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Índex* – Fevereiro, 2017

Cercada

Por animais

Eu me acordo em

Fevereiro

*

Lembro

Da menina de óculos

E meias

Até os joelhos

No primeiro

Dia de aula

*

Ela me diz

Algum segredo

Em voz baixa

Eu presto

Atenção

Para captá-lo

No ar

Para sorver

Na ponta

Dos dedos

O que fui

Outrora

Moldar em

Barro

E transmutar

Em personagem

*

Já fui

Princesa

Sacerdotiza

E jornalista

Agora sou

Uma simples

Escritora

A catar

Conchinhas de palavras

No mar aberto

De Maracaípe

(“Álbum de família”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 01/02/17, 06h02)

A Imaginação se irmana com a Prosa e a Poesia, Crítica e Ficção, Vida e Arte no Índex de Fevereiro, 2017, no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

“A louca da casa”, de Rosa Montero: Possíveis Escritas Criativas | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil) com Fernando de Mendonça (SP/PE – Brasil), Erasmo de Roterdam (Holanda), Ariano Suassuna (PB/PE – Brasil) e Cecília Almeida Salles (SP – Brasil).

Anco Márcio Tenório Vieira (PE – Brasil) | O vagão rosa.

Diego Mendes Souza (PI – Brasil) | Tinteiros rilkeanos.

Elba Lins (PB/PE – Brasil) | Impressões sobre o livro “O amante”, de Marguerite Duras.

Isabelle Macor (França) | “Lecteur d’emprentes digitales”/”Czytinik linii papilarnych”, Ewa Lipska (Polônia).

Jacques Rimbeboim (PE – Brasil) | Homenagem a Guita Charifker (PE – Brasil) com Abelardo da Hora (PE – Brasil).

Luiz Ruffato (MG/SP – Brasil) | “Redemoinho” & “Inferno Provisório”.

Marly Mota (PE – Brasil) | Homenagem a Luzilá Gonçalves (PE – Brasil) com Lourival Holanda (PE – Brasil).

Poeta de Meia-Tigela (CE – Brasil) | “acidade” digital.

Agradeço o carinho e participação, a próxima postagem será em 26 de Março, 2017, grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – February, 2017

Surrounded

By animals

I wake up at

February

*

I remember

The girl with glasses

And socks

Up to the knees

In the first

Class day

*

She tells me

Some secret

In a low voice

I pay

Attention

To capture it

Up in the air

To drink

At the tip

Of the fingers

What I was

Once

Mold in

Clay

And transmute

In character

*

I was already

Princess

Priestess

And a journalist

Now I am

A simple

Writer

Picking up

Little shells of words

On the open sea

Of Maracaípe

(“Family Album”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 02/01/17, 06h02)

 

Imagination joins with Prose and Poetry, Criticism and Fiction, Life and Art in the Index of February, 2017, in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

“The madwoman of the house”, by Rosa Montero: Possible Creative Writing | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil) with Fernando de Mendonça (SP/PE – Brasil), Erasmus of Rotterdam (Netherlands), Ariano Suassuna (PB/PE – Brasil) and Cecília Almeida Salles (SP – Brasil).

Anco Márcio Tenório Vieira (PE – Brasil) | The pink wagon.

Diego Mendes Souza (PI – Brasil) | Rilkean ink cartridges.

Elba Lins (PB/PE – Brazil) | Impressions on the book “The Lover”, by Marguerite Duras.

Isabelle Macor (France) | “Lecteur d’emprentes digitales”/”Czytinik linii papilarnych”, Ewa Lipska (Poland).

Jacques Rimbeboim (PE – Brasil) | Homage to Guita Charifker (PE – Brasil) with Abelardo da Hora (PE – Brasil).

Luiz Ruffato (MG/SP – Brasil) | “Swirl” & “Provisional Hell”.

Marly Mota (PE – Brasil) | Homage to Luzilá Gonçalves (PE – Brasil) with Lourival Holanda (PE – Brasil).

Poet of Half-Bowl (CE – Brasil) | Digital “acidade”.

 

Thank you for the affection and participation, the next post will be on March 26, 2017, big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** A Imaginação Livre no Mar Aberto de Maracaípe, PE – Brasil. The Free Imagination in the Open Sea of Maracaípe, PE – Brasil.

“A louca da casa”, de Rosa Monteiro: Possíveis Escritas Criativas | Patricia (Gonçalves) Tenório

09 a 10 de fevereiro, 2016

 

A dupla

Existem certos livros (e filmes) que nos assombram, nos atormentam a ponto de adiarmos o instante inaugural de leitura.

“Não sei por que demoro tanto a ler certos livros. Talvez por temer um abismo, pressentir uma perda de mim, uma perda do centro, uma desestruturação de meu ser. Isso aconteceu, por exemplo, com O Mar, de John Banville. Lembro de tomar o livro por diversas vezes, trazê-lo para junto de mim, para a mesa de cabeceira, mas algo que eu adivinhava na capa, ou na orelha, ou na pequena resenha do livro me impedia de abrir a primeira página e lê-lo de um fôlego só, horas e horas sem parar, e conseguir escrever no meu diário, ainda tomada pela emoção da leitura, que “uma espécie de vazio se instala em mim”.”[1]

O mesmo acontece com A louca da casa (2003), da escritora e jornalista espanhola, nascida em Madri, Rosa Montero (1951). Recebi de uma amiga das letras e da vida, a poeta e escritora Elba Lins, no lançamento de A menina do olho verde, em maio de 2016. Maio de 2016. Daqui a uns dias faz um ano. E me recusei esse tempo inteiro a tomá-lo nas mãos, “trazê-lo para junto de mim” e “lê-lo de um fôlego só”.

Investigo.

Composto por dezenove capítulos, Montero vai nos guiando por sua arte do escrever bem, um escrever bem quando “a louca da casa” toma conta de nosso ser, preenche plenamente nosso ser e podemos revelar a nossa verdade com todas as células.

