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Índex* – Julho, 2016

Me perguntam

Se o passado

Por acaso

Já passou

E deixou as suas

Marcas

Por acaso

Incandescentes 

Por enquanto

Incongruentes 

Nesse mapa

De tarô

Eu aqui

Em meio ao

Sono

Lembrando o

Sonho

Que passou

Vejo uma

Estrela cadente

Vejo um

Dia nascente

Com seu rastro

De temor

De que eu

Não consiga

Mais

Nesse dia

Espelhar

O rosto que trago 

Guardado

No suave

Despertar

(“O sonho não acabou”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 15/07/16, 05h03)

 

Que o sonho nunca acabe no Índex de Julho de 2016 no blog de Patricia (Gonçalves) Tenório.

O que estão falando sobre “A menina do olho verde”, de Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife – PE, Brasil).

“Ensaios de Transcendência” | Camilo Matar Raabe (Porto Alegre – RS, Brasil).

Dois poemas | Dos poemas | Two poems | Două poezii | Cristiana Campeanu (Romênia).

El buitrero | Iacyr Anderson Freitas (Juiz de Fora – MG, Brasil).

Última aula de Teorias da Criação Poética | com Marcelo Maldonado (Rio de Janeiro – RJ/Porto Alegre – RS, Brasil).

E o link de Rizolete Fernandes (Natal – RN, Brasil):

www.crearensalamanca.com/poemas-para-despertar-conciencias-benavides-uruguay-dregrazia-brasil-fernandes-brasil-y-naranjo-colombia/

Muito obrigada pela participação, a próxima postagem será em 28 de Agosto de 2016, um abraço bem grande e até lá,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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Index* – July, 2016

They ask me

If the past

By chance

Has passed by

And left its

Marks

By chance

Incandescents 

For a while

Incongruents 

In this map

Of  tarot

I’m here

In the middle of the

Sleep

Remembering the

Dream

That passed by

I see a 

Falling star

I see a

Rising day

With its trail

Of fear

That I

Get

No longer

In this day

Reflect

The face I bring 

Garded

In the soft

Awake

(“The dream isn’t over”, Patricia (Gonçalves) Tenório, 07/15/16, 05h03 a.m.)

That dream is never over in the Index of July, 2016 in the blog of Patricia (Gonçalves) Tenório.

What are they talking about “The green eye girl”, from Patricia (Gonçalves) Tenório (Recife – PE, Brasil).

“Trancendents Essays” | Camilo Matar Raabe (Porto Alegre – RS, Brasil).

Dois poemas | Dos poemas | Two poems | Două poezii | Cristiana Campeanu (Romênia).

El buitrero | Iacyr Anderson Freitas (Juiz de Fora – MG, Brasil).

Last class of Poetic Creation Theories | with Marcelo Maldonado (Rio de Janeiro – RJ/Porto Alegre – RS, Brasil).

And the link of Rizolete Fernandes (Natal – RN, Brasil):

www.crearensalamanca.com/poemas-para-despertar-conciencias-benavides-uruguay-dregrazia-brasil-fernandes-brasil-y-naranjo-colombia/

Thank you for the participation, the next post will be on  August 28, 2016, a big hug and see you there,

Patricia (Gonçalves) Tenório.

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* Índex foi traduzido (a maior parte) apenas para o inglês por uma questão de extensão do post.

* Index was translated (most of it) into English only as a matter of the extension of the post.

** O nascer (1) e o pôr-do-sol (2 e 3) são os mesmos em Recife – PE, Brasil (1 e 3) e Salvador – BA, Brasil (2). Sunrise (1) and sunset (2 and 3) are the same in Recife – PE, Brasil (1 and 3) and Salvador – BA, Brasil (2).

O que estão falando sobre “A menina do olho verde”*, de Patricia (Gonçalves) Tenório**

Comentário sobre a su“A Menina do Olho Verde”

 

A história infantil, ingênua e romântica a princípio evoluiu como mensagem abrangente, universal e filosófica. Os substantivos comuns apresentados com letras maiúsculas, para diferenciá-los, deram personalidade e importância a coisas como Tempo, Espaço, Passado, Presente, conferindo originalidade à obra.

Manoela, “A Menina do Olho Verde”, não come e nem gasta tempo com coisas humanas, não é gente, é uma menina-anjo, uma espécie de profeta que traz mudanças transformadoras. Pedro, o seu amor é um menino-adulto, que tem crises existenciais.

A perda da inocência de Manoela com o Mestre machuca Pedro, que também não é totalmente humano, pois vê e sabe de coisas à distância. O tempo não corre igual para todos. Ora acelera, ora corre devagar. Os personagens da pequena cidade parecem não ser corpóreos, sendo espectros, que de alguma forma interferem no andamento da história dos meninos e depois dos jovens, Pedro e Manoela. Ele é filho do carteiro, aquele que traz livros. Estes, assim como a cultura e a professora Mariana são fatores de modificação da sociedade e isso fica claro. A obra acaba sendo, em parte, uma ode ao saber.

[…]

Engana-se quem pensa que o livro, por ter poucas páginas, desenhos e personagens algo mitológicos possa ser classificado como superficial. Após “O Fim” ter outro capítulo chamado “O Início” demonstra que uma boa história não se acaba, mas permanece, assim como o mistério e a curiosidade despertados por ela.

“A Menina do Olho verde” contém ensinamentos que não podem ser facilmente decifrados, ou banalizados. É para ler, reler e reter.

