso, aprendera isso naqueles dias no deserto, na solidão mais profunda. Aprendeu que veio só e voltará só para detrás da cachoeira. Mas antes de voltar para o lugar de onde veio havia uma missão a cumprir. E essa missão se completa em comunidade, não se completa só.

A subida do Monte era íngreme e lembrava Manoela uma subida anterior. Havia se esquecido de fatos antigos, de histórias que vivera como se houvesse escrito em um outro livro. E esse livro esquecido, o Livro da Vida Anterior da menina do olho verde precisava ser resgatado, para ao Passado entender, ao Presente aplicar, no Futuro encontrar o seu destino.

Na metade da subida parou para descansar um instante. Era dali muito bela aquela vista. O Espaço Imaginário criado por Manoela. E era tão bom criar… Um calor brotou de seu peito ainda jovem, ainda cheio de esperança da Resposta Perdida encontrar. E a encontraria, a menina afirmou no meio daquele Espaço, no meio da subida árdua que havia começado na Alvorada.

 

L’Alba

(Estratto dal’La bambina dagli occhi verdi, Milano: IPOC, 2016, Traduzione: Alfredo Tagliavia)

I due si guardavano attraverso l’Alba. Manoela, nel deserto, indovinava il viso di Pedro in finestra a casa della maestra Mariana, da dove non era più uscito. E Pedro sentiva la bambina dagli occhi verdi attraverso le carezze dei raggi di Sole sul suo viso invecchiato.

Erano invecchiati, ognuno nel proprio Tempo. Ma avevano ancora un cuore da bambini, il sentimento di quel bambino e di quella bambina del ruscello. Sapevano che appartenevano l’uno all’altra, sapevano che erano fatti l’uno per l’altra, e vincevano quell’abisso di Tempo e Spazio solo con la forza del pensiero.

Il pensiero li salvava dal sentirsi soli. Nonostante la distanza, nonostante il silenzio, sapevano stare insieme, innamorati, anche se c’era il Maestro Sconosciuto. Manoela non si ricordava più dell’incontro con il Maestro Sconosciuto. Sembrava fosse successo con un’altra persona, con un estraneo, che cercava l’origine del piacere. Ma il piacere può assumere tante forme diverse, e si avvicina alla pienezza quanto più si avvicina all’amore.

La bambina-donna salì il Monte della Risposta Perduta. Non poteva più rimandare. Ci fossero stati pericoli, rischi, e informazioni contradditorie : avrebbe affrontato tutto. È giusto scegliere un destino, scegliere un cammino da seguire. E dunque, senza paura, senza nessun pentimento, scalare il Monte, passo dopo passo, piede dopo piede.

Preparò per sé scarpe confortevoli per scalare il Monte. Erano fatte di fibra di cotone colto nel deserto che ora deserto non era più. Manoela viveva nell’abbondanza e cercava abbondanza di senso. Non più timore di non essere all’altezza, perché mai lo si è. Ci avviciniamo alla completezza, sfioriamo la completezza, ma qualcosa sempre ci mancherà.

Ed è in questa mancanza che si inserisce la Creazione. È nella mancanza più intensa, nella mancanza più sofferta che la Parola si presenta come la salvezza estrema. Manoela lo sapeva, lo aveva imparato in quei giorni nel deserto, nella solitudine più profonda. Imparò che era venuta dal ruscello e là sarebbe tornata. Ma prima di ritornare aveva una missione da compiere. E questa missione si compie in comunità, non da soli.

La salita al Monte era ripida e a Manoela ricordava una salita precedente. Si era dimenticata di fatti antichi, di storie che aveva vissuto come fossero state scritte in un altro libro. E questo libro dimenticato, il Libro della Vita Precedente della bambina dagli occhi verdi doveva essere riscattato, per capire il Passato, applicarlo al Presente, incontrare il suo destino nel Futuro.

A metà della scalata si fermò per riposare un istante. Da lì la vista era molto bella. Lo Spazio Immaginario creato da Manoela. E era così bello creare… Un calore bruciò il suo petto ancora giovane, ancora pieno di speranza di trovare la Risposta Perduta. E l’avrebbe trovata, la bambina disse in mezzo a quello Spazio, nel mezzo dell’ardua salita che aveva cominciato all’Alba.

 

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(A menina do olho verde na Livraria Cultura do Shopping RioMar – Recife – PE)

* BookTrailer:

* Livro físico: www.livrariacultura.com.br/p/a-menina-do-olho-verde-46286777?id_link=8787&adtype=pla&gclid=CJKZ2MX7mM4CFYUGkQodyYcEWw

* Livro virtual: www.livrariacultura.com.br/busca?N=102281&Ntt=A+menina+do+olho+verde 

Alfredo Pérez Alencart | Poemas

De: ALFREDO PÉREZ ALENCART <alen@usal.es>
Data: 04/02/2017 16:14
Para: ALFREDO PÉREZ ALENCART <alen@usal.es>
Assunto: Saludos de A. P. Alencart

 

Queridos/as poetas y amigos/as:

 

Les hago conocer dos selecciones de mis poemas hechas desde la antología  AQUÍ ES EL CIELO /  TU JE NEBO. Se publicaron en las revistas NAGARI y METAFOROLOGÍA, ambas editadas en Estados Unidos y en español. Pronto saldrá una tercera muestra, esta vez en la revista argentina LA POESÍA ALCANZA.

 

Aquí el poema ‘Forastero’ y otros más, ahora que está tan ‘de moda’ cuestionar al extranjero

 

http://www.nagarimagazine.com/forastero-y-otros-poemas-de-una-antologia-croata-alfredo-perez-alencart/

http://metaforologia.com/aqui-es-el-cielo-alfredo-perez-alencart/

 

Saludos siempre fraternos,

 

Alfredo

 

 

Geórgia Alves* |”Reflexo dos Górgias”**

Há um abismo entre eles. O mar e o desfiladeiro. O único acesso se dá pelo caminho de chão batido, haverá um não? Pode ser este significado de geração que os separa? O que há no reflexo dos espelhos que miram? O que impregnou em cada um?

Foi desejo à primeira vista. Ele a quis. Deu o primeiro passo. Estavam no Interior, ele expressou desejo de amá-la, com insistência. Queria tê-la em qualquer lugar, um banheiro que fosse. Na lembrança dela, chegou a teimar mesmo. Porque ela queria, mas não tinha pressa, nem medo de perdê-lo de vista. Conseguiu, ao menos, o beijo.

De volta aos lugares de origem, cercados de confiança e atenção, ficavam. Até que numa noite de lua e festa, entrou nela com intensidade.

Penetrou sua abertura de passagem secreta até tornar-se a representação mais completa do ser humano. Pelo menos para ela. Foram incontáveis encontros conjugados, com algo mais que o verbo. As conversas varavam as madrugadas. Velara ausências em descanso. O cansaço passou a ser medido pelos carinhos fixados. Vênus em virgem. Ele era um bicho atirado e quieto, arvorava-se tímido.

Discreto na expressão dos sentimentos, por outro lado, amante completo. Entrega plena. Como um vinho reservado em tensão de indecifrável enigma. Deixa chama acesa nela. Maior a cada encontro. Brasa viva. Queima língua. Mesmo no vento mudo, inseguro, tende retrair porque teme incomodar. Mantinha no rumo. Durável e duro.

Ao lado dele, Górgia sentia como se não houvesse outro mundo. Nada com que comparar. Como estivesse ao lado da melhor pessoa do universo. Talvez pelo senso de convivência dele.

Aquele homem, anos mais novo que ela, provocava estímulos mais poderosos. Fazia do entorno mais intenso e criativo. Ele a admirava pelos melhores motivos. Górgia seguiu seu desejo e instinto, num impulso de natureza. Preservando a saudade da inocência. Foram indo.

Se os vazios se interpuseram? Sim. Sentiram preenchidos, principalmente na fantasia, e não queriam estar na vida um do outro, exceto naqueles momentos. Górgia tinha Vênus em escorpião. Ele em Virgem. Era o que o céu lhes reservara. Nenhum limite entre paixão e amor. Embora soubesse: São diferentes. Amavam e eram livres. Assim seriam até.

O fato é que: depois de conhecê-lo, ninguém interessava mais. Mesmo que não acreditasse em monogamia ou fidelidade. Homem e mulher doavam-se e, ao redor deles, estavam em sentimentos incompletos. Urgências de corpo. Selaram amizade em encontros marcados.

Isso não seria tudo? Não porque quando ditava a casualidade não desgrudavam. Até o dia seguinte. Depois que ficaram, não seriam mais os mesmos. Ele conquistou vida própria, cama e casa. Ela tinha compromisso e disciplina. Menos liberdade. Passou a fazer somente o que sempre quis.

Fez da vida pé na estrada, a contar histórias em euforia indomada. Para além dos limites da cidade natal, que era a capital. Numa noite torrencial de chuva dura e água corrente frouxa por sobre as calçadas. Ambos torpes o suficiente para não esquecer nada. E deixar solto o espírito. Não havia neles autocrítica, ou retração, ou controle sobre o desejo. Solto, pelo que sentiram.

