Posts com

Índex* – Agosto, 2016

Se eu fosse um

Passarinho 

Esqueceria as

Folhas mortas

Do passado

Arrancaria as

Ervas daninhas

Do presente

E passearia

Suavemente

No céu azul

*

Mas como

Não sou um 

Passarinho

Vivo à cata

De migalhas

Vivo em busca

De palavras

Assim

Pequenininhas 

Que possam

Traduzir

Por um segundo

A imensidão

De eternidade

Presa aqui

No meu peito

(“Quem escreve não se cansa de buscar”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 06/08/16, 07h55)

A busca sem fim pela Escrita Criativa no Índex de Agosto, 2016 do blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

Dois contos para uma Escrita Criativa | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE, Brasil).

O físico fica menor enquanto o mito cresce | Mara Narciso (MG, Brasil).

Projeto Pasárgada nos jardins da Academia | Marly Mota (PE, Brasil).

Grupo de Estudos em Escrita Criativa | Com Bernadete Bruto (PE, Brasil) e Elba Lins (PB/PE, Brasil).

Agradeço a participação e carinho, a próxima postagem será em 25 de Setembro, 2016, grande abraço e até lá,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

____________________________________________

Index* – August, 2016

If I were

A little bird 

I’d forget the

Dead leaves

From the past

I’d rip out the

Weeds

Of the present

And I’d walk

Gently

In the blue sky

*

But because

I’m not

A little bird

I live in seek

Of crumbs

I live in search

Of words

Like this

Little niggling

That can

Translate

For a second

The immensity

Of eternity

Trapped here

Inside my chest

(“Who writes doesn’t be tired of searching”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 08/06/16, 7:55 a.m.)

The endless search for Creative Writing in the Index of August, 2016 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

Two short stories for a Creative Writing | Patricia (Gonçalves) Tenório (PE, Brasil).

The physical gets smaller as the mith grows | Mara Narciso (MG, Brasil).

Pasargadae Project in the gardens of the Academy | Marly Mota (PE, Brasil).

Study Group in Creative Writing | With Bernadete Bruto (PE, Brasil) and Elba Lins (PB/PE, Brasil).

Thank you for participation and caring, the next post will be on September 25, 2016, a big hug and see you there,

 

Patricia (Gonçalves) Tenório.

____________________________________________

1 - IMG_4701 4 - IMG_4721 5 - IMG_4723 6 - IMG_4734 7 - IMG_4732 8 - IMG_4739 9 - IMG_4706 10 - IMG_4700

____________________________________________

* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O Paraíso Perdido e Encontrado de Piracanga, BA, Brasil. The Lost and Found Paradise of Piracanga, BA, Brasil.

Dois contos para uma Escrita Criativa | Patricia (Gonçalves) Tenório*

Laura senta em uma mesa do restaurante cercado de vidro. Ele fica no meio do shopping center. Ela escolhe uma mesa que dá para ver as pessoas passarem.

Um casal de velhinhos.

Um casal de jovens.

Adolescentes de mãos dadas, adultos de mãos dadas, os velhinhos se afastam…

De mãos dadas.

O garçom vem receber o pedido de Laura.

– Uma taça de vinho branco, por favor.

Chadornnay? Sauvignon blanc? E entre as duas uvas, entre os dois vinhos, Laura se lembra de Marcelo.

– Garçom, duas taças de sauvignon blanc.

Estávamos no hotel em Gramado. Marcelo parecia mais jovem, parecia mais bonito, o grande sedutor. Ele havia me pedido em casamento; eu ostentava a aliança de noivado na mão direita.

– É uma pedra de brilhante.

O brilhante faiscava a luz do lustre antigo quando o garçom veio ao ouvido do meu noivo e sussurrou algum segredo. Marcelo empalideceu, pediu licença e saiu em direção ao telefone.

– Sua taça de vinho branco, madame.

Olho ao redor. Estou no shopping center. No aquário em forma de restaurante e continuo vendo as pessoas passarem. Elas não estão mais de mãos dadas. Elas passam por mim indiferentes ao que me aconteceu, ao que a mim sucedeu naquele longínquo hotel de Gramado.