“Sempre pensei que a narrativa é a arte primordial dos seres humanos. Para ser, temos que nos narrar, e nessa conversa sobre nós mesmos há muitíssima conversa fiada: nós nos mentimos, nos imaginamos, nos enganamos. O que contamos hoje sobre a nossa infância não tem nada a ver com o que contaremos dentro de vinte anos.”[2]

Desde a epígrafe, Rosa nos alerta das possibilidades do que está escrevendo. “Para Martina, que é e não é. / E que, não sendo, muito me ensinou.” Martina, supostamente, é a irmã gêmea de Rosa. Uma irmã gêmea tão diferente que bem poderia ser inventada, bem poderia ser uma personagem da escritora espanhola, que se autodenomina “a louca da casa”.

O título por si só é bem esclarecedor. “Caiu de paraquedas” para a autora vindo de uma frase de Santa Teresa, quando esta afirma que a “imaginação” é a louca da casa, e fica em um lugar escondido do nosso ser.  Lá para o final do livro, Montero faz uma retrospectiva na qual descobre que o texto não é somente sobre a literatura, mas sobre a imaginação, a loucura… Mas deixemos para “o final do texto” a descoberta dos verdadeiros temas de Rosa…

 

As máximas

Se pudéssemos organizar em máximas (mas de maneira aleatória, que faz sentido para mim, e o mais breve possível) para o “escrever bem” os inúmeros capítulos de A louca da casa – ato que, tenho certeza, muito incomodaria a autora, mas que tomo a licença poética para tentar descobrir o porquê dessa minha paralisia, desse meu congelamento diante de uma possível “dupla” ––, se pudermos organizar em máximas, quem sabe encontrássemos em cada capítulo…

1) “Nós inventamos nossas lembranças, o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos”;[3]

2) “O escritor está sempre escrevendo”;[4]

3) “Ninguém vai se lembrar da maioria de nós dentro de alguns séculos”;[5]

4) “Medo de concretizar a ideia, de aprisioná-la, deteriorá-la, mutilá-la”;[6]

5) “A literatura é um caminho de conhecimento que precisamos percorrer carregados de perguntas, não de respostas”;[7]

6) “O romance se dá numa região turva e escorregadia; em torno de um romance sempre acontecem as coisas mais estranhas. Como, por exemplo, as coincidências”;[8]

7) “Por que um escritor perde o rumo?”;[9]

8) “Mas não creio que seja um assunto apenas literário; realmente, acho que o ambiente fraternal é o primeiro lugar onde você se mede como pessoa; para ser você mesmo, é preciso sê-lo, de algum modo, contra seus irmãos”;[10]

9) “Os romances são os sonhos da Humanidade, sonhos diurnos que o romancista tem de olhos abertos”;[11]

10) “Será que no fundo da nossa consciência sabemos que a paixão amorosa é um invento, um produto da nossa imaginação, uma fantasia? E que, portanto, essa dor que nos abrasa é de alguma maneira irreal?”[12]

11) a) “Isto é a escrita: o esforço de transcender a individualidade e a miséria humana, a ânsia de nos unir aos outros num todo, o desejo de sobrepor-nos à escuridão, à dor, ao caos e à morte”;[13]

b) “A poesia aspira à perfeição; o ensaio, à exatidão; o drama, à ordem estrutural. O romance é o único território literário em que reinam a mesma imprecisão e falta de limites que reinam na existência humana. É um gênero sujo, híbrido, agitado.”[14]

12) “Lembro da primeira vez em que percebi que a morte existia. Eu devia ter uns cinco anos e estava lendo O gigante egoísta, o lindo conto infantil de Oscar Wilde. […] E morrer, percebi de repente, era não estar em lugar algum. […] Imagino que esta foi mais uma das razões pelas quais virei escritora”;[15]

13) “Detesto a narrativa utilitária e militante, os romances feministas, ecologistas, pacifistas ou qualquer outro ista que se possa pensar, porque escrever para passar uma mensagem trai a função primordial da narrativa, seu sentido essencial, que é o da busca do sentido. Escreve-se, então, para aprender, para saber; e não é possível empreender essa viagem de conhecimentos levando previamente as respostas”;[16]

14) “O escritor, como qualquer outro artista, tenta dar uma espiada para fora das fronteiras dos seus conhecimentos, da sua cultura, das convenções sociais; tenta explorar o informe e o ilimitado, e esse território desconhecido se parece muito com a loucura”;[17]

15) “De modo que a imaginação não só pode vencer a morte (ou pelo menos conquistar um adiamento da pena), mas também nos cura, nos sana, nos torna melhores e mais felizes”;[18]

16) “Porque eu não acredito na existência de musas. Em primeiro lugar, penso que o sussurro da criatividade, o murmúrio do daimon e dos brownies é sempre conquistado na base do esforço (como dizia Picasso, que a inspiração te pegue trabalhando); e também estou convencida de que os musos e musas mais eficientes não são os verdadeiros amados, e sim as ilusões passionais. Quer dizer, a pura fabulação. Quanto mais longínquo, mais frustrado, mais impossível, mais irreal, mais inventado for o relacionamento sentimental, mais reaviva a imaginação, enfim, enquanto a realidade pura e dura, o ruído imediato da própria vida, é péssima influência literária”;[19]

17) “De fato, quando transcorre certo tempo, digamos vinte anos, de alguma coisa que lembro, às vezes é difícil distinguir se vivi aquilo, ou se sonhei, imaginei, ou talvez escrevi ( o que mostra, por outro lado, toda a força da fantasia: a vida imaginária também é vida)”;[20]

18) “Em geral, os seres humanos não se permitem outros delírios, mas aceitam o amoroso. A alienação passageira da paixão é uma doidice socialmente admitida. É uma válvula de escape que nos permite continuar sendo equilibrados em todo o resto”;[21]

19) “Talvez tenhamos dentro de nós outras possibilidades de ser; talvez até mesmo as desenvolvamos de algum modo, inventando e deformando o passado mil e uma vezes. Talvez cada um dos acontecimentos da nossa existência pudesse ter acontecido de dez maneiras diferentes”.[22]

 

Os diálogos

Michel de Montaigne (1533-1592) já dizia nos seus Ensaios[23] que escrevemos por cima do que já escrevemos – lembro do palimpsesto –, e o que escrevemos não tem nada de original: nos citamos uns aos outros.