Impulso que veio durante a tempestade. Ambos fora do eixo. Em vontades de beijos e verdade. Tire suas conclusões pela história que começa agora. É narcótica entrega?

 

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* Geórgia Alves é mãe, mestranda em Teoria da Literatura pela UFPE, jornalista e cineasta. Contato: georgia.alves1@gmail.com

** Extraído de Reflexo dos Górgias, Geórgia Alves. Recife: Grupo Paés, 2012.

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Com Bernadete Bruto & Elba Lins

Março, 2017

 

A volta às aulas, das férias, vem sempre carregada de novidades doces e tenras, feito um fruto bom.

O Grupo de Estudos em Escrita Criativa passou pelo período de recesso, de entre-meio de estudos e escritas, e, das profundezas do que apreendemos juntas, trago à tona duas propostas.

A da escritora e poetisa Elba Lins (PB/PE – Brasil) tenta conciliar a Prosa e a Poesia, a Crítica com a Ficção: analisa o romance Acais, de Valquíria Lins, e da análise brotam poemas-personagens-símbolos-do-nordeste.

A da escritora e poetisa Bernadete Bruto (PE – Brasil) mergulha na Teoria da viagem, do filósofo francês Michel Onfray (1959), uma das tarefas que propus para o período de férias, e desse mergulho brotam poemas-peregrinos.

A segunda fase do Grupo de Estudos em Escrita Criativa pretende se aproximar – e em quem participa aplicar – as Teorias da Crítica Genética, ciência iniciada em 1966 com a doação dos manuscritos do poeta alemão Henri Heine (1797-1856) à Bibliothèque Nationale de Paris, ciência trazida ao Brasil pelo escritor, artista plástico, crítico literário francês, especializado em Gustave Flaubert, Pierre-Marc de Biasi (1950), e reverberada pela doutora em Linguística Aplicada e Estudos de Línguas pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Cecília Almeida Salles.

Aproveito para convidar aqueles(as) que também desejarem fazer parte desse grupo. Enviem para patriciatenorio@uol.com.br um breve Curriculum Vitae com informações (além dos dados básicos):

– Qual o seu interesse em participar do Grupo de Estudos em Escrita Criativa?

– Qual a sua formação?

– Um ou dois textos em Poesia ou Ficção; um ou dois textos em Análise Literária ou Criativa.

Os encontros estão acontecendo uma vez por mês, em Recife – PE. Limite máximo de participantes: 5. Próximo encontro: 28 de abril de 2017.

Um abraço bem grande em todos e até a próxima postagem,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

 

 

Elba Lins: elbalins@gmail.com

 

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IMPRESSÕES SOBRE O LIVRO “ACAIS”, DE VALQUÍRIA LINS

 

Somete agora pude me dedicar à leitura de Acais com o tempo necessário para um mergulho na saga do seu avô Antônio Ferreira. A partir daí, a leitura seguiu num só fôlego e me encantei ao descobrir seus os personagens. Alguns que realmente devem ter existido na vida real com todas as nuances retratadas por você –  reais, fortes, com traços por vezes violentos e machistas, embora muitas vezes com atitudes de bondade. Outros tão bem inseridos na trama que ficamos a imaginar se realmente existiram e até que ponto são reais ou engendrados pela escritora (Maria Preta, Zefa Mestra, Olívia e a cigana Lolô). E ainda, entre tantos personagens desconhecidos, tive a grata surpresa de reencontrar nossa avó Estelita, que embora jovem e com o nome de Analice teve sua história fielmente retratada – casada com Mamede, separada, oito filhos, seu lado espiritual e mediúnico, tudo ficou claro na sua história. A partir da leitura fica a ânsia de querer saber mais sobre a narrativa; Tia Bia é filha de Antônio Ferreira com Olívia, a “Flor da Mata”? E Nice é filha de quem? Elpídio e João Maçã são reais ou ficção? E a enfermeira?

Seu texto é de quem conhece sobre o que está falando. E assim, você consegue retratar com imensa riqueza de detalhes o ambiente rural e o provinciano onde a história se desenvolve.

À medida que prossigo a leitura me sinto como retornando à infância, tão bem caracterizadas as descrições sobre os costumes das cidades do interior e das fazendas. Consigo me reportar e sentir o clima, as características, os fatos tão presentes na minha meninice; seja nas lembranças de minha própria cidade, seja nas recordações de passeios à fazenda do meu avô. A sua prosa com traços de poesia me remete ao passado à medida em que leio:

“…apertando a mulata que cheirava a extrato…, deixou-se lambuzar pela banha de porco que dela escorria pelos cabelos.”

“…lavadeiras …carregando trouxas sobre rodilhas na cabeça.”

O fogão queimava a queriam, e os abanos de palha espalhavam e atiçavam brasas esfumaçadas.”

Rapé, bonecas de milho, água fria na cabaça, capins, coroas de frade, flores e frutos, cantigas de Lapinha, Pastoreio, dente de ouro, vaqueiros com seus berrantes tocando a boiada, água da quartinha, flores cultivadas em latas, rolete de cana, fumo de rolo, varrer o terreiro, crianças nuas e de barriga inchada, mulheres rezadeiras.

Balinhas Gasosa – que só de lembrar do seu sabor, me vem água na boca.

A caracterização das várias etnias envolvidas na trama, suas religiões, festas e costumes é um resgate do Caldeirão de Raças, que somos nós brasileiros.

As suas personagens femininas de forte personalidade, são marcadores da diversidade de raças que formaram a nossa gente:

Maria Preta, “negra, corpo cheio de curvas, rosto não tão bonito, mas selvagem, viçoso e exótico.”

Zefa Mestra, ruiva, a menina dos cabelos fogo, e curvas delineadas.

Olívia, cabocla de beleza selvagem, com cabelos negros e lisos que vão até a cintura e com longa franja, que parece uma Índia.

Nem mesmo da raça cigana tão presente no nosso imaginário, você esqueceu. E através da “Cigana Lolô”,  traz à nossa lembrança o medo e o fascínio por aquelas mulheres e homens de vida errante que povoaram nossa infância com seus vestidos de cores fortes, muitas pulseiras e colares dourados, suas danças e músicas e que por dinheiro queriam  ler o futuro nas nossas mãos.

Na história das Juremas e seu significado mítico, descubro no seu livro o quão perto de nós, em Acais e Alhandra este ritual é/era praticado. E vejo a nossa mitologia nativa e fascinante, da qual já tomara conhecimento  através das Danças Circulares que trabalham com as mais diversas tradições. Em muitas delas – como é o caso do “Juremar”, das danças africanas ou mesmo na Mandala de Tara de teor budista –, o foco maior é o resgate do feminino em seus diversos aspectos. Nestas ocasiões tomamos conhecimento da riqueza imensa de nossas tradições nativas e daquelas vindas de fora como a africana, europeia; lembrando-nos que muito antes dos homens terem todo o controle sobre as mulheres, fato tão bem retratado no seu livro, existiu um tempo em que o matriarcado dominava e daí provem grande parte da riqueza da nossa história tão bem representada em algumas lendas.  Terminando de ler seu livro corro para explorar um pouco mais desta riqueza mítica no livro de Maria Lalla Cy – Juremar Yacy Uaruá, que adquirira no último encontro de danças do Juremar.  Logo de início encontro “…conhecemos muito pouco sobre as deidades formadoras de nossa identidade cultural. Cy é a grande mãe brasileira e como tal agrega todos os aspectos do feminino criativo e da natureza exuberante do matriarcado Pindorama. Até então, eu não sabia nada sobre um matriarcado primitivo aqui no Brasil”. Ela continua dizendo que “cabe a nós fazer com que essa Sabedoria não seja tratada como um conjunto de lendas (….) e sim como um saber vivo, que pode e deve ser atualizado(…). E, como somos frutos de miscigenação, desde sempre, mestres em alquimia cultural, aqui neste Juremar, celebramos a unidade na diversidade de todas as faces da Deusa, honrando a sabedoria de todos que caminharam sobre a terra!”. Seu livro Acais, portanto, chega até mim como parte deste resgate, de quem somos nós.

Finalmente me chamou atenção a perspicácia da autora em colocar o final do romance nas mãos de uma Zefa Mestra já desgastada pelo tempo com lapsos de memória o que deixa nas mãos do leitor a fantasia de decidir, de imaginar como teria sido na realidade o final da história.

Ao terminar a leitura, volto mais uma vez a relê-lo para melhor captar todos os detalhes e já fico na expectativa de novas histórias que certamente virão.

Parabéns, Valquíria!!!

Grande abraço,

Elba Lins

 

“De roupa vermelha,

Colares dourados,

Tu giras.

Na dança,

Na vida,

Ao redor de mim,

Tu giras.

Tu queres saber

Da minha vida.