Esperei dez, vinte, trinta minutos, uma hora, a noite inteira. Marcelo não voltou. Marcelo não retornou jamais. E no outro dia, na recepção do hotel, apenas um bilhete.

– Sinto muito.

Eu também senti muito. Eu também desesperei. E por isso todo dia treze de agosto vou a um restaurante comemorar o aniversário de noivado.

– A senhorita está sozinha?

Um homem alto, magro, de óculos.

– Não, não estou.

O homem alto, magro, de óculos olha ao redor, procura ao redor a minha companhia.

– Não vejo ninguém.

Eu calada.

– É uma pena uma moça tão bonita desacompanhada bebendo uma taça de sauvignon blanc.

Olho para o homem alto. Analiso bem sua expressão.

– O senhor está enganado. Não estou sozinha.

Mostro o livro Toda poesia, de Ferreira Gullar.

Olho mais uma vez o seu rosto parado.

– E o vinho é chadornnay.

 

(“O aquário”, 14/08/16)

 

*

 

João Ricardo perguntou o que havia falado para Elisabete que ela entendeu errado.

Do outro lado do balcão, ela colocava a mão em concha no ouvido tentando colher as últimas sílabas da frase proferida.

– … poderia?

Poderia o quê? Passar a conta? O sal? A pimenta? A blusa azul cor do céu?

João Ricardo se aproximou; Elisabete se afastou do balcão temendo um assalto, prevendo um assédio, e buscou na gaveta aquele botãozinho de chamar a polícia.

– Ele é bandido?

– Ele é correto?

– Ele é romântico?

A moça lembrou dos livros clássicos. Aqueles que ensinavam errado aquilo que ela considerava certo.

O rapaz não se importou em ser confundido. Há tempos de herói, épocas sombrias. E por aí vão as histórias que agradam as moças sonhadoras.

Ele foi um sonhador, numa fase dessas da vida. Mas cansou de esperar por uma moça, esperar que a moça, do outro lado do balcão, lhe desse a mão em casamento.

 

(“O eco”, 23/08/16)

 

_________________________________________

Patricia (Gonçalves) Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem dez livros publicados, O major – eterno é o espírito (2005), As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007), A mulher pela metade (2009), Diálogos e D´Agostinho (2010), Como se Ícaro falasse (2012),  Fără nume/Sans nom (Ars Longa, Romênia, 2013), Vinte e um/Veintiuno (Mundi Book, Espanha, abril, 2016), e A menina do olho verde (livros físico e virtual, Recife e Porto Alegre, maio e junho, 2016), traduzido para o italiano por Alfredo Tagliavia, La bambina dagli occhi verdi, a ser publicado em setembro, 2016 pela editora IPOC – Italian Paths of Culture, de Milão.  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Profª Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino, a ser publicada em outubro, 2016 pela editora Omni Scriptum GmbH & Co. KG / Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, Alemanha. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

O físico fica menor enquanto o mito cresce | Mara Narciso*

21 de agosto de 2016

O maior de todos é João Faria, celebridade cujo sobrenome não tem “s”. Os seus combustíveis são a fé sem concessões e a obsessão titânica. A natureza lhe deu bons recursos físicos, alta estatura e força, mas, desajeitado, não tem beleza e possui pouca habilidade na comunicação. É homem trabalhador e corajoso, tendo recebido, por quinhão, ritmo e tenacidade incríveis.

Tantas maneiras de ser, tantos lugares para se cair e foi dar de cara em Montes Claros. Seu avô Corinto era amigo de Indalício Narciso, proprietário da fazendinha Aliança, que é próxima da cidade. Com bom porte, João trabalhou naquela roça, rachou lenha, foi carreiro, fez trabalho braçal grosseiro e se casou com Benedita, filha de Manoel Urubu, criada ali por Picucha. Tiveram três filhos, dois meninos e uma menina. A mãe de João Faria era negra, e seu pai, José Faria, era branco. Viúvo casou-se com Nega, irmã de Picucha, e foram morar na Aliança.

