Posts com

Índex* – Janeiro, 2017

Foram derrubados os muros da cidade, o Muro Alto não existia mais.

Plantaram jardins conjuntos, escreveram livros para uns aos outros ler.

Era bom aquele começo, com a esperança no coração.

(Trecho de “A Cidade Universitária”, capítulo de A menina do olho verde (2016))

Furono abbatue le mura della città, il Muro Alto non esisteva più. 

Piantarono giardini comunicanti, scrissero libri per leggerli gli uni agli altri.

Un buon inizio, con la speranza nel cuore.

(Estratto di “La Città Universitaria”, capitolo di La bambina dagli occhi verdi (2016), traduzione Alfredo Tagliavia)

Uma Cidade Universitária no Índex de Janeiro, 2017 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

A perda da aura nas “Fotografias para imaginar”, de Gilberto Perin (e a Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico) | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil) com Gilberto Perin (RS – Brasil), Luiz Assis Brasil (RS – Brasil), Cíntia Moscovich (RS – Brasil) e Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil). 

Alcides Buss (SC – Brasil) | Viver não é tudo.

Anco Márcio Tenório Vieira (PE – Brasil) | Universidade inclusiva e democrática.

Antônio Carneiro da Silva (PE – Brasil) | “Pé na Folia”.

Clauder Arcanjo (RN – Brasil) | “Cambono”.

DS Tenório (PE – Brasil) | Ubud.

Mara Narciso (MG – Brasil) | Salvem os pés de murici!

Agradeço a participação e carinho, a próxima postagem será em 26 de Fevereiro, 2017, grande abraço e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

____________________________________________

Index* – January, 2017

The walls of the city were overthrown, the High Wall no longer existed.

They planted joint gardens, wrote books for each other to read.

That beginning was good, with hope in the heart.

(Excerpt from “The University City”, chapter of The Girl with the Green Eye (2016))

A University City in the Index of January, 2017 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

The Loss of the Aura in Gilberto Perin’s “Photographs to Imagine” (and Creative Writing in an Academic Environment) | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil) with Gilberto Perin (RS – Brasil), Luiz Assis Brasil (RS – Brasil), Cíntia Moscovich (RS – Brasil) and Luís Roberto Amabile (SP/RS – Brasil).

Alcides Buss (SC – Brasil) | Living is not everything.

Anco Márcio Tenório Vieira (PE – Brasil) | Inclusive and democratic University.

Antônio Carneiro da Silva (PE – Brasil) | “Foot in the Folia”.

Clauder Arcanjo (RN – Brasil) | “Cambono”.

DS Tenório (PE – Brasil) | Ubud.

Mara Narciso (MG – Brasil) | Save the murici plantations!

Thanks for the participation and affection, the next post will be on February 26, 2017, big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

____________________________________________

foto 2 (1)

IMG_3971

IMG_3785

**

____________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Entre Recife e Porto Alegre (Brasil). Entre a UFPE e a PUCRS. A Teoria e a Ficção. A Vida e a Arte. Between Recife and Porto Alegre (Brasil). Between UFPE and PUCRS. Theory and Ficcion. Life and Art.

A perda da aura nas “Fotografias para imaginar”, de Gilberto Perin (e a Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico) | Patricia (Gonçalves) Tenório*

Link permanente: http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6328

 

30/10/15

 

Era uma vez… Novas perguntas

Imaginem a seguinte cena:

Um fotógrafo nascido em Guaporé (RS) em 1953, e formado em Comunicação Social pela PUC-RS em 1976, decide apresentar dezesseis imagens – fotografias realizadas no Brasil e no Exterior sem a “presença humana” – a dezesseis artistas e dezesseis escritores. O único limite estabelecido: que não houvessem limites para a criação. Os artistas poderiam interferir livremente nas fotografias vazias; os escritores poderiam escolher a forma que melhor expressassem o sentimento provocado por essas fotografias nuas.

Em “Notas sobre o Talento na Criação Literária”[1], tentamos responder a algumas perguntas:

“– Existe talento?

– Todos podem escrever?

– Não existe vocação, mas vocações?

– O talento está morto? O que existe é o trabalho e o estudo?”

No presente ensaio, tentaremos analisar o projeto que se transformou em livro, Fotografias para imaginar[2], de Gilberto Perin, à luz da perda da aura na obra de arte reprodutível, ao mesmo tempo tentando responder a novas questões, a “instigantes”, “desconcertantes” perguntas:

– É possível conciliar Teoria e Poesia?

– Crítica e Ficção?

– Vida e Arte?

E mais:

– É possível se ensinar (e se aprender) Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico?

Mas “vamos por partes”…

 

A perda da aura na fotografia

Em 1936, o ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo judeu alemão Walter Benjamin (1892-1940) escreve um dos seus textos mais conhecidos: “A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica”[3].