Mara Narciso, Escritora, Montes Claros – MG, 15/07/16

 

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Ler o seu “A menina do olho verde” foi um gosto. A ideia de escrever romance no molde de fábula e como se fora para criança, é sempre muito atraente. Acresce, a meu ver, nessa sua retomada, a grande sacada de trazer à cena problemas característicos da atualidade, com os quais, portanto, somos obrigados a conviver. Assim os muros altos, assim a tendência ao pensamento único, a rotina quase “fordiana”, etc. de nossa vida em sociedade. Mas você cria os personagens que: extrapolam o muro; pensam e se portam de modos diversos; acolhem o diferente, etc. e constroem outro mundo, para o que foi preciso desconstruir o anterior. Tudo expresso através de bem construídas metáforas, tecendo uma estória inteligente, séria e, ao mesmo tempo, leve, delicada, graciosa e instigante, para alegria de nosoutros, os adultos-crianças de todas as idades. Seu livro é lindo (inclusive capa e diagramação) e – permita-me – eu adoraria tê-lo escrito. Se prosear soubesse.

Parabéns e siga em frente, mocinha! Abraço-a,

 

Rizolete Fernandes, Poeta, Natal – RN, 05/07/16

 

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Patricia (Gonçalves) Tenório, minha caríssima,

a capa dura em P&B, com um pequeno detalhe (título em verde que te quero ver[de]), já nos indica o esmero que se faz no texto – na leitura já iniciada, nesta viagem meio-naif, nesta viagem pelas verdes angústias e fantasias de uma menina que se faz maior que a pedra [Pedro] em que, de certo modo, se apóia nas primeiras horas da ‘clorofila invadindo o mundo’.

Agradeço pelo mimo: objeto e escrita.

O objeto: esmero gráfico-estético que as minhas mãos não cansam de acariciar. Meus olhos lambem com voracidade o miolo geo-figurativo.

a escrita: já estou a viajar…

Caríssima, agradeço pelo embelezamento do mundo criado pelas suas obras.

Parabéns! Evoé!!!

 

Luciano Bonfim, Professor & Poeta, Sobral – CE, 29/06/16

 

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Nossa. Hoje fui ao lançamento do livro “A menina do olho verde”, da minha amiga e também colunista do portal Parlatório, Patricia Tenório. De volta pra casa, fui direto à rede e me agarrei com a obra; motivado, confesso, principalmente pela provocação da segunda capa “Este livro pode ser lido como se fosse um filme de 90 minutos”. Aceitei o desafio e o li em 70.

Ao término da leitura, lembrei-me de uma frase da minha professora e orientadora Ermelinda Ferreira: “Os escritores não escrevem mais sobre o amor”. Este pensamento acabou de morrer em minha mente. O livro de Patricia, se fosse para ter um título clichê, seria “O livro do amor”. A obra é fantasticamente linda; parece que a autora se transportou para outra esfera e a produziu. Personagens incríveis, metáforas e alegorias muito bem planejadas e estrategicamente colocadas. Na leitura parece que eu também encontrei, finalmente, um entendimento para o movimento da estrela cadente: “Elas se esvaziam de sentido. Não têm por que existir. Não têm por que persistir presas ao Mapa Astral. Elas se abandonam de si mesmas, são estrelas suicidas. E se jogam no abismo do Céu para a Terra, assim, num piscar de olhos”. (TENÓRIO, 2016, p. 39).

Bom, não vou escrever mais nada. Esse é um livro que não precisa de crítica, precisa ser lido. Por favor, não deixe de degustá-lo. Ah… e a ilustração de Duda Tenório também é sensacional. Você vai amar! Parabéns, Patricia!

 

Adriano Portela, Professor, Produtor Cultural & Escritor, Recife – PE, 29/05/16

 

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Só agora “parei”, deixei a agitação,  para me deter na leitura do seu livro.

Você tem um dom de contadora de histórias. Desde a leitura de “As Joaninhas Não Mentem” que me chamou a atenção o tom, o ritmo, que você imprime nos seus escritos. …ao ler parece que estamos contando (ou ouvindo uma história). Tanto é que ao iniciar esta leitura da “A Menina do Olho Verde” fiquei lembrando da minha professora de contação de histórias e sua forma de escrever, cheia de fantasia e  criatividade.

Naveguei nesta bela fábula que tão bem reflete a vida, a maneira como nos posicionamos diante dela e como só nós podemos desenhar o que queremos para nós. Se queremos nos conformar com a cidade onde todos são iguais,  onde todos têm olhos pretos, onde tudo acontece da forma prevista ou se teremos coragem de desafiar esta situação de comodidade e antes que nossos olhos se tornem pretos como os dos demais, decidamos sair e buscar a resposta que está em “Nós Mesmos”.

Lembrei em alguma parte dela o final do poema de F. Pessoa (Eros e Psiquê)

“…e viu que ele mesmo era a princesa que dormia…”

Somente nós temos condições de decidir se queremos buscar a resposta nos rituais da Ancestralidade como Manoela ou recriar estes rituais da forma mais pertinente a si como fez Letícia. O importante é seguirmos nosso caminho,  reconhecê-lo, não deixar que ele se perca entre os tantos caminhos que a sociedade nos tenta impingir.

Grande abraço.