João tinha tudo para ter uma existência singela, obscura, no anonimato. Mas não foi assim. Não era alfabetizado, morou anos como agregado num rancho, de portinhola exígua, que mal o cabia, ao lado de um bambuzal, no qual não fez nenhuma melhoria. Não tinha salário e recebia uma feira semanal. Tempos depois, com a indenização trabalhista, saiu da Aliança, comprou uma carroça e uma casa, e em 1977 mudou-se para o Bairro Camilo Prates. Ganhou a vida transportando ferro, sobre tração animal.

Havia uma cerca entre os quintais do seu bairro. Um dia, um chapa de caminhão vulgo Estrelinha, abusado, falou obscenidades para Benedita, sua esposa. Ela contou ao marido. João defendeu sua honra disparando com uma garrucha um tiro fatal, no peito do vizinho. Foi a julgamento, sendo absolvido pelo júri. Sidônio Paes Ferreira fez sua defesa. Até o promotor pediu a sua absolvição. Seu gesto, para os conceitos daquela época, foi considerado um serviço de limpeza social, pois o morto era temido por bater em todos, até na polícia. Após o acerto com a justiça, saiu livre para continuar a labutar vida afora. A esposa de João Faria é cega há vários anos, devido ao glaucoma, mas encontra-se adaptada a situação e faz tudo em casa.

Herdou do pai José Faria, que era caixeiro de frente do terno de catopês, o gosto e o conhecimento pelos rituais religiosos. Quando o terno ia acabar devido a um desentendimento entre o mestre e o procurador, João, aos 17 anos foi eleito por aclamação. Tornou-se Mestre do 2º Terno de Catopês de Nossa Senhora do Rosário, e esta é a sua glória, há 54 anos. O carroceiro humilde no restante do ano torna-se um ícone, um rei por curtos cinco dias, alguém festejado, assediado, fotografado à exaustão. Ressurge a cada agosto, quando se dá a transformação, e sai cidade afora comandando o terno com mão férrea.

É fácil sentir-se atraído pelos catopês. A roupagem branca, singela de mangas compridas, o capacete bordado de pedras sobre a testa, encimado com penas de pavão, e as fitas coloridas que vão da cabeça aos pés, têm uma estética privilegiada. Belos e fotogênicos os catopês atraem os olhos, o coração e as câmeras fotográficas.

Durante a festa católica, há o esquecimento da vida real, e afunda-se no mundo do sagrado, da adoração, e da fé, os quais dão forças para intermináveis batuques, cantorias e circunvoluções ritualísticas, um inusitado bailado, sob sol forte ou debaixo da lua. A incorporação espiritual é tão notável, que se pensa que o chefe dos catopês esteja em transe. Basta um som sair de sua boca, e o grupo que vai, volta e segue seus passos. João Faria canta, dança e toca o seu tambor com um fervor que comove. É um rito que não aceita mudanças. As evoluções do mestre catopê, assim como o batuque da sua caixa têm a marca da forte devoção. Vê-lo subir e descer as ruas principais da cidade impressiona, num homem encurvado aos 71 anos. Seus filhos não o seguiram. As décadas avançaram, e ele, antes alto e forte, foi perdendo o tamanho e a força, enquanto seu espírito e o mito se amplificaram. Os personagens de Montes Claros têm e fazem história, no caso dos catopês, há 177 anos.

 