Tu queres me dar

O teu amor…

Mas tu giras,

E queres dinheiro,

As minhas moedas,

Só para me dizer,

Olhando minhas mãos,

Que eu te desejo.

Tu giras,

Ao redor de mim

Tu giras,

Na minha cabeça

Que gira.

Tu danças pra mim,

Tu giras.

Sou louco por ti,

Que gira,

Que vem até mim

E na dança do amor,

Giramos.”

 

 

(“Cigana – À Cigana Lolô”. Elba Lins – 19/12/2016. Após leitura de Acais, de Valquiria Lins)

 

 

“Tu és pura filha,

Da terra selvagem

De nome Brasil

De Pindorama

Fruto primitivo

Que chega até mim.

Vem, em visão sublime

Nos vapores da cacheira

És minha Vênus,

Afrodite nascendo

Das espumas sutis.

Em ti, vejo riquezas

Ainda escondidas

Dos olhos dos brancos

Teu cabelo negro

Minha noite sem fim

Teu corpo suave

Matriz geradora

Que vem até mim.”

 

 

(“Índia – À Cabocla Olívia, A Flor da Mata”. Elba Lins – 18/12/2016. Após leitura de Acais, de Valquíria Lins)

 

“Negra te vejo de longe

E eu do lado de cá

Miro teu sorriso branco

Um farol a me guiar.

 

Teu corpo preto retinto

Tuas ancas a balançar

Me sinto num tombadilho

Vendo o balanço do mar.

 

Tua dança quando olho

Já me faz aproximar

Tambores que me enlouquecem

Em transe pareço entrar.”

 

(“Negra – À Maria Preta”. Elba Lins – 06/12/2016. Após leitura de Acais, de Valquiria Lins)

 

“Enquanto danças

Teu cabelo de fogo

Rodopia em chamas

Fogueira que brilha

Faíscas que me atiçam

Que chegam até mim.

 

Não resisto ao teu chamado

E encosto em teus cabelos.

Que caem em rubras cascatas

Que queimam meu corpo inteiro.

 

Já sinto meu sexo em brasa

Que aflito espera o teu

Incêndio descontrolado

Teu fogo agora sou eu.”

 

(“Ruiva –  À Zefa Mestra,  A Cabelo de fogo”. Elba Lins – 06.12.2016. Após leitura de Acais, de Valquíria Lins)

 

 

 

Bernadete Bruto: bernadete.bruto@gmail.com

 

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Teoria da Viagem e o Caminho da Poesia

 

           

Todos os viajantes, escritores da viagem,

artistas do nomadismo, experimentam essa

evidência, pois todos iluminados, como

incendiados, incandescentes. (Michel Onfray)

Muito interessante a leitura do livro Teoria da Viagem: poética da geografia, pois pude constatar que existe uma dinâmica no processo de viagem, antes nunca pensada e que pude identificar essa ordem descrita, comparando com a minha produção anterior e posterior à viagem que realizei no período de 7 de fevereiro à 8 de março, como dever de casa do Grupo de Estudo em Escrita Criativa.

Ainda que a produção tenha ocorrido dentro do livre arbítrio, consegui enquadrar o escrito dentro da teoria. Achei bem mais proveitoso ter escrito livremente e só depois comparar com a teoria. Acredito que este método foi benéfico para minha criatividade, considerando que a escrita fluiu com base no sentimento, liberta de ideias pré-concebidas, assim acredito.

Antes da viagem, escrevo sobre o lugar em que vivo minha condição errante dentro da cidade, o gosto pelo movimento mesmo estando em casa como observamos nessa poesia anterior à partida:

 

Areias/Recife, 25 de Janeiro de 2017.

 

Mesmo caminho

 

O caminho é o mesmo

mas o olhar

modificou-se com o tempo

enxerga

a transitoriedade

daquela beleza

se encanta

e aprecia

Cotidianamente.

 

Nesta observação do caminho, a poetisa reflete o que Onfray explica com relação ao tempo: Quando põe o pé na estrada, ele obedece a uma força que, surgida do ventre e do âmago do inconsciente, lança-o no caminho, dando-lhe impulso e abrindo-lhe o mundo como um fruto caro, exótico e raro. (Pg. 15)

Apesar de certa resistência à mudança, que a própria viagem requer, já existe a consciência da condição do futuro movimento, o gérmen da viagem, que Onfray afirma estar enraizado na Gênese da errância: a maldição; genealogia da eterna viagem: a expiação – donde a anterioridade de uma falta sempre grudada no indivíduo. (Pgs. 11 e 12)

 

BR-101/Recife, 30 de janeiro de 2017

 

Citadina

 

Não quero uma casa no campo

pra lá

somente a passeio

nem quero uma casa na praia

naquele lugar

ainda passo um veraneio.

Quero permanecer na cidade

como esta velha árvore

fincada

não quero ser transplantada!

Gosto dessa mistura

de toda loucura

das grandes cidades.

 

Também, de outro modo, já se pode notar que acontece nas poesias escritas em vésperas da viagem, o que Onfray aponta:  A ausência de casa, de terra, de chão, supõe, a montante, um gesto deslocado, um sofrimento causado por Deus. (Pg. 12) Pois como ele afirma: Viajar solicita uma abertura passiva e generosa a emoções que advêm de um lugar a ser tomado em sua brutalidade primitiva. (Pg. 59)

 

Areias/ Recife, 30 de janeiro de 2017

 

Saudades do Sol

 

Já sinto saudades do sol

calor que me fortalece

luz iluminando minha vida

viajo do interno para o externo

nessas voltas ao redor do sol

já penso no retorno

meu corpo bronzeando

abandonando o cachecol

 

Rua Afonso Celso/ Recife, 7 de Fevereiro de 2017

 

Mulher Repartida

 

Dividida sempre

entre o inverno e o verão

entre o frio e quente

passado e presente

um coração se reparte

encontrando o bom

em cada parte

 

Entretanto como a viagem estava certa, para o local onde reside meu filho, nora e neta e com uma missão definida, não podendo escolher, o tempo, nem o momento para viajar. Fiquei sujeita àquilo que Onfray indica: o determinismo genealógico se impõe. Não escolhemos os lugares de predileção, somos requisitados por eles. (Pg. 20, grifo nosso).

Durante a viagem, no período que Onfray denomina de entremeio, observamos haver muito de experiência sensorial, como ele diz: No entremeio, quando os referenciais de civilização desaparecem, o corpo tende a reencontrar seus movimentos naturais e obedece mais ardentemente à soberania dos ritmos biológicos. (Pg. 38) Talvez por isso, por estar em um movimento diferente do que costumo ter no meu país, a poesia daquele período adquiriu este ritmo:

 

Vancouver, 15 de fevereiro de 2017

 

Impassível mente

 

Acompanha esta árvore

Ao teu lado

Oh, alma!

Impassível

No inverno

No verão

Árvore que deixa acontecer

Como deve a alma ser

Na chuva

Na neve

Perante cada estação

De inverno a verão

Impassível mente

 

Tempo ZEN

 

Tudo aqui

À distancia

É calma

É silencio

E a vida passa

Devagar

Sem pressa

A toda hora

Aqui e agora.

 

Com relação ao movimento de retorno da viagem, Onfray nos apresenta que há um outro entremeio: depois do tempo ascendente do desejo, depois do tempo excitante do acontecimento, chega o momento descendente de retorno. (Pg. 85) Nessa linha, encontro as poesias escritas sobre saudade:

 

Vancouver, 4 de Março de 2017

 

Saudades Canadense ano 3

 

Toda vez

Naquela hora

Na despedida

Acontece

Sem medida

A alma se abre em duas

A desaguar

sem cerimônia

Toda saudade

 

(Em 8 de Março de 2017)

 

Alma Repartida

 

Dia da partida

Coração aberto

Lágrimas nos olhos

A saudade inundando

Toda uma vida…

 

Como observa Onfray e consigo identificar nas poesias escritas durante a viagem: Não nos separamos do nosso ser, que nos habita e acompanha à maneira de uma sombra. Nas viagens, esse ser quer e vê, ordena e decide. (Pgs. 63 e 64)

Assim, depois dessa exposição maciça ao estrangeiro, pudemos constatar o que Onfray pressagia: Na fadiga do retorno preparam-se as sínteses por vir. (Pg. 91) O que me faz buscar nas minhas anotações, algum tempo após a viagem, a seguinte poesia:

 

Monteiro/Recife, 16 de Março de 2017.

