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Índex* – Dezembro, 2016

No silêncio da cópia oculta

Agradeço

A cada um

A cada uma

Por tanto que

Me ajudaram

Na construção

Pedrinha por pedrinha

Desse ano de

2016

Ano difícil para

Todos nós

Mas que

Na certeza de que o

Dar-se as mãos

É a única saída

Espero que

Estejamos mais uma vez

Juntos

Em 2017

E em muitos outros

Que hão de vir

(“Construção”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 13/12/16, 05h57)

Na Construção de um Mundo Novo que há de vir, esperamos no Índex de Dezembro, 2016, no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Rinascimento | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Carta de Oleg Almeida (Bielo-Rússia / DF – Brasil).

Poems from Alan Britt (EUA).

“De paisagens e de outras tardes” | Ana Adelaide Peixoto (PB – Brasil).

“Condutor de tempestades” | Leonam Cunha (RN – Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Com Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB/PE – Brasil) & Anjos de Teatro (PE – Brasil).

Agradeço a participação e o carinho, a próxima postagem será em 29 de Janeiro, 2017, um grande abraço e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – December, 2016

In the silence of the hidden copy

I thank you

Each man

Each woman

For everything

You helped me

In the construction

Little stone by little stone

Of that year

2016

Difficult year for

All of us

But what

In the certainty that the

Holding hands

It’s the only way out

I hope

That we’ll be one more time

Together

In 2017

And in many others

Who are to come

(“Construction“, Patricia (Gonçalves) Tenório, 12/13/16, 05:57)

 

In Construction of a New World to come, we look forward to the Index of December, 2016, in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

Rinascimento | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE – Brasil).

Letter from Oleg Almeida (Belarus-Russia / DF – Brasil).

Poems from Alan Britt (USA).

“Of landscapes and other afternoons” | Ana Adelaide Peixoto (PB – Brasil).

“Storm driver” | Leonam Cunha (RN – Brasil).

Study Group in Creative Writing | With Bernadete Bruto (PE – Brasil), Elba Lins (PB / PE – Brasil) & Theater Angels (PE – Brasil).

Thanks for the participation and the kindness, the next post will be on January 29, 2017, a big hug and until then,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** Construindo Mundos Novos, Recife, PE – Brasil, 2016. Constructing New Worlds, Recife, PE – Brasil, 2016.

Rinascimento* | Patricia (Gonçalves) Tenório**

09/10/2010 & 20/12/2016

Sempre me faço perguntas de vida e morte às vésperas do Ano Novo.

“Nada há de gratuito exceto a morte”. (Freud, extraído de O prazer do texto, Roland Barthes)

Varro os fatos de outros tempos, as fotos do aqui e agora e não posso supor, não posso imaginar o que me aguarda, o que me surpreenderá.

“O prazer do texto é esse momento em que meu corpo vai seguir suas próprias ideias, pois meu corpo não tem as mesmas ideias que eu.” (O prazer do texto, Roland Barthes)

Aguardo uma outra estrada, um país diverso onde possa espalhar sementes de alegria e colher ramalhetes de amizades…

 

 Mãe Natureza – D´Agostinho (CD com Carlos Ferrera & Karynna Spinelli)

 Mãe natureza

Patricia Tenório

(Extraído de D´Agostinho, 2010)

Gosto do cheiro

De terra molhada

Da única escolha –

Ficar lendo livros

Ouvindo a chuva cair

Forte

Grossa

Violenta

Deixo-me banhar

Pelas lágrimas

Que clamam

– Patricia, Patricia! Por que me abandonastes?

 

Lendo Mãe natureza

Stella Leonardos

Setembro/2010

 

À Patricia Tenório

 

Sinto esse cheiro

De ideia molhada

Viver sortilégio

Ficar lendo livros

Ouvindo irmã água

Leve

Fértil

Fraterna.

Entendo essa chuva

Riso e lágrima.

Segreda

– Patricia! Patricia do coração poeta!

        Procuro descobrir nos acontecimentos o sentido perdido nos textos, nas pessoas, na vida.