Elba Lins, Poeta, Recife – PE, 10/02/16

 

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Capa A menina do olho verde - Menor

* BookTrailer:

* Livro físico: www.livrariacultura.com.br/p/a-menina-do-olho-verde-46286777?id_link=8787&adtype=pla&gclid=CJKZ2MX7mM4CFYUGkQodyYcEWw

* Livro virtual: www.livrariacultura.com.br/busca?N=102281&Ntt=A+menina+do+olho+verde 

 

** Patricia (Gonçalves) Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem dez livros publicados, O major – eterno é o espírito (2005), As joaninhas não mentem (2006), Grãos (2007), A mulher pela metade (2009), Diálogos e D´Agostinho (2010), Como se Ícaro falasse (2012),  Fără nume/Sans nom (Ars Longa, Romênia, 2013)), Vinte e um / Veintiuno [Mundi Book, Espanha, lançado em 11 (Lisboa) e 13 (Madri) de abril de 2016], e A menina do olho verde (livros físico e virtual lançados na Livraria Cultura RioMar Recife em 28 de maio de 2016 e na Livraria Cultura Bourbon Country Porto Alegre em 11 de junho de 2016).  Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, “O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural”, com o anexo o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Profª Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino, a ser publicada no segundo semestre de 2016 pela editora  Omni Scriptum GmbH & Co /Novas Edições Acadêmicas, Saarbrücken, Alemanha. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

“Ensaios de Transcendência” | Camilo Matar Raabe*

Miragens  

 

Em miragens no deserto

Por areias me escaldava

Céu descalço passo incerto

Entre cobras me acoberto

No mistério que espreitava

 

Poços de sede sangrados

O universo me ausentava

No ar rubi cravejado

Em sal três reis facetado

Profecia anunciada

 

Lassos passos fui chegando

Cavernas lagos profetas

Em silêncio desencanto

Pedras finas cardos mantos

Comungando a austera meta

 

Vertigem lustros da morte

E o sol coroado advento

Fez-se em mim seu grande porte

Renascendo minha sorte

Das cinzas que fui ao vento.

 

Sensação 

 

Ausência

que se vê

mas não se toca…

Presença

que arde

e me é olvido…

 

A matéria sofre

lampejos

do que é raio

no peito d’alma.

 

Transmutação  

 

Despi-me de tuas vestes carnes mortas

Ó fúria! te desprezo e sigo em frente

Deixando a dor que em dor se faz nascente

A vida que fecunda e me transborda.

 

Arranjo  

 

Solidão! Treme o compasso

Dos passos dados no escuro

Ao muro intentos passados

Dos rasgos nosso futuro

 

Incerto assim como tudo

Mudo perante o destino

Passivo rendo-me ao jugo

Augúrios do sem-sentido

 

Na ausência da dor atino

Que vivo! – salvo regaço

E aos traços surge esculpido

O fino véu do compasso.

 

Movimento  

 

O tempo suspira

o vento suspira

eu vivo…

 

A mudança eterna

a vida eterna

mudança.

 

Andanças que passo

nos dias desperto

respiro.

 

Só não muda

o que está morto;

mas cabe renascer.

 

Pelos ocorridos…

 

Das cinzas fogo enxofre

Linhas que vão tecendo

Velas que vão gemendo

No pranto consumir

O manto do existir

Verdade! a morte e a vida

Faces do mesmo dia

 

Broto  

 

Brotou da ilusão

Rasgando nas trevas

A fruta capela

Bendito sermão

 

Então pus-me ao chão

Rendi-me a sua alteza

Nascente certeza

Que inspira a razão

 

A palma da mão

De chagas concretas

Nos cravos sua oferta

Abriu-me o clarão

 

A trilha do são

Calada beleza

Por velas solfeja

Cantares de unção.

 

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* Contatocamiloraabe@hotmail.com

Dois poemas | Dos poemas | Two poems | Două poezii | Cristiana Campeanu

JUL
1
Como un rayo / Ca o rază

Como un rayo pasamos, amada mía, por el mundo
como una chispa ardiente en un horizonte
encendido por un soplo presuroso bajo la luna roja
en el tumulto del mar perdidos en la lejanías seremos
llevados sobre las olas de los azules tardíos…

Te acuerdas como, enlazados,
llevamos nuestro óbolo a tantas aduanas enemigas,
como nuestro vuelo no fue quebrado por las
tempestades crueles
Como si existiéramos desde el principio del mundo
como si por la brisa del mar compitiéramos muchas
veces con los vencejos,
mujer olvidada por el tiempo en mi beso,
enviada desde el Paraíso para dar fruta
en mi sangre,
Beata que naciste, que me tuviste y que te tuve,
rica para siempre desde el principio
hecha para dar gozo al instante que duele
en el nacimiento de todo lo que nace y muere
!Ay!, si podría hacer regresar el tiempo
para que seamos en el mundo solo nosotros dos,
para que nos amemos de nuevo con locura
en el mar
estremeciendo las estrellas fugaces del cielo…
Sobre las cumbres de luz volemos los dos
permaneciendo allí en alto para vigilar la tarde,
nosotros, dos acontecimientos destinados a doler…

Ca o rază

Ca o rază am trecut noi, Iubito, prin lume
ca un licăr fierbinte pe-o zare încinsă
de-o boare grăbită sub luna aprinsă
în mugetul mării pierduţi în departe vom fi purtaţi
pe valuri de albastruri târzii…
ţi-aduci aminte că-ngemănaţi ca unul singur
am dat obolul atâtor vămi vrăşmaşe
că zborul nu ni l-au înfrânt furtunile vrăşmaşe
Parc-am fi fost de la-nceputul lumii parcă prin briza mării
ne-ntreceam adesea cu lăstunii
femeie uitată de timp în sărutul meu, trimisă din Rai
să rodeşti în sângele meu
Prea fericito că te-ai născut,
că m-ai avut şi te-am avut
bogată-n vecie de la început
făcută să bucuri clipa ce doare
în zămislirea a tot ce naşte şi moare

O, de-aş putea să dau timpu-napoi
pe lume să fim doar noi doi
ca doi nebuni să ne iubim iarăşi în mare
înfiorând stele pe cer căzătoare…