Que me perdoe Montaigne, mas seria preciso retornarmos aos gregos, antes até mesmo de Sócrates e Platão, antes dos Pré-socráticos, ao primeiro ser humano que (ins)escreveu símbolos nas cavernas, tentando se comunicar uns com os outros, para sermos originais. Mas precisamos nos dizer, precisamos colocar para fora aquilo que somos para dentro, ou ao menos investigar o que somos para dentro no intuito de nos conhecermos mais e melhor.

E é com esse intuito que teço aguns diálogos com essa escritora espanhola que se auto-denomina A louca da casa, e que, tão loucamente, eu me sinto irmã.

Dialogo.

ROSA – “Nós inventamos nossas lembranças, o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos”.

PATRICIA – Uma das maneiras de registrar o que ocorre no processo criativo encontra-se nos diários, blocos de anotações, …, o que a doutora em Linguística Aplicada e Estudos de Línguas da PUCSP, Cecília Almeida Salles, em Gesto inacabado: processo de criação artística,[24] chama de “registros de experimentação”.

ROSA – “O escritor está sempre escrevendo”.

PATRICIA – Não me canso de repetir – e a repetição leva à elaboração – as máximas do poeta, romancista, dramaturgo, crítico de arte paraibano radicado em Recife, PE, Ariano Suassuna (1927-2014), no seu Iniciação à Estética,[25] quando afirma que não basta a Forma, ou a imaginação criadora; é preciso a Técnica, ou estudo contínuo; e o Ofício, ou trabalho diário, para que o artista – e aqui tomamos o(a) escritor(a) – transforme em obra de arte e não mero artesanato o que tem em suas mãos.

ROSA – “A literatura é um caminho de conhecimento que precisamos percorrer carregados de perguntas, não de respostas”.

PATRICIA – Se eu pudesse eleger um único tema para as minhas investigações seria tentar responder à grande Pergunta, uma Pergunta Essencial: até onde o escritor pode transitar na Teoria sem perder a Ficção? A Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico é esse grande desafio ao nos alimentarmos de Teoria para fazer Poesia, de Crítica para tecer Ficção, de Vida para moldar o barro da Arte.[26]

ROSA – “O escritor, como qualquer outro artista, tenta dar uma espiada para fora das fronteiras dos seus conhecimentos, da sua cultura, das convenções sociais; tenta explorar o informe e o ilimitado, e esse território desconhecido se parece muito com a loucura”

PATRICIA – De maneira oblíqua, tento dialogar com a questão da loucura e do conhecimento ao mesmo tempo. Penso que escrever é como se fosse lapidar um vidro em estado bruto, opaco a princípio, pois não nos conhecemos bem. Com o aprofundamento da escrita e do auto-conhecimento que ela nos fornece, vamos lapidando e lapidando esse vidro opaco de nós mesmos, até chegarmos ao cristal, puro, transparente, o mais próximo possível de nossa essência – porque nunca conseguimos atingir a nossa essência plenamente, apenas “vemos em parte” o que um dia “veremos face a face”, já nos dizia o apóstolo Paulo. E por estarmos tão próximos de nossa essência, por quase “roçá-la”, não nos contentamos com pouco, nunca mais aceitaremos menos do que desejamos. E isso é um risco imenso. É para “os poucos, os loucos, os bons” – já nos dizia Hermann Hesse.

Quanto à Loucura, escrevi um texto sobre o Elogio à Loucura, de Erasmo de Roterdam, e um dos trechos que mais me fascina é quando Erasmo trata do Amor-Paixão, um dos quatro temas – como prometi no início deste breve estudo: literatura, imaginação, loucura e amor – que Rosa Montero trata no seu A louca da casa, e que farei uma relação com o filme La La Land, de Damien Chazelle.[27]

 

O amor

Uma atendente de cafeteria que sonha em ser atriz. Um músico que sonha em ter um clube de jazz próprio. Sonhos que se misturam, se entrelaçam, na direção da maior das loucuras do ser humano: a loucura do amor.

Quando iniciei este breve estudo, falei de livros “que nos assombram, nos atormentam a ponto de adiarmos o instante inaugural de leitura”. Feito O Mar, de John Banville. Feito Um Detalhe em H e 23 de Novembro, de Fernando de Mendonça. Feito A louca da casa, de Rosa Montero. Mas tive o cuidado de pôr entre parênteses os filmes, e no caso de La La Land ocorreu comigo exatamente o contrário do que acontece com “certos livros”.

Fui levada, por acaso, por meu filho caçula, em um domingo de janeiro, 2016. E já é a segunda vez que o assisto, e a obsessão persiste, a paixão continua.

– “O amor tem razões que a própria razão desconhece” – já dizia William Shakespeare.

E Rosa Montero afirma que o Amor-Paixão é a única Loucura que é permitida – e incentivada, vide os Dias de Namorados, etc – pela sociedade.

ROSA – “Porque eu não acredito na existência de musas. Em primeiro lugar, penso que o sussurro da criatividade, o murmúrio do daimon e dos brownies é sempre conquistado na base do esforço (como dizia Picasso, que a inspiração te pegue trabalhando); e também estou convencida de que os musos e musas mais eficientes não são os verdadeiros amados, e sim as ilusões passionais. Quer dizer, a pura fabulação. Quanto mais longínquo, mais frustrado, mais impossível, mais irreal, mais inventado for o relacionamento sentimental, mais reaviva a imaginação, enfim, enquanto a realidade pura e dura, o ruído imediato da própria vida, é péssima influência literária”.