“Quando o trabalho que você faz tem vinculação com seu percentual de humanidade, você se conecta ao outro”. (Ismael Caldas, artista plástico em “Das sutilezas e fraquezas humanas”, Viver, Diário de Pernambuco, 08 de Setembro de 2010)

“O que ao leigo pode parecer uma obra-prima nunca chega a representar para o criador uma obra de arte completa, mas, apenas, a concretização insatisfatória daquilo que tencionava realizar; ele possui uma tênue visão da perfeição, que tenta sempre reproduzir sem nunca conseguir satisfazer-se.” (Sigmund Freud em “Leonardo da Vinci – uma lembrança da sua infância”)

Tento seguir o que em mim pulsa, o que em mim se parece com a Verdade e a sinto eclodir por todas as minhas células.

“A filosofia natural apaziguará os conflitos e as dissensões de opinião que atormentam, dilaceram e devastam a alma sem trégua. Mas ela os apaziguará, ordenando-nos não esquecer que a natureza nasce da guerra e que ela é, por tal razão, chamada por Homero de luta.” (“Oratio de dignitate hominis”, Giovanni Pico della Mirandola)

“A diferença não é aquilo que mascara ou edulcora o conflito: ela se conquista sobre o conflito, ela está para além e ao lado dele”. (O prazer do texto, Roland Barthes)

Tomo do lápis e papel e derramo todo o meu Ser Humana em palavras e contradições, na esperança que a Arte se faça, me salve. Exprima.

“… o texto: ele produz em mim o melhor prazer se consegue fazer-se ouvir indiretamente…” (O prazer do texto, Roland Barthes)

“… estamos sempre demasiadamente prontos a esquecer que, de fato, o que influi em nossa vida é sempre o acaso, desde nossa gênese a partir do encontro de um espermatozóide com um óvulo – acaso que, no entanto, participa das leis e necessidades da natureza, faltando-lhe apenas qualquer ligação com nossos desejos e ilusões.” (“Leonardo da Vinci – uma lembrança da sua infância”, Sigmund Freud)

Renasço a cada instante meu, a cada sorriso dado, a cada momento de partilha, experimentado, sem medos e vaidades, o que em mim possuo apesar de todos os detalhes…

Rinascimento*, Patricia Tenório

Filmado em Câmera Cannon 7D. Editado em Final Cut Program.

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* Apresentado na X Setimana della Lingua Italiana nel Mondo – “L´Italiano nostro e degli altri”, 18 a 24 Outubro 2010 – Dante Alighieri – Recife – PE – Brasil.

**  Patricia (Gonçalves) Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, O major – eterno é o espírito (2005), As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007), A mulher pela metade (2009), Diálogos e D´Agostinho (2010), Como se Ícaro falasse (2012),  Fără nume/Sans nom (Ars Longa, Romênia, 2013), Vinte e um/Veintiuno  (Mundi Book, Espanha, abril, 2016), e A menina do olho verde (livros físico e virtual, Recife e Porto Alegre, maio e junho, 2016), traduzido para o italiano por Alfredo Tagliavia, La bambina dagli occhi verdi, publicado em setembro, 2016 pela editora IPOC – Italian Paths of Culture, de Milão.  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE,O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Profª Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino, publicada em outubro de 2016 pela editora Omni Scriptum GmbH & Co. KG / Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, Alemanha. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

Carta de Oleg Almeida

From: Oleg Almeida [mailto:oleg_almeida@hotmail.com]
Sent: segunda-feira, 12 de dezembro de 2016 08:20
To: Academia Brasileira de Letras <academia@academia.org.br>
Subject: Boas Festas!

 

Queridas amigas,

Diletos amigos!

É do fundo de meu coração que vos desejo a todos Feliz Natal e Próspero Ano Novo. 

Que o ano de 2017, que está prestes a assomar no proscênio, venha repleto de saúde, paz espiritual e boas realizações em todos os campos de vossa vida.

Às vésperas das Festas Natalinas, gostaria de compartilhar convosco este poema de meu grande amigo Jan de Boer, poeta francês de origem holandesa, que nos desafia a refletir um pouco sobre a natureza humana que “não muda nunca”. Precisamos de mudanças, sim, mas que todas essas mudanças sejam bem positivas!

Um forte abraço do poeta e tradutor

Oleg Almeida, Brasília/DF, Brasil
(https://sites.google.com/site/olegalmeida). 