Benjamin nos lembra que a arte sempre foi reprodutível: dos gregos com a fundição e a cunhagem, passando pela xilogravura que inaugura a reprodução, até chegarmos à impressão escrita com Gutemberg. À xilogravura, junta-se a gravura em cobre, a água-forte na Idade Média, a litografia no início do século XIX.

Mas nada se compara ao furor causado com o aparecimento da fotografia. Era uma nova forma de captar a realidade, e que liberava a mão de importantes obrigações no processo de reprodução de imagens, entregando essa tarefa braçal, ou melhor, “manual”, ao olho através da objetiva da câmara fotográfica.

Porém… Benjamin afirma que faltava “alguma coisa”. E essa “alguma coisa” é o “aqui e agora”, o “conceito de autenticidade”, o “conceito de aura” atribuído às obras de arte pictóricas, que normalmente encontravam-se em ambiente fechado e protegido dos Museus e Galerias. A essas obras não havia fácil acesso. Apenas os eleitos, tais como os estudantes de academia de Belas-Artes, possuíam “fácil acesso”.

É nesse ambiente de “difícil acesso” que nasce a fotografia. Ela vem para “quebrar fronteiras”, fazer “murchar a aura da obra de arte”. O conceito de aura é maior quanto mais se aproxima do seu valor ritual, e é menor quando se aproxima de seu valor de exposição. Abramos aqui pequenos parênteses.

(Em Caverna dos sonhos esquecidos[4], o cineasta alemão Werner Herzog (1942) narra – poeticamente – a história de uma caverna escondida no Sul da França, descoberta em 1994 e batizada com o nome de um dos exploradores, a Caverna de Chauvet. Nela, pinturas rupestres de aproximadamente trinta e dois mil anos são encontradas intactas, apesar dos milênios que as separam de nós. Poderíamos dizer que nessas pinturas concentra-se ao máximo o conceito de aura visto em Benjamin, conceito que, repetimos, aumenta “quanto mais se aproxima de seu valor ritual”. As pinturas eram “retocadas”, entre os milhares de anos que separavam as gerações de pintores, de maneira sagrada. E o fato de, ainda hoje, o acesso a essas pinturas ser restrito a uns poucos (e raros) pesquisadores, as colocam na torre de marfim da história da aura da obra de arte, por seu ínfimo, quase nulo valor de exposição.)

A fotografia, ao promover um acesso mais fácil ao que antes era guardado a sete chaves nos Museus, Galerias, (Cavernas)…, se aproxima ao máximo do valor de exposição enquanto se afasta (ao máximo) do valor de culto. Mas este (valor de culto) não cede “sem resistência”. E essa “resistência” encontra-se no retrato fotográfico.

Talvez seja essa a intenção do fotógrafo gaúcho Gilberto Perin em Fotografias para imaginar ao “esvaziar” suas imagens de pessoas, ao torna-las “nuas”, prontas para serem preenchidas pelos artistas e escritores convidados. Ao se afastar “ao máximo do valor de culto”, ao realizar ao máximo a “perda da aura”, Perin permite expor o que cada “voz própria” desses artistas e escritores pode nos trazer de “original”.

 

Um estudo de casos

Tomemos dois casos das tríades encontradas no livro de Gilberto Perin. A primeira começa com uma fotografia de Perin (2015, p. 13) tirada em 2009, em Porto Alegre, RS. Trata-se de uma pia de cozinha, pratos que estão prontos para serem servidos à esquerda, louça suja na pia, chaleira, garrafas de café à direita. É uma fotografia vertical. Os objetos estão dispostos de maneira a nos lembrar o quotidiano, a nos lembrar o dia-a-dia de uma simples cozinha de classe média.

O texto-poema da escritora, jornalista e tradutora nascida em Porto Alegre Cíntia Moscovich (2015, p. 14-15) nos fala desse “grande coração da casa”, desse local-cozinha onde “todas as artérias da casa latejam”.

 

Na cozinha,

o grande coração da casa

pulsa.

 

Mãos sábias batem a casca contra a quina,

palpitações redondas de gema e clara,

estremecimentos e estalidos da gordura,

a borda a se tornar franja de ouro moreno.

Há uma festa na frigideira:

ovo frito é um acontecimento.

 

O caldo grosso dos grãos,

de temperos desabridos,

celebração de cebolas e alhos,

louros e paios,

borbulhas espessas

em sacrifício contra a fome.

 

O interessante das tríades encontradas em Fotografias para imaginar[5] é que nem os escritores nem os artistas tiveram contato uns com os outros durante o processo criador, gerando, no caso específico da tríade Gilberto Perin/Cíntia Moscovich/Denis Siminovich, coincidências e aproximações, ao mesmo tempo que histórias completamente diversas, olhares inteiramente próprios. Nascido em Porto Alegre, trabalhando com pintura, desenho, colagem e fotomontagem digital, Denis Siminovich (2015, p. 17) cria nessa tríade com uma intervenção digital todo um universo sobre a pia da cozinha, o “UNIVERSO BERTA”, transformando os pratos de culinária tipicamente brasileira em iguarias tipicamente alemães, quem sabe para trazer ao centro da imagem a influência que os alemães “inseriram”, “interferiram” no povo gaúcho: a Galáxia Strudel.