(din volumul bilingv român-spaniol Poemas Paganos, în traducerea scriitorului Christian Tămaş)

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JUL
12
As if / Ca şi cum

As if I pretended to be asleep
to stop time in my dreams
As if the happy dream gave birth to me again
to make me rule over Everything and Nothing
As if rains of light bear fruit
blossoming in my soul on the plain
As if cortèges of butterflies made love
to the cherry-trees boiling with soft flowers
As if I wanted to have you
wrapped up in longing beside me
for us to be in the always of all
and make Sahara blossom within ourselves…
As if everything existed only in imagination
dancing like a fog carried away by wind
As if, my darling, I waited for you forever
to take our oath at the margins of light…

Ca şi cum

Ca şi cum m-aş preface că dorm
timpul în somn să-l opresc
Ca şi cum visul fericit m-ar renaşte
peste Tot şi Nimic să domnesc
Ca şi cum ploi de lumină rodesc
în sufletu-mi înflorind pe câmpie
Ca şi cum alaiuri de fluturi nuntesc
cireşii clocotind de floarea ce-adie
Ca şi cum aş vrea să te am
pierdută de dor lângă mine
în mereul din toate să fim
Sahara din noi s-o-nflorim…
Ca şi cum totul există doar în închipuire
dansând ca o ceaţă purtată de vânt
Ca şi cum, Iubito, te-aştept de-o vecie
la marginea luminii să facem legământ…

El buitrero* | Iacyr Anderson de Freitas**

Para Fernando Fagundes

            Durante a viagem até Leopoldina, fiquei pensando no que o telefonema de Lisboa me revelava: uma irmã do outro lado do Atlântico. Irmã unilateral, da parte de pai. Ou seja, da parte mais obscura da minha vida. E mais impressionante ainda, essa irmã, sete anos mais nova do que eu, ostentava o mesmo nome de minha mãe – Natália.

Não cheguei a conhecer meu pai. Em minha casa não havia sequer uma fotografia dele. Meus documentos não especificam seu nome. Tenho na memória aquele que minha mãe não confiou, a contragosto, com a voz sempre embargada de ódio, nas raras vezes em que eu a inquiria acerca do assunto. José Gonzalo Roca. E ponto final.

Guardo também as inúmeras vezes em que meu pai deixou de cumprir com as promessas de me levar ao jardim zoológico, ao Corcovado, ao Leblon ou à sorveteria que ficava no final de minha rua. Não tenho conta dos sábados e domingos em que o esperei, de banho tomado, com a melhor roupa, sentado inultimente no sofá da sala, olhando para uma porta que jamais se abriu para lhe dar passagem, tentando ouvir uma campainha que não tocava de jeito algum. Depois, triste, concordar com os comentários nada consoladores da natureza torpe e egoísta desse personagem chamado José Gonzalo Roca. Minha mãe empenhava todo o seu furor nesses comentários, com brilhantismo ímpar.

Não tardou muito para que qualquer assunto vinculado a meu pai fosse evitado a todo o custo. Por conta das inúmeras promessas não cumpridas, acredito que ele também tenha deixado de fazer contato com minha mãe. Ou que ela tenha se recusado a atendê-lo, não sei ao certo. Dois anos após minha formatura, fui obrigado a suportar o terrível acidente de trânsito que vitimou minha mãe. Nunca cheguei, assim, a desvendar o enigma.

Agora eu precisava apelar para a única pessoa que talvez tivesse informações confiáveis acerca de José Gonzalo Roca: Tia Lira, radicada em Leopoldina desde que se aposentou do cargo de professora de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Minha mãe, filha única, sempre me dizia que Tia Lira – ou Lirinha, como ela a chamava – não era apenas uma amiga ou companheira de serviço, já que nenhum laço de sangue as unia, era a irmã que os cartórios não lhe deram. Ambas trabalharam, durante mais de duas décadas, em departamentos distintos da UFRJ, e se encontravam quase todos os dias. A morte de minha mãe obrigou Tia Lira a lutar contra uma depressão profunda, incapacitante, que só agora dava sinais de visível declínio.

Como eu mesmo esperava, não foi nada fácil encetar a conversa com Tia Lira. Expliquei-lhe tudo: o convite encaminhado pela Casa da América Latina, minha viagem a Portugal, a surpresa do telefonema recebido de uma nova Natália – irmã desconhecida, com quem, aliás, eu deveria encontrar em Lisboa –, o falecimento de meu pai. Tentei não ocultar nenhum detalhe. Tia Lira procurava disfarçar o seu desconforto diante do assunto. De início, mostrou-se arredia, pediu desculpas, demorou a organizar as ideias. Depois, disse-me que eu deveria estar preparado para absorver o fel das verdades que minha nãe, infelizmente, não tivera tempo nem condições emocionais de me confiar. Só então, com uma voz trêmula e flutuante, Tia Lira decidiu retirar os véus do mistério que me levara até Leopoldina.