 

 

TOUT CHANGE                                                                                        TUDO MUDA

 

tout change, presque                                                           tudo muda: quase

chaque année le monde est                                                a cada ano, o mundo se torna

quelque part moins bien à comprendre                          algures menos compreensível

 

seulement un homme: une poche d’une peau douce                              apenas um homem: aquele saco de pele frágil

remplie avec des liquides                                                                        cheio de líquidos

et des pensées, parfois même des sentiments                                       e pensamentos, por vezes mesmo de sentimentos;

ça                                                                                                              aquilo

inexplicablement                                                                                      inexplicavelmente

ne change pas                                                                                          não muda nunca

 

(aucun progrès technique et moral                                                         (nenhum progresso técnico e moral

depuis tant de siècles)                                                                             há tantos séculos)

 

et ça c’est encore le plus difficile                                                            eis o que é ainda menos

à comprendre.                                                                                           compreensível.

 

Poems from Alan Britt*

BLACK WOOLY

  

Black wooly ripples our backyard concrete porch pad below

Autumn grasses tasseled by tiny magenta oil beads igniting

each sprouted stalk. This wooly rubs her fur against the sun’s

early morning switchblades & traverses the concrete undulation

by undulation, almost galloping under, over & between magenta

sprigs. Only this wooly isn’t black. She exposes copper ribs with

each ripple. Zebra rust singeing her fur, this wooly traverses a

faded green garden hose sprawled like a fifty foot garter snake,

thin as a small intestine, knotted & curled into a Pollock master-

piece. As she wobbles the distance, I record her diminutive

miracle. When I look up, she is gone.

 

(The Bitter Oleander, spring 2014)

Alan Britt…10/15/13…11:33AM

 

CHILDHOOD CONFESSIONS

 

I was adopted a little over a month old.

 

I was ecstatic!

 

While young I pulled a few pranks . . . nothing

too serious.

 

I dragged Mom’s favorite sweater

across the hardwood floor;

she wasn’t pleased.

 

I rummaged Dad’s closet & absconded

with a deerskin slipper;

that earned a timeout.

 

I once grabbed a chocolate chip cookie bag

& pulled the stainless can on top of me

spilling garbage across the kitchen floor.

 

I heard about that for weeks.

 

But I matured, learned right from wrong

& respected household rules.

 

As I grew I learned to play well with others,

stopped teasing the cat & even grew fond

of my Maine Coon sister.

 

I often wished Dad had more time to teach

me some games―I had energy to spare.

 

I sometimes begged Mom to close her laptop

& go for strolls around our neighborhood.

 

She was busy; I could see that.

 

But I amused myself; I made do.

 

(continued/break)

Page 2 of 2 . . . . . CHILDHOOD CONFESSIONS . . . . .  (cont.)

 

I was growing up fast & staying out of trouble, mostly.

 

Recently Mom & Dad brought a baby home

from the hospital. They named him Tom.

 

He smells funny but I think I love him. A baby brother!

I  ran around the house telling everyone how excited I was.

 

Then, suddenly, the surprise of my life.

 

One morning Dad walked me to the car & drove me

to a building with cinderblock walls & concrete floor.

 

I’ll never forget; I just turned five years old

& was looking forward to our expanding family.

 

Dad patted my head, closed the chain-link door

behind him & left me sitting on that concrete floor.

 

I’ve been here now over a month. No sign of Mom,

no sign of Dad.

 

My name is Mason. I’m a pit bull/shepherd mix.

 

The terrier next to me was carried away this morning.

She was old . . . 14 at least, cataracts in both eyes.

 

The guy on the other side, hound mix, I believe, spends

all day shivering in a corner, tail curled around his belly.

 

God, I’m lonely & confused. Mom, Dad, if you

can hear me, please come & get me.

 

I promise I’ll be good.

 

~Alan Britt

 

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* Contact: abritt@towson.edu

“De paisagens e de outras tardes”* | Ana Adelaide Peixoto**

Roupas no varal

Roupas no varal. Pedaços de panos. Ao vento. Essa é a imagem bucólica, por vezes romântica, que tenho de roupa lavada – lavadeira, sabão, ensaboa, roupas a quarar. Trouxas de roupas. “Ensaboa, mulata ensaboa, ensaboa vou ensaboando…”

Uma imagem plasticamente linda: Uma mulhar lavando roupa (não tenho conhecimento de homens nesse ofício), na beira do rio, torcendo roupa, batendo na roupa – ritual – espantando a raiva, cantando cantigas de beira de rio, e roupas espalhadas pelas pedras a secar. Roupas coloridas, preto e branco, calças, vestidos, de cores fortes, de cores pálidas, surradas, batidas, natureza morta, embora cheia de vida. Quarando ali nas pedras, as roupas não têm dono, nem moda. São pedaços, recortes, com manga, sem manga, com gola ou não, com babados ou debruns, ali, estendidos nas pedras, no varal, no chão. O vento é o seu ritmo, o embalo do seu movimento; é como se os donos dessas roupas, ali, também pendurados, também se embalassem, até mesmo voassem.