Em Gesto inacabado: processo de criação artística[6], a doutora em Linguística Aplicada e Estudos em Línguas pela PUC-SP Cecília Almeida Salles desmistifica o ato criador, levando-o muito mais para o “trabalho”, o “processo”, do que para uma simples manifestação do Gênio, seara das Musas e dos deuses do Olimpo.

Retornamos à questão do Talento, que trabalhamos em “Notas sobre o Talento na Criação Literária”. Fazemos uma conexão com o pensamento de Salles quando nos apresenta o papel do Crítico Genético, aquele que “narra as histórias das criações”, aquele que identifica “padrões” nos processos criativos de um mesmo artista, a partir dos vestígios encontrados nos seus “registros de experimentação”. Podemos encontrar esses “padrões” tanto em A evolução criadora[7] do diplomata e filósofo francês, Prêmio Nobel em Literatura (1927) Henri Bergson (1859-1941), quanto no seriado americano Cosmos[8], apresentado na década de 1980 pelo astrônomo Carl Sagan (1934-1996) e recentemente (2014) por seu discípulo, o divulgador científico e astrofísico Neil deGrasse Tyson (1958).

Em A evolução, Bergson ((1907 in) 2010, p. 89 e 93) diferencia o evolucionismo em Darwin – aquele das “variações acidentais” – do encontrado em Eimer – “uma influência contínua do exterior sobre o interior” –, daquele encontrado em Lamarck – “a faculdade de variar em consequência do uso ou não dos seus órgãos”, transmitindo “aos descendentes a variação adquirida”. Já em Cosmos, Tyson afirma que “a Inteligência investiga e analisa para fins científicos os padrões”. Ou de volta a Salles (1998, p. 21), é “a partir dessas aparentes redundâncias que se podem estabelecer generalizações sobre o fazer criativo, a caminho de uma teorização”.

É da prática que podemos apreender a teoria de cada mão que pinta, esculpe, escreve, fotografa, filma, atua em palco de teatro, dança, música. Salles nos convida a acompanhar a criação, assim como a criação acompanha a mobilidade do pensamento. E, feito numa semiose sem fim, chegamos à nossa segunda tríade de “Um estudo de casos”: a tríade Gilberto Perin/Luiz Antonio de Assis Brasil/ André Venzon.

A cento e vinte e sete quilômetros de Porto Alegre, RS, no município de Camaquã, existe um clube de futebol. Nesse clube de futebol, existe um vestiário. E nesse vestiário, existe apenas uma vestimenta íntima masculina branca – ou simplesmente chamada “cueca”. É esse o cenário do original de Perin (2015, p. 64), fotografia realizada em 2010 quando de suas peregrinações pelo universo do futebol brasileiro – fotografias encontradas nas exposições “Vestiário” (2013) e “Camisa Brasileira” (2010-2012).

A partir da fotografia original de Camaquã, o romancista, ensaísta e cronista nascido em Porto Alegre Luiz Antonio de Assis Brasil (2015, p. 65) escreve, com título “vazio”, sobre esse “nada” encontrado no vestiário do clube de futebol.

 

Nenhum vazio o é por inteiro. O vazio é povoado por reminiscências:

coisas ditas, sussurradas, exclamadas e, na maior parte das vezes,

que apenas percorreram o fio do pensamento. Por isso, todo vazio

conta uma história, mesmo o Vazio primordial, do qual tudo surgiu,

era uma história latente, que os séculos preencheram com galáxias e

deram origem a nós, os seres humanos.

 

A obra de arte vai criando suas próprias leis. Feito no “UNIVERSO BERTA” de Siminovich, sob as leis do evolucionismo de Darwin/Eimer/Lamarck em Bergson, o que era Nada – o “Vazio primordial” – se transforma em Tudo na primeira explosão – o Big Bang – porque “Nenhum vazio o é por inteiro”. Explosão em vermelho, rosa, laranja, erótica e lúdica ao mesmo tempo de “AFTER DARK” de André Venzon (2015, p. 66-67), nascido em Porto Alegre e iniciado em desenho artístico.

A fotografia “nua” de Perin provoca uma ekphrasis – a representação verbal de uma representação visual – em Assis Brasil, nesse “esvaziamento do ser para preenchimento com a Arte” que Salles identifica em Vargas Llosa, Dias Gomes, Mário de Andrade, entre outros escritores elencados em Gesto inacabado. Esse pensamento que “se dá na ação”, porque “toda ação contém pensamento”. Esse encontro da Teoria com a Poesia, da Crítica com a Ficção, da Vida com a Arte.