___________________________________________

DSC08167 DSC08179

___________________________________________

* Contatoyanmar@terra.com.br

Projeto Pasárgada nos jardins da Academia* | Marly Mota**

A chuva ameaçando cair não dispersou os que participavam na Academia Pernambucana de Letras, da tarde festiva em celebração ao dia Nacional do Escritor. Um trabalho transparente, de colaboração, que reuniu centenas de livros para distribuição que estavam guardados, ocupando grande espaço fora das estantes. A iniciativa de fazer circular edições de qualidade e conteúdo diverso partiu do esforço de uma equipe de excelência, sob o comando da presidente Margarida Cantarelli, ao lado de Luzilá Gonçalves e Ana Maria César. Na saudação ao público, Margarida esclareceu a oportunidade de partilhar e difundir esse acervo, enfatizando que as obras foram editadas com o dinheiro público. Um trabalho dadivoso ver a alegria das pessoas para obterem um kit ou uma um das muitas sacolas coloridas com livros, para suas estantes.
Nos jardins da Academia, cadeiras enfileiradas davam boas-vindas aos acadêmicos, convidados e representantes do poder legislativo de Pernambuco e de diversas instituições na área da educação e cultura. A Secretaria de Educação do Estado, através da Escola Técnica Estadual José Alencar Gomes da Silva, localizada no Janga, Paulista, levou grupo com vinte jovens alunos uniformizados, exibindo em faixa: “Biblioteca Geninha da Rosa Borges – Sarau Poético Projeto Pasárgada.” Bela homenagem à minha amiga Geninha, escritora, grande atriz, história viva do teatro Pernambucano.

Sob a orientação da professora Fabrícia Gomes, que usando da palavra com clareza e competência fez surgir o lirismo na apresentação do grupo, confraternizando na intimidade com Pasárgada e Manuel Bandeira. Poesias da grande Cecília Meirelles, despertou a imagem de minha mãe, ambas nascidas em 1901 pela semelhança, olhos azuis e pelo canto: “Canto porque o momento existe.” Os poemas de Solano Trindade, recitado em seguida. Ouvimos o nome de Mauro Mota e, a sua poesia dita por uma bela estudante, acelerou o meu coração. Lembro-me: “Vou em busca do ter ido / Desapareço no espaço / Fico de novo perdido / Procuro-me, e não me acho. /” Emocionada, fui ao encontro do jovial grupo, declarando-me viúva de Mauro Mota numa extensão de alegria, de abraços, de retratos tirados com todos eles. Para Fabrícia Gomes e a turma dos jovens interpretes, farei chegar, até vocês, um CD de Mauro Mota por ele mesmo. Já escurecia, quando me despedi daquele final de tarde, nos jardins da Academia.

 

_____________________________

* Publicado em 23/08/16 no jornal Diário de Pernambuco.

** Marly Mota é Membro da Academia Pernambucana de Letras.  Contato: marlym@hotlink.com.br

Grupo de Estudos em Escrita Criativa – 28/08/16 | Com Bernadete Bruto* e Elba Lins**

Era uma tarde de Julho, 2016. Para ser exata, domingo 17. Estávamos no Parque da Jaqueira, Recife, Pernambuco, Bernadete Bruto, Elba Lins e eu, estávamos em um evento de Dança Circular. A caminho do parque, a ideia já havia brotado, a semente havia sido plantada na alma de quem vive sempre em busca de um solo fértil para uma Escrita Criativa.

A ideia era simples, feito semente de girassol, feito o caule do girassol que gira à procura do sol. Nos encontraríamos uma vez a cada quinze dias, ou uma vez por mês, para conversarmos sobre a arte de escrever. A partir de textos de teóricos tais como Joseph Campbell, Christopher Vogler, Carl Gustav Jung, mas também de depoimentos sobre seus “fazeres artísticos” de escritores tais como Orhan Pamuk, Virgínia Woolf, Albert Camus, Henry James, entre (muitos) outros, iríamos nos alimentando, alimentando a nossa escrita, e somente assim, cresceríamos como escritoras, poetisas, enfim, pensadoras.

Esse projeto tem a ver com a minha pesquisa desde 2004 no campo da Escrita Criativa. Acredito no crescimento na Arte através da Forma, da Técnica e do Ofício que Ariano Suassuna nos ensina no seu Iniciação à Estética. Ariano afirma que é preciso a Técnica, ou estudo contínuo, o Ofício, ou trabalho/escrita diário(a) para quando a “ave de rapina” da Inspiração Criadora, ou Forma, se manifestar em nós, estarmos prontos para “darmos o salto”, e não apenas sermos “meros artesãos”. De 2004 a 2010, participei de oficinas literárias no Brasil e no exterior; em 2012, busquei no ambiente acadêmico, no Programa de Pós-Graduação da UFPE, Mestrado em Teoria da Literatura, a matéria-prima para a minha escrita, e, atualmente, participando como Aluna Especial do Programa de Pós-Graduação da PUCRS, Doutorado em Escrita Criativa.