“Conheci Natália em Brasília, em 1978. Morávamos no mesmo prédio. Eu trabalhava, na época, como professora do ensino médio em duas escolas da periferia. Sua mãe era supervisora de um curso pré-vestibular situado quase ao lado do nosso prédio. Como não me adaptei muito bem ao ritmo de Brasília, alimentava o sonho de voltar para o Rio de Janeiro, cidade em que passei boa parte da minha adolescência. Sua mãe, no entanto, me parecia bastante ajustada ao ambiente da Capital. Éramos solteiras, combinávamos bem, por isso decidimos dividir o mesmo apartamento, de modo a reduzir nossas despesas, fato que ocorreu no início de 1979. Foi em meados desse ano, creio, que seu pai surgiu. Homem elegante, bonitão, quase quinze anos mais velho do que Natália, de origem espanhola, fluente em diversos idiomas, prestando serviços temporariamente no Brasil, a pedido de um departamento de pesquisa tecnológica da Aeronáutica, se não me falha a memória. Pois bem, o tal José Gonzalo Roca soube cortejar sua mãe. Ela também, é preciso que se diga, ficou bastante caída por ele, naturalmente. Com o passar dos meses, entretanto, foi percebendo a grande aura de mistério que o cercava. Em primeiro lugar, não havia como entrar em contato com ele. Por conta das muitas viagens que fazia – sempre a serviço –, cabia a ele entrar em contato com a Natália. As incógnitas a respeito dele eram muitas.

“É importante que você saiba que vivíamos, ainda, apesar das propagandas oficiais, sob plena ditadura militar. O que se chamou de Abertura, com grande entusiasmo e enorme repercussão na imprensa, não era levado muito a sério por ninguém daquele conturbado período. À direita ou à esquerda. Logo, mistérios desse tipo, do tipo que envolvia seu pai, eram comuns, corriqueiros até. Mas a coisa se complicou quando um amigo meu, daqui de Leopoldina mesmo, recém-chegado do exílio, me informou que José Gonzalo Roca era, na verdade, uma perigosa peça de ficção. Ele nunca existiu. Tratava-se de um nome falso. Seu pai foi, na verdade, um militar de alta patente, sim, mas pertencente ao exército argentino. Esteve envolvido na Operação Condor, prestou serviços no Chile e no Uruguai. Ao que tudo indicava, sua alta patente servira aos mais baixos ofícios: principalmente torturas e assassinatos. Treinado nos Estados Unidos, com carta branca para agir em diversas republiquetas da América do Sul, ele estava no Brasil sofrendo um tipo de férias forçadas. Os ventos estavam mudando. Homem astuto e inteligente, creio que ele tenha percebido, antes de seus pares, as consequências de tais alterações políticas. Era preciso encontrar um país capaz de recebê-lo, sem que, no entanto, sua verdadeira identidade fosse revelada. Quando contei tudo isso para a Natália, ela caiu em desespero. Chorou três noites seguidas, teve muitas náuseas, não conseguiu dormir direito durante quase uma semana. Depois me confidenciou que estava grávida. Grávida de dois meses. Para complicar ainda mais a situação, o argentino tivera conhecimento da gravidez, cinco dias antes da falácia acerca de José Gonzalo Roca me ser revelada. Todavia, nós não podíamos deixar que tal revelação chegasse ao conhecimento dele, não sabíamos que tipo de reação aquele homem teria. Daquele momento em diante, nossas vidas tornaram-se um só pesadelo. Você precisa compreender… Espero que você compreenda, por Deus, tais fatos não podem ser analisados assim, à distância, fora de seu contexto histórico e sentimental…”

Tia Lira fez uma pausa mais longa. Sua expressão vacilava. Com dificuldade, tentando ocultar os olhos marejados, retomou o fio da meada:

“Sua mãe chegou a procurar uma clínica de aborto. O preço era exorbitante. O local, um lixo. Um conhecido médico de Brasília, depois eleito deputado, era o dono daquela espelunca. Que a verdade seja dita… Não há outra forma de compreender aqueles dias de terror e desamparo. Sua mãe tinha medo de tudo, da reação de seu pai, da mancha de ódio e vingança que ele carregava consigo. Das milhares de pessoas que o queriam supliciado até a morte. Ele era um grande incômodo para os seus pares, por tudo o que sabia e praticara, e um estorno para os seus inimigos e opositores. Quantas dessas pessoas não poderiam se voltar contra você ou contra ela mesma, visando acertar contas com um homem que torturou e matou diversos inocentes?

“Tudo se deu muito rápido, então. Ela pediu demissão do emprego e deixou uma carta para o seu pai. Redigimos a tal carta com todo o cuidado. Coube a mim entregá-la, quando o dito-cujo, sem ter como entrar em contato com ela, me procurasse. Isso ocorreu quase uma semana depois da partida de sua mãe para Belo Horizonte. A referida carta dizia que ela sofrera um aborto, e que tal malogro a fizera refletir melhor acerca da relação que tivera com ele. Enfim, que tudo não passara de um grande erro, que ela não o amava como deveria. Logo, era melhor que o relacionamento terminasse assim, sem mais delongas, apesar dos pesares. Solicitou, ao final, que ele a perdoasse, mas que não a procurasse nunca mais, que o esquecimento seria o remédio ideal para todo aquele enorme equívoco. Contra as mentiras do senhor José Gonzalo Roca, nada melhor do que uma carta bem melodramática, ao estilo hollywoodiano – e igualmente repleta de mentiras, não é mesmo? Sua mãe voltou então para Belo Horizonte, cidade onde você nasceu.

“Fiz concurso para a Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1981. Estudei feito uma louca. Como lhe disse, era meu sonho voltar a morar no Rio. Fui aprovada e comecei a trabalhar naquele mesmo ano. Sempre mantive contatos com a sua mãe. De vez em quando, eu a visitava em Belo Horizonte. Quando tive notícia da abertura de vaga para professor na Pedagogia, avisei-a imediatamente. Ela se preparou bem e, em meados de 1984, se não me engano, tomou posse na UFRJ. Moramos juntas, de novo, durante um curto período. Depois, ela acabou alugando um apartamento a algumas quadras de onde eu morava na Tijuca.