 

No Campo

 

Aquela que vê

(e também lê)

Não é a mesma

depende

do tempo

do olhar

desse movimento

sempre

menos da mente

mais do que sente

 

Essa mesma poesia corrobora a observação de Onfray de que o nômade-artista sabe e vê como visionário, compreende e capta sem explicações, por impulso natural. (Pg. 61)

Por tudo isso, chegamos à conclusão que o caminho a seguir pelo escritor/poeta deve ser muito mais intuitivo e livre, cabendo à teoria oferecer um embasamento necessário, enriquecendo seu trabalho, sem embotar o processo criativo. Portanto, da mesma forma que existe uma Teoria da Viagem, também há o Caminho da Poesia. Este é percorrido nas profundezas do ser, produzindo o que há de mais puro, acredito, quando em sintonia com a música de seu coração:

 

Caminhando pelo Mundo (*)

 

Não vos digo

Que tudo que falo

Eu sigo…

Apenas garanto

Pelos sons das palavras pratico

Persigo a razão

Para qual existo

E acredito

Por isso mesmo

Insisto

Persisto

E prossigo.

 

Bernadete Bruto

 

Recife, 22 de Março de 2017.

 

* Poesia retirada do livro: Querido Diário Peregrino, de Bernadete Bruto, pg. 126.

** Foto da Viagem ao Canadá Fevereiro em 7  de fevereiro de 2017.

 

 

 

 

 

 

Luís Augusto Cassas* | “A Poesia sou Eu”**

Pensão

 

Habitam comigo há anos

no quarto escuro de mim

dividindo o aluguel

destas trinta e três vértebras

(usando o mesmo banheiro

prato talher e cadeira

palitando os seus molares

logo após a sobremesa)

um estudante de Letras;

um boêmio que recita

Lorca; um funcionário público

que sofre dores nos rins;

um cozinheiro que frita

ovos às três da manhã;

um advogado que no fórum

advoga o imundo do mundo;

um conquistador barato

sem lábia e brilhantina;

e um poeta de esquina

que por vergonha do ofício

não quer se ver declamado

em reuniões sociais

 

Acalanto

 

Mãe quando a senhora me embalar

(como fazia quando criança)

peço por favor imploro de joelhos

não seja indiscreta como toda mãe é

Pergunte pelo meu lirismo meu alcoolismo

minhas rusgas e rugas

indague por tudo:

menos pelo hábito de roer unhas

(Isso não posso lhe responder)

Pode ser apenas o sentimento antropofágico

a solidão onicofágica

de ver tantas crianças pobres

roerem como bichos detritos de latas de lixo

e minha mãe eu não poder fazer nada

absolutamente nada

(Por essa razão minha mãe

não pergunte pelo meu hábito de roer unhas)

Esqueça tudo isso

Fale de brinquedos da cartucheira de cowboy

balanço gangorras e sorvete de chocolate

até de Flash Gordon e de pudim de macaxeira

Agora peço somente à senhora

que me embale

Que eu quero dormir… dormir…

E esqueça por favor o resto

Principalmente as minhas unhas

Deixe-as como estão

 

 

Elegia antiga

 

Dai-me uma janela:

que seja alta e branca

como as sonhosas nuvens e as garças

e que despontem gerânios nos beirais

mesmo quando a primavera não vier

Dai-me uma janela:

– de preferência de sobrado –

de onde se observe o mar o crepúsculo e os barcos

e uma atmosfera colonial de paz e quietude

embale – como os ventos –

os nossos corpos e sentimentos

Que seja bem alta

assim como a nossa vontade de subir ladeiras:

acima de todas as incoerências terrestres

acima de todas as maldades humanas

num lugar onde a tristeza o egoísmo

o desamor e a inveja

não a possam alcançar

Não é obrigatório

que tenha sacada:

mas é necessário

que caiba a amada

Senhores guardiões dos horizontes do Mundo

que controlais vistas paradisíacas

e paisagens alucinantes

dos seus escritórios acarpetados do 101º andar:

ficai com a visão dos lagos artificiais

aurora boreal planetas inacessíveis

arco-íris pré-fabricados

nada disso me afeta ou seduz

Eu quero

apenas uma janela

uma janela aberta para o Mundo:

e nada mais

 

____________________________________

* Luiz Augusto Cassas é Poesia Pura do Maranhão. Contato: luisaugustocassas@terra.com.br

** Poemas extraídos de A Poesia sou Eu, Poesia Reunida, Volume 1. Luís Augusto Cassas. Rio de Janeiro, 2012.

Marta Braier | por Rolando Revagliatti

From: Rolando Revagliatti [mailto:revadans@yahoo.com.ar]
Sent: sábado, 4 de março de 2017 18:00
To: Revista Azahar (de España) <revista_azahar@hotmail.com>; trajineros.blogspot.com <colectivotrajin@gmail.com>
Cc: Carlos Gallardo Guarniz <revistaelsoldelperu@hotmail.com>; Víctor M. Falco <vittoriofa9@hotmail.com>
Subject: Marta Braier: sus respuestas y poemas

 

Marta Braier: sus respuestas y poemas

 

Entrevista realizada por Rolando Revagliatti

 

Marta Braier nació el 19 de junio de 1947 en San Miguel de Tucumán, provincia de Tucumán, República Argentina, y reside en la Ciudad Autónoma de Buenos Aires. Es Profesora en Letras desde 1972, con la distinción Summa Cum Laude, por la Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad Nacional de Tucumán. Especializada en Creatividad y Crítica Literaria, coordina talleres de escritura. Entre 2003 y 2015 dirigió el Taller Literario para Jóvenes de la Biblioteca Nacional. Ha sido traducida al francés, catalán y portugués. Colaboró, entre otros, en el suplemento cultural del diario “Clarín” (1976-1987). Cuentos suyos fueron incluidos en el volumen colectivo “Sociedad de sueños” (1992), así como textos poéticos en las antologías “Poemas y relatos desde el Sur” (con prólogo de Aitana Alberti, en Barcelona, España, 2001) y “Antología de poesía argentina contemporánea. 18 poetas” (compilada por Cristina Madero, Mario Jorge Buchbinder y Daniel Calmels, Reflet de Lettres, de Francia, y Alción Editora, de Argentina, 2012). Dirigió en 1998 un ciclo de narrativa y poesía en “Liberarte / Bodega Cultural”. Poemarios publicados: “Gestos de minué” (Libros de Tierra Firme, 1999), “Ésta es la tierra, corazón” (Ediciones Último Reino, 2005) y “El río secreto” (Premio Único de la Ciudad Autónoma de Buenos Aires en Poesía Inédita, Bienio 2010-2011, Ediciones El Jardín de las Delicias, 2016).

 

 

1 — Confieso que no he visitado tu provincia.

 

         MB — Donde nací de cara al Aconquija. En el éxtasis de la belleza, en las primeras preguntas ante la incertidumbre de lo vital, surgió el misterio de la poesía y desde muy niña leí con pasión. Recuerdo haber llorado a mares con “Corazón” de Edmundo de Amicis y el temprano compromiso con la palabra poética en mis clases de Declamación, como se decía en aquella época. También leí por entonces “Juan Cristóbal” de Romain Rolland (varios tomos) y “Bonjour tristesse” —inolvidable— de Françoise Sagan. Eran libros de mamá, dedicados, que aún conservo, con sus tapas antiguas. Viví en el seno de una familia judía acomodada, con mis dos hermanos. Papá, médico ginecólogo nacido en Buenos Aires, migró a Tucumán desde Rosario, donde hizo la carrera universitaria; y mamá —hija de tenderos prestigiosos de la calle San Luis, de Rosario, fina y elegante, la más coqueta del barrio— tenía devoción por el teatro y solía recitarnos a lo Berta Singerman. El piano sonaba en casa a cualquier hora en la interpretación de mi hermano Lalo; y esa escucha fijó en mí, tempranamente, las músicas y letras notables de los tangos de la guardia vieja, sustento lingüístico y filosófico que flota con cierta melancolía, tragicidad e ironía, en mi primer poemario. De esos tangos que escuché cantados por mi hermano y en la voz de Carlos Gardel, evoco con una sonrisa tres de gran potencia sentimental: “Ladrillo”, “Caminito” y “Si se salva el pibe” (este último con letra de Celedonio E. Flores). El segundo poemario es de otro momento de mayor aceptación; el discurso es llano y realista, aunque siempre revestido de “levedad”, ese lirismo que es un rasgo primordial en mi dicción, cierta contemplación de lo vital rodeada de un aura de conciliación. Y del tercero, de octubre del año pasado, lo autorreferencial se constituye en centro de la historia, desde una oralidad elaborada alrededor de una adolescente y su relación con el entorno familiar y social. Lo menciono ahora, porque en esta obra anticonvencional, casi una nouvelle, entramado de narrativa y poesía, está expuesta mi adolescencia, con toda la frescura y pavor que caracterizan esa época de la vida, la mismísima intemperie ante los mandatos sociales y familiares, y la subjetividad constituyéndose en atormentados combates interiores. El texto de contratapa es de la extraordinaria cineasta salteña Lucrecia Martel, influencia muy importante en mi carrera. Su filmografía revela la hipocresía de una sociedad, en este caso la del Norte argentino, que manipula e intenta ocultar el deseo y el verdadero sentir. El “murmullo” social ocupa un lugar relevante como intrínseco de la identidad (el famoso “qué dirán”). Cito una frase de mi libro: “Mirá que las mujeres quedan marcadas”.