E, apesar de não estarmos (ainda) em um ambiente acadêmico, percebi nesses poucos encontros do mês de Agosto, 2016, o potencial dessas escritoras/poetisas Bernadete Bruto e Elba Lins. Todas as narrativas, quer sejam literárias, quer sejam cinematográficas se originam no Mito. Iniciando, portanto, com o estudo da Jornada do Herói, essas “escrevinhadoras” – termo utilizado por Bernadete em um dos textos produzidos – mostram que, ao cuidarmos “do alimento” para a nossa arte – textos teóricos, filmes e até músicas –, vamos “produzindo” pequenas pérolas em forma de textos teóricos/crônicas e textos poéticos/ficcionais, que, juntamente com “Dois contos para uma Escrita Criativa”, de minha autoria que abrem a edição de Agosto, 2016 deste blog, tenho o prazer e honra de lhes apresentar em uma seleção a seguir.

Patricia (Gonçalves) Tenório

____________________________________________

Bernadete Bruto

 

Memórias de uma Gueixa: todos os passos em direção ao amor

Recife, 12 de Agosto de 2016

 

“As grandes histórias nos recordam à nossa própria história, pois elas não contam somente a história de um ser humano qualquer: contam o que também comove, atinge, faz sofrer e torna felizes todos os seres humanos. Elas também são nossa história.”

(Bert Hellinger in Pensamentos a caminho)

 

Assisti em 2006 ao filme de produção de Steven Spielberg Memórias de uma Gueixa e imediatamente me apaixonei pelo filme.

Em primeiro lugar, já gostei porque o filme tinha sua história localizada no Japão, era um filme de época, coisa que me agrada bastante. Em segundo lugar, vinha mostrando as instituições japonesas antes da segunda guerra mundial, a vida das gueixas e a história particular de uma gueixa chamada Sayuri, um exemplo de persistência em direção ao amor de sua vida. E, finalmente, toda a produção do filme, fotografia, trilha sonora, foram fatores que concorreram para aumentar meu encantamento.

No filme, que é baseado num livro de escritor americano, a história é contada por  uma menina chamada Chyio Sakamoto, moradora de uma aldeia de pescadores japoneses, que é vendida pelo seu pai a uma casa de gueixas. Naquele lugar ela começa a fazer os serviços domésticos, como pedia a tradição. Um dia, ela ainda menina encontra-se com um homem poderoso que a trata com carinho e naquele exato instante ela se apaixona por ele. A partir daí, a história de Chyio, toma um sentido especial, buscando se tornar Sayuri, uma gueixa famosa, para poder chegar junto do seu amor. No entanto, até lá, passa por muitos percalços, encontra ajuda numa gueixa famosa, como também, inimigos em sua própria casa.

Hoje observo que a história segue um roteiro muito bem elaborado que pode encontrar base no modelo da Jornada do Herói apresentado por Christopher Vogler (pág. 46) conforme exponho em seguida.

No primeiro ato nossa heroína (Sayuri) ainda chamada Chyio moradora de uma vila de pescadores (MUNDO COMUM) é vendida à casa das gueixas (CHAMADO À AVENTURA). Num determinado momento ela se rebela por sua condição e sai à procura de sua família (RECUSA AO CHAMADO). Ao conhecer seu amado, ela tem o desejo de poder estar com ele, encontra  Mameha,  uma gueixa famosa que se oferece para ser sua tutora (ENCONTRO COM O MENTOR), começando o aprendizado para se tornar uma gueixa (TRAVESSIA DO PRIMEIRO LIMIAR). Nesse momento começam as rivalidades entre as gueixas, o difícil jogo dos homens poderosos para ficar com as gueixas, a ajuda de Mameha e do seu amado (PROVAS, INIMIGOS E ALIADOS)

No ato dois, a crise da história, no caso da nossa heroína, o momento que ela vai ser desmoralizada por um homem bem poderoso que utiliza de má fé na sua conduta (APROXIMAÇÃO DA CAVERNA SECRETA); o momento de ajuda para ela se recuperar; a chegada da guerra onde o mundo modificou totalmente e toda a esperança com relação ao amado também (A PROVAÇÃO); o fim da guerra e credibilidade readquirada (RECOMPENSA); no ato 3, observamos o retorno à vida pós-guerra (O CAMINHO DE VOLTA); a possibilidade de retornar o caminho em direção ao seu amor (RESSURREIÇÃO); o retorno ao MUNDO COMUM com o aprendizado deixado pela guerra (RETORNO COM O ELIXIR).