É quando chegamos à segunda parte do nosso estudo – a (tentativa de) resposta à pergunta:

– É possível se ensinar (e se aprender) Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico?

 

O escritor de volta à escola

Quando perguntaram em entrevista[9] ao escritor e ex-jornalista paulista radicado no Rio Grande do Sul Luís Roberto Amabile sobre o não-consenso do ensino da Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico, o Mestre em Escrita Criativa e Doutorando em Teoria da Literatura da PUC-RS (em 2013) respondeu:

 

– Essa discussão nunca fez muito sentido para mim. Nunca consegui entender porque a Escrita Criativa incomoda tanto as pessoas. Parece-me uma visão mística do escritor como um sujeito escolhido, ou ainda uma visão elitista, só os bem nascidos e que tiveram uma ótima formação cultural, sendo estimulados a ser e escrever desde cedo, podem escrever livros.

Quanto a estar ou não na academia, acho natural que alguém que queira escrever se interesse pelo menos um pouco por teoria e que, para mim, o contato com o ambiente acadêmico, a discussão de textos, torna mais palpável a literatura e a escrita, por mais que na hora do fluxo criativo, quando a coisa está fluindo, eu não pense em teóricos.

Mais duas considerações. Primeiro, os cursos de artes plásticas, cinemas, teatro existem há bastante tempo, inclusive com programas de pós-graduação, e os projetos de conclusão são eventualmente obras de artes, hoje em dia não se discute a validade desses cursos. E, segundo, já foi provado nas experiências em vários países que os cursos de EC na universidade dão bons frutos. Então que faça Escrita Criativa quem acredite ser válido e que fique longe quem não ache válido.

 

Amabile trata da luta de vários escritores contra a “Ditadura da Inspiração”. De que é preciso Teoria para se fazer Poesia, ou de maneira parecida ao que vimos em “Notas para o Talento na Criação Literária”, é preciso “ingerir para digerir”.

Acreditamos que é preciso ter “Talento”, ou “Tendência”, ou “Vocação” para se escrever. É preciso um “chamamento” para que a “pessoa tome posse daquilo que lhe pertence por direito”. Mas, de maneira livre, feito defende Amabile, o escritor “pode” se alimentar de teorias dentro da Academia para o seu melhor fazer artístico.

Descobrimos com o escritor paulista radicado em Porto Alegre que a Escrita Criativa pertencia à linha de pesquisa Teoria da Literatura em outros tempos nas academias. Só recentemente – e com o caso único no Brasil ainda na PUC-RS – ganhou uma linha de pesquisa própria, mesmo mantendo contato teórico com a linha a qual pertencia anteriormente.

Voltamos a Cecília Almeida Salles em dois pontos. Em o Gesto inacabado, ela cita o poeta, filósofo e historiador alemão Friedrich Schiller (1759-1805) quando este afirma que a “arte é filha da liberdade” (SCHILLER apud SALLES, p. 63). Mas o escritor e semiólogo italiano Umberto Eco (1932) em “Pós-escrito a O nome da Rosa” acredita que devem-se impor obstáculos para se criar mais livremente. E vemos como um dos obstáculos, o estudo da Teoria Literária para se conhecer a fundo a Técnica citada por Ariano Suassuna em seu Iniciação à estética.

Do próprio processo de criação emanam-se técnicas, intuem-se tendências que são as lentes através das quais todo artista se distingue do outro e atinge a sua voz própria, individual. “O percurso criador deixa transparecer o conhecimento guiando o fazer”, afirma Salles (1998, p. 122). Extraímos o conhecimento da prática, “o conhecimento guiando o fazer”, para à prática retornar de maneira elaborada, enlarguecida, potencializada.

Da mesma forma que a Escrita Criativa, feito vimos com Luís Roberto Amabile, fazia parte de outra linha de pesquisa, Teoria da Literatura, e permanece a ela ligada mesmo tendo o seu (novo) lugar, a Literatura pode dialogar com outras áreas de conhecimento, tais como Biologia (que neste estudo vimos com Henri Bergson e A evolução criadora), Física (quando dialogamos com Albert Einstein e A Teoria da Relatividade para tratarmos do Tempo), Psicanálise (no instante em que investigamos A Morte (Simbólica) do Pai no Discurso em Jacques Lacan e Sigmund Freud para que o escritor tenha Voz própria), Medicina (quando nos debruçamos sobre a Teoria dos Afetos entre os corpos, entre os Seres Humanos que escrevem),… sem deixar de ser uma relação Intersemiótica.

Este é o segundo ponto que nos referimos acima quando “voltamos” a Cecília Almeida Salles. Tanto em Crítica Genética: fundamentos dos estudos genéticos sobre o processo de criação artística[10], quanto, mais detalhadamente, em Redes da criação: construção da obra de arte[11], Salles fala da relação entre a Literatura (ou artes em geral) e as áreas de conhecimento, feito se tecessem uma “rede” que alicerça e dá sustentação ao processo de criação artística, à construção de uma obra de arte.