 

2 — Ése dedicado a tus hermanos, Lalo y Sofi, “por aquella casa que nos habitó”.

 

MB  — Sí, “El río secreto”. Cuando se vendió mi casa de infancia y adolescencia en San Miguel de Tucumán, en el 2005, la casa me dejó oír una voz, enraizada en el habla provinciana, que parecía dictarme los textos que componen la nouvelle y yo escribí esta obra —memoria deslumbrada, silencioso devenir de un alma— bajo el amparo de esa melodía, como homenaje a mis hermanos y a esa “casa de la Avenida Mitre”, por necesidad de testimonio, de legado. Los textos fueron madurando a lo largo de una década: mandé la obra al Concurso Municipal en 2011, me entregaron el premio en 2016 y recién ese año, que decidí la publicación, dejé de modificarla. El cruce de géneros surgió naturalmente —hasta hay escenas en clave de grotesco, cuando se trata de describir la relación con la madre—  y en la yuxtaposición de los textos y las voces, se fue perfilando la trama. Nada es totalmente nítido pero todo está allí. “El deseo es algo que fluye, evitarlo es una actitud muy clase media”  —dice Lucrecia Martel. “El río secreto” tiene que ver con esta cita.

Mientras transcurría el secundario, la carrera de Letras, las letras de tango, los grandes descubrimientos literarios, el cine, cantantes de entonces: todo entra en juego y nutre ese miasma emocional que luego será núcleo y génesis de mi creación poética. De los cantantes que alimentaron mi romanticismo innato te menciono al chileno Antonio Prieto, a Leonardo Favio y a Sandro, claro, el de “Penumbras”. Y además, las canciones mexicanas apasionadas: “Me cansé de rogarle / Me cansé de decirle / que yo sin ella / de pena muerooooo”… Me refiero a “Ella”, de José Alfredo Jiménez, nacido en Guanajuato.

Cursé el secundario en la Escuela y Liceo Vocacional Sarmiento, donde fui abanderada, con mucho orgullo. No olvido ese 9 de julio de 1965, cuando desfilé con la bandera rumbo a la Casa Histórica. De allí evoco a un eminente profesor de filosofía, Néstor Grau; a “la Lucioni”, mi profesora de Física, materia que me atraía muchísimo por su misterio, y en especial a mi profesora de Literatura, María Rosa Garbero, que marcó mi camino hacia la literatura; tanto es así que, al finalizar esos estudios, me inscribí, decidida, en la carrera de Letras en marzo de 1966. “La Garbero” nos hizo leer —hasta me acuerdo del patio de la escuela y el sol picando a la hora de la siesta— nada menos que “El sonido y la furia” de William Faulkner y “La metamorfosis” de Kafka. Entrar a los dieciocho años en el dramático universo familiar de los Compson de Faulkner, o en el siniestro y desventurado mundo de Gregorio Samsa, significó para mí el encuentro con la Gran Literatura, el descubrimiento de las posibilidades inauditas de la Palabra Literaria, la sorpresa de una realidad textual que me conmovía hasta los tuétanos y que me devolvía al mundo más calma y “crecida”: empezaba a intentar “comprender”. Con esa misma profesora tuve la oportunidad en 1971, por esas cosas azarosas del transcurrir, de viajar a Salónica, Grecia, con un grupo de estudiantes, becados por la Universidad Nacional de Tucumán y la Universidad Aristotélica de Salónica, para realizar estudios de Lengua y Literatura Griega Modernas. Ese viaje (residí en Salónica durante más de seis meses), lo hicimos en barco, ida y vuelta, fue un hito en mi vida. Mis padres me dejaron ir, a regañadientes; así como habían cuestionado mi decisión de estudiar Letras porque —según papá— “qué iba a hacer con esa carrera, me moriría de hambre”. En Salónica estudié con pasión el Griego Moderno —ya había estudiado el griego clásico en la Facultad— y tuve un encuentro deslumbrante con la Poesía al leer por primera vez a Odisseas Elytis y a Yorgos Seferis en su propia lengua. (En la Facultad me había imbuido de “Edipo Rey” de Sófocles, en griego clásico, y esa emoción aún la atesoro, como germen de mi fervor poético.) De ambas situaciones de lectura, recuerdo la hora del día, el asiento que ocupaba en el aula de la Facultad, y las fulguraciones de la luz filtrándose por la ventana.

 

3 — ¿Y cuando regresaste de Grecia?

 

         MB — Me recibí, me casé con el novio de Tucumán, y vinimos en 1972 a vivir a Buenos Aires, incitados por mi viejo, que amaba a su ciudad. (Tengo dos hijos: una mujer, la mayor, Silvina, y el varón, Demián, cinco años menor. Cuatro nietos.) Los años de la adolescencia y de estudio de la carrera de Letras fueron fundantes y gloriosos, a pesar de problemas personales. Estaba encantada con el estudio, la Facultad, los libros. A Julio Cortázar su madre lo llevó a un médico, preocupada porque “leía demasiado”. A mí también, a un neurólogo, porque sufría de dolores de cabeza y el médico me preguntaba: “Pero, ¿usted pasea, se distrae…?” Y en realidad yo estudiaba y leía en demasía. Me presenté para una ayudantía en Lingüística y quedé segunda; escribí mi primer ensayito sobre una “novela de la tierra”, venezolana, “Doña Bárbara”, de Rómulo Gallegos, y otro, apasionante, sobre el significado de la palabra Kátarsis, en la definición de Aristóteles de Tragedia Griega. Para este ensayo leí a un gran humanista, Pedro Laín Entralgo (“La curación por la palabra en la antigüedad clásica”) y a Albin Lesky en su obra “La tragedia griega”, entre otros. Lo cual me abrió la comprensión del poder “sanador” de la palabra; ya sabemos que las representaciones trágicas en la época de oro de la tragedia griega, tenían un valor curativo, educativo, transformador, y por eso mismo formaban parte de las fiestas que congregaban al pueblo y a los soberanos: las llamadas Fiestas Dionisíacas.

Esto del poder sanador de la palabra lo relaciono con mi trabajo como coordinadora de talleres de escritura y literatura. Abracé esta tarea muy tempranamente (1982); y siempre consideré que mi trabajo, más allá de dar herramientas para perfeccionar la escritura e iluminar la lectura, mejora la vida. Uno está trabajando con aquello que nos toca profundamente a todos. Nunca soy fría enseñando. El vínculo con el otro me dignifica y hace crecer. Me interesa ayudar a reconocer la calidad de una obra literaria, a discernir sobre la buena o mala literatura, el compromiso con la vocación escritural. Pero también —como te dije— me interesa el vínculo que se establece: uno comparte el embrión, lo creativo en estado puro, el arranque entrañable de la emoción, la música del pensamiento, del recuerdo, del corazón.

En la cátedra de griego clásico leo por primera vez en una versión espléndida “La Ilíada” y “La Odisea”. “La Ilíada” sigue siendo un libro de cabecera. Esa poesía estuvo siempre en mí. W. H. Auden hace referencia a la solemnidad trágica de esos versos medidos, ese hallazgo musical para expresar el dolor por la muerte de Patroclo; la majestuosa dignidad y belleza de los Cantos homéricos.

Me pidieron que fuera ayudante en la Cátedra de Griego I, pero a mí me atraía la literatura; y si bien estudié la española del Siglo de Oro y francesa contemporánea, lo que más me cautivaba era la literatura argentina y latinoamericana. Fue con un profesor paraguayo, Mariano Moriñigo, con quien descubrí a José Martí, a José Lezama Lima, “La vorágine” de Eustasio Rivera, “El indio” de Gregorio López y Fuentes, “Los de abajo” de Mariano Azuela, entre tantos autores que me conectaron con el sustrato indígena, el campesinado, el sometimiento, y la dignidad de seres en condiciones de vida muy precarias. También por entonces descubrí a Juan Rulfo y me consubstancié con el ensayo “El laberinto de la soledad” de Octavio Paz.

El tema de la marginalidad y las diferencias sociales lo trato en mi último libro, en el cual el personal doméstico —las muchachas— cobran protagonismo, en oposición a una burguesía —adinerada— que se empeña en ocultar y en aparentar.

Patricio Esteve y Rodolfo Modern, profesores porteños, dieron algunos cursos en la Universidad de Tucumán y con ellos me embarqué en Samuel Beckett, Eugène Ionesco, Antonin Artaud, el expresionismo alemán y el Teatro de la Crueldad en Michel de Ghelderode. Y otro, como materia extracurricular, con un profesor comprovinciano, Octavio Corbalán, y así accedí al primer Mario Vargas Llosa (el mejor): “La ciudad y los perros”, “Los cachorros”, y al primer Carlos Fuentes: “La muerte de Artemio Cruz”.

 

 

4 — Ya habrías descubierto al mencionado Cortázar.