Lá vem a lavadeira! Com a trouxa na cabeça, uma rodilha, e num equilíbrio que só as lavadeiras têm, também dançam no andar – a trouxa e a lavadeira, a lavadeira e a trouxa – juntas pendem levando as roupas para lavar, cantarolando cantigas de ensaboar, em harmonia com o corpo, com a ladeira, com o rio.

Diante de tanta poesia, esqueço do trabalho tão árduo que é lavar roupa: o esforço, a força, a coluna, o tóxico do sabão nas mãos, os calos, o sol forte, o tanque. Só vejo as cores das roupas, o varal, o balé e sua mais talentosa coreógrafa. Esqueço também da etapa seguinte: pilhas de roupa para engomar, ferro quente, cada vinco – outra ciência! Molha, pulveriza, estica, passa, fumaça! Tem ciência mais difícil? Mas como todo trabalho a ser realizado – tem coisa mais bela que uma boa pilha bem passada? Prontinha para ser guardada, usada, suada, e de novo no cesto?

E quando chove que ficamos com a roupa amufambada no cesto, cheiro de xixi, de mofo, roupa encardida, que sufoco! Saudades de uma lavadeira. Outro dia isso me aconteceu e depois de uns dias, a minha lavadeira, Zezé, veio lavar tudo, mas choveu e teve que deixar a tarefa de estender comigo. Um desastre! As roupas pesavam demais. Estendi tudo a esmo, sem me preocupar com as misturas das sabedorias dessa lida: toalha azul – pingava nas camisas brancas de Juca; toalha vermelha chorava nas camisetas dos meninos; o desbotar celebrava a mistura das tintas numa verdadeira orgia nas artes plásticas… e as roupas? Uma lástima! Tomei contento e assumi minha incapacidade das trouxas. Então pensei: Que alquimia, que magia, que malabarismo, essas lavadeiras! Entendem de cores, de pesos, de formas; prestam atenção nas misturas, nas texturas e nos segredos – eis aí o mistério! Cada roupa é cada roupa, independentemente dos seus donos. Cada peça tem um tempo de água, de sabão, saber como esfregá-la, torcê-la, amaciá-la, estendê-la, secá-la e passá-la. Etapas! Passos a serem seguidos – ritual! Os baldes põe de molho, pinga uma água sanitária aqui, uma pitada de vinagre acolá. Tudo com toques, sutilezas, não logo, logo misture as cores! Não pode esfregar demais! E quando se pega uma roupa suja e se transforma em tudo muito branquinho; ver a sujeira escorrer rio abaixo, ralo adentro… É um ato íntimo, que exige concentração: lavando roupa suja?

Hoje com a tecnologia, os varais, as roupas, as pedras e esse ritual de purificação ficou restrito a ver as roupas dançarem, numa máquina enlouquecida, que não sabe o que é roupa encardida e nem de longe conhece a beleza dos varais e de suas lavadeiras.

 

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* De paisagens e de outras tardes. Ana Adelaide Peixoto. João Pessoa, PB: MCV/Forma/Gráfica JB, 2016.

** Ana Adelaide Peixoto Tavares é Prof. Dra. no Departamento de Línguas Estrangeiras da Universidade Federal da Paraíba, e tive a honra em tê-la na minha banca de defesa de dissertação de Mestrado em Setembro, 2015. Contato: adelaideana@uol.com.br

“Condutor de tempestades”* | Leonam Cunha**

introdução ou ode a manoel

 

Um senhor

com cabeça de nuvem

me ensinou

por meio de um dicionário criado em linguagem de criança

que esticando o ombro

eu contribuo para o orgasmo

 

Ensinou

por uma deslógica anti-iluminista

que sozinho e incompleto

está facilitada a minha infinitude

 

E então saí a desformar

 

Transformei uma costeleta

num riacho e podia dormir

ouvindo a água escorrer

 

Borboletei meus olhos

e em toda boca de noite

minha vista morria

porque havia enxergado mui dentro

 

– Todo poema deseja

ser semente ou córrego,

cantava pelo amanhecer

e depois do almoço

para desver melhor

 

– Para desver mais bem,

orientava o poeta –

para poesia é preciso que se seja infância

 

Um dia não mais encontrei o velhinho

a captar desperdícios e inocências.