Isso nos lembra um projeto em que participei – e agora assumo a primeira pessoa do singular no discurso – intitulado Quatro faces de um encontro[12]. A princípio, seriam analisadas obras elencadas dos artistas plásticos pernambucanos Cícero Dias (1907-2003), Vicente do Rego Monteiro (1899-1970) e Lula Cardoso Ayres (1910-1987).  A ideia inicial era convidar escritores de áreas de conhecimento diversas, olhares diversos, para com sua linguagem própria, sua própria voz, escreverem a partir de obras elencadas dos três artistas. Então, por exemplo, um artista plástico (José Claudio), um filósofo (Sérgio Sardi), um psicanalista (Nelson da Silva Júnior) e uma escritora ficcional (eu mesma, Patricia Tenório), escreveram textos na sua linguagem, no seu domínio, sobre as mesmas obras elencadas.

Essa seria uma “abordagem da comunicação em âmbito expandido” que Arlindo Machado (o Arlindo Machado de “O Filme-Ensaio” que escrevemos há dois anos em “Notas sobre o Talento na Criação Literária”) defende em Redes da criação, de Salles, por perceber que trata-se de “um conceito-chave no mundo contemporâneo”. Ou mesmo quando Salles fala dessa necessidade de se utilizar uma “lente” teórica para abordar cada processo criativo, cada “obra em construção”, ao demandar cada processo, cada construção, uma teoria que lhe é própria, que da obra emana e nos pede o estudo, o aprofundamento para fazer brotar, germinar “flores novas”, “originais”.

 

Quando o Fim inacabado vem

Tentamos abordar em algumas páginas “A perda da aura nas Fotografias para imaginar, de Gilberto Perin” além de analisar se é possível a “Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico”. Mais do que respostas, procuramos lançar sementes de reflexão, quebrar “a ordem da realidade” anunciada por Adolfo Bioy Casares no Gesto inacabado de Cecília Almeida Salles.

Mas “antes de tudo”, “antes de todos”, um texto deve atender à necessidade extrema de quem escreve – ao menos essa deveria ser a única obrigação do(a) escritor(a). Deveríamos nos derramar por inteiro no texto, quer seja em um texto teórico, quer seja em um texto ficcional – e esse transitar entre Teoria e Poesia, Crítica e Ficção, Vida e Arte é muito “perigoso”, ou feito disse Nise da Silveira na entrada do Museu do Inconsciente, no Rio de Janeiro, “o louco vai, mas não volta, o artista vai e volta”, e não sabemos até que ponto somos loucos, ou não –, a nossa única obrigação deveria ser esse “derramar-se por inteiro” ao escrevermos um conto, uma novela, um romance, um poema, ou um ensaio poético – até onde irão as fronteiras entre os gêneros? –, para sairmos maiores e melhores do texto, e para a nós mesmos sermos devolvidos nessa semiose, nessa Intersemiose infinita entre as artes (a Literatura, a Poesia, a Fotografia, o Cinema), entre as áreas de conhecimento (a Biologia, a Astronomia, a Crítica Genética, as Redes da Criação) e podermos “ultrapassar a realidade”, “aumentar a compreensão” do mundo em que vivemos, alimentando o ciclo sem fim que o escritor, dramaturgo, poeta, crítico de arte irlandês Oscar Wilde (1854-1900) afirma no “ensaio romanceado” “A Decadência da Mentira”[13]:

– A Vida imita a Arte, muito mais do que a Arte imita a Vida.

 

_____________________________________________________

Imagens[15]

CAPA

PERIN, Gilberto e outros. Fotografias para imaginar. Porto Alegre: Multiarte, 2015.

FOTOGRAFIAS PARA IMAGINAR Gilberto Perin 11 - Pequeno

Gilberto Perin| Porto Alegre | RS | 2009

Denis Siminovich Universo Berta - Pequeno

UNIVERSO BERTA | Denis Siminovich | 2015

FOTOGRAFIAS PARA IMAGINAR Gilberto Perin 12 - Pequeno

Gilberto Perin | Camaquã | RS | Brasil | 2010

ANDRÉ VENZON After Dark - Pequeno

AFTER DARK | André Venzon | 2015

_____________________________________________________

* Para baixar em PDF: A perda da aura nas Fotografias para Imaginar de Gilberto Perin (e a Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico) – Patricia Gonçalves Tenório – 270117

_____________________________________________________

* Patricia (Gonçalves) Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados: O major – eterno é o espírito, 2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Em 2013, recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa, Vinte e um/Veintiuno (Mundi Book, Espanha, abril, 2016), e A menina do olho verde (livros físico e virtual, Recife e Porto Alegre, maio e junho, 2016), traduzido para o italiano por Alfredo Tagliavia, La bambina dagli occhi verdi, publicado em setembro, 2016 pela editora IPOC – Italian Paths of Culture, de Milão.  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Profª Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino, publicada em outubro de 2016 pela editora Omni Scriptum GmbH & Co. KG / Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, Alemanha. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

(2) Vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6279. Escrito em 14/06/2013. Última atualização: 25 de outubro de 2015.