Duas cenas me tocaram profundamente. Uma foi por sua beleza artística: o debut de Sayuri quando ela se apresenta aos candidatos prováveis numa belíssima dança em cima dos tamancos de madeira. É indescritível a cena, somente vendo para poder apreciar verdadeiramente. A outra cena, foi por sua delicadeza romântica, quando no final do filme,  depois de todos os percalços, os amantes se encontram juntos e a protagonista responde a um questionamento do seu amado com esta afirmação: “Não vê que todos os passos que dei foram na sua direção?”

A história de amor, a dedicação daquela menina ao seu amor, a persistência dos protagonistas deram um gosto especial à história, e, até hoje, dez anos após ter assistido esse drama épico, experimento a mesma sensação de empatia com a vitória e completude com relação à conquista do amor.

Por fim, ao verificar essas conexões poderia ficar um pouco desanimada com relação ao filme, que foi pré-fabricado para poder gerar todos os sentimentos que senti ao assistí-lo em 2006. Mas foi muito mais do que isso. Este filme foi uma linda produção, uma obra de arte que ultrapassou a receita básica de se escrever uma história com finalidade de agradar ao público. Apesar das críticas que foram muitas, das polêmicas lançadas pelo Japão e China, que não vem ao caso me reportar agora, noto que  o produtor e demais envolvidos foram felizes em escolher uma boa história e fazê-la com gosto e arte.  O filme descreveu uma linda história com uma plasticidade encantadora e encheu meu coração de fé e esperança no amor naquele longínquo ano de 2006 quando eu mais precisava.

 

*

 

“O dom essencial da história tem dois aspectos: que no mínimo reste uma criatura que saiba contar histórias e que, com esse relato, as forças maiores do amor, da misericórdia, da generosidade e da perseverança sejam continuamente invocadas a se fazer presentes no mundo.”

 (Clarissa Pinkola Estés in O dom da história)

 

Eram uma vez palavras mal feitas, desordenadas à procura de um significado próprio que lhes concedesse uma estética ideal no profundo vazio da caneta e do papel submetido ao intrínseco inconsciente do Escrevinhador.

Um dia, a mente do Escrevinhador de tanto rodar à cata do ideal, mergulhou no universo íntimo das palavras, pronto para o desafio lançado pelo mundo exterior e, de repente foram surgindo todo tipo de palavras!

As primeiras vieram manifestando-se no peso do negativismo assim: “não sei!”, “não vai dar certo!”. Não! Não! Eram palavras que voam daquele universo esbarrando de encontro à mente do Escrevinhador.

Por algum tempo foi dessa maneira, até que timidamente foram surgindo alternadamente as palavras estrelares. Apareciam como luzinhas fracas, contudo de um brilho intenso a piscar e transformar-se em palavras coloridas, brilhantes que foram aumentando sua irradiação, aumentando, aumentando até capturarem aquelas cheias de negativismo no laço da verdade que lhes dizia: “vocês são mera ilusão”! “Por trás tudo é bom, belo e afirmativo!”

A partir daquele vislumbre consciente, como que por encanto, as palavras negativas, Puff! Sumiram! Podendo o Escrevinhador dizer com firmeza: “eu agora digo sim! Sim às palavras boas, criativas”. E foi nessa vibração que as palavras boas, as mesmas que os indígenas chamam Porã Hei, desceram em forma de um cocar multicolorido coroando a imaginação do Escrevinhador.

Daí então ele escreve cheio de energia palavras que brilham no papel. Não sabe ainda se essas palavras se organizam direito para fazer a prosa, no entanto, há algum tempo, vive cheio de alegria porque encontrou um caminho na vida e toda a sua poesia!