Disseram que havia morrido.

Acho que saliva agora a liberdade plena.

O poeta virou tudo.

Não está mais para a crítica dos homens pensados.

Cumpriu a sina.

Desinventou tantas formas

que pôs bigodes na morte

e ficou a rir da cara dela.

 

a bombordo

 

Não faço questão de andar bem

ou de fazer sentido.

Quando nasci disseram que eu não faria sentido.

Colocaram-me um endireitador de postura

(como aqueles que põem nas árvores

que dão para nascer tortas)

mas eu de macio escorreguei pra torto.

Uma vez minha professora disse:

– Leonam, o que você costuma fazer?

Respondi: – Morrer e renascer.

E arrematou: – O que você não faz?

– Sentido.

 

ler é um bom mote para perder-se

 

Não quero nunca me achar em mim.

Meu desejo incontinenti

é de estar em meio ao trânsito.

Se eu deixar de me perder,

certamente façam-me a cova.

(Armei uma rede entre dois versos

e é onde descanso à tardinha).

Eis para mim o maior prazer não-físico.

 

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* Condutor de tempestades. Leonam Cunha. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2016.

** Contatoleonam_cunha@hotmail.com

 

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – 25/12/16 | Com Bernadete Bruto, Elba Lins & Anjos de Teatro

Patricia (Gonçalves) Tenório

22/12/2016

 

O desejo de viagem tem sua confusa origem nessa água lustral. Tépida, ele se alimenta estranhamente dessa superfície metafísica e dessa ontologia germinativa. Ninguém se torna nômade impenitente a não ser instruído, na carne, pelas horas do ventre materno, arredondado como um globo, um mapa-múndi. O resto é um pergaminho já escrito. (ONFRAY, 2009, p. 9)

 

Tudo começou em Agosto, 2016. Um encontro em uma Dança Circular. Três amigas que se propõem a estudar juntas, a navegar juntas pelo mundo das palavras, a viver juntas a Poesia e a Teoria de maneira inexorável e inseparável…

Incompreensível, irracional, mas sólido…

Foram essas palavras que me assombraram a madrugada de ontem para hoje, dia que me propus escrever sobre a experiência de 5 meses, 10 encontros e dezenas de textos críticos, poéticos, ficcionais que brotaram de Bernadete Bruto e Elba Lins no Grupo de Estudos em Escrita Criativa.

Por que me proponho a compartilhar nossa experiência, quando já existem tantas Oficinas Literárias, cursos de Escrita Criativa, acadêmicos ou não, pelo país, pelo mundo afora?

Lembrei esses dias da experiência com a adaptação de As joaninhas não mentem para o Teatro em 2011. O diretor Jorge Féo nos ensinou algo muito forte e presente até hoje nos meus estudos, na minha vida: aquele grupo, composto por aqueles atores, com aquela adaptação, era único. Foram 6 meses lapidando o texto, a vivência de cada personagem – não era interpretação nem representação – para germinar em 50 minutos de espetáculo.

Algo semelhante aconteceu com o GEEC. Nos servindo de teóricos tais como Christopher Vogler, Joseph Campbell, Carl Gustav Jung, Cecília Almeida Salles, Roland Barthes, Umberto Eco, até chegarmos aos teóricos do deslocamento, entre outros o autor da epígrafe Michel Onfray, e músicas, e pinturas, fotos, filmes, filmes e filmes, fomos nos alimentando e nos provocando a ponto de gerarmos inúmeros textos, dos quais selecionei do mês de Dezembro alguns a seguir. Textos que, como afirma Michel Onfray no seu Teoria da viagem, nos requisitam: “Não escolhemos os lugares de predileção, somos requisitados por eles” (ONFRAY, 2009, p. 20).

Certa vez, um repórter auspicioso perguntou a Ariano Suassuna se o que ele escrevia já estava na cultura popular, o que ele fazia afinal? Ariano respondeu brilhantemente:

– Você quer saber o que eu fiz, se tudo já estava aí, não é, rapaz?

O repórter mudo.

– Eu escrevi!