E Erasmo (Desidério) de Roterdam confirma no seu Elogio à Loucura, feito citei acima, e ele escreve abaixo.

“De fato, quem ama com ardor não vive mais em si mesmo, vive no objeto que ele ama; e, quanto mais se afasta de si mesmo para ligar-se a este objeto, mais ele sente aumentar sua alegria e sua felicidade. Ora, não é louco o homem quando seu espírito, elevando-se acima da matéria, parece sair do corpo para delirar? De outro modo, o que significariam estas expressões vulgares: Ele está fora de si… caia em si… ele voltou a si…? Enfim, quanto mais perfeito é o amor, maior a loucura e mais sensível a felicidade.”[28]

E Rosa se repete na narração dos possíveis encontros com M., um ator de Hollywood – qualquer semelhança com o sonho de Mia em La La Land não é coincidência, pois não acredito em coincidências –, feito uma obsessão, feito as possibilidades de Aristóteles na sua Poética, feito a escrita compulsiva deste texto em dois dias, ou um poema que escrevi diante do infinito mar, um poema que ofereço daqui, do outro lado do Oceano Atlântico, para A louca da casa Rosa Montero, que, feito Martina, bem poderia ser minha irmã.

Ofereço.

 

Cercada

Por animais

Eu me acordo em

Fevereiro

 

Lembro

Da menina de óculos

E meias

Até os joelhos

No primeiro

Dia de aula

 

Ela me diz

Algum segredo

Em voz baixa

Eu presto

Atenção

Para captá-lo

No ar

Para sorver

Na ponta

Dos dedos

O que fui

Outrora

Moldar em

Barro

E transmutar

Em personagem

 

Já fui

Princesa

Sacerdotiza

E jornalista

Agora sou

Uma simples

Escritora

A catar

Conchinhas de palavras

No mar aberto

De Maracaípe

 

(“Álbum de família”, Patricia (Gonçalves) Tenório,[29] 01/02/17, 06h02)

 

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(1) Vide “Sobre Um Detalhe em H, de Fernando de Mendonça” (http://www.patriciatenorio.com.br/?p=4809) e “A Epifania em Fernando de Mendonça” (http://www.patriciatenorio.com.br/?p=5923), 19/06/2013 e 04/01/2015, respectivamente.

(2) MONTERO, Rosa. A louca da casa. Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2015, p. 8.

(3) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 8.

(4) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 12.

(5) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 21.

(6) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 32.

(7) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 39.

(8) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 45.

(9) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 51.

(10) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 64.

(11) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 75.

(12) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 81.

(13) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 96.

(14) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 100.

(15) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 102, itálico da edição, colchetes nossos.

(16) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 109.

(17) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 122.

(18) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 129.

(19) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 137, itálico da edição.

(20) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 141.

(21) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 150.

(22) MONTERO, Rosa. Op. cit., p. 166.

(23) MONTAIGNE, Michel Eyquem de. Ensaios. Tradução: Sérgio Millet. Precedido de Montaigne – o homem e a obra, de Pierre Moreau. 2ª ed. Brasília: Editora Universitade de Brasília, Hucitec, 1987, p. 352.

(24) SALLES, Cecilia Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. São Paulo: FAPESP: Annablume, 1998, p. 18.

(25) SUASSUNA, Ariano. Iniciação à estética. Texto revisado e cotejado por Carlos Newton Júnior. 5ª edição. Recife: Ed. Universitária da UFPE. 2002, pp. 235-240.

(26) Vide “A perda da aura nas Fotografias para imaginar, de Gilberto Perin (e a Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico)”, http://www.patriciatenorio.com.br/?p=7095, de 30/10/2015.

(27) La La Land. La La Land – Cantando Estações. 2016. EUA. 128 min. Direção: Damien Chazelle. Com Ryan Gosling, Emma Stone, John Legend, entre outros.

(28) DESIDÉRIO, Erasmo. Elogio da loucura. Tradução: Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, (1508 in) 2011), p. 131, itálico da edição.

(29)  Patricia (Gonçalves) Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados: O major – eterno é o espírito2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Em 2013, recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa. Em 2016 publicou Vinte e um/Veintiuno (Mundi Book, Espanha, abril, 2016), e A menina do olho verde (livros físico e virtual, Recife e Porto Alegre, maio e junho, 2016), traduzido para o italiano por Alfredo Tagliavia, La bambina dagli occhi verdi, publicado em setembro, 2016 pela editora IPOC – Italian Paths of Culture, de Milão.  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Profª Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino, publicada em outubro de 2016 pela editora Omni Scriptum GmbH & Co. KG / Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, Alemanha. Acaba de ingressar (2017.1) no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) no Doutorado em Escrita Criativa. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

Anco Márcio Tenório Vieira* | O vagão rosa**

Destinando às usuárias do metrô do Recife um dos seus vagões, a CBTU pareceu tomar uma solução sensata para coibir a violência e o assédio sexual contra as mulheres. Na verdade, a “solução” apenas alimenta velhos estereótipos, preconceitos e mostra a falência da nossa segurança pública. Vejamos.

Ao segregar as usuárias em um “vagão rosa”, a CBTU não só está reafirmando o caráter “indefeso” e “frágil” atribuído à mulher, como reiterando, de modo sutil, o discurso machista e misógino de que ela é incapaz de se defender dos seus “algozes”. Logo, como elas poderiam comandar empresas, assumir cargos de chefia dentro do Estado ou mesmo ser respeitadas em espaços que são tradicionalmente tidos como masculinos? Por outro lado, a “solução” dada pela CBTU encerra um contraditório: se as mulheres representam 56% dos usuários do metrô e como um vagão não é suficiente para transportar todas elas, particularmente nos seus horários de pico (das 6:00-8:30 e das 17:30-19:30), como ficam as passageiras que precisam viajar nos vagões destinados aos homens, se não há ninguém para protegê-las? Ora, se elas também podem viajar nos vagões destinados aos homens, então isso significa dizer que essas mulheres, contrariando o estereótipo que lhes é imputado de sexo “indefeso” e “frágil”, são adultas e capazes de se protegerem?