 

         MB — Mucho antes. Y sus libros me esperaban en la mesita de luz. Él significó mucho para mí, y de eso quiero hablarte en relación a su humanismo redentor, su ideal de un hombre nuevo, apartado de la Gran Costumbre. Sus cuentos me subyugaron, dicté cursos sobre su cuentística y la novela mosaico, “Rayuela”, y en parte, sus principios los encontré hace pocos años materializados en el pensamiento de un psicólogo chileno, Rolando Toro, inventor de la Biodanza. Cuando la empecé a conocer me hallé con “los cronopios”, con mi manada. Digo esto porque papá desvalorizaba mi afectividad desbordante, el hecho de que yo centrara mi existencia en el lugar de la emoción. La Biodanza me permitió expresarla y ubicarla en el lugar que yo quería. En el centro de mi Vida. Eso no es fácil en la sociedad tecnológica en la que confluimos, pero por lo menos lo atesoro como ideal. Con Jorge Ariel Madrazo [1931-2016], amigo del alma, que conocí poco después de publicar mi primer poemario y que extraño muchísimo, solíamos hablar de esto. Del desgaste de la afectividad en el mundo de hoy, de la falta de contacto real. Del teléfono de línea mudo, de la comunicación por celular, etc. Yo me quejaba. Él, no. Me decía: “Vos tenés que entrar a Facebook.” Desde allí fue un militante fervoroso e incansable. Y para mí él fue un compañero de vida, un extraordinario interlocutor, un grandísimo poeta. Le presenté uno de sus libros de la última etapa e hice un prólogo para su “Obra reunida”, que finalmente no se pudo editar, en ciudad de México. Parte de ese prólogo se difundió en una edición especial, “Madrazo en el Corazón”, un homenaje de 92 páginas, en el número 37, agosto 2016, de la revista de poesía “Trilce”, que dirige desde Chile el poeta Omar Lara. Aprovecho para comentarte que me sentí orgullosa de que Jorge Ariel me eligiera para presentarlo y reseñar su trayectoria en la sala Borges de la Biblioteca Nacional, cuando recibió el Premio Rosa de Cobre otorgado en 2014 por la citada Institución.

 

5 — Ciertas expresiones artísticas, claramente, han influido en tu obra.

 

         MB — Mucho. El cine, la pintura, la escultura. En mi último libro, antes del final, el lector se encuentra con una glosa, a modo de intertexto, de una película china, “El río”, de Tsai Ming Liang. En el anterior, en la tapa, está la foto de “Hombre que camina”, escultura de Alberto Giacometti. Y en el primero hay un retrato de mujer, una carbonilla, “Melancolía”, del pintor argentino José Marchi. Fue un impacto el descubrimiento de estas figuras alargadas y frágiles de Giacometti, con una expresión feroz en el rostro, que yo diría radica en la determinación para vivir, el impulso de vida del hombre en una contemporaneidad que nos condena a una inorgánica soledad. Observarlas en el Museo Miró de Barcelona me produjo una emoción que decantó en el segundo poemario y que ya desde el título anuncia una aceptación de lo real desde una madurez que duele. Sin embargo, el dolor de “saber” trae consigo una mansa reparación y el poema “Çest si bon”, con el que concluyo el libro, lo describe. A Gyula Kósice lo conocí, me adentré en sus esculturas acuáticas y está presente en mi búsqueda de sosiego y como remanente en algunos textos. Una instalación de un artista veneciano, Fabrizio Plessi, es la base de uno que se titula “Nana para tía Elvira”. Además tengo otro que siempre gusta en las lecturas, inspirado en Edward Hooper, en su cuadro “Mujer sentada”. Y en “El río secreto” el primer epígrafe es del escultor rumano Constantin Brancussi: “Toda mi vida he buscado la esencia del vuelo. El vuelo. Qué felicidad.” Su obra escultórica me inspiró, quizás porque me identifico con su exploración de un mundo más armónico. Sobre él dice Mircea Eliade: “Basta dejarse llevar por la potencia de las obras de Constantin Brancussi para recuperar la beatitud olvidada de una existencia libre de todo sistema de condicionamientos.”

 

         6 — ¿Cuándo comenzaste a escribir poesía?

 

         MB — Cuando regresé de Grecia. Durante un tiempo había llevado un Diario Íntimo, había intentado algunos poemas sueltos, y trabajos para la Facultad. Con continuidad me aboco en Buenos Aires, cuando empiezo a dictar clases de Literatura en el Instituto Mariano Moreno, para la carrera de Periodismo. En 1975 me sorprendo con “Residencia en la tierra” de Pablo Neruda: “Sucede que me canso de ser hombre…” En la Facultad, poco de poesía. Leopoldo Lugones, entre otros. Por ejemplo, Ricardo E. Molinari: “Quien no haya oído al viento lamentándose en el hielo / no sabe lo que es el recuerdo. / Yo tengo los labios húmedos / de mirar por una ventana.”

Descubro a Louis Ferdinand Celine por una colaboración que me piden para “La Gaceta de Tucumán” (diario en el que durante 1972 publico reseñas literarias). Y a un cuentista que después conocí en “Clarín”: Ignacio Xurxo (seudónimo). También al paraguayo Elvio Romero. Se publican artículos míos sobre ellos en la Gaceta. Que es cuando empiezo a colaborar en la sección Bibliográficas del suplemento cultural de “Clarín”. El director era Fernando Alonso. Por el diario, en plena dictadura militar, leo con devoción a Juan José Saer y reseño una antología que él mismo seleccionó, “Juan José Saer por Juan José Saer”, Editorial Celtia, 1986,  con un exhaustivo estudio de María Teresa Gramuglio. “El limonero real” constituye un hito en mi condición de lectora. Él es un narrador eminentemente poético, con sus innovaciones formales audaces. Y llega a mis manos, también para comentar en el diario, una antología sobre Juan L. Ortiz, editada en Rosario, con estudio preliminar de Edelweiss Serra (Juan L. Ortiz, Antología Poética, Coquena  Ediciones, 1982). Ese volumen me despierta a una poesía leve, contemplativa, con una sintaxis particularmente extendida; una poética trascendente y también social, que habría de incidir en mi poeticidad. Ya bastante más adelante continué con lecturas de Arnaldo Calveyra, también, como Juanele, entrerriano, atento a lo que podríamos definir como “registro de la percepción”, y que se nos fue a residir y a morir en París. De él prefiero “El libro de las mariposas”.

En 1982 me separo, empiezo a dictar talleres de narrativa y poesía como medio de vida, actividad que sigo amando como el primer día. Me satisface guiar a los alumnos, sorprenderlos con lecturas esenciales, colaborar en reelaboraciones de los textos, ayudarlos a objetivar lo que escriben, a “desenamorarse” (la lectura en voz alta es una herramienta imprescindible en este sentido). Todavía en aquel año había pocos talleres literarios. Y escribo poesía sin apuro en publicar, porque estoy aplicada a la docencia y a criar a mis hijos. Un año después me deslumbro con Oliverio Girondo, Felisberto Hernández, César Vallejo, Edgar Bailey, Enrique Molina y Joaquín Giannuzzi. Conozco a algunos escritores en el taller que coordinaba la narradora Syria Poletti. Ese grupo deviene en un grupo de pertenencia: nos reunimos para escribir (y yantar). Nos llamamos “Los Imaginantes”. Hacemos recitales de poesía en el Teatro Municipal General San Martín, en bares de la ciudad de San Isidro, en el Club El Progreso, de la calle Sarmiento. Publicamos y presentamos el volumen de cuentos “Sociedad de sueños”. Allí está el germen de la voz lírico-narrativa de mi último libro: en dos cuentos: “La chica Agüero” y “La equilibrista”.

 

7 — ¿Por dónde más transitaste?

 

         MB — Cursé escritura, lectura y teoría literaria con Nicolás Bratosevich. Y durante un tiempo breve con la dramaturga Diana Raznovich. Escribía ya con regularidad y descubro poesía de mujeres: Liliana Lukin, Irene Gruss, Susana Villalba, Delia Pasini, Susana Thénon, Idea Vilariño. De Gruss tengo presente su poema “Mientras tanto”, esa escritura depurada, austera: plena dictadura y el encierro doméstico mientras acuna al hijo. Tomé un curso en el Centro Cultural Ricardo Rojas con Jorge Panesi, sobre Felisberto Hernández, y otro en la Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad de Buenos Aires con Ricardo Piglia (y así me involucro más profundamente con Jorge Luis Borges y Manuel Puig). Diego Viniarsky, amigo querido fallecido trágicamente a los cuarenta años, me invita a leer en la sede de la UBA de la calle Puán (es una de mis primeras lecturas en público) y escribo a pedido de él un artículo para la hermosa revista que dirigía: “El Perseguidor” (2002). Trataba sobre el lenguaje “sesgado” de la poesía de los ochenta, la ineludible mordaza de los años oscuros.