“Acontece que, embora sua mãe não tivesse deixado qualquer rastro, qualquer notícia do seu paradeiro, quando abandonou de vez Brasília, eu não tive o mesmo cuidado. Afinal de contas, o senhor José Gonzalo Roca era, para mim, um pesadelo ancorado no passado de uma grande amiga. Foi um erro brutal, o meu. No final de uma manhã de primavera, lembro como se fosse hoje – e estamos falando de 1984 –, num belo dia de sol, por sinal, eu e sua mãe nos deparamos com ele, na saída da universidade. Estava bastante mudado: alguns quilos a menos, a barba rala e quase branca, uma boina xadrez pouco condizente com o restante do vestuário. Aproximou-se de nós, com o olhar fixo em sua mãe: ‘Quero ver meu filho, passar uma tarde com ele, pelo menos uma tarde por semana. É meu direito’. Seu rosto parecia transtornado, repleto de ódio.

“Nunca passei por um pavor tão intenso. Diante daquele homem de mil nomes, de mil disfarces, de mortes por atacado, perdi a voz. Perdi minha voz completamente. Afinal de contas, ele nos olhava, literalmente, de cima, e fazia questão de externar o seu ódio e o seu desprezo. E foi então que eu conheci um outro lado da sua mãe, até aquele momento completamente escondido sob os modos gentis e fraternos da mulher que atendia pelo nome de Natália – e que a todos cativava. Ela tornou-se uma fera, verdadeiramente agressiva diante dele. Subindo o tom ríspido com o qual o canalha nos abordara, a pequena Natália colocou o dedo em riste e proferiu todos os impropérios que lhe vieram à boca. Foi um verdadeiro espetáculo. Ela afirmou que sabia perfeitamente quem ele era, e que poderia compartilhar com o filho, sem o menor problema, a miséria que representava esse conhecimento. Disse-lhe que o rol de mentiras elaboradas pelo senhor José Gonzalo Roca – uma risível peça de ficção – não o autorizava a assumir o papel de pai. Por fim, referiu-se ao momento político brasileiro. Ela agora possuía alguns canais… Isso era blefe. Puro blefe. Um ardil tramado pelo desespero. Mas que funcionou perfeitamente, pois nunca mais tivemos qualquer notícia dele.

“Quanto a você, bem, suas inúteis esperas de sábados e domingos… Os passeios frustrados ao Corcovado, à praia, à sorveteria, ao cinema… Que posso dizer? Talvez tudo isto seja uma dolorosa extensão do blefe anterior. Seu pai nunca agendou nenhum desses passeios. Uma vez, numa das muitas visitas que fiz ao apartamento de sua mãe, vi você todo animado, com um brinquedinho nas mãos, dizendo que estava à espera de seu pai. Você deveria ter uns seis ou sete anos de idade. Talvez oito, não sei. Aquilo cortou meu coração. Cheguei a ser ríspida com a Natália. Justo ela, que sempre foi uma mãe exemplar, tão carinhosa e dedicada a você… Então ela me disse, com os olhos em brasa: ‘o ódio também se ensina, Lirinha, também é possível domesticar alguém para o ódio. Mas fique tranquila: não é este o caso aqui… Você leu o jornal que eu deixei no seu escaninho ontem?’ Tratava-se de um dos jornais de esquerda que circulavam naquele período. Bem no alto da primeira página, o anúncio de um dossiê sobre o carrasco argentino El buitrero,[1] como era conhecido o seu pai nos cárceres da América do Sul.

“Nunca fui muito boa para guardar nomes. Ainda mais assim, quando um só sujeito é tão profissional a ponto de ostentar mais de uma dezena deles. Cheguei a anotar aqueles que o jornal declarava. Por exemplo, aqui está o verdadeiro nome de seu pai: Gamaliel Bustamante Azar. Ingressou no exército argentino em 1955 e passou parte dos anos 1960 nos Estados Unidos, aprendendo técnicas específicas de combate às guerrilhas. Adotou diversos nomes: Xavier Hernández, peruano, Juan Luis Peralta, chileno, Hidalgo Martín Ferrari, mexicano etc. E olhe que o espanhol José Gonzalo Roca sequer constava da lista apresentada pelo jornal. Todavia, quando circulava pelas masmorras, todos os seus companheiros de caserna o chamavam, com extrema deferência, de El buitrero. Ali, o tal dossiê, de cada dez prisioneiros que caíam nas garras de El buitrero, apenas dois saíam vivos. Vivos, mas imprestáveis para a vida: alienados, paranóicos, com inúmeras sequelas físicas e mentais. Logo, tudo o que se sabe sobre a atuação dele nos chegou através de pessoas que não foram interrogadas ou torturadas diretamente por aquele monstro, mas que estavam em celas próximas ou tiveram companheiros de cárcere envolvidos, nos processos de reconhecimento e de acareação. Dizem, inclusive, que durante as suas sessões de tortura, no auge dos procedimentos mais sádicos, ele declamava cantos inteiros do Inferno de Dante. E ostentando um italiano impecável, veja bem. Aliás, você não deve ter apenas essa irmã em Lisboa…”

Nova pausa. Oscilando ao fundo, uma angustiante tentativa de retomar o fôlego.

“Quando as sessões de tortura contemplavam mulheres jovens e bonitas, El buitrero não perdia a viagem. Incluía no seu ritual sádico o estupro. Uma estudante chilena declarou que sua companheira de cela foi violentada várias vezes por ele. Grávida, pariu a criança na prisão, sem a mínima condição de higiene. Como queriam arrancar da parturiente a localização de um guerrilheiro chamado Pablo, até o pobre do recém-nascido foi utilizado como instrumento de coação. Ainda assim, sem sucesso. Essa estudante chilena delarou que a jovem mãe não resistiu à ira do matador de abutres. Seu corpo foi retirado da masmorra naquela mesma noite. Provavelmente lançado ao mar no dia seguinte. Era a prática dos assassinos. Quanto à criança, ao que tudo indica, foi adotada por uma família uruguaia.