Outro ponto a frisar, é que como ainda não se aboliu o livre-arbítrio, muito menos vivemos em um Estado totalitário que diz como devemos viver ou nos locomover, apesar de certos “moralistas” que adorariam regrar como deveríamos proceder até na alcova, creio que o direito de escolher o vagão que melhor lhe aprouver é uma decisão que apenas e somente cabe à mulher decidir. Logo, ao optar por não viajar nos vagões que lhe são destinados, essa mulher, caso fosse assediada sexualmente, seria responsabilizada por ser a agente provocadora? Ou seja, mais uma vez, ela, a vítima, é que seria culpada?

Por fim, duas derradeiras perguntas: essa “solução cidadã” também se estenderá aos ônibus e aos demais espaços públicos, a exemplo de ruas, cinemas, teatros, escolas, hospitais, restaurantes e shoppings? As questões da segurança e da urbanidade se resolvem construindo espaços-bolhas para as vítimas do machismo, da misoginia e da homofobia, ou passa por enfrentarmos com as armas da educação (sem hipocrisia nem falso moralismo religioso), a violência de gênero nas escolas, fábricas, empresas e instituições públicas?

Creio que nenhuma sociedade é forte e saudável se ela prefere promover antes a segregação do que o enriquecedor convívio entre os diferentes, principalmente quando os segregados respondem, no caso, por mais da metade da sua população. Ao recorrer à segregação de gêneros, essa sociedade não apenas revela o quão efêmera é, como atesta que fracassou em seu projeto civilizatório e caminha a passos largos para a completa barbárie.

 

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* Anco Márcio Tenório Vieira é professor no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco, e seus escritos bem parecem contos urbanos. Contato:  ancovieira@yahoo.com.br

** Publicado no Diário de Pernambuco em 14/02/2017.

Diego Mendes Souza* | Tinteiros rilkeanos

04 fev 2017

TINTEIROS RILKEANOS – Poema de Diego Mendes Sousa

 

Chagal 1

Diego Mendes Sousa nasceu na Parnaíba, litoral do Piauí.

Rilke

(Poeta Rainer Maria Rilke)

TINTEIROS RILKEANOS

Chagal 2

Todo mar é a sua superfície,

a poesia é um pressentimento

inacabado?

Chagal 3

Todo poema é azado

quando ressuscitado?

Chagal 4

Toda ave

é asada

no encontro

do seu próprio

infinito desmedido?

Chagal 5

O Belo, ainda medonho,

é o transir dessas almas todas?

Chagal 6

Poema de Diego Mendes Sousa

Pinturas de Marc Chagall

 


* Contatos: http://www.proparnaiba.com/artes 

https://diegomendessousa.wordpress.com/

Elba Lins | Impressões sobre o livro “O amante”, de Marguerite Duras

———- Mensagem encaminhada ———-
De: “Elba Lins” <elbalins@gmail.com>
Data: 7 de jan de 2017 14:05
Assunto: IMPRESSÕES SOBRE O LIVRO – O AMANTE, de MARGUERITE DURAS
Para: <confrariamulheres@googlegroups.com>
Cc:
Olá, amigos da Confraria,

Aproveito para mandar minhas impressões sobre o livro O AMANTE, de MARGUERITE DURAS

Já havia lido A Dor e O Amante há muito tempo atrás, sem no entanto, ter dedicado tempo a saber mais sobre a autora ou analisar a obra com profundidade.

Volto a ler O Amante e me encanto com a densidade do texto de Marguerite Duras. Nele existe tanto sentimento, tanta dor, tantas coisas não ditas, quase ditas ou enfim ditas; que me sinto transportada para um clima diferente. De repente estou escrevendo sobre tensões, sobre mágoas, medos e dores e buscando dentro de mim os meus próprios demônios interiores, tão forte o contexto do romance.

Ao escrever impressões sobre um livro procuro me restringir ao texto, fazer minhas próprias avaliações, constatações e somente depois buscar as críticas e comentários na Internet de forma a não me deixar “contaminar” por ideias que não são minhas. Depois de fazer isto, verifico quão divergentes ou alinhadas estão, em relação às demais. Ao ler O Amante para nossas discussões na Confraria, não resisti à curiosidade de logo buscar mais informações sobre a obra e a vida de M. Duras. É incrível e instigante tudo o que consegui ler sobre ela. É o  tipo de escritora que nos leva a querer ler toda a sua obra e pesquisar o que se escreveu sobre ela; mesmo sabendo que um mergulho nesta vida de tanta densidade irá influenciar os nossos  próprios sentimentos.

Consegui na Internet alguns textos para ajudar no entendimento da obra de Duras e coloco os títulos para quem se interessar:

* SILÊNCIO E REVELAÇÃO NA ESCRITA DE MARGUERITE DURAS – Karina Ceribelli ROY*

* O TEXTO DE MARGUERITE DURAS (1) -Celina Moreira de Mello – Universidade Federal do Rio de Janeiro

* A ESCRITURA CORRENTE DE MARGUERITE DURAS*- Celina Moreira de Mello -Universidade Federal do Rio de Janeiro

Destaco alguns pontos que me chamaram atenção nestes artigos:

– É dito que a obra de Duras pode ser dividida em uma fase da Indochina e outra fase da Índia.

– Mesmo apresentando diferentes histórias, no fundo o enredo básico das obras de Duras são sua infância na Indochina, sua família e os romances de casais em crise. Existem muitos pontos de confluência entre suas obras.

– Uma curiosidade – ela não gostou da versão cinematográfica do seu romance, O Amante.