(3) PERIN, Gilberto e outros. Fotografias para imaginar. Porto Alegre: Multiarte, 2015.

(4) BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. 1936 e 1955. http://ideafixa.com/wp-content/uploads/2008/10/texto_wbenjamim_a_arte_na_era_da_reprodutibilidade_tecnica.pdf

(5) Cave of Forgotten DreamsCaverna dos sonhos esquecidos. 2010. 90 min. França, Canadá, Reino Unido, Estados Unidos e Alemanha.Direção: Werner Herzog. Com Werner Herzog, Jean Clottes, Dominique Baffier, Jean-Michel Geneste, Maurice Maurin, Julien Mooney, entre outros.

(6) Vide entrevista “Mistura com Rodaika” no canal da Globo TV em 04/07/2015: http://globotv.globo.com/rbs-rs/mistura-com-rodaika/v/mistura-visita-a-exposicao-fotografias-para-imaginar-de-gilberto-perin/4298101/

(7) SALLES, Cecilia Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. São Paulo: FAPESP: Annablume, 1998.

(8) BERGSON, Henri. A evolução criadora. Tradução: Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Ed. UNESP, (1907 in) 2010.

(9) Cosmos. 2014. 13 episódios de 44 min. Estados Unidos. Criação: Ann Druyan e Steve Soter. Direção: Brannon Braga, Bill Pope e Ann Druyan. Apresentação: Neil deGrasse Tyson.

(10) Vide “Entrevista: escritor de volta à escola?” de Davi Boaventura a Luís Roberto Amabile no Jornal iTEIA em 09/09/2013: http://www.iteia.org.br/jornal/entrevista-escritor-de-volta-a-escola

(11) SALLES, Cecilia Almeida. Crítica genética: fundamentos dos estudos genéticos sobre o processo de criação artística. 3. ed. São Paulo: EDUC, 2009.

(12) SALLES, Cecilia Almeida. Redes da criação: construção da obra de arte. São Paulo: Horizonte, 2006.

(13) CLAUDIO, José, JÚNIOR, Nelson da Silva, TENÓRIO, Patricia, FABBRINI, Ricardo. Quatro faces de um encontro: Cícero Dias. Organização: Karla Melo e Patricia Tenório. Rio de Janeiro: Calibán, 2008.

COLARES, Majela, TENÓRIO, Patricia, SARDI, Sérgio, AYALA, Walmir. Quatro faces de um encontro: Vicente do Rego Monteiro. Organização: Karla Melo e Patricia Tenório. Rio de Janeiro: Calibán, 2009.

(14) WILDE, Oscar. A Decadência da Mentira. In Obra completa. Volume único. Introdução geral e Nota editorial, Ensaio Biográfico-Crítico, Bibliografia, Cronologia da Vida e da Obra: James Laver. Tradução: Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, (1891 in) 2007, p. 1069-1095.

(15) As imagens foram gentilmente cedidas por Gilberto Perin.

 

Alcides Buss* | Viver não é tudo

Você me diz:
feliz ano novo.
Eu lhe digo:
não deixe morrer
o ano que terminou.

Não deixe perder-se
no vazio inexorável
a fonte do amor.

Não deixe que se vá
o sentido de existir:
cumprir à risca
o que exige a vida.

Você me diz:
tampouco, você, não descuide
dos azares da sorte.
Viver é romper fronteiras
entre a morte e a vida;
entre o que é
e o que não é.

Eu lhe digo:
sejamos pois o que somos
– há um pouco de cada um em todos.

Arremessemos ao futuro
esse poder de sonhar,
de sorrir, de chorar, de gritar
e este poder imenso
de cantar.

Acolha-nos o tempo
como quem, à maneira da Terra,
faz germinar
o que seremos.

____________________________________

* Alcides Buss foi professor de Teoria da Literatura na Universidade Federal de Santa Catarina (1980-2008), com toda a poesia do mundo no olhar. 

Contatosalcides-buss@hotmail.com e www.alcidesbuss.com

 

Anco Márcio Tenório Vieira* | Universidade inclusiva e democrática**

Há um quase consenso entre a comunidade acadêmica que uma universidade democrática é uma universidade inclusiva. Na verdade, defender uma universidade democrática e inclusiva é uma redundância, pois nenhuma universidade pode ser chamada de democrática se ela não for inclusiva; do mesmo modo que uma universidade só pode ser chamada de inclusiva se ela estiver calçada em bases solidamente democráticas.