(Jornada rumo à poesia da vida, 28/Julho/2016)

 

____________________________________________

Elba Lins

 

O Físico

Na Idade Média, enquanto no Oriente a medicina se especializava e se desenvolvia, na Europa, todos os recursos na arte de curar, provenientes dos romanos, haviam sido abandonados e os doentes estavam entregues à própria sorte e aos barbeiros ambulantes – um misto de aprendiz de mágico e de palhaço. Estes barbeiros não tinham nenhum preparo para tratar qualquer enfermidade, que fosse além de arrancar um dente ou imobilizar um osso quebrado.

É nesse cenário que vive Rob Cole, é este seu Mundo Comum no qual sua mãe morre por falta de uma ajuda “médica” adequada. Na ocasião, sem saber como, Rob tem a visão da proximidade da morte da mãe, acometida da “Doença do Lado” e tenta sem sucesso obter a ajuda do barbeiro. Era uma época de resignação e trevas e qualquer tentativa de novas formas de cura era renegada pelo clero como bruxaria.

Por ser o maior dos seus irmãos nenhum dos vizinhos quer ficar com ele pois daria prejuízo. Ficando só, sua única opção é acompanhar o barbeiro mesmo não sendo aceito por ele. Aos poucos ele vai se tornando necessário e começa a se interessar em aprender a curar e em descobrir a causa do mal que matou sua mãe. Desde cedo ele tem curiosidade em saber o que existe internamente ao corpo humano. Esta é a fase de saída do seu Mundo Comum. Este é o seu primeiro Chamado à Aventura.

Quando o barbeiro queima as mãos e não consegue trabalhar é a primeira oportunidade de Rob substituí-lo. A partir daí aquele passa a considerá-lo um novo barbeiro e faz sua cerimônia de “batismo”. É a Travessia do Primeiro Limiar. Em seguida o barbeiro apresenta grandes problemas de visão. Nesta oportunidade eles tomam conhecimento de um judeu que poderia curar sua cegueira. Rob insiste e eles vão procurar o judeu que consegue curar os olhos do barbeiro. Através dele Rob descobre a existência do Madraçal, a escola onde o judeu estudou em Isfahan. A escola é dirigida por Ibn Sina o maior físico da época. É um Novo Chamado à Aventura e Rob decide viajar até a Pérsia em busca de Ibn Sina.

Somente depois de muita discussão, o barbeiro decide apoiá-lo. Apesar da dificuldade que irá enfrentar, hora nenhuma Rob Recusa o Chamado.

Ele parte para uma viagem inimaginável, primeiro por via marítima e depois uma longa travessia pelo deserto. Vários Testes ele precisa enfrentar: fazer uma circuncisão em si mesmo; se passar por judeu sem conhecer os costumes, além de uma tempestade no deserto, onde se perde dos demais. Esses são alguns desafios até chegar a Isfahan. Durante a travessia se apaixona por uma moça que está sendo transportada para a Pérsia na Caravana e se perde dela na tempestade.

Ao chegar no Madraçal novas dificuldades têm lugar, mas finalmente ele consegue se tornar aluno de Ibn Sina, se apresentando como judeu de nome Jesse. Seu grande interesse em aprender e em questionar logo o aproxima do seu Mentor Ibn Sina.

Como o destino prega peças, Rob, agora Jesse, reencontra a garota que na verdade vai casar com um importante Judeu.

Também a situação político-religiosa vem se agravando e um grupo religioso radical não apoia a política do Xá, mais voltada ao secular, e se alia aos Seljúcidas, um grupo sanguinário que pretende invadir a Pérsia. É neste clima que outro problema chega para afligir a todos: a peste negra.

Ibn Sina com a maioria dos alunos passa a combater a peste e a pesquisar as causas deste mal. Entre os infectados, Jesse cuida de sua amada que foi deixada para trás pelo marido por estar doente. Para Jesse este é mais um Teste que terá que enfrentar.

Como nada é tão fácil para Jesse, a garota é curada, a peste está controlada, mas para sua tristeza o marido volta e sua amada tem que retornar ao casamento. É quando eles finalmente fazem amor e, como veremos mais tarde, ela fica grávida.