–  Ao longo do tempo, muitas verdades vão aos poucos sendo explicitadas em seus romances, como se ela fosse retirando véus e mais véus de assuntos censurados. Finalmente, em O Amante, escrito após a morte da mãe e dos seus dois irmãos, Duras consegue falar de temas até então escondidos. É dito que alguns destes tabus só serão revelados no romance O Amante da China do Norte. Estes dois livros são caracterizados como suas obras mais autobiográficas. Entre estes tabus, estão o caso do amante com o qual M.D. se relacionou na adolescência e o suposto relacionamento incestuoso com seu irmão mais novo (no romance O Amante da China do Norte). Mas isto é assunto para o futuro. Também é questionado se houve algum evento incestuoso envolvendo o irmão mais velho.

– São feitos comentários sobre a forma contraditória com que ela fala da mãe, pois ao mesmo tempo que a cultua, a critica. Como, quando ela diz “…a porcaria da minha mãe, meu amor…”. ” acho que falei do amor que sentíamos por nossa mãe, mas não sei se falei do ódio…”

Depois de transitar pelas muitas opiniões sobre a obra de Duras teci alguns comentários sobre o livro O Amante.

– Logo no início do romance, é muito forte o texto onde ela fala sobre a mudança que ocorreu no seu rosto por volta dos seus dezoito anos. Comenta que tem um “um rosto destruído”. Na minha opinião tem mais correlação com seu irmão mais velho do que com o romance com o chinês. Sobre o trecho “Não, aconteceu alguma coisa quando eu tinha dezoito anos que fez surgir este rosto. Devia ser a noite. Eu tinha medo de mim, tinha medo de Deus. De dia, eu tinha menos medo, e a morte parecia menos pesada. Mas ela não deixava. Eu queria matar meu irmão mais velho (…) e sobretudo para salvar meu irmão mais moço (…) dessa lei representada por ele, decretada por ele, um ser humano, e que era uma lei animal …” Senti que existe ainda muita coisa não dita, muitos fantasmas noturnos que ainda não viram a luz do dia. Não sei se serão finalmente abordados n’ O Amante da China do Norte.

– Quando volta a falar no seu rosto e no papel que o álcool e o desejo ocupou na sua vida mesmo antes de conhecer o gozo, ela diz ” Tudo começou para mim, por este rosto visionário, extenuado, esses olhos pisados antes do tempo, antes da experiência.” Me pergunto, que experiência foi esta que no texto ela chega a colocar em itálico, dando uma conotação de mistério.

– Parece que existia nela uma extrema segurança sobre o desejo que, já na faixa dos doze anos sabia despertar nos homens. ” Faz três anos que os brancos também me olham (…) e os amigos de minha mãe me convidam (…) na hora em que suas esposas estão jogando tênis no Clube Esportivo. Eu poderia me iludir, acreditar que sou bela (…). Mas sei que não é uma questão de beleza (…). Eu pareço o que quero parecer…”

É contraditório o comportamento da mãe, seja quando o diretor da escola diz que sua filha é a primeira em francês e ela fica “descontente porque não são os filhos os primeiros em francês”, seja quando “percebe o chapéu masculino e o sapato de lamê dourado (…) ” e mesmo assim ” não só aceita essa palhaçada, essa falta de decoro (…) como esta falta de decoro lhe agrada”. Quando a família sai para jantar com o chinês tudo é contraditório, eles saem, jantam, bebem, dançam sem entretanto dirigir a palavra ao anfitrião. No pensionato, ao mesmo tempo que pede que as saídas da filha não sejam controladas a mãe lhe bate por desconfiar que está se relacionando com o chinês.

– Já que não espera dos filhos homens a solução dos problemas financeiros, a mãe fecha os olhos para a atitude da menina e para sua forma de vestir-se. “Resta essa menina que cresce e que talvez um dia saiba como fazer entrar dinheiro em casa. É por esta razão, e ela não sabe disso, que a mãe permite que a filha saia com esta roupa de prostituta infantil”. 

Sobre os sentimentos pelo chinês – acho que além do desejo e do interesse financeiro, existia, embora não explicitada, uma identificação, um gostar de ficar perto, de conversar (embora nunca sobre eles próprios), uma certeza de se sentir acolhida. O choro da jovem no navio de partida e na cena final, nos dá a ideia deste amor  “…aquela irrupção da música de Chopin sob o céu iluminado de cintilações. (…) E a jovem tinha se levantado (…) e depois havia chorado porque tinha pensado naquele homem de Cholen e de repente não tinha certeza se o havia amado com um amor do qual não se apercebera porque ele tinha se perdido na história como a água na areia e agora ela só o reencontrava nesse instante em que a música se lançava ao mar”. Este, entretanto, foi um romance natimorto. Sentimos que ela foge para não se sentir aprisionada a um amor que tiraria toda independência. Um outro agravante, o chinês é fraco e embora se dissesse apaixonado por ela, estava preso ao dinheiro do pai. “Ele chora muito porque não encontra forças para amar além do medo. Seu heroísmo sou eu, sua servidão é o dinheiro do pai”. Estas várias percepções certamente pesaram nas suas escolhas para o futuro, já que desde cedo sabia o que queria – ser escritora, deixar a família para trás, fugir de todo aquele pesadelo familiar.

– O quarto em que ela encontra com o chinês está sempre cheio de personagens, os irmãos, a mãe, o pai, Hélène Lagonelle… e a todos eles, ela parece envolver durante o sexo com o chinês. Vai ser um prato cheio para as psicólogas e psicanalistas do grupo, já espero ansiosa por seus debates.

É um livro que a cada leitura descobre-se novos pontos a serem analisados.

Tomo a liberdade de enviar para vocês um dos textos que escrevi durante a leitura do romance O Amante:

A Solidão encontrou o Amor e sem saber que ele era o falso amor, se deixou seduzir e ser invadida pela Paixão.

A partir daí, ela não era mais a Solidão, era um ser apaixonado, escravizado.

Por medo de perder o estado de graça, de cair na desgraça, se deixou massacrar.

Se fez dependente, de uma palavra, de um gesto…

Suplicava amor,
Mendigava paixão,
Se tornou loucura.

E onde ficou seu orgulho, que a deixava aqui, ouvindo impropérios?