Fue a partir de un encuentro fortuito con el poeta y ensayista Santiago Kovadloff que en 1999, después de dos décadas, publico mi primer libro. Me dijo: “¿Vos qué esperás para salir de la clandestinidad?”. Ese mismo año, el poeta Alex Pausides, vicepresidente por entonces de la  U. N. E. A. C. (Unión de Escritores y Artistas de Cuba), me invita a su país. Fue una experiencia incentivadora. Leo la ponencia “13 Jornadas para un Taller Literario” (la mesa desborda de “escritos desesperados”, pedidos de devolución en papeles arrugados, recibidos en galpones y salitas de escuela, muy precarios). Numerosos coordinadores me agasajan: allí los talleres son una institución y están organizados por jerarquías, niveles. Conocí, además, en La Habana a una poeta que admiro: Reina María Domínguez. Al año siguiente coordino un Taller de Poesía en la ciudad de La Plata: “Del surrealismo a la poesía actual”, invitada por la Dirección de Cultura de la Municipalidad de La Plata (encuentro organizado por la escritora Martha Berutti). En el nº 9, de junio de 2003, poemas míos se publican en la revista-libro “Hablar de Poesía”. Leo en 2004 en “La Anguila Lánguida”, la muestra de poesía que vos organizaste, y en el XII Festival Internacional de Poesía de Rosario. Del Festival me conmueven la solemnidad de ese auditorio multitudinario, la escucha de esa mezcla de escritores y público no especializado, pero interesado.

 

 

8 — Siendo el poeta Horacio Salas el director de la Biblioteca Nacional comenzaste allí a coordinar un Taller de Poesía para Jóvenes.

 

         MB — Sí, en 2003. Y después del breve período de Elvio Vitali como director, continué con Horacio González, ensayista, sociólogo, docente y novelista, quien llevó a cabo una gestión excelente, ampliando los talleres a la comunidad. Mi quehacer con jóvenes me vincula con una poesía menos frecuentada hasta ese momento por mí. La tarea es exigente. Aprendo de ellos. Son ávidos, rapidísimos en la asimilación, entusiastas y dramáticos. Escriben bien. Les atrae la desarmonía, el presente, el coloquialismo. Ausencia de nostalgia. Argentinos y numerosos latinoamericanos. Lamenté dejar de tener esa ventana al mundo cuando me despidieron las nuevas autoridades a principios de 2016. Gran bajón: había trabajado durante trece años. Me estimulaba aquel contacto, el desparpajo, la espontaneidad, las ganas, el talento incipiente. Los textos de ellos se fueron publicando en la revista “Coartadas” de la Biblioteca Nacional.

 

9 — Mencionaste a la Biodanza.

 

         MB — Darle bolilla al cuerpo, y al alma. Accedo a ella en 2005 y en 2010 me recibo de Facilitadora de Biodanza, título otorgado por la International Byocentric Foundation. El cuerpo me pide movimiento. Muchas horas sentada, dando clases o en la computadora, escribiendo; los músculos se tensan demasiado. Una vez por mes viajo a San Antonio de Areco durante cinco años a estudiar en una escuela de Biodanza que dirigen Jorge Terrén y Betina Ber: una indagación liberadora. “Una poética del encuentro” que después quise incorporar a mis clases, y de hecho lo logré durante un lustro. Talleres de creatividad literaria, de ahondamiento en la instancia inspiradora, a partir del movimiento, la música y la poesía. La práctica de esta disciplina me conectó con una mayor naturalidad y alegría en mi trabajo de Taller.

 

10 — Alegría.

 

          MB — Sí, porque el movimiento libera, ayuda a deponer el “ego”, a soltar lo cortical y te conecta con la alegría del cuerpo: la danza, la música y el encuentro con el otro. Y por otra vertiente, siento tristeza: por el país y por el mundo. La película italiana “La grande bellezza” de Paolo Sorrentino me encantó y me ronda. Ya decantará en mis textos su resonancia. Inicié mi cuarto libro, el que se perfila también como nouvelle.

Te cuento que estoy leyendo a Sharon Olds nuevamente y a Selva Almada. Me duelen las dos. Soy de leer tanto narrativa como poesía. Y el ensayo me fascina. También vi una Instalación del artista y músico británico Brian Eno: me empezó a “repiquetear”. Creo en la dignidad del arte para llegar al Ser. Ya dijo Heidegger: “Los poetas son los guardianes del fuego sagrado del hombre, los guardianes del Ser”. Uso esta frase en el Taller para “ablandar”, poner en órbita, que se agiten los fantasmas, las obsesiones más recónditas . La Poesía, flecha que se dirige a un blanco: Tensar la lengua hasta acercarse a Eso que se quiere decir y que uno desconoce. Estamos subsumidos en la incertidumbre pero saberlo consuela. Como dice Roberto Juarroz: “Quizá debamos aprender que lo imperfecto / es otra forma de la perfección: / la forma que la perfección asume / para poder ser amada”. Siempre con la lectura como telón de fondo esencial. No hay otra.

 

 

11 — ¿¡Así que naciste en la misma ciudad que Juan Bautista Alberdi (1810-1884), Leda Valladares (1919-2012), Tomás Eloy Martínez (1934-2010) y Mercedes Sosa (1935-2009)!?…

 

         MB — Sin desmerecer en nada a las figuras insignes que nombraste y que descollaron en el ámbito nacional e internacional, Rolando, me interesa Leda Valladares: poeta, compositora, cantante e investigadora musical. ¿Sabés?, me atraen su bajo perfil y su rebeldía frente al tradicionalismo provinciano. Ella, que provenía de una familia “paqueta” de Tucumán, se abocó al rescate de la música recóndita del norte argentino, despreciada por cierta élite de gustos europeístas. Se interesó por la baguala, la copla —cantos dolientes que tanto dicen— y los grabó, los recopiló, los cantó. Recuerdo versos suyos que aprendí de memoria en mi adolescencia y que no sé si están musicalizados: “La música me hace vasija / concavidad de barro antigüo / retumbo angustioso de lejanías.”

 

 

12 — Suelo interesarme por los artículos y ensayos concebidos por poetas argentinos, inéditos o difundidos circunstancialmente, a veces sólo de modo oral. Es tu caso, Marta. ¿“Dan” como para reunirlos en un volumen?

 

MB — Debo confesarte que el ensayo es mi género preferido. No sé si se debe a mi formación en Letras y al hábito de investigación que la facultad fomentó; pero la realidad es que atesoro recuerdos maravillosos de numerosas lecturas. Este género, personalmente, me aquieta, me ordena, me abre hacia niveles de pensamiento esclarecedores y lúcidos. Qué placer leer “La originalidad artística de La Celestina” de María Rosa Lida de Malkiel; o “El Hamlet de Shakespeare” de Salvador de Madariaga, “Onetti. Los procesos de construcción del relato” de Josefina Ludmer, “Sófocles y la personalidad de sus coros” de Ignacio Errandonea y tantos otros que, nombrarlos, alargaría demasiado este diálogo. Tu pregunta me atañe muchísimo. Te diría que, además de los  trabajos que he ido mencionando, guardo entre mis escritos un ensayo breve sobre el hermosísimo cuento “Los novios” de Haroldo Conti, autor que admiro y que aconsejo leer en mis clases por su peculiar uso de la “levedad”. Y para concluir: claro que me gustaría publicar mis ensayos; pero por ahora  no está entre mis  proyectos inmediatos.

 

 

        13 — ¿Y tus cuentos…? ¿Has seguido escribiendo narrativa?

 

         MB — Sí, estoy escribiendo una nouvelle en el estilo de “El río secreto”, con esa voz niña de intensidad poética cercana a la “percepción”. Me crió una niñera, Hortensia Juárez, tucumana mestiza de tierra adentro, sufrida, trabajadora. Su persona me ronda y ya he concebido algún diálogo, recuperándola. En este caso, otra vez el cine me dispara creación: en la película “La grande bellezza”, en la que ya me detuve, el personaje protagónico, un escritor, que vagabundea desencantado por las calles de Roma bajo la tenue luz de la madrugada, se confiesa con su empleada doméstica, Ramona, mientras ella lava los platos o, apartado, en una gran fiesta galante sobre una magnífica terraza de la Ciudad Eterna.

 

 

14 — ¿Puedo pedirte que sopeses lo que de cuatro escritores voy a encomillar y nos trasmitas lo que adviertas de mayor proximidad con tu pensamiento, con tu sentir, y reflexiones?…: Roberto D. Malatesta: “La poesía, se sabe, desprecia al impaciente.” Edna Pozzi: “…La poesía que no nos hace mejores ni distintos, sólo demuestra, por reducción al absurdo, la infinita vulnerabilidad del ser y sus símbolos y en definitiva la precaria condición de la palabra en un mundo de sordos necesarios.” Alfredo Palacio: “La poesía nace del exceso, la desmesura, con la búsqueda insaciable por lo vedado.” Astrid Lander: “La poesía no se escribe, / lo escrito es apenas / un esbozo / de lo que en verdad es poesía.”