“Numa das páginas internas do jornal aparecia uma fotografia antiga, incluindo diversos militares argentinos, creio que se tratava de alguma cerimônia de formatura… ou coisa parecida. O rosto de seu pai vinha demarcado, com um círculo. Eu mesma não fui capaz de reconhecê-lo. A impressão do jornal não era das melhores. Mas eu tenho uma surpresa para você… Salvei esta fotografia do incêndio particular que fizemos pouco antes de sua mãe deixar Brasília, no início de 1980, embarcando às pressas para Belo Horizonte. Queimamos tudo o que poderia indicar o relacionamento dos dois: cartas, telegramas, presentes, fotografias etc. Tudo virou cinza. Sem que sua mãe percebesse, no entanto, eu salvei esta lembrança. Por quê? Sinderamente não sei. Talvez para entregá-la ao filho da minha maior amiga, de minha verdadeira irmã, quase trinta anos depois. Não vejo outro sentido, para o que fiz naquela época.”

 

O avião começou a traçar um longo círculo no céu de Lisboa. Não descansei um só minuto durante toda a viagem. De vez em quando, retirava da agenda a fotografia que Tia Lira salvara dos escombros. Minha mãe era mesmo uma jovem muito bonita. A figura do argentino Gamaliel Bustamante Azar, quer dizer, do espanhol José Gonzalo Roca, era esse o seu personagem naquele dia, um homem alto e magro, de rosto expressivo, sorriso largo, não me saía da memória. Minha mãe e ele, de mãos dadas. Algumas árvores circundando o lago refletido ao fundo. O verde intenso da grama. Sim, eles formavam um belo casal. A aterrissagem se deu dentro do horário previsto. Ao chegar ao hotel, tentei dormir um pouco, antes que Natália viesse a meu encontro. Fui assaltado, no entanto, por um pesadelo terrível. A porta de meu quarto se abriu de repente e um senhor, com o mesmo rosto de meu pai, veio até meu leito e se apresentou, de forma bastante cordial: “Prazer, José Gonzalo Roca, a seu dispor”. Talvez eu esperasse, como a criança que ficou no sofá da antiga sala, com um brinquedo qualquer nas mãos. Em seguida, outro senhor, também com o rosto de meu pai, cumpriu o mesmo ritual de apresentação: “Prazer, Hidalgo Martín Ferrari, a seu dispor”. Não faço ideia de quantos homens cumpriram o referido ritual ao adentrar no meu quarto. Todos, naturalmente, com o mesmo rosto e a mesma cordialidade. Chamava-me a atenção, apenas, a diversidade de roupas e dos nomes. Por fim, quando o cômodo estava quase repleto, entrou um senhor todo vestido de negro, com boa parte do rosto imersa na zona de sombra do tumulto recém-formado. “Prazer, eu sou seu pai”. E estendeu-me a mão manchada de sangue.

Natália parecia nervosa. Depois de algumas indagações superficiais acerca de minha viagem e da palestra que eu deveria apresentar na Casa da América Latina, disse que meu pai, ao saber que estava com câncer no fígado, mas já em avançado processo de metástase, decidiu escrever uma longa carta de justificativa. Essa carta foi reescrita diversas vezes, sempre que a doença o permitia. A última versão, com algumas emendas, ficou pronta uma semana antes de sua morte. Entregou-me, então, o envelope lacrado, contendo meu nome como destinatário. Sua justificativa, por incrível que pareça, estava endereçada a mim. Por quê? Peguei o envelope com cuidado, conferi a letra tremida e incerta, observei o nome gravado na parte destinada à especificação do remetente. Ela olhou para as minhas mãos e disse: “Que giro… tu não te pareces muito com ele. A não ser pelas mãos. Tuas mãos denunciam. São iguais as dele. É impressionante!”

“O teu nome”, perguntei, “como se deu a escolha do teu nome? Natália foi uma bela escolha.”

“Muito obrigada. A escolha foi dele, integralmente dele. Minha mãe queria, na verdade, homenagear sua tia materna, Sophia. Assim… grafado com um imponente ph no meio. No final das contas, venceu a obstinação de meu pai.”

Natália abriu sobre a mesa o álgum de fotografias. Lá estava o mesmo rosto expressivo, agora um pouco mais triste, sem o sorriso largo de outrora. Será que aquele sorriso pertencia apenas a José Gonzalo Roca? Como seria, então o sorriso do temido El buitrero quando, declamado um canto completo do Inferno, dava por encerrado, com louvor, o seu trabalho? Com o envelope nas mãos, os olhos ainda cravados no remetente, argumentei: “Deve haver algum engano. Fala-me um pouco sobre teu pai, quer dizer, sobre Leopoldo Lunel Varela”. Era este o nome do remetente.