Que não lhe permitia fugir da vergonha, da loucura,

De percorrer ruas vazias em busca do que pensava amor

Ela agora trazia no corpo e na alma as marcas deste Amor/Desamor.
Que durou dias, meses, anos…
Até que a força do hábito a fez optar

E mudar outra vez o seu nome, para Solidão.

( “Da Loucura” – Elba Lins, 02.01.2017. Durante a leitura de O Amante, de Marguerite Duras)

 

Isabelle Macor | “Lecteur d’empreintes digitales”/”Czytnik linii papilarnych”, Ewa Lipska

Isabelle FB

 

Isabelle I

Isabelle II

Jacques Ribemboim* | Homenagem a Guita Charifker**

Numa madrugada de sessenta e quatro, Abelardo da Hora bateu-lhe à porta pedindo socorro. Estava a pé, ofegante, fugindo da polícia repressiva. Guita Charifker não titubeou um só instante em levar o amigo de carro para bem longe, onde pudesse se esconder por uns tempos. Essa história me foi contada pelo próprio Abelardo, ressaltando sempre a coragem de Guita em ter se arriscado para salvá-lo.

Uma das poucas pintoras pernambucanas que conseguiram obter reconhecimento nacional. Em 2003, a artista foi não menos que aclamada pela crítica durante sua exposição individual na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Atualmente suas aquarelas com predomínio de verdes, vermelhos e laranjas, suas telas, seus desenhos surreais em bico de pena, podem ser encontrados nos principais acervos museais brasileiros.

Guita Charifker constitui, ainda, a representação máxima do que se poderia chamar de sincretismo judaico-nordestino, alinhavando elementos da sua infância ao admirável mundo novo do regionalismo tropical. É notável a infinidade de signos e elementos místicos ou religiosos presentes em sua obra, inclusive os de matriz africana e indígena. São cartas de tarô, tatus, búzios, santos, paisagens nordestinas povoadas de cajueiros e plantas. A artista chegaria mesmo a passar um bom período da vida recolhida a um convento de freiras. Nascida em 1936, teve a infância e adolescência vividas no bairro da Boa Vista, epicentro de tudo o que se produzia em termos de arte e literatura no Recife. Após se casar com Júlio Charifker (seu nome de solteira era Guita Greiber), mudou-se para a Rua do Sossego, onde instalou seu ateliê de trabalho na garagem de casa. Após alguns anos, transferiu-se para Olinda, à procura de um ambiente mais inspirador para seus quadros. Antes disso, na década de cinquenta, frequentou o Atelier Coletivo, sob a batuta de Abelardo da Hora e tendo como colegas Zé Cláudio, Gilvan Samico, Wilton de Souza e Wellington Virgulino, dentre tantos jovens artistas que viriam simplesmente revolucionar a arte pernambucana.

Guita Charifker considerava-se uma descendente de Branca Dias da Paraíba, ou mesmo sua reencarnação. Um alter ego muito bem pinçado por uma mulher que em pleno século 20 teve a mesma ousadia daquela que, trezentos anos antes, enfrentara a fogueira da Inquisição para não trair seus ideais. Pois esta mulher ousada, esta artista incomum, a mocinha de tranças que passeava às tardes na Praça do Derby com uma multidão de amigas, nossa Branca, atendeu ao convite dos céus e eternizou-se nesta sexta-feira, véspera do shabat. Em credos distintos, em línguas diversas, em corações sinceros, será para sempre festejada.

 

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* Jacques Ribemboim é escritor e atua de maneira apaixonada na defesa da memória judaica em Pernambuco.

Contato: jacquesribemboim@hotmail.com.br

** Publicado como “Guita Charifker” no Diário de Pernambuco em 4 e 5 de fevereiro de 2017.

Luiz Ruffato | “Redemoinho” & “Inferno Provisório”

From: luizruffato@uol.com.br [mailto:luizruffato@uol.com.br]
Sent: domingo, 5 de fevereiro de 2017 11:30
To: undisclosed-recipients:
Subject: Redemoinho

 

Na próxima quinta-feira, dia 9, estreia Redemoinho, primeiro longa-metragem do diretor José Luiz Villamarin. O filme, baseado em algumas histórias do meu romance Inferno provisório, tem roteiro de George Moura e, no elenco, conta com Irandhir Santos, Julio Andrade, Cássia Kis e Dira Paes.

Aqui, o trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=34tRec6MnPU

E aqui a sinopse do livro (que está com nova edição “revista, reescrita, reestruturada” e “definitiva)”:

http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=87034

Abraços do

Luiz Ruffato

Toda quarta-feira, coluna na edição Brasil do jornal El País:
http://brasil.elpais.com/autor/luiz_fernando_ruffato_de_souza/a/

Marly Mota* | Homenagem a Luzilá Gonçalves**

O nome é iluminado. Logo na primeira sílaba traz: Luz. Luzilá Gonçalves Ferreira, escritora, pesquisadora, nos círculos e festivais literários, Bienais do Livro em Pernambuco e fora do estado. Mestra como a palavra sugere, é professora da UFPE. É vice, ao lado da atuante presidente da Academia Pernambucana de Letras, Margarida Cantarelli. Colunista semanal em Letras às Terças, no Diário de Pernambuco, de onde registra acontecimentos literários, divulga poetas e escritores. Em noite de autógrafos do livro já esgotado Muito além do corpo, o professor e filósofo Lourival Holanda fez a apresentação com aplausos. Marcus Accioly, o querido amigo, festejado com o seu livro Nordestinados, cantado em prosa e versos, pelas violas por violeiro.