Então, tentando responder à pergunta que eu mesma fiz acima: “Por que me proponho a compartilhar nossa experiência, quando já existem tantas Oficinas Literárias, cursos de Escrita Criativa, acadêmicos ou não, pelo país, pelo mundo afora?”, e parodiando o saudoso Mestre Ariano Suassuna:

– Eu vivi!

 

Referências:

ONFRAY, Michel. Teoria da viagem: poética da geografia. Tradução: Paulo Neves. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.

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Bernadete Bruto

bernadete.bruto@gmail.com

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(“O violeiro”, Almeida Júnior, 1899, óleo sobre tela, 141 x 172 cm) 

 

A viola fala Alto

 

            Toda vez que se senta na janela e toca sua viola, algo me chama e largo tudo que estou fazendo,  encosto na sua janela para cantar. Canto com todo o coração:

É que a viola fala alto no meu peito humano
E toda moda é um remédio pros meus desenganos
É que a viola fala alto no meu peito, humano
E toda mágoa é um mistério fora deste plano
Pra todo aquele que só fala que eu não sei viver
Chega lá em casa pruma visitinha
Que no verso ou no reverso da vida inteirinha
Há de encontrar-me num cateretê(*)

Não sei o que se passa com aquele casal… Ele sintonizado com sua viola e ela seguindo a canção. Vejo que são UM na música. Dois artistas fora do palco, na mais pura expressão da arte, na vida cotidiana, em pleno interior de uma cidade qualquer. A viola é quem fala. Fala alto em qualquer peito humano quando seus acordes tocam no coração de cada um de nós. Eu mesma reconheço essa canção!

 

Recife, 4 de Dezembro de 2016

 

(*) Vide vida marvada de Rolando Boldrin

https://www.youtube.com/watch?v=9lw5EXnqOYc

 

(Câmara e edição: Bernadete Bruto)

HÁ SEMPRE UMA LUZ NO FINAL DO TÚNEL

Vós não sabeis de que espírito sois! O Filho do Homem não veio para perder, mas para salvar as almas” (Lucas 9:54).

Embora estejamos neste quadrado, embora tudo indique que não resta saída, somente a fé faz com que a vida seja amena. Ela perdeu seu ideal de família. Ele se perdeu da família. Ambos caminham aprisionados na alma. Ele e ela no fundo maldizem seu destino… São Tiago vela pelos peregrinos. Há uma rota que conduz a um túnel. É o túnel de fuga! Que maravilha!

Um túnel que lembra aquelas histórias de lugares mágicos! Um portal de luz! Por este túnel muitos escaparam. Por este mesmo túnel também passou em direção à morte Frei Caneca. Talvez ele e ela não tenham respostas mágicas. São Tiago, aquele do campo da estrela, foi até martirizado… A grade está fechada com um cadeado! Ele sabe bem o que é isso de estar preso… Ela sabe bem o que é ter um coração fechado. Deu de cara com sua chance de oferecer o perdão e virou-lhe as costas…

Mas há uma luz no final do túnel.  É preciso ter fé em meio à escuridão da alma. São Tiago aceitou o desafio e pregou o evangelho até o fim. Ainda hoje é patrono da Espanha e tem um caminho de peregrinação desde o tempo medieval que é feito pela pura fé.

Por aqui, na atualidade, Maria passa na frente e vai abrindo estradas e caminhos, abrindo portas e portões, abrindo casas e corações. (*) Ele está aprendendo a ter fé e ela precisa chegar no final do túnel e abrir a porta do perdão para ser realmente livre. Mesmo assim, ela envia uma mensagem para aquele menino de olhar vazio encoberto pela muralha. Uma linda mensagem, que tanto amparou outra alma que por 27 anos passou aprisionada. Um poema de William Henley que diz: EU SOU O DONO E SENHOR DE MEU DESTINO. EU SOU O COMANDANTE DA MINHA ALMA!(**) E um pequeno filme para acalentar o sonho de libertação.

Ela é mais velha e sabe seu dever de resgatar almas, mesmo que a sua ainda esteja evoluindo no  tempo e espaço. Ela tem fé que um dia a porta se abra e uma vida completa chegue para ambos. Pois sempre há uma luz no final do túnel e o segredo é tão simples há séculos: Fé e Esperança!

Recife, 15 de novembro de 2016.