“Ora”, estranhou Natália, “ele era uruguaio, nascido em Montevidéu em 1935. Formou-se em Letras ainda no Uruguai, trabalhando como tradutor durante um tempo. No Brasil, obteve o diploma de contabilista e passou a atuar na área de comércio exterior, em operações de exportação de minérios, representando uma grande siderúrgica situada no Vale do Aço, em Minas Gerais… Estou certa? Esse Vale do Aço fica em Minas Gerais, não é mesmo? Falava diversas línguas, adorava declamar o Inferno de Dante. Em italiano, claro. Sabia alguns cantos de cor. Seu inglês era fluente também. Veio para Portugal em 1986, já aposentado. Conheceu minha mãe nesse mesmo ano – ela era funcionária de uma agência postal situada ao lado do prédio em que ele morava – e casaram-se no ano seguinte. Infelizmente minha mãe faleceu no final da década passada, de complicações cardíacas. Logo que soube do câncer, do avançado processo de metástase, ele me disse que possuía um filho no Brasil, de nome Luís Antônio Pereira, nascido em 1980, em Belo Horizonte. Disse-me também que esse filho se formara em Comunicação no Rio de Janeiro e que trabalhava num tradicional jornal carioca. Todos os dias, pela internet, ele acompanhava as tuas matérias e os teus artigos. Sua grande mágoa, nos últimos meses de vida, era o distanciamento existente entre vocês, motivado, segundo me contara, por um desentendimento que tivera com a tua mãe. Algo tolo, inexplicável”.

Fiz uma pequena pausa. Natália não sabia nada sobre o argentino Gamaliel Bustamante Azar, não demonstrava conhecer a história de El buitrero ou do espanhol José Gonzalo Roca. Ou das dezenas de outros nomes envolvidos no labirinto que, para a sua felicidade, chamava-se apenas Leopoldo Lunel Varela, um uruguaio talvez exemplar, trabalhador honrado, bom pai, quem sabe até um excelente marido. Natália não demonstrava saber nada a respeito de nossos outros irmãos, aqueles que o matador de abutres gerara, à força, em diversos cárceres da América do Sul. Entrar para a família, neste caso, teria um preço. Eu não poderia ficar sozinho no inferno que esse homem de mil nomes gerara em torno de si mesmo.

“De fato, há um grande equívoco aqui” – disse-lhe, devolvendo a carta –, “não sou eu o verdadeiro destinatário desta correspondência. Meu verdadeiro pai chamava-se José Gonzalo Roca. Era espanhol e mulherengo. Trocava de país como as mulheres trocam de roupa. Nascido em Sevilha, herdara de seus antepassados ciganos essa louca vontade de estar em todos os lugares do mundo, se possível ao mesmo tempo. Embora seu nome não conste do meu registro de nascimento – e em nenhum documento oficial que me identifique –, eu tive a oportunidade de conhecê-lo, no Rio de Janeiro, poucos meses após ingressar na universidade. Devo confessar, no entanto, que tal encontro não me traz boas recordações. Não houve empatia alguma. Na verdade, achei-o vulgar, um sátiro levado a nocaute pelo advento da terceira idade. Por outro lado, meu nome é extremamente comum no Brasil. Não faço idéia de quantas pessoas, registradas sob o guarda-sol banal de Luís Antônio Pereira, existem apenas na cidade do Rio de Janeiro. Ou no meu bairro. Esse fato pode ter induzido teu pai ao erro, infelizmente. Mas, olhando de outro ângulo, me fez ganhar um leitor cativo aqui em Portugal.”

Natália parecia estar em transe, os olhos fixos em minhas mãos. “Estou sem palavras, não é possível…”, pronunciou como que para si mesma, “peço-te desculpas, meu Deus, desculpas do incômodo que te causei. Como fui parva… Eu deveria…” Tratei logo de interromper seu pedido de desculpas: “Olha, essas coisas acontecem. Como meu pai era um femeeiro incorrigível, também fui induzido ao mesmo erro”. Natália sorriu ainda atordoada.

 

Ter muitos nomes é o mesmo que não ter nenhum. Eis o que pensei quando alcancei a rua, deixando para trás, entre os velhos móveis de seu apartamento, uma Natália repleta de interrogações. Domei com os olhos as luzes tênues do Chiado. Se minhas mãos guardam alguma semelhança com as mãos que fizeram a história de Gamaliel Bustamente Azar – e o olhar acusador de Natália ainda me assusta –,  creio que posso colocar este parricídio na conta de meu próprio pai. Foi por uma causa nobre. E uma morte a mais, na longa contabilidade funerária de El buitrero, não fará muita diferença. Se eu soubesse, de cor, um canto inteiro do Inferno, ou mesmo um só dos seus melhores tercetos, juro que o declamaria aqui mesmo, bem no meio desta pequena praça.

Ah, sim, em italiano, naturalmente.

 

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El buitrero. In FREITAS, Iacyr Anderson et al. Só agora vejo crescer em mim as mãos de meu pai. 1ª e única edição. Juiz de Fora, MG: Edições Pasárgada, 2010, p. 57-71.

** Iacyr Anderson Freitas (Patrocínio do Muriaé, MG/1963) é autor de vinte livros de poesia e três de ensaio literário. Detentor do título de mestre em Letras pela UFJF, publicou também o volume de contos Trinca dos traídos (Nankin/Funalfa). Sua obra está traduzida para diversas línguas. Destaque-se ainda os três volumes que reuniram sua obra poética completa: A soleira e o século (2002), Quaradouro (2007) e Primeiras letras (2007), todos editados pela Nankin/Funalfa Edições, que patrocinaram a sua mais recente obra, Viavária (2010). Pelas Edições Pasárgada publicou o livro Terra além mar (2005). Contato: iacyrand@gmail.com

(1) Buitrero (s.m.): vocábulo espanhol que significa abutreiro ou caçador de abutres.

Última aula de Teorias da Criação Poética* | com Marcelo Maldonado**

Ministrada pela Prof. Dra. Ana Maria Lisboa de Mello no Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS.

** Contatomaldonado.mm@gmail.com