Mas falar em uma sociedade ou em uma instituição democrática significa falar do respeito pelo debate, pelo diálogo e pelo direito ao contraditório; pela promoção da cidadania e pelo fortalecimento do Estado de Direito; pelo respeito à orientação sexual, às diversidades étnicas, às crenças religiosas e às diversas formações socioculturais dos seus membros. Dizer uma sociedade ou uma instituição inclusiva é dizer que o seu sal, o seu tempero, é o pluralismo e o convívio enriquecedor entre mulheres e homens: indiferente da raça, da formação religiosa e sociocultural, das suas orientações ideológicas, políticas e de gênero.

No entanto, uma universidade inclusiva e democrática não é apenas uma instituição orgulhosa da sua multiculturalidade, que persiga a defesa e o respeito intransigente à livre expressão filosófica, política, religiosa, intelectual, artística e científica, mas uma instituição que sabe transformar o trigo e o fermento dessa multiculturalidade no pão da interculturalidade. E não existe interculturalidade sem que ela esteja calçada em uma cultura de diálogo entre as pessoas; na promoção do indivíduo que interroga sobre si e sobre o mundo; no sujeito que não se fecha em particularidades amorfas (homens, mulheres, gays, brancos, negros…), em reducionismos ideológicos, em teorias que defendem que raça, gênero e formação cultural é destino.

Sendo assim, é contraditório que uma instituição que se queira inclusiva e democrática encerre em seus quadros grupos que, na prática, agem como se a universidade fosse uma sociedade secreta de iniciados, firmada em estatutos e orientações ideológicas excludentes. E como tais sociedades, ela, a Universidade, seria antes um espaço da exclamação do que da interrogação; do sectarismo de ideias e comportamentos do que do respeito ao contraditório; das certezas absolutas (prima-irmã do reacionarismo) do que do debate que oxigena e promove o conhecimento. Nada mais contrário a uma universidade que se quer inclusiva e democrática do que grupos que, mergulhados em seu reacionarismo ideológico (sejam os fundamentalistas religiosos, sejam os suprematistas racionais e os fascistas políticos, à esquerda e à direita), se mostram indiferentes ao contraditório, ao debate e ao diálogo: alimentos da interculturalidade.

 

_________________________________

* Anco Márcio Tenório Vieira é professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE, com uma poeticidade ímpar na escrita.

Contatoancovieira@yahoo.com.br

** Artigo publicado no Diário de Pernambuco, Recife, 14 e 15 de janeiro de 2017.

Antônio Carneiro da Silva* | “Pé na Folia”

2017-01-14-PHOTO-00000005

 

2017-01-14-PHOTO-00000003

 

*Antônio Carneiro da Silva nos encanta com o frevo preciso e a música cristalina. Contato: 81-99962-1628.

Clauder Arcanjo* | “Cambono”**

“Em formato de novela-folhetim, Clauder Arcanjo constrói com originalidade, linguagem requintada e domínio de expressão uma trama labiríntica, em que o cotidiano dos moradores da fictícia cidade de Licânia é retratado capítulo a capítulo numa invenção surpreendente e desconcertante. Narrativa desenvolta e segura, em que realidade e ficção se entrelaçam, seduzindo o leitor com a força e a palavra de Adamastor Serbiatus Calvino (Cambono), Maria Abógada, Benarenard Péricles, Acácio, Jacinto Gamão, Gerardo Arcanjo, entre outros personagens capazes de fazer tremer as paredes de Licânia com seus uivos de paixão.” (Marília Arnaud, Escritora)

*

PARTE I

Um início sem fim

A floresta era pequena: três árvores frutíferas, duas samambaias no sopé da varanda e uma nesga de chão, ao fundo, com salsa, carrapicho e uma profusão de mata-pasto. Os animais dessa selva particular eram: o cachorro Banzé, um fox paulistinha (uma fera, quando diante de Aristóteles Emerson Barreto, o obeso gato siamês da vizinha, a senhora Francisca Espielberga Ford Coppula di Parma), a tartaruga Escolástica Bacon Spinoza Poe (do alto – melhor, da baixeza – dos seus quase oitenta anos de puro ócio) e o pequeno, e depenado, Nelson Deoclides Rodrigues Trotsky Médici Sampaio (papagaio linguarudo, mal-educado, inconveniente e pornográfico; daqueles de corar um Marquês de Sade).

Como cenário, um casarão antigo, de paredes dobradas, telhas vãs, sob o imperial céu nordestino. Sempre azul, banhado pelo sol e encoberto de sonhos.

Neste paraíso provinciano, morava o nosso herói: Adamastor Serbiatus Calvino.

_______________________________

* Clauder Arcanjo é escritor, editor, engenheiro e trabalha em uma plataforma cercado pelo mar.