 

(*) oração MARIA PASSA NA FRENTE

(**) Poema de William Henley

 

(Câmera e edição: Bernadete Bruto)

PASSAEANDO PELO POÇO DA PANELA

Num recanto bucólico e sombrio

Onde atenua a marcha o grande rio

À sombra de recurvas ingazeiras

Batem roupas, calejadas, lavadeiras

Trago ainda nos olhos: é bem ela.

            A passagem do Poço da Panela (…)

(Trecho da poesia  Poço da Panela de Olegário Mariano)

 

Neste domingo, assim como meus pés, meus olhos passeiam por esta parte da cidade. Entram no antigo arrabalde conservando resquícios de séculos passados, chamado de Poço da Panela. O seu nome se deve ao fato de lá ter sido construído um poço de agua potável em formato de panela.

Procuro o que resta do passado nesta rua que me dirijo a pé e o caminho chega até uma Igreja. Li que esta Igreja também foi erigida por Capitão Henrique Martins, que interessante! Aquele senhor devia ser um homem muito importante. Como era imenso o espaço para tão poucas pessoas! Hoje ao menos, este é dividido com mais gente. Caminho pelo mesmo espaço que Capitão Henrique já caminhou. Aquele senhor  que também construiu a Capela da Jaqueira. Caminho em direção  desta igreja chamada N.S. da Saúde. A Igreja foi construída em agradecimento pela melhora de sua esposa que se encontrava doente, dona Ana Clara. O amor de Henrique por Ana Clara toca meu coração. Duas igrejas construídas ficam como prova desse amor profundo. Vou caminhando pelos arredores, como talvez costumasse fazer Henrique há séculos atrás.

Pego o carro e me dirijo mais para frente e mais um pouco  chego na Rua Antônio Vitruvio. Já frequentei aquela rua nos anos 90, quando fazia Aikidô. Sabia que o final  dela chegaria à beira do rio. Queria olhar o rio. Aquela via, pois no passado o rio era muito usado e estou em busca do passado. Esse mesmo rio que nunca usei… Dois guardiões  encontram-se protegendo aquele lugar, esta parte do Capibaribe, coitado, hoje tão desprezado! A vista me dá essa impressão de que aquela área é especial e quem sabe seja um portal que nos leve de volta há outros tempos… Vejo um avô de bicicleta levando seu neto para conhecer o rio…O velho com o novo  olhando para o rio e sinto esperança. Me despeço dos guardiões pego o carro para conhecer mais do Poço da Panela.

Passo por esta rua de casarios antigos coloridos, rua onde mora Luzilá Gonçalves e penso que ela fez uma excelente escolha de moradia. Que local mais agradável! Fiquei até com vontade de ligar para ela e que me esperasse na porta, onde seria protagonista desta parte do filme, mas escolhi passar sem incomoda-la no domingo, um dia de descanso. Outro dia eu paro. Assim dirijo por  este caminho de casas antigas em direção ao futuro. Como é visível a mudança de construções e de ares! Tenho a impressão que o passado se despede e que o futuro não é tão romântico.

No fim do caminho, já beirando o bairro do Monteiro, volto a me encontrar com o Capibaribe. Deparo-me com uma vida diferente do outro lado do rio. Vida totalmente contraste com aquela que vejo no Poço da Panela atual. Uma comunidade muito pobre, sem infraestrutura adequada, à beira de um rio malcheiroso! Fico besta com esse afronte à vida.

Meus olhos enxergam aquele homem e a história que ele tem para contar.  Uma história que já estou até curiosa para ouvir. Vou perguntar. Tenho quase a certeza que ele poderá me apresentar à vida que existia ali antes e agora. Pois esse é o sentido da minha busca, neste domingo de manhã.

Nem sabia que do outro lado do rio era o bairro da Iputinga! Nem que havia aqui tão perto, um meio de transporte ligando Poço da Panela à Iputinga. O barco de seu José. Obrigada, Patrícia, por sugerir este passeio, ao Capitão Henrique pelo presente amoroso do passado, aos guardiões apontando para a esperança de sobrevivência do velho com o novo e ao senhor José por terminar minha história.

O final não é feliz, mas é verdade tudo que ele me diz. Até outro dia, Seu José!

 

Recife, 14 de novembro de 2016.

 

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Elba Lins

elbalins@gmail.com

 

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A partir da leitura do volume “Viajantes Contemporâneos” da Pinacoteca de São Paulo, surgiu a intenção de sentir Cartagena a partir do meu “olhar estrangeiro”.