Em comentário mais recente na coluna Letras às Terças, traz a figura doce e generosa da poeta Celina de Holanda: o modo como acolhia os amigos (“Venham de onde vierem ponho a mesa”). Mauro Mota participou da mesa posta de Celina de Holanda, com o poema dedicado à nossa filha Teresa Alexandrina. Luzilá Gonçalves lembra o amor de Mauro Mota pelo Recife, em 22/11/2016, há 32 anos de sua morte. Lembra o paisagista Abelardo Rodrigues, o maior colecionador de arte sacra de jardins por ele construídos em BR do estado. Apesar da relutância em permanecer inédito, o padre Daniel Lima, nosso mestre, venceu a persistência da nossa amiga Luzilá em editar pela Cepe o seu 1º livro: Poemas, com textos dos professores seus amigos Lourival Holanda e Zeferino Rocha. Luzilá Gonçalves Ferreira, com a sua eficiente coluna Letras às Terças, faz a diferença.

No Diário de Pernambuco, de 1948 a 1959, Mauro Mota criou e dirigiu o Suplemento Literário, de grande circulação pelo Nordeste. Do Maranhão, publicou Ferreira Gullar e José Sarney, ainda sem eco na literatura. Entre escritores daqui e de outros estados, por reconhecimento e amizade, tomaram-nos por compadres padrinhos dos filhos: Tadeu Rocha, Nelson Saldanha, Haroldo Bruno, Nertan Macedo, César Leal, Ledo Ivo, Moacir de Albuquerque.

Escrevendo diariamente a crônica: Peço a Palavra, no Diário de Pernambuco, Mauro Mota lembra do amigo José Augusto Guerra, do estado de Alagoas, ao ver seu primeiro artigo publicado: “Foi como se a terra tivesse fugido dos meus pés, meu coração batia descompassado e eu fiquei lambendo a cria”.

Luzilá em suas pesquisas sobre a obra de Mauro Mota reuniu poesia, prosa, opúsculos, resultando no excelente estudo impresso no livro O Tempo sem Remédio na Farmácia, dedicado aos seus pais, Almerinda e Lupicínio.

Quando menina, Luzilá gostada de brincar de escrever. Começou com uma comédia encenada no quintal da sua bela casa de Garanhuns. Comenta que fazia o papel de empregada, com o rosto pintado a carvão. Os que assistiam riam muito e, ela de si mesma, vendo o seu rosto refletido no espelho. Quando mocinha estudava no colégio de freiras francesas. A partir dos 13, 14 anos começou a escrever, obtendo vários prêmios. Em 1981 publicou o seu primeiro livro pelas Edições Pirata: O Espaço do teu Rosto, dando sequência a outras publicações. A maioria dos jovens recorreram à Editora Pirata: Maurício Motta, com o livro Tudo em Família; Aroldo Bruno; Eduardo Motta, com livro Gaveta; Eduardo Diógenes, entre outros.

Luzilá, atendendo ao pedido dos amigos Sonia e Everardo Norões, editores do meu livro Janela, escreveu na página Ânimo Artístico: “O passado é aquela estação em que as coisas acontecem. Essas palavras de Jorge Luiz Borges, que cito de memória, me vieram à mente ao ler estas crônicas de Marly Mota”. Luzilá também nos emociona, quando fala dos reencontros com o seu mundo de evocações, das paisagens, das serras, das flores, da música de órgão que a mãe tocava na igreja, das viagens de trem. Entre outras lembranças, diz: “Reencontrá-las, é sempre um choque.” Veja-se Rachel de Queiroz, em qualquer assunto tem sempre a linguagem simples do sentir cearense interiorano.

Luzilá partilhou de um mundo rico que lhe dera asas à imaginação. A partir de 1982, os seus livros somam mais de trinta volumes, de sua autoria e coautoria, em editoras locais, brasileiras e estrangeiras.

Em época passada realizara o seu grande sonho: estudar e morar em Paris. Frequentar a Sorbonne, juntar-se a gente de todos os quadrantes da Terra, caminhando pelo Boulevard em abstrações, andar na Place des Vosges, ir a Rue Long-champs, 123, no elegante 16º Distrito. A bela casa de Raymonde e Cícero Dias, frequentada por Luzilá e por mim, em épocas diferentes. Excelentes cicerones, consagrados no poema de João Cabral: “Na Ilha antiga de São Luiz / que abre o Sena em Dois em Paris / Cícero ciceroneando todo amigo pernambucano.” O grande pintor pernambucano do Engenho Jundiá, com Raymonde e Luzilá, acolhidos com carinho em minha casa. Amigos para não serem esquecidos.

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* Marly Mota é poeta, escritora, artista plástica. Luzilá Gonçalves é escritora, crítica literária e foi professora da Universidade Federal de Pernambuco. Ambas são membros da Academia Pernambucana de Letras, e mães literárias de inúmeros escritores, inclusive eu. Contatos: marlym@hotlink.com.brluzilagon@yahoo.com.br

** Publicado como “Nome para não ser esquecido” no Diário de Pernambuco em 03/02/2017. Nós, público fiel de leitores, reivindicamos a gentileza da volta da coluna Letras às Terças, de Luzilá Gonçalves, ao jornal.

Poeta de Meia-Tigela | “acidade” digital

From: poeta de meia tigela [mailto:poetademeiatigela@yahoo.com.br]
Sent: domingo, 5 de fevereiro de 2017 19:16
To: O. Poeta de Meia-Tigela <opoetademeiatigela@gmail.com>
Subject: acidade digital

 

PMT

 

Cidadã(o)s.

Versão digital do livro “acidade”, 

parceria de verdade

com o poeta Carlos Nóbrega.

Para conferir

clicar aqui

 

https://issuu.com/opoetademeia-tigela/docs/acidade._carlos_n__brega_e_o_poeta_

 

Também

o ensaio de Dércio Braúna

nosso confrade

“Dizer-ver/a/cidade” 

 

https://issuu.com/opoetademeia-tigela/docs/d__rcio_bra__na._dizer-ver_a_cidade

 

Quem ainda não tiver

e quiser

o livro impresso

é só avisar

(a entrega é sem custos

e sem sustos:

sucesso)

 

abraços tigelíricos

do Poeta dmt

 

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Digamos que um dia

Eu queira e me cale

Tudo que eu não fale

Será Poesia

 

O Poeta de Meia-Tigela