A Aproximação da Caverna Oculta se dá a partir da morte de um Zoroastrista que lhe pede para deixar seu corpo para os abutres. Jesse aproveita para dissecá-lo e fazer desenhos dos órgãos internos. A partir destes estudos chega à conclusão sobre a causa “Doença do Lado” que hoje sabe-se ser apendicite. Cada dia ele se aprofunda nos estudos, mesmo sabendo que se for descoberto pelos mulás poderá ser condenado. E é o que acontece. Ele é descoberto e levado a julgamento pelos religiosos por estar praticando a necromancia. É a sua primeira Provação. A sorte, entretanto, vem ao seu encontro e na hora de sua decapitação é salvo pelos soldados do Xá que está acometido pela “Doença do Lado” e soube que Jesse pode salvá-lo. Esta é mais uma Provação que terá que enfrentar pois se o Xá morrer também será morto.

A cidade está sendo invadida pelos Seljúcidas, mas Jesse juntamente com Ibn e outro colega conseguem salvar o Xá que como recompensa proporciona a fuga de Jesse, agora já Rob novamente, com o povo judeu, entre eles, sua amada. É o Caminho de Volta ao Mundo Comum feliz por estar em companhia de sua amada e triste por ter perdido Ibn Sina que fica no Madraçal incendiado e toma um veneno. Antes, porém, entrega a Rob todas as anotações feitas ao longo da vida para que sejam corrigidas e ampliadas. Esta é a Recompensa, juntamente com a descoberta da “Doença do Lado”.

No caminho para casa, a moça fala para ele de um sonho que teve sobre um novo Madraçal a ser construído por eles. É sua Ressureição.

O filme termina quando o velho barbeiro sem cliente nenhum toma conhecimento de que agora vão ao hospital do Físico Cole. O Rato, como ele chamava, havia retornado com o Elixir.

 

(Resenha do filme The Physician, baseado no romance de Noah Gordon e inspirada em A jornada do escritor, de Christopher Vogler. Para o Grupo de Estudo em Escrita Criativa. Recife, 22/08/2016)

 

 

*

 

 

JORNADA

 

Recebi uma tarefa:

De uma Jornada falar

Não sabia o que dizer

E me quedei a pensar.

 

Eu no Mundo Comum

E a ideia sem chegar,

Eu precisava sair,

E começar a criar.

 

Me lembrei de outro curso

Um curso de ensinar

Histórias a construir

Ou histórias a contar.

 

Lembrei de uma tarefa

Que me pedia falar

Eu pegara o telefone

Começara a digitar.

 

Entendi neste momento

Que este era o sinal

O Chamado à aventura

Que estava a esperar.

 

Mas a dúvida persistiu

Continuei a pensar

Será que eu não devia

O chamado recusar?

 

Mas, como a ideia chegou

E insistiu em ficar

Levantei bem de mansinho

Comecei a digitar

E a pensar uma a uma

Etapas do caminhar.

 

 

Pouco a pouco eu já via

Algo a se estruturar

Mas eu tinha muitas dúvidas

Na mente a martelar.

 

Quem era meu Mentor?

Não sabia se eu mesma

Ou a tela do celular.

Mas estava empolgada

Pois sabia já passara

O Primeiro Limiar.

 

Resolvi fazer um Teste

Resolvi verificar

Tudo o que digitei

Se iria aproveitar.

 

Foi aí que a dúvida veio

O que tentava criar

Era poesia ou cordel?

Não soube classificar.

 

Entrei na Caverna Oculta

A dúvida a exasperar

E se a “professorinha”

Isto não considerar?

 

É esta a Provação

Que preciso enfrentar;

Se terei a Recompensa

Se poderei enfrentar;

Todo o Caminho de Volta

Trazendo ou não na bagagem

O Elixir de criar.

 

(Criação inspirada nas etapas da Jornada do Herói em A jornada do escritor, de Christopher Vogler. Para o Grupo de Estudo em Escrita Criativa. Recife, 22/08/2016)

 

________________________________

* Contato: bernadete.bruto@gmail.com

** Contato: elbalins@gmail.com