Me imaginei chegando à cidade sem nada conhecer de sua história – via de regra, é o que acontece, chego ao destino sem nenhum preparo adicional ao que porventura já exista em mim. Vou sem muitas informações e  até juro fazer diferente na próxima oportunidade.

Desta vez, o desconhecimento, me proporcionaria uma maior legitimidade para fotografar ou descrever o sentimento advindo de olhar a cidade pela primeira vez.

Tal não foi minha surpresa quando ao sentar na poltrona do avião encontrar no bolsão à minha frente a revista de bordo com o artigo Cartagena: As Cores de Cartagena da Índia. A capa da revista me abraçava a partir da parede azul celeste misturada com verde piscina, se descascando para mostrar-me uma cor terra, original. E a pequena sacada pintada em cor lilás com muitas flores por trás das grades de madeira, me trazia o primeiro abraço, o acolhimento típico das cidades cujas vidas se traduzem através das cores.

Ao terminar de ler o texto no qual Cartagena se apresentou para mim nas suas cores e sabores, levanto o olhar já não tão estrangeiro e na tela à minha frente vejo o movimento da cidade que me convida a sentir o sabor dos seus frutos, dos seus sorvetes gelados bem conhecidos por todos que a visitam. Seus peixes, crustáceos, passeios em mercados me convidam a sentir seus sabores, a respirar as fragrâncias do seu povo, das suas flores e frutos e sentir as cores de Frida Kallo saírem do México para me receberem em Cartagena ao som da Rumba.

Referências:

* Viajantes Contemporâneos” da Pinacoteca de São Paulo.

* As Cores de Cartagena da Índia – Revista de bordo da LATAM, Novembro, 2016.

 

 

(Encontro com Cartagena – 25.11.2016

Para o GEEC – Grupo de Estudo em Escrita Criativa.

Escrito durante o vôo Recife-São Paulo que dali me levaria a Bogotá e posteriormente a Cartagena o objetivo principal da viagem.)

 

lua

(Lua do espetáculo “As joaninhas não mentem”)

 

Ontem dormi sozinha

A maior lua do século

Me deixou esperando

Sentada à beira-mar

E se escondeu por entre nuvens

 

E enquanto eu

Sentia nas pernas

As carícias do mar

Que na verdade não eram para mim

Tu lua

Te deitavas com estrelas…

Sim, com todas as estrelas.

 

Era isso que eu conseguia ver

Cada vez que o vento

Soprava e abria

As cortinas de nuvens,

Espessas,

Que guardavam, tua intimidade…

 

Mas hoje é um novo dia

E talvez te lembres de mim

Talvez te lembres do mar

Talvez hoje

Não nos deixes a esperar.

 

………………

 

 

(DE LUA E DE MAR – 17.12.2016

Para o Grupo de Escrita Criativa – G.E.E.C.)

 

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(Foto: Elba Lins)

Acordei e me vi sozinho, ou melhor, acompanhado do irmão, que quase siamês esteve comigo todos os dias da existência. Mas onde andaria aquele, com quem até o momento, caminháramos juntos?

A eternidade foi se tecendo, o tempo refazendo a realidade, e nosso aspecto se alterando. O lodo se alojou na nossa carne, na nossa pele; agora somos abrigo, refúgio de passarinhos que chegam e parecem fazer parte da nossa história. Durante todo o tempo esperamos em vão pelo retorno do nosso companheiro.

Algumas vezes, pensamos que O Esperado seria Manoel de Barros já que numa alegoria ao mestre estamos possuídos de lodo, algas, pássaros e plantas. Outros dias na nossa pele se desenharam os traços de Magritte. Também lembrei Van Gogh e me pergunto porque não me levou no seu caminho, para trilhar com ele sua loucura e solidão?

Assim me vi transformado em barro, e me questiono se o mesmo aconteceu ao Esperado.

Junto a mim, só chegam os pássaros que me fazem companhia e deixam em mim sementes de vida que brota no barro e me faz esquecer de tudo; esquecer até de ansiar pelo retorno de quem possívelmente já se fez barro.

 

(O Esperado –

Elba Lins 16.11.2016

Para o GEEC – Grupo de Estudo em Escrita Criativa.

A partir de uma experiência real criar o universo ficcional.

Lembrando a foto tirada na Casa Cor, Van Gogh, Magritte e Manoel de Barros)