Contatoclauderarcanjo@gmail.com

** Cambono. Clauder Arcanjo. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2016.

DS Tenório* | Ubud**

Oferendas no chão

Cheiro de incenso saindo

Das ruas verdes

Cheias de movimento e calma

Do hoje e do ontem

Encaixados onde faz sentido

coexistirem

Só existe o agora

E o passado nos acompanha

Como uma mochila que pesa quilos

Mas mal pesa

E as palavras jorram pelas minhas

mãos

Depois de terem entrado com outra

forma

Pela cabeça e coração

 

___________________________

IMG_5582

IMG_5583

IMG_5587

***

___________________________

* DS Tenório é o pseudônimo de Maria Eduarda, minha filha, e artista plural.

Contatoduda.tenorio.ds@hotmail.com

** “Ubud”, 17/01/17, 15h10

*** Tailândia (1 e 2) e Indonésia (3).

Mara Narciso* | Salvem os pés de murici!

21 de janeiro de 2017

“Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e eu não posso ficar aqui parado”. (Raul Seixas)

Quando a população de Montes Claros viu o pequi rarear, antes tão abundante de “fazer lama”, tratou de investir em educação, valorização, leis e penalizações, para salvá-lo, além de desenvolver técnicas de plantio, proteção e importação do fruto. O ouro do cerrado, com suas propriedades nutricionais é uma iguaria que poucos montes-clarenses não gostam. Tem um dos cheiros mais penetrantes que o olfato humano pode sentir. Amarelo, de carne saborosa, cozido no arroz ou separado é iguaria servida aos visitantes em qualquer época do ano, pois pode ser congelado, sem alteração do gosto, ainda que o plano de clivagem entre a carne e os espinhos fique mole, aumentando o risco de ultrapassar a zona de segurança. Pequi é fruto que se rói.

A frutinha murici é seu irmão pobre, ainda que seja comido cru e não tenha espinhos para morder a língua dos incautos. O murici, antes abundante em qualquer mato, um nativo que não aceita ser cultivado, pois não nasce, sumiu. Não vi movimento algum em sua honra. Muitos aqui não o conhecem, até devido à escassez. Não desperta interesse econômico, apenas saudade de mordiscar o pequenino fruto, do tamanho da ponta do dedo mínimo, no máximo.

Nasce misteriosamente em terras ruins, de cascalho, sendo árvore baixa, com folhas grandes, brilhantes e flores amarelas em cachos. Daí os frutos também em cacho, doce quando maduro, estando “de vez”, aperta como caju verde. Tem várias espécies, dos bem pequenos até quase o dobro desse tamanho, com diversos estilos de folhas.

Podem ser colocados na cachaça, como também fazer o licor, especialíssimo. Também Já tomei sorvete de murici no “Gosto do Cerrado”, em Montes Claros, mas o fruto não é industrializado, primeiro porque não há a valorização que deveria, e, segundo, porque acabou a fonte. No Ceará tinha muito murici, mas quando o conheci por lá foi uma decepção, pois, caso o nosso murici fosse o suco, o de lá seria o refresco.

O odor forte é a antecipação do gosto intenso, que estimula todas as papilas gustativas, semelhante ao pequi, panã, coquinho azedo e manga ubá. Todos amarelos e deliciosos, perfeitos para degustação, e aqui, aroma e sabor, mais do que nunca se complementam.

Quando começavam as águas, chuvas de outubro, as mangas apareciam. Em menina, eu ia ao mercado todos os sábados com minha mãe, e começava a perguntar pelos muricis. “Só em janeiro”, diziam. Então, vinha a melhor época do ano, com expectativa plenamente satisfeita. Era preciso chegar cedo, e num canto, a gente mais simples da feira estava lá, vinda de longe, paupérrima, pés descalços, vestido descorado de chita, pano na cabeça, com uma cestinha de taquara no chão, tendo dentro uma pequena vasilha de alumínio, com os preciosos muricis. Proporcionalmente ao peso, não eram baratos, e, envoltos em paninhos de saco alvejado, vendidos em medidas de canecas esmaltadas, faziam os meus olhos infantis brilharem, enquanto brotava a salivação.

A pequena bolinha cheirosa tem uma pele relativamente espessa e brilhante. De um lado tem uns cinco “cabelinhos” e do outro, onde estava grudada no cacho, tem uma área funda. Frágil, colocada na boca facilmente se desfaz a escassa polpa, que é mastigada e comida junto com a casca, deixando de lado o carocinho duro e cinzento, sim, aquela semente que não brota. O que se sente é um agrado como apenas os gostos raros da infância conseguem proporcionar.

Mas os pés de murici desapareceram daqui, ninguém sabe onde estão, se é que ainda resta algum. Uma amiga foi à fazenda de sua infância, local em que tinha uma várzea cheinha e não viu nenhum. Todos viraram ferro guza na indústria do aço, do dinheiro e da falta de respeito com todas as menininhas iguais a que eu fui.

_______________________________

Murici 3

_______________________________

* Mara Narciso é escritora e médica, e nos faz regressar à infância feito ninguém.

Contatoyanmar@terra.com.br