 

         MB — Siento próxima la frase de Alfredo Palacio, Rolando. Además, aprovecho para decirte que me alegra que lo hayas nombrado porque es un amigo de la poesía y de la vida. No sé cómo entender “lo vedado”. Quizás como ese “todo” al que no se llega nunca y que la poesía intenta alcanzar, por cierto. Lo que me toca de su definición es la idea de “desmesura”. “Desmesura” en griego clásico se corresponde con el vocablo Hybris, y este vocablo del universo de la gran Tragedia Griega, señala una acción condenada por los dioses para el que osaba ir más allá de los límites o desafiarlos. Se consideraba, en la Grecia Clásica, que el que desafiaba a los dioses cometía el pecado de soberbia y era condenado por ello. Digo, ¿no podemos pensar al poeta como un rebelde que crea “otra” realidad con el lenguaje y con ello pretende hacer más visible lo real y transformarlo? ¿Y la famosa frase de Saint John Perse: “El poeta es la mala conciencia de su tiempo”? ¿Y no sería entonces el poeta un “desmesurado”, que se aventura en su quehacer con empecinamiento inaudito, persistiendo, sin vacilar? Y concluyo con Juan Gelman con algo de humor: “¿…pero quién me manda / a esperar un verso / en una esquina?”

 

         15 — ¿Poetas valorables y con mucha obra con los que no hayas podido “comulgar”?…

 

         MB — Tiempo atrás, no podía entrar en la poesía de Arturo Carrera, hasta que para un cumpleaños, Rita Kratsman, poeta y amiga, me regaló de ese autor “Vigilámbulo” (Poesía Reunida), y la lectura de “El vespertillo de las Parcas” (1997) me deslumbró.

 

 

          16 — En un texto titulado o conocido como “Olga por Olga” se pregunta Olga Orozco (1920-1999): “¿Me fui del todo alguna vez?”, refiriéndose a Toay, la localidad pampeana en la que había nacido. ¿Te has ido del todo, Marta, de San Miguel de Tucumán?

 

         MB — En verdad, no. “Si siempre estoy llegando”, dice la letra del tango compuesto y recitado por Aníbal Troilo (“Nocturno a mi barrio”). Siento añoranza, aunque también me reconozco muy porteña. (Los años en Buenos Aires superan ampliamente los vividos en Tucumán.) “La infancia, esa lluvia de la que nunca nos secamos” —supo discernir Juan José Saer. Cito esta frase porque considero que la infancia efectivamente está siendo siempre. De modo que mi corazón mira hacia el pago. Por las reminiscencias y sobre todo, por el paisaje perdido. Lo que más extraño es la presencia del Aconquija desde cualquier bocacalle de la ciudad de San Miguel de Tucumán. Qué privilegio divisar el Cerro San Javier. Ese azul cordón montañoso, punto lejano de sosiego y anclaje, horizonte a contemplar para ensanchar la vista y el alma. Y extraño los azahares de los naranjos en octubre, el “terco e invencible olor de los azahares” (Enrique Molina). De hecho, el escenario de “El río secreto” es la ciudad de San Miguel de Tucumán; y acabo de presentarlo allá, antes que en Buenos Aires. ¿No dice, acaso, Atahualpa Yupanqui: “Cuando se abandona el pago / y se empieza a repechar / tira el caballo adelante / y el alma tira pa´ trás.”?

 

 

         17 — ¿Algunos trazos sobre la producción literaria y pictórica en tu provincia?

 

         MB — Mirá, aprovecharía este espacio para recordar a un narrador tucumano olvidado que se llama Fausto Burgos (1888-1953). Leí de joven un cuento que me marcó, con personajes de la Puna. Entre otras personalidades podría nombrarte a Genié Valentié (1920-2009), o María Eugenia Valentié, profesora, en mi época de Facultad, filósofa y traductora; Emilio Carilla (1914-1995), lingüista erudito, también profesor universitario; David Lagmanovich (1927-2010), escritor y crítico literario. En el campo pictórico opto por nombrar a Gerardo Ramos Gucemas, español nacido en Extremadura, pero residente desde hace mucho en mi provincia. Gucemas es representante de una pintura única, original, fuerte, comprometida con los derechos humanos. Se reconoce “hijo de Goya”. Dice en una nota: “El cuadro que vale es el que aporta alguna inquietud, algún malestar; algo que haga sospechar que las cosas, que el mundo, no están bien.”

 

 

          18 — Es a la crítica literaria a quien le transfiero interrogantes que se formula en el Nº 21, julio 2005, de la revista “La Bota Literaria”, Claudio González Baeza: “¿Es necesaria la crítica literaria? ¿A dónde lleva el leerla? ¿Los autores necesitan de ella para continuar produciendo?”

 

         MB — En mi caso particular, los comentarios críticos que recibí por  mis dos primeros libros, me ayudaron a reconocer mi propia estética y mis búsquedas. Uno no sabe bien lo que escribe: uno escribe; y, a veces, la crítica —seria y fundamentada— te abre hacia conceptos, emociones o herramientas lingüísticas que uno tiene en su haber sin reconocerlos. Por otra parte, siempre ejerzo y he ejercido la crítica literaria —en reseñas para diarios, en las clases de taller, en devoluciones a amigos y no tan amigos; es parte de mi vida, la respeto como disciplina, siempre y cuando se realice, como dije, con honestidad ética e intelectual.

 

 

*

 

Marta Braier selecciona poemas de su autoría para acompañar esta entrevista:

 

 

 

Mujer sentada

 

 

Pero sé que debo hablar de esa puerta,

en un hotel para turistas de la calle Cangallo.

 

Recuerdo con nitidez un finísimo rayo de sol

y las partículas del aire jugando con la luz.

(Ah el sencillo fulgor de una habitación en penumbras.)

 

Estoy sentada sobre un sucio cobertor.

 

El conserje me entregó la llave de la diecinueve

y miró con cara de nada

cuando le hablé de tiempo de sosiego.

 

Cerró la puerta y me dejó queriendo comprender.

 

(Los mosaicos hacían muecas con su geometría.)

 

Poco importa si por la calle pasa un hombre,

si hay una fábrica, un frigorífico o muchos árboles.

Pero, el aire. ¿Entra por los pulmones, sale o permanece?

 

¿Qué hago, qué hago aquí,

en un cuadrado sórdido y ajeno?

Ajeno. Sórdido. Agujero del mundo, digo.

 

Sentada sobre un sucio cobertor.

 

                                                                   

 

                                   (de “Gestos de minué”)

 

*

La carcoma

 

en la madrugada

sube por las calles

un lied de Schubert

 

sube      baja     gime

 

es Ella otra vez

Canta

 

entre cartones canta

en una lengua extraña

 

y corre baba, ¿oís?

 

un himno grotesco

mece la ciudad.

 

 

                               (de “Ésta es la tierra, corazón”)

 

 

*

 

 

C´est  si  bon

 

 

El piano

dejaba oír suaves notas

y la casa latía

 

Era  cierta la tarde

en la ventana

 

Ahora

todo es precario, leve, azaroso

bellamente humano

 

Acaso

el peso de mi cuerpo

sea la única certeza

 

Ésta es la tierra, corazón:

hebras de luz

un acorde sencillo.

 

(de “Ésta es la tierra, corazón”)

 

*

 

Es la llegada de los panaderos del aire

 

la abuela dice que hay que pedir un deseo y soplar fuerte

para que el deseo se cumpla

 

ella pide:      ahí va

 

 

(el deseo)

 

                           (de “El río secreto”)

 

*

 

Algo se gesta en la sala de espera     algo que flota sobre los

cuerpos y las cosas y el aire del verano es aún más denso

 

las voces han ido apagándose entre las mujeres y la tarde se hace

pesada y cómplice

 

nadie se mira      hay ojos estacionados en un punto y un sabor

amargo en las bocas

 

gatos hambrientos     las mujeres dejan soltar una mueca hostil

y melancólica

                                                                      

                                          (de “El río secreto”)

 

*

 

El techo del comedor de lujo gotea

 

Antonia ha puesto un balde y el padre ha subido a la terraza

para encontrar el origen

 

qué origen      no hay origen     hay un agua que corre y no cesa

 

las gotas son cada vez más anchas y la casa hace música de

goterones

 

el balde en el centro como un dios indiferente

 

 

                                                          (con música de Cage)

 

                                                       (de “El río secreto”)

 

*

Entrevista realizada a través del correo electrónico: en la Ciudad Autónoma de Buenos Aires, Marta Braier y Rolando Revagliatti, 2017.

 

http://www.revagliatti.com.ar/070106_a.html

http://www.revagliatti.com.ar/070106_b.html

http://www.revagliatti.com.ar/991209.html

http://www.revagliatti.com.ar/040308.html

 

*

Libro Braier 1 - Gestos de minué - Tapa más grande

Libro Braier 2 - Ésta es la tierra, corazón

Libro Braier 3 - El río secreto

Marta